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estudos:ldmh:diferenca-ontologica

Diferença Ontológica

LDMH

  • Expressão diferença ontológica passa frequentemente por emblema do pensamento heideggeriano, como se constituísse o lugar e a fórmula desse pensamento, ou ainda a parada em que seu caminhar teria se fixado, inclusive o fruto da filosofia de Heidegger compreendida como certa representação das coisas, conforme concepção que obstrui desde o início toda possibilidade de acesso ao referido pensamento.
    • Questionamento sobre o ente e o ser reduz-se, nessa visão, a perguntas óbvias: o ente não seria senão aquilo que é, e o ser não significaria senão o ser que o ente é, como se sempre chegássemos tarde demais, com nosso pensamento, para remontar a montante da diferença entre ser e ente, como se a diferença estivesse sempre já aí.
    • Heidegger evoca, a esse respeito, em texto de 1957, o conto dos Grimm A Lebre e o Ouriço, onde um ouriço consegue vencer uma lebre na corrida por ter colocado previamente sua ouriça na linha de chegada, de modo que um ouriço pode a cada vez dizer à lebre: Estou aqui!, ilustrando como a distinção entre ser e ente, longe de ser fruto de uma operação do pensamento, tem sempre já uma vantagem sobre o pensamento que lhe corre atrás.
  • Embora a expressão diferença ontológica não figure ipsis litteris em Ser e Tempo, ela aparece em curso quase contemporâneo, o do semestre de verão de 1927 intitulado Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia, onde se lê, a propósito da diferença, cisão ou ainda dissociação entre ser e ente: Nós a designamos como sendo a diferença ontológica [ontologische Differenz], isto é, como a cisão entre o ser e o ente.
    • Jean Beaufret pode, portanto, escrever com acerto que Ser e Tempo é o livro da diferença entre o ser e o ente, mas de tal modo que a palavra diferença ainda não intervém em primeiro plano.
    • Distinção entre diferença ôntica (A é diferente de B) e diferença ontológica (o é difere, por sua vez, tanto de A quanto de B) torna-se clara: a primeira refere-se a entes, a segunda concerne à diferença entre o ser e o ente.
  • Como cisão entre o ser e o ente, a diferença ontológica é, portanto, a diferença ôntico-ontológica, análoga, por exemplo, à diferença platônica entre as coisas belas e o Belo, à leibniziana entre o extenso e a extensão, ou à husserliana entre o aparecente e o aparecer desse aparecente em sua aparição.
    • Ela separa o plano do ente daquele do ser, embora seja mais preciso falar, quanto ao ser, da planaridade daquilo que se situa no plano do ente.
    • Na medida em que considera o ente em seu ser, o advento da filosofia confunde-se com o reconhecimento e o aprofundamento da diferença ontológica, proeza que consiste na dissociação do indissociável ser-ente, expresso em grego pelo particípio presente substantivado do verbo ser, to on, na conjunção do verbal e do nominal.
    • O ente só é ele mesmo, enquanto ente, graças a uma luz vinda de outro lugar, mas que brilha nele por sua ausência – a do ser.
  • A língua francesa chama être tanto o ser quanto o ente, ambiguidade que pode ser vista como maravilhosa em vez de defeito.
    • O termo étant desapareceu, como substantivo, do francês moderno, mas encontra-se ainda no final do século XVI em Montaigne e no início do século XVII em Scipion Dupleix.
    • O inglês diz a human being, literalmente um ente humano, onde o francês diz um ser humano, exigindo-se reaprender a ouvir esse particípio presente substantivado – o ente – tal como se diz o estudante, o vivente ou o passante.
    • Os tradutores franceses de Heidegger recorreram a esse neologismo, que é na verdade um arcaísmo, para fazer jus à diferença ontológica entre das Sein e das Seiende, que permaneceria de outro modo inaudível.
  • Detenção no termo alemão Differenz, retido por Heidegger meses após a publicação de Ser e Tempo, revela nuance importante em relação ao francês différence.
    • Differenz tem comumente em alemão o sentido de divergência, marcando mais fortemente um desvio, uma disparidade, não apenas o fato de serem diferentes, mas de se portarem para lados opostos.
    • Esse sentido remonta ao latim differri, que significa ser dilacerado, atormentado, e à formação ciceroniana differentia sobre o modelo grego diaphora.
    • O termo Differenz é, portanto, tudo menos indiferente, tanto mais que, como escreveu Jean Beaufret, a diferença é um conceito grego que nunca foi enunciado como tal – exceto em Heráclito, onde ainda se chama harmonia.
    • A partícula di- indica uma abertura de um entre-dois, um desvio que porta afastando uma da outra duas naturezas inicialmente indistintas, sem que esse desvio seja uma dislocação, pois antes reporta um ao outro os dois lados que separa.
  • Se a filosofia é portadora, desde sua origem, da diferença ontológica, ou por ela portada, está longe de tê-la tomado em vista ou expressamente tematizado como tal: falta-lhe precisamente o pensamento de Heidegger.
    • A diferença ontológica é, portanto, a distinção entre o ser e o ente, não apenas pressuposta implicitamente como elemento no qual se move o pensamento filosófico, mas expressamente visada e tematizada como tal.
    • Embora Ser e Tempo evoque, em seus parágrafos 12 e 63, uma distinção ontológica entre ser-como existencial e a interioridade categorial de um ente, e entre existência e realidade, essas distinções, por essenciais que sejam, não visam a diferença entre ser e ente e não portam o nome de Differenz.
    • Nota de Heidegger na edição de 1929 de Vom Wesen des Grundes, chamada pela expressão ontologische Differenz, remete ao curso de 1927, e o prefácio à terceira edição (1949) afirma que é nesse texto que a diferença ontológica se encontra nomeada.
    • Sustentar que Heidegger utiliza a fórmula desde Ser e Tempo, como faz J.-L. Marion, ignora a literalidade dos textos e confunde Unterschied, Unterscheidung e Differenz, sendo correta a tradução de F. Vezin por distinção ontológica onde a diferença ontológica ainda não está nomeada.
  • A diferença ontológica não é um estandarte nem uma marca registrada, mas o índice de um problema encontrado, caminhando, por um pensamento vivo.
    • Perfuração decisiva em direção à questão do ser, pode também aparecer como obstáculo no caminho que visa acessar essa questão – pelo menos à questão do ser entendida como questão da verdade do ser – na medida em que o ser pensado a partir da diferença ontológica não cessa de ser referido ao ente.
    • Os Contributos à Filosofia destacarão que, ao contato dessa distinção ontológica aparentemente tão indigente e inofensiva, é a riqueza nativa do ser-homem que não pode deixar de tornar-se visível, não menos que o perigo dos perigos aos quais ele está exposto.
  • Como seu nome indica, a diferença ontológica permanece presa na perspectiva da ontologia e, em certa medida, da metafísica, na medida em que pensa o ser a partir do ente e não a partir de si mesmo.
    • Por isso, ela demanda ser retomada de modo totalmente outro na perspectiva da história do ser e mesmo abandonada, como sugerem anotações de textos tardios: não mais diferença ontológica, lê-se, por exemplo, a propósito do Quadrípio em Construir, Habitar, Pensar ou em manuscrito de 1973-1975.
  • A diferença ontológica nem sempre esteve presente, sob essa designação, no pensamento de Heidegger, e mesmo uma vez nomeada pouco depois de Ser e Tempo, permanece etapa transitória.
    • Os mesmos Contributos à Filosofia afirmam que o conceito de ‘diferença ontológica’ é apenas preparatório, como transição da questão diretriz para a questão de fundo.
    • Heidegger chamará posteriormente Zwiefalt – duplicidade, dobra – ao desdobramento do ser-ente em ser e ente, o que a tradução de André Préau chama de Pli do ser e do ente.
  • Essa Zwiefalt, que parece ser o nome dado à diferença ontológica na perspectiva da história do ser, forma uma unidade dual que poderia ser aproximada da estrutura gramatical do dual destacada por G. de Humboldt.
    • A configuração dual por excelência é bem aquela dos dois extremos que são um para o outro e no entanto juntos: ente e ser.
    • Se a diferença entre esse e ens não esperou Heidegger para ver a luz – estando muito presente, na época moderna, em Schelling – é, não obstante, com seu pensamento que ela se torna o coração da proposta.
  • Sem lhe ser etimologicamente aparentado, a palavra Zwiefalt pode evocar em alemão Falter, termo um tanto arcaico para borboleta.
    • Essa maravilha que constitui a diferença ontológica foi ilustrada por Jean Beaufret, entomólogo de lepidópteros, em O Sentido da Filosofia Grega, comparando-a a uma borboleta cujas asas, quando pousada, estão reunidas como uma só, e que, ao levantar voo, se desdobram em duas, mostrando como, na unidade aparente do ente, produz-se o desdobramento – Zwiefalt – ser-ente, cada um remetendo ao outro sem jamais se confundir com ele.
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