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estudos:krell:1992-vida-morte

VIDA-MORTE

KRELL, David Farrell. Daimon Life: Heidegger and Life-Philosophy. Bloomington: Indiana University Press, 1992.

Lifedeath: Heidegger, Nietzsche, Freud

  • A percepção, compartilhada por filósofos da vida como Georg Simmel, de que a morte não pode mais ser concebida como oposta à vida, mas como imanente a ela, encontra respaldo em pesquisas biológicas sobre a duração da vida e em especulações neurofisiológicas e psicanalíticas – e, se o ser-aí renasce e morre a cada instante de sua existência extática, a imanência da morte altera o sentido de sua vida fática.
    • A ontologia fundamental de Heidegger deixa intocada a questão da morte imanente e imminente, na medida em que subordina a “ontologia da vida” – ao contrário de Nietzsche, para quem “'Ser' – não temos outro modo de representar isso senão como 'viver'. Como pode algo morto 'ser'?”
    • Para Nietzsche e Freud, a morte é imanente à vida, e vida e morte só podem ser escritas como vida-morte – mas Heidegger, mais preocupado em manter o “biologismo” e a “animalidade” distantes do pensamento, nunca vai ao encontro do pensamento freudiano da vida-morte, nem mesmo em Zollikon.
  • A nova interpretação da sensorialidade, prometida por Heidegger ao final do primeiro curso sobre Nietzsche, não se reduz a uma “reabilitação estética” da verdade: para Nietzsche, a distinção entre orgânico e inorgânico cai, pois o inorgânico também possui sua perspectiva, e “a representação mecanicista da natureza 'inanimada' é apenas uma hipótese para fins de cálculo”.
    • Heidegger relaciona a nova interpretação da sensorialidade de Nietzsche à monadologia leibniziana, onde verdade e aparência caem do mesmo lado de uma distinção impossível: “A verdade é o tipo de erro sem o qual um certo tipo de ser vivo não poderia viver. O valor para a vida decide em última instância”.
    • A nova interpretação exige reconhecer que toda aparência, erro e mera aparição só são possíveis “se algo vem ao primeiro plano e se mostra”; e “vida” significa – para Nietzsche, lida metafisicamente por Heidegger – nem ser meramente biológico ou prático, mas “a equação entre ser e vida não é uma expansão injustificada do biológico, mas uma interpretação transformada do biológico com base no ser, apreendido de modo superior”.
    • A geração universitária alemã entre 1909 e 1914 interpretou mal a fórmula nietzschiana “a ciência sob a ótica do artista, mas a arte sob a ótica da vida” como apelo a uma ciência atraente e útil para a vida – e os cursos de 1936 a 1940 podem ser lidos como esforço para libertar Nietzsche tanto do nacional-socialismo quanto de necromantes como Ludwig Klages e Ernst Bertram.
  • No segundo curso sobre Nietzsche – “O eterno retorno do mesmo” (1937) – Heidegger sintetiza o pensamento nietzschiano do mundo como vida e força e como caos, a partir do caderno M III 1 do espólio, que contém as primeiras formulações do “pensamento dos pensamentos” de Nietzsche.
    • O primeiro ponto da apresentação sumária de Heidegger é crucial para o tema da vida-morte: Nietzsche escreve que “nosso mundo inteiro é a cinza de inúmeras criaturas vivas (…) tudo já foi transposto para a vida”, mas também que “o ser vivo é simplesmente um tipo de ser morto, e um tipo muito raro” – gerando uma contradição: no primeiro caso, o vivo determina a proveniência do morto; no segundo, o morto determina o modo de vida do vivo.
    • Heidegger resolve a contradição distinguindo dois pontos de vista: se o morto é tomado quanto à sua cognoscibilidade, assume primazia como objeto do conhecimento; se é pensado quanto à sua proveniência, é apenas cinza do que é vivo – e “o mundo é mais enigmático do que nosso intelecto calculante gostaria de admitir”.
    • O décimo ponto da apresentação – “o caos cósmico é em si necessidade” – circunscreve o campo do eterno retorno como a “unidade interlaçada do animado e do inanimado”, e Heidegger atribui a Nietzsche uma espécie de “teologia negativa” purificada do Deus cristão: “apenas um pensamento que carece totalmente de resistência deduzirá uma vontade de ateísmo da vontade de desdivinização dos seres”.
  • A questão do suposto biologismo de Nietzsche – abordada no terceiro curso, “A vontade de poder como conhecimento” (1939) – é respondida por Heidegger com a tese de que Nietzsche não pensa o biológico biologicamente, mas metafisicamente: “Nietzsche pensa o 'biológico', a essência do que é vivo, na direção do comandar e poetar, do perspectivístico e horizonal: na direção da liberdade”.
    • O campo essencial em que a biologia se move não pode ser posto e fundamentado pela própria biologia, mas apenas pressuposto: toda ciência que não formula “proposições de campo” sobre seus próprios fundamentos e limites não pode “forjar história” – e o biologismo, como a Lebensphilosophie e a “metafísica da vida”, são rubricas que bloqueiam o acesso ao pensamento fundamental de Nietzsche.
    • “Quer se vote sim ou não ao 'biologismo' de Nietzsche, fica-se sempre no primeiro plano de seu pensamento (…) devemos aprender a 'ler'.”
  • A “leitura do caos” conduz Heidegger ao tema do “corpo que se corporifica”, das leibende Leben: o corpo humano não pode ser contraposto ao propriamente biológico – “o corpo é permeação e passagem ao mesmo tempo (…) flutuando no fluxo de vida, além ou aquém de qualquer distinção entre atividade e passividade, o caos em espiral em círculos maiores de caos”.
    • “Caos é o nome para a vida que se corporifica, a vida como corporificação em grande escala” – e o poetizar como perspectivismo comandante é a semiótica da vida como corporificação, inscrita no vasto palimpsesto do caos.
    • Heidegger, porém, não persegue o problema até onde o pensamento de Nietzsche o conduz: em nenhum momento desenvolve a questão da vida-morte como retorno eterno da vida da cinza e da cinza da vida.
  • O pensamento freudiano da morte imanente – influenciado por August Weismann e por Eugen Korschelt, colega de Heidegger em Marburg – converge paradoxalmente com a análise existencial-ontológica heideggeriana da morte, ainda que Freud e Heidegger nunca se tenham lido e Heidegger jamais tenha ido ao encontro da psicanálise.
    • Para Freud em Para além do princípio do prazer (1920), a pulsão é “uma compulsão imanente ao organismo animado para restaurar um estado anterior” – e “se podemos tomar como experiência sem exceção que todo ser vivo morre por razões internas (…)”, a morte é imanente à vida; mas o próprio Freud duvida dessa suposição, reduzindo-a a um costume sedimentado pelos poetas “para suportar o fardo da existência”.
    • O conceito existencial pleno de morte em Heidegger articula cinco traços: a morte é a possibilidade mais própria, não relacional, certa e, como tal, indeterminada quanto ao seu “quando”, e intransponível – sendo a indeterminação o traço que desloca a propriedade da possibilidade mais própria e faz com que a iminência da morte torne problemática toda forma de imanência.
    • Derrida, em “Spéculer – sur 'Freud'”, observa que Freud e Heidegger, “segundo os critérios usuais, nunca se leram, muito menos se encontraram (…) e, no entanto, esses dois 'textos' estão preocupados um com o outro, passando todo o seu tempo a decifrar um ao outro, chegando a se assemelhar, como se acaba por se assemelhar ao que se exclui”.
  • A vida-morte daimônica – Ζωήθάνατος – designa a condição em que a morte é simultaneamente imanente (sempre já presente) e iminente (sempre apenas na iminência de advir), deslocando toda propriedade e toda certeza: “a iminência indeterminada, que é um nome para a transcendência finita, τò δαιμóνιον, assombra toda imanência” – e o pensamento que a aborda só pode ser exquisitamente paranoético, incapaz de colapsar numa monismo supino ou de sustentar um dualismo estável.
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