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Fenomenologia material
Phénoménologie matérielle, Paris, PUF, coll. « Épiméthée », 1990
A questão da fenomenologia
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Com o esgotamento das modas parisienses recentes, sobretudo do estruturalismo, e com a recolocação das ciências humanas em seu devido lugar, a fenomenologia se afirma como o principal movimento de pensamento da época, um “retorno de Husserl” que reside numa potência de inteligibilidade ligada à invenção de um método e de uma questão em que se reconhece a essência da filosofia, comparável ao que foram o idealismo alemão, o empirismo, o cartesianismo, a escolástica ou Platão e Aristóteles para suas respectivas épocas, o que suscita a interrogação sobre se a fenomenologia já não pertenceria ela mesma ao passado.
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Isso só se verificaria caso os pressupostos que compõem a questão da fenomenologia tivessem esgotado seus recursos e desdobrado todas as suas implicações, hipótese sustentada pela constatação de que pensadores como Merleau-Ponty, apesar de seu talento, pouco acrescentaram ao que já haviam estabelecido Husserl, Heidegger ou Scheler, sem que o movimento fenomenológico posterior tenha logrado avanços cujas premissas não fossem já detectáveis nos fundadores.
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A renovação da fenomenologia hoje depende de uma única condição, a de que a questão que a determina inteiramente e que constitui a razão de ser da filosofia seja ela mesma radicalizada, não ampliada, corrigida ou abandonada por outra, de modo que tudo o que dela depende se veja transformado.
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A questão própria da fenomenologia, aquela que confere à filosofia um objeto próprio e a converte em disciplina fundamental do saber, não diz respeito mais aos fenômenos, mas ao modo de sua doação, à fenomenalidade enquanto tal — não ao que aparece, mas ao aparecer —, cuja apreensão e análise constituem a contribuição inestimável da fenomenologia histórica, ressalvado que esse tema não deveria ser mera retomada da problemática filosófica tradicional, seja a da consciência clássica, seja a da aletheia grega.
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A ilusão do senso comum, das ciências e da filosofia do passado consiste em conceber sempre o que faz do fenômeno o que ele é como um primeiro afastamento, a vinda de um Fora à luz do qual toda coisa se torna visível — é o ser-além-do-ente e sua diferença em relação a ele, a Ek-stase, que cria a fenomenalidade, qualquer que seja a maneira, implícita ou explícita, ingênua ou filosófica, pela qual essa fenomenalidade é representada.
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Radicalizar a questão da fenomenologia significa interrogar não apenas a fenomenalidade pura, mas o modo segundo o qual ela se fenomenaliza originalmente, sua substância, sua matéria fenomenológica pura, tarefa própria da fenomenologia material, à qual cabe descobrir que, antes do ser-fora onde tudo é colocado propriamente fora de si e toda realidade se vê esvaziada e despossuída de si mesma — antes dessa demissão que se chama morte —, reina uma fenomenalidade cuja estrutura interior não comporta Fora, Afastamento ou Ek-stase algum, e cuja substancialidade fenomenológica não se reduz a nenhuma das categorias de que a filosofia, desde a Grécia, se vale.
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A fenomenologia material é capaz de designar essa substância fenomenológica invisível, que não é nada, mas um afeto, ou antes, aquilo que torna possível todo afeto e, em última instância, toda afecção e toda coisa, substância que consiste na imediação patética em que a vida faz a prova de si mesma, Vida que não é ela própria senão esse abraço patético e, assim, a própria fenomenalidade segundo o Como de sua fenomenalização originária.
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A vida não é, portanto, algo, por exemplo o objeto da biologia, mas o princípio de toda coisa, definindo em sentido radical a essência da fenomenalidade pura e, por conseguinte, do ser enquanto este é coextensivo ao fenômeno e nele se funda, o que impõe inverter a hierarquia tradicional que subordina a vida ao ser, uma vez que o ser ao qual se costuma submetê-la é o ser grego, o ser do ente mundano, que permaneceria um não-ser caso a Ek-stase em que se desdobra sua fenomenalidade própria não se autoafetasse na imediação do pathos da Vida, de modo que é esta que sempre funda aquilo que se chama “ser” — e não o inverso.
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Os estudos reunidos neste ensaio organizam-se todos em torno da questão da fenomenologia, retomada cada um a seu modo.
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O primeiro estudo mostra, a propósito do problema do tempo, como a fenomenologia material se distingue da fenomenologia clássica, revelando que a interrogação sobre o tempo constitui, para Husserl, o modo de pensar como se manifesta a própria consciência, isto é, a fenomenalidade, e que buscar a solução na intencionalidade e compreender de saída a autorrevelação da subjetividade absoluta como uma autoconstituição evidenciam a incapacidade originária da fenomenologia de responder à sua própria questão, já que o constituinte último permanece nela privado de todo estatuto fenomenológico assinalável, entregue ao “anonimato” — deriva hermenêutica que marca o destino histórico da fenomenologia e culmina no miserabilismo ontológico da época, cujas modas evocadas no início não passam de sua expressão limite e, muitas vezes, ridícula.
Se a vida, estranha em si mesma à Ek-stase, se subtrai por princípio a todo poder de visibilização concebível, questiona-se como poderia ser exibida em qualquer teoria, isto é, numa visão, ou sequer mencionada, indagação que leva a perguntar se uma fenomenologia do invisível não seria uma contradição nos termos, e se, na vinda em si da vida como autoafetação patética e radicalmente imanente, o Si que aí nasce, sustentado por uma subjetividade acósmica mas também nela encerrado, não estaria condenado ao solipsismo — objeções, essas, já levantadas contra as teses de A essência da manifestação desde sua publicação e desde então repetidas com frequência.O segundo estudo, dedicado ao método fenomenológico, mostra que é a própria fenomenologia clássica que esbarra na impossibilidade de produzir um conhecimento teórico da subjetividade absoluta, fornecendo assim ela mesma a prova de que a vida transcendental se subtrai a toda abordagem intencional, à evidência e à “visão pura” da redução fenomenológica, sendo o extraordinário caminho seguido inconscientemente por Husserl para tentar superar essa aporia a demonstração eloquente do estatuto inextático da vida, estatuto ainda assim fenomenológico, na medida em que o método eidético das substituições se apoia constantemente sobre a profusão da doação originária que ele próprio desconhece.O terceiro estudo reúne dois textos relativos ao problema da “experiência de outrem”.-
O primeiro texto estabelece a falência da intencionalidade no próprio terreno em que ela deveria prevalecer, questionando se a abertura à alteridade de um “mundo” fundamenta toda relação com os outros, e mostra que o fracasso dessas teses evidentes revela que somente a renúncia às evidências do pensamento ocidental, que são em última análise as da percepção, pode hoje abrir o caminho de volta ao Essencial, sendo paradoxalmente a vida, que em si não se refere a nada além de si mesma, o meio em que se realiza toda intersubjetividade possível, paradoxo atenuado ao se considerar que é na prova de uma subjetividade radicalmente imanente que a vida alcança a si própria, e que aquilo pelo qual um Si é um Si é também o modo pelo qual nele advém originalmente tudo o que pode afetá-lo, inclusive o “ser” do outro, de sorte que Ego e alter ego têm um nascimento comum, uma mesma essência, e por ela “comunicam” enquanto seres vivos, o que torna compreensível que, sendo a vida uma afetividade transcendental, toda intersubjetividade assuma inevitavelmente a forma de uma comunidade patética.
A primeira das três investigações foi redigida em resposta a uma questão da revista Philosophie para o número do verão de 1987 sobre a distinção entre a fenomenologia material e a fenomenologia hilética husserliana; a segunda, projetada havia muito tempo, é publicada aqui pela primeira vez e estabelece a possibilidade de um “conhecimento” da subjetividade invisível; o primeiro texto da terceira investigação corresponde a uma conferência proferida na École normale supérieure de Paris, no seminário de Jean-François Courtine, em 23 de abril de 1988, repetida em setembro do mesmo ano na Universidade Católica de Louvain por ocasião do colóquio do cinquentenário da morte de Husserl; o segundo resultou de um fórum do Collège international de philosophie em 7 de dezembro de 1987, no âmbito do programa anual de pesquisas sobre a questão da comunidade; e a ideia de encadear essas análises na ordem que compõe a presente obra surgiu por ocasião dos seis seminários ministrados em março de 1989 na Universidade de Washington em Seattle, no âmbito do ensino do professor Mikkel Borch-Jacobsen.Quanto ao método empregado nessas pesquisas, chama atenção o pequeno número e a brevidade dos textos que servem de apoio à meditação, o que se explica por não se tratar de um trabalho sobre Husserl nem de um “diálogo” com ele, mas de uma reflexão sobre as decisões tomadas no início e sobre pressupostos aos quais nunca se volta — a esse respeito, as Lições de 1905 e de 1907 são altamente significativas —, com o objetivo de medir, ao mesmo tempo que o dinamismo da doutrina em seu estado nascente, sua lacuna essencial, isto é, a ausência de uma fenomenologia da vida transcendental à qual, no entanto, todo o edifício remete como a seu fundamento.A consideração de outros textos conduziria às mesmas conclusões, como no caso da dissolução da subjetividade absoluta num “fluxo heraclitiano” — incompreendida por Husserl e por ele mal aceita —, isto é, seu esfacelamento, sua destruição, sua dispersão a partir do momento em que se substitui à sua Arqui-revelação inaperceptível em si mesma o aparecimento dos “vividos” na primeira ek-stase do tempo, afirmação que ele reitera em termos quase idênticos em todas as épocas de sua reflexão, tanto nas Meditações cartesianas quanto no “testamento” da Krisis e nas Lições de 1907 aqui analisadas, ao passo que os inéditos, meras notas de trabalho de caráter frequentemente programático que não podem ser opostas à obra publicada e assinada, revelariam numa leitura sistemática ainda por fazer que é sobre o problema da Arqui-doação pensada temporalmente como o do “Presente vivo” que eles igualmente tropeçam, face obscura da obra que somente uma fenomenologia material talvez saiba reconhecer em seu motivo transcendental.As coisas diferem totalmente conforme estejam imersas no pathos da vida, sem nunca se verem a si mesmas, ou se mantenham diante de um olhar, distinção em que a primeira categoria compreende a pulsão, a força, o afeto, tudo o que somos no fundo de nós mesmos, pertencendo à imanência não por acaso, mas porque só ali são possíveis, condição que se aplica igualmente ao próprio olhar, ao ver, que nunca se vê a si mesmo, e por conseguinte ao conhecimento e à ciência, de modo que toda coisa se inscreve na vida e só nela tem ser, sendo tudo vivo.A tarefa da fenomenologia material é imensa, não se limitando a um domínio de fenômenos até então negligenciados, mas exigindo repensar tudo, já que se trata de pensar a realidade, cada uma de suas esferas devendo ser objeto de uma análise nova que regrida até sua dimensão invisível, o que se aplica também à chamada natureza material, entendida como um cosmos vivo.Ao implicar a retomada do questionamento filosófico em seu conjunto, a fenomenologia material propõe um futuro à fenomenologia e à própria filosofia, descobrindo-lhe ao mesmo tempo um passado novo, pois já não cabe à filosofia, refletindo sobre si mesma e tornando-se sua própria história, compreender-se ainda à luz dos pressupostos que a guiam desde o início, de modo que essa história da filosofia nada mude nesta última e não constitua senão sua última fase, convindo aqui atender ao pedido de Jean-Luc Marion de identificar, exumar e enfim pensar uma outra história da filosofia, irredutível à “história da metafísica” elaborada por Heidegger.Essa tarefa imensa, ao mesmo tempo de compreensão da realidade e de autocompreensão dessa compreensão — já parcialmente cumprida alhures, notadamente a propósito dos problemas da manifestação, do corpo, da realidade econômica, do “inconsciente” e da vida estética em sua relação antitética com o universo da modernidade —, não é a que se propõem estes breves estudos, cujo objetivo foi apenas dar uma ideia do que é a fenomenologia material, do método que a torna possível como fenomenologia do invisível, e pôr à prova sua capacidade de renovação num domínio tão difícil e aparentemente tão irredutível às suas premissas quanto o da intersubjetividade, ficando um estudo sistemático desta reservado a uma obra ulterior.estudos/henry/pm/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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