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Técnica
HENRY, Michel. La Barbarie. Paris: Livre de Poche, 1987.
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A ciência matemática da natureza, tal como hoje se a compreende, faz abstração da sensibilidade porque faz antes abstração da vida, rejeitando-a de sua temática e, ao proceder assim, desconhecendo-a totalmente, o que exige compreender por que, ao realizar seu projeto de conhecimento objetivo, ela descarta a qualidade sensível apesar de dispor de uma teoria física das cores, dos sons e dos sólidos capaz de medir e avaliar sua intensidade
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O que a ciência negligencia não é a cor ou o som enquanto objetos de análise, mas o próprio ser da sensação, sua realidade própria, pois enquanto a ciência define esse ser como movimento material, a sensação se sente e se experimenta a si mesma, esgotando sua realidade nesse experimentar-se de que movimentos, moléculas e partículas estão principiadamente desprovidos
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A diferença entre o ser real da sensação e o de um movimento material constitui o maior abismo concebível pelo espírito, reconhecido por Descartes na distinção entre alma e corpo, entre o que é vivo por se experimentar e se revelar a si mesmo e o que, incapaz dessa autorrevelação, não passa de coisa e de morte, de modo que a ciência, ao pretender captar o ser verdadeiro da sensação, sobrevoa esse abismo ontológico substituindo o experimentar-se a si mesmo por algo que lhe “corresponde” na natureza sem qualquer relação com a subjetividade da vida
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É, portanto, a vida que a ciência elimina, sendo ilusório, mesmo aos olhos da maioria dos fenomenólogos, tomar as qualidades sensíveis por propriedades transcendentes do mundo, como se a superfície pudesse ser colorida ou a muralha ameaçadora sem que essa cor fosse sentida e essa ameaça experimentada, residindo tais determinações não no mundo mas naquilo que se sente e se experimenta a si mesmo, o que expõe a ilusão da ciência de reduzir o mundo-da-vida (Lebenswelt) a idealidades físico-matemáticas
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Interditar essa redução do mundo-da-vida ao mundo-da-ciência exige um pensamento capaz de captar o mundo-da-vida em sua irredutibilidade a todo mundo possível, já que o ser-sensível reside, em última instância, fora do mundo, na própria vida, sendo a qualidade sensível apenas a objetivação de uma impressão cujo ser impressional é a autoimpressão, isto é, a subjetividade absoluta enquanto vida
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Revela-se aqui a insuficiência da fenomenologia clássica que, ao questionar o mundo-da-ciência em direção ao mundo-da-vida e deste à consciência desse mundo, não permite, através da intencionalidade ou do êxtase do Ser em que ela se desdobra, o recolhimento da sensação em si mesma, pois esta é antes lançada para fora de si como “sensação representativa”, representação irreal cuja realidade se encontra na autossensação, não na consciência do mundo, mas na vida
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Confirma-se essa análise pela obra de arte: os que a reduzem, a partir das indicações de Husserl, a um imaginário puro concluem que o mundo real não é nem belo nem feio, o que tornaria sem gravidade o saqueio da terra pela técnica, já que não haveria como desfigurar o que por natureza escaparia a toda categoria estética
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Contesta-se igualmente a consequência de atribuir à obra de arte estatuto puramente imaginário, pois se ela se esgotasse como qualquer imagem comum, não se explicaria sua consistência interna, sua legibilidade e a determinação rigorosa de suas partes, ao passo que a imagem ordinária, sustentada apenas pelo ato imageante da consciência, desmorona assim que este se interrompe, como no exemplo de Sartre, incapaz de contar as colunas do Panteão que imagina
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Ao contrário, a obra de arte apresenta clareza e precisão de detalhes rigorosamente localizáveis, como se pode contar os personagens do primeiro plano na Deposição de Fra Angelico em São Marcos, o número de torres do muramento ou de casas entrevistas
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Mais significativo ainda é o modo pelo qual a obra se impõe massivamente ao espectador, colocando-o na posição de ser passivo diante do que lhe é dado contemplar, pois o sítio da obra não é o noema imaginário além do suporte mas a própria subjetividade, lugar originário de toda sensação e imagem, a cada elemento objetivo da composição correspondendo uma tonalidade afetiva particular que é a emoção que o criador quis exprimir e que o espectador sente, coincidindo com a essência da arte
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Se a obra de arte tem o mesmo estatuto do mundo sensível enquanto autoafecção do êxtase do Ser, distingue-se dele por ser um mundo arranjado cujos elementos são dispostos para produzir sentimentos mais intensos e determinados, podendo-se dizer inversamente que a natureza é uma obra distendida cujo efeito perceptivo só é belo em grau fraco e acidental, embora essencialmente sensível e por isso estético
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Fazer abstração do mundo-sensível-da-vida é pôr fora de jogo a própria vida, revelando-se então a solidão da ciência, solidão tão extrema que é impensável, pois a ciência, embora nunca exista sozinha, comporta-se como se o fosse assim que exclui a vida de seu campo, ditando sua lei ao mundo sensível da vida que subsiste apesar dessa exclusão, situação que caracteriza a fase atual da história como Modernidade, na qual pela primeira vez a vida deixou de ditar suas próprias leis a si mesma
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A ciência que se crê sozinha no mundo torna-se técnica, conjunto de operações que extraem sua possibilidade unicamente do saber teórico científico, excluindo toda referência ao mundo-da-vida, sendo difícil apreender a essência dessa técnica em sua dupla relação, positiva com a ciência e negativa com a vida
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As interpretações da técnica dividem-se em dois grupos: as que veem nela a afirmação progressiva do domínio do homem sobre o universo das coisas, entendendo-a como meios a serviço de fins superiores da humanidade, identificando o “progresso” à realização dessas finalidades supremas permitidas pela ciência
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Contudo, a ciência e a técnica dela derivada nada sabem desses “interesses superiores” da humanidade, isto é, da essência da vida, de modo que os meios técnicos deixam de servir a qualquer fim distinto de si mesmos e se tornam eles próprios a “finalidade”, constituindo-se um autodesenvolvimento de dispositivos e procedimentos cada vez mais eficazes que reage sobre o saber científico e o provoca, ao invés de ser por ele determinado, tal a essência da técnica moderna
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Colocando-se a questão de qual das duas concepções da técnica seria a correta, propõe-se que ambas seriam “verdadeiras” a seu modo se referidas a momentos distintos de uma história essencial da techne, história que só é essencial se remonta à origem principial da técnica e às fases necessárias, e não contingentes, de seu desenvolvimento
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Encontra-se então que a essência originária da techne, necessária para compreender a técnica moderna que faz abstração da vida, é a própria vida, pois “técnica” designa um “saber-fazer” cuja essência original não é um saber-fazer particular mas o saber-fazer como tal, um fazer que porta em si seu próprio saber por se sentir e se experimentar a si mesmo, sendo esse saber-fazer originário a práxis, isto é, a própria vida
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A essência originária da techne não é uma essência ideal flutuante, mas, enquanto práxis que se autoafeta, determina-se e se individualiza nessa autoafecção sob a forma de uma experiência singular e individual, sendo essa práxis determinada, singular e individual, nosso Corpo
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No exercício imanente de sua força que se autoafeta, o corpo se choca primeiro com a resistência dos sistemas fenomenológicos internos que cedem a seu esforço, constituindo o “corpo orgânico” tal como vivido internamente, e em seguida, no seio dessa zona de resistência relativa, choca-se com um obstáculo que já não cede, a Terra, tal como experimentada no interior do movimento corporal subjetivo que se quebra contra ela
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O sistema formado pelo Corpo imanente e vivo, pelo corpo orgânico que se dobra sob seu esforço e pela Terra que se opõe a esse esforço constitui a essência originária da techne, tendo o Corpo subjetivo, enquanto Eu Posso fundamental, inventado instrumentos, isto é, elementos arrancados da Terra e voltados contra ela, para fazê-la ceder, sendo o instrumento originalmente um prolongamento do Corpo subjetivo imanente e assim uma parte do corpo orgânico
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Esse “desprendimento” do instrumento é apenas aparente, pois a natureza inteira está por essência à disposição de um Corpo originário, não havendo Terra pensável senão como aquilo sobre o que se pode pisar, nem ar senão o que se respira, nem luz senão a que se ilumina na subjetividade do olho, sendo Corpo e Terra ligados por uma Coapropriação tão originária que nada advém jamais como puro objeto exterior para uma teoria, denominando-se Corpopropriação essa Coapropriação que faz de nós os proprietários do mundo a priori, em razão da própria condição corporal do ser, transformando-se o mundo pela história inteira da humanidade como atualização dessa Corpopropriação
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As dificuldades de inteligir a práxis provêm do momento em que, ao invés de vivê-la no desdobramento interior do corpo orgânico, se pôs a representá-la, surgindo então a questão insolúvel de como uma determinação subjetiva, a “alma”, poderia agir sobre um ente natural, o “corpo”, questão insolúvel porque, nesse deslocamento, a alma se tornou pensamento, isto é, representação, modo de aproximação do qual a práxis subjetiva e viva se furta por princípio
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A representação da práxis suscita a ideologia que interpreta a técnica como transformação instrumental da natureza pelo homem em vista de fins por ele postos, ideologia que representa a Coapropriação originária do Corpo e da Terra mas a altera gravemente ao tornar a ação inintelegível fora de seu meio ontológico e ao projetar como elementos disjuntos causa, efeito, meios e fins, categorias do pensamento racional em lugar das do Corpo
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Enquanto se recobre com a práxis individual espontânea, a techne é apenas a expressão da vida, a colocação em obra dos poderes do corpo subjetivo e uma das primeiras formas de cultura, sendo as exigências internas da vida que a suscitam e as estruturas fenomenológicas do corpo originário que determinam suas modalidades, o que vale igualmente para as formas superiores da cultura, como a arte, a ética ou a religião, expressões diretas da subjetividade vivente
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O distúrbio ontológico ocorre quando a ação deixa de obedecer às prescrições da vida, parecendo desertar seu sítio próprio para se produzir no mundo, nas usinas, barragens e centrais, onde funcionam pistões, turbinas e computadores da quinta geração, indicando a Modernidade como passagem do reino do humano ao do inumano: a ação tornou-se objetiva, e a superfície da Terra assemelha-se a seu subsolo físico-matemático, a turbilhões de átomos e bombardeios de partículas sem origem, causa ou fim
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Contudo, diz-se apenas “parece” porque só há ação possível na subjetividade e por ela, como práxis, de modo que, cessando a instalação em si mesmo própria de todo poder e de todo fazer, nenhuma “ação” se cumpre mais, mas apenas deslocamentos materiais como a queda da água numa cascata ou os mecanismos da indústria, constituindo tais processos objetivos, semelhantes à cibernética ou ao substrato microfísico do universo, o conteúdo e a própria substância da técnica moderna
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Tais processos, contudo, não parecem “cegos” por resultarem coerentes e finalizados, sendo na técnica efeito de um saber, o que situa o retorno ontológico inaugural dos Tempos Modernos, reconhecido com Marx como a inversão da teleologia vital ocorrida entre os séculos XVIII e XIX, quando a produção deixou de visar valores de uso para visar o acréscimo da valor de troca, isto é, do dinheiro
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Esse mundo-da-vida, mundo-da-práxis onde o Ato é o Corpo, viu-se assim perturbado pela irrupção de uma finalidade sem relação com o que ele é desde sempre, a produção de uma abstração, o dinheiro, perturbação que consiste no surgimento de uma nova dimensão ontológica, a realidade econômica, e que faz a produção deixar de ser qualitativamente diferenciada para tornar-se quantitativa e infinita como o próprio dinheiro
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Essa “revolução econômica” não é a única revolução decisiva que subverteu a Corpopropriação, tendo apenas preparado, como causa, a revolução técnica: a aceleração da produção econômica, por razões de manutenção da taxa de lucro e da mais-valia, suscita a invenção e proliferação de novos meios de fabricação, fazendo do “instrumento” que antes prolongava o corpo subjetivo um dispositivo objetivo mecânico que funciona por si mesmo na máquina industrial e cibernética
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A revolução radical consiste em que o saber que rege a ação deixa de ser o saber da vida para tornar-se o da ciência: quando o saber que rege a ação é o da vida, ele coincide com a ação como sua autoafecção, saber-fazer que habita cada forma de atividade, inclusive a “instintiva” — a frequentação primitiva da Terra, o andar, o trabalhar, o comportamento erótico, o exercício dos sentidos —, na qual se cumpre apenas a autorrealização e o autoacréscimo da vida, sua cultura
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Quando o saber que rege a ação é o da ciência, este muda totalmente de natureza, tornando-se consciência de objeto que faz abstração dos sentidos, não coincidindo mais com a ação nem sendo seu conhecimento objetivo, já que a ação nada tem de objetivo, de modo que ação e saber caem um fora do outro, sobrando à ação apenas o estatuto de curiosidade empírica enquanto o saber, identificado ao da ciência da natureza, se torna tudo, correlacionado ao Todo dos processos objetivos da indústria, da cibernética e da própria natureza
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Coloca-se então a questão de como a técnica moderna, informação e transformação do mundo pela ciência, é ainda concebível se a techne reside na práxis fundada na vida e na Corpopropriação, reencontrando-se aqui o problema insolúvel da relação entre a “alma” reduzida a olhar teórico e o “corpo” tomado como ente natural
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Responde-se que a ação científica sobre a natureza jamais se limita à relação teórica de sujeito e objeto conhecidos, empregando sempre o desvio despercebido da Corpopropriação, pois somente um ser constituído originariamente como Corpo subjetivo e vivo, dotado de mãos e olhos enquanto poder imanente de preensão e visão, pode virar as páginas de um livro, manipular um aparelho ou apreender o resultado sensível de uma experiência
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Tal situação determina também a condição do trabalhador no mundo moderno, caracterizada pela diminuição progressiva da parte de trabalho vivo, isto é, da práxis subjetiva, no processo real de produção, em favor do crescimento do dispositivo instrumental objetivo, sendo a lei da baixa tendencial da taxa de lucro apenas a expressão econômica desse fenômeno crucial: a invasão da técnica e a expulsão da vida
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Mesmo quando a produção tende a se identificar aos dispositivos técnicos, a manutenção de uma parte decrescente de trabalho vivo significa que a transformação do mundo supõe sempre um primeiro acesso aos processos objetivos por meio da Corpopropriação, de modo que, reduzida quase a nada a colocação em obra desta, tudo que o homem fazia passa a ser feito pelo robô, que na verdade não “faz” nada além de acionar um mecanismo, restando como única ação real o simples gesto de apertar um botão
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Essa modificação não implica apenas a redução da práxis subjetiva a atos estereotipados e monótonos, mas a inversão dessa atividade insignificante em passividade total, sendo o próprio dispositivo objetivo que dita ao trabalhador a natureza e as modalidades do pouco que lhe resta fazer, restando à vida e a seu saber, isto é, à cultura, uma parte irrisória, resumida no teclado mais simples que o de uma máquina de escrever ao final do computador mais complexo, prenunciando-se assim a era da informática como era dos cretinos
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O que se dispõe como dispositivo instrumental da “ação” é disposto pela ciência, cujas teorias físicas fornecem as leis mesmas do funcionamento do dispositivo, tendendo a intervenção mínima da vida a se tornar desnecessária à medida que o dispositivo se torna capaz de se autorregular e autocontrolar, tornando-se propriamente um sistema, fiel reflexo do sistema teórico do qual é a “realização”
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Corrige-se essa formulação: não se parte de um modelo ideal aplicado depois na prática, sendo o modelo apenas a teoria de uma realidade que é, ao mesmo tempo, a da natureza material e a do próprio dispositivo, de modo que a técnica não é senão essa natureza cujas regulações, conhecidas, são postas em obra por si mesmas e para si mesmas, para que aconteça tudo o que pode acontecer — a técnica é a natureza sem o homem, seu autodesenvolvimento voltado à fabricação de ouro, à ida à lua, à construção de mísseis capazes de se autodirigir e decidir o momento de sua própria destruição e da nossa, sendo a técnica a alquimia, o autocumprimento da natureza em lugar do autocumprimento da vida, a barbárie e a loucura de nosso tempo
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Impõe-se desde já a observação de outro traço decisivo da modernidade, a inversão da relação entre técnica e economia: até a revolução técnica, o dispositivo instrumental da produção era disposto pela vida e para ela, enquanto o instrumento pertencia ontologicamente à Corpopropriação e a produção visava valores de uso, isto é, valores vitais
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No momento em que a teleologia vital se inverte em teleologia econômica visando a produção de valores de troca, estes não perdem todo vínculo com a vida, permanecendo secretamente subordinados aos valores de uso e, por seu intermédio, ao trabalho vivo, mostrando o próprio Marx que essa produção deve retornar à vida sob a forma da consumo, suscitando-se mesmo consumo artificial e novas necessidades como forma ainda de desenvolver a vida
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Toda produção depende assim de uma consumo que impõe, dentro do sistema de valorização, uma teleologia enraizada na vida, enraizamento que se quebra no universo da técnica, onde o processo de produção já não tem sua razão última depois de si, no valor de uso e na vida, mas antes de si, num estado de coisas do qual a vida está ausente
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Esse estado de coisas anterior é o próprio conjunto das técnicas existentes num dado momento, recobrindo-se com o Todo do saber científico, sendo esse estado que decide o “porvir”, de modo que toda técnica nova, implicada na rede das técnicas existentes, será realizada inevitavelmente por um movimento invencível chamado progresso
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A noção de progresso passou a designar exclusivamente o progresso técnico, não havendo mais lugar para a ideia de um progresso estético, intelectual ou moral situado na vida do indivíduo, e mesmo o progresso técnico, antes ligado à descoberta genial de um indivíduo excepcional como Pasteur, tornou-se hoje mero efeito assegurado da composição de técnicas preexistentes, explicando-se assim a simultaneidade e a inelutabilidade das descobertas em diversos países, proliferando o universo técnico à maneira de um câncer, autoproduzindo-se na ausência de toda norma e em completa indiferença à vida
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O desenvolvimento econômico, com suas leis aparentemente autônomas, era vivido pelos homens como um destino estranho que, embora distribuindo alternadamente prosperidade e miséria, ainda tirava sua substância da própria vida, do trabalho e do sofrimento humanos; com a técnica, o caráter autônomo do desenvolvimento deixou de ser aparência, tornando-se movimento sem relação alguma com a vida, impondo-lhe o outro da vida sob a forma de procedimentos e mecanismos extirpados pela ciência do seio obscuro da natureza e entregues a si mesmos, desencadeando-se em conexões artificiais segundo uma ordem que já não é a da Natureza nem a da Vida, mas um processo selvagem, tornando-se a técnica uma “transcendência negra” livre de todo vínculo, sem razão, sem rosto e sem olhar
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Ainda que a aparição de um procedimento novo — a fissão do átomo, uma manipulação genética — venha a colocar uma questão à consciência de um cientista, essa questão será varrida como anacrônica, pois na única realidade que existe para a ciência não há questão nem consciência, e se algum cientista se detivesse por escrúpulos, cem outros já estariam prontos para tomar seu lugar, pois tudo que pode ser feito pela ciência deve ser feito por ela e para ela, não havendo nada além dela e da realidade objetiva que ela conhece, da qual a técnica é a autorrealização
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