estudos:grondin:universalidade-hermeneutica-2003
UNIVERSALIDADE DA HERMENÊUTICA (1993)
GRONDIN, Jean. Universalité de l’herméneutique. Paris: PUF, 1993.
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A hermenêutica constituiu-se no século XVII como uma disciplina normativa e técnica destinada a fornecer regras metodológicas para o controle da interpretação e a redução da arbitrariedade em campos específicos como a teologia, a filologia e o direito.
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Aparição do termo latino hermeneutica.
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Intenção de eliminar a arbitrariedade interpretativa.
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Caráter de disciplina auxiliar das ciências textuais.
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Divisão em hermenêuticas sacra, profana e jurídica.
A prática de estabelecer regras para a interpretação de textos antecede a nomenclatura moderna, encontrando suas raízes nas reflexões exegéticas da Patrística e nas teorias alegóricas da Antiguidade.-
Preexistência da ars interpretandi.
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Influência das teorias de Fílon e dos estoicos.
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Definição ecumênica baseada na existência de regras metódicas.
A consolidação da hermenêutica como disciplina filosófica autônoma é um fenômeno recente associado a Hans-Georg Gadamer e Paul Ricœur, distinguindo-se das contribuições anteriores que não reivindicavam esse estatuto público.-
Diferença em relação aos projetos de Friedrich Schleiermacher e Johann Gustav Droysen.
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Dependência de Hans-Georg Gadamer em relação ao trabalho de Martin Heidegger.
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Ausência de intuições revolucionárias após os debates com Jürgen Habermas e Jacques Derrida.
A reconstrução histórica da hermenêutica contemporânea exige a análise do percurso de Martin Heidegger, especialmente a influência decisiva de suas lições inéditas de juventude sobre o projeto de Hans-Georg Gadamer.-
Impacto do ensaio gadameriano de 1966.
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Relevância dos cursos de Friburgo e Marburgo entre 1919 e 1928.
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Reavaliação de Ser e Tempo como obra tardia ou improvisada.
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Hipótese de C.F. Gethmann sobre a gênese da hermenêutica gadameriana.
A compreensão adequada da hermenêutica filosófica requer o exame de sua pré-história e das estações clássicas da disciplina para evitar a ingenuidade de novos começos e apreender a especificidade das contribuições modernas.-
Inclusão de Friedrich Schleiermacher, Johann Gustav Droysen e Wilhelm Dilthey.
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Referência à hermenêutica do Iluminismo e da teologia protestante.
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Necessidade de compreender o presente a partir do passado.
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Exclusão das hermenêuticas especiais do escopo filosófico universal.
A narrativa teleológica padrão da história da hermenêutica, promovida por Wilhelm Dilthey e Hans-Georg Gadamer, descreve uma evolução linear desde regras técnicas isoladas até uma teoria universal da compreensão humana.-
Modelo de progressão da Antiguidade à atualidade.
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Papel de Martinho Lutero e do protestantismo.
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Universalização da arte de compreender por Friedrich Schleiermacher.
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Incorporação metodológica por Wilhelm Dilthey e radicalização por Martin Heidegger.
A hipótese de uma história unificada e teleológica da hermenêutica enfrenta o ceticismo devido à diversidade de objetivos e à incomensurabilidade entre as visões técnicas antigas e as ambições filosóficas universais.-
Crítica proveniente das faculdades de literatura.
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Risco de deformação inerente às reconstruções unitárias.
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Inexistência de uma evolução linear contínua.
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Natureza rudimentar das primeiras reflexões comparada à sistematização recente.
As origens da teoria hermenêutica sistemática encontram-se nas obras de Flacius Illyricus e dos pensadores do racionalismo dos séculos XVII e XVIII, refutando a atribuição exclusiva do pioneirismo a Martinho Lutero ou Friedrich Schleiermacher.-
Distinção entre a prática exegética de Lutero e a teoria de Flacius.
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Princípio da sola scriptura como motor da problemática.
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Existência de hermenêuticas universais em J. Dannhauer e G.F. Meier.
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Anterioridade das pretensões universais em relação ao século XIX.
O papel central de Friedrich Schleiermacher na hermenêutica foi mediado principalmente pela tradição oral e edições póstumas, influenciando metodologias subsequentes como as de August Boeckh e Johann Gustav Droysen.-
Escassez de publicações diretas do autor sobre o tema.
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Edição de Hermenêutica e crítica por F. Lücke em 1838.
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Transmissão das ideias através das aulas de August Boeckh.
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Adoção da distinção entre explicar e compreender por Johann Gustav Droysen.
A recuperação da importância de Friedrich Schleiermacher deve-se às pesquisas arquivísticas de Wilhelm Dilthey, que planejou mas não publicou uma sistematização completa da hermenêutica e ética de seu predecessor.-
Premiação do estudo de Wilhelm Dilthey em 1860.
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Biografia publicada em 1870.
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Ausência do segundo volume sistemático planejado.
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Edição tardia dos manuscritos por M. Redeker em 1966.
O projeto inicial de Wilhelm Dilthey de uma crítica da razão histórica buscou fundamentação na psicologia descritiva, deixando a hermenêutica de Friedrich Schleiermacher ausente de sua obra metodológica principal de 1883.-
Publicação da Introdução às ciências humanas.
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Prioridade da fundação epistemológica na psicologia.
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Dúvidas sobre a centralidade da hermenêutica na fase intermediária.
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Controvérsia sobre o momento do tournant hermenêutico.
O retorno explícito de Wilhelm Dilthey à hermenêutica ocorre em sua fase tardia, quando ele propõe a interpretação como fundamento universal das ciências humanas ao reciclar suas pesquisas de juventude.-
Conferência de 1900 sobre o surgimento da hermenêutica.
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Reutilização do estudo inédito de 1860.
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Reconhecimento das ciências humanas como ciências de interpretação.
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Atribuição de função fundadora à hermenêutica.
A percepção da hermenêutica diltheyana como base metodológica consolidada baseia-se mais em adições manuscritas póstumas do que nas conferências públicas proferidas pelo autor em 1900.-
Publicação dos adendos no volume V das Obras Completas em 1924.
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Discrepância entre o texto lido e a teoria atribuída.
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Influência da escola diltheyana na interpretação tradicional.
A construção da imagem de um Wilhelm Dilthey hermeneuta e filósofo da vida foi obra de seu discípulo Georg Misch, que obscureceu os elementos positivistas e sistemáticos persistentes no pensamento do mestre.-
Prefácio magistral de Georg Misch ao volume V.
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Apresentação da evolução do positivismo para a hermenêutica.
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Transformação do termo hermenêutica em slogan geracional.
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Consolidação dessa leitura pela monografia de O.F. Bollnow.
A apropriação da herança diltheyana por Martin Heidegger resultou em uma hermenêutica da facticidade cuja radicalidade foi ofuscada pela brevidade e ambiguidade das definições presentes na publicação de Ser e Tempo.-
Adoção do título hermenêutica da facticidade nos cursos iniciais.
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Sucesso público de Ser e Tempo em 1927.
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Definição sumária da hermenêutica no parágrafo 7 da obra.
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Indeterminação sobre a relação entre analítica e hermenêutica.
A publicação de Ser e Tempo foi recebida pelos alunos de Martin Heidegger como um recuo decepcionante da hermenêutica da facticidade em direção a uma ontologia transcendental de corte husserliano.-
Sentimento de decepção em Hans-Georg Gadamer, Oskar Becker e Karl Löwith.
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Percepção da obra como uma recaída na autocompreensão transcendental.
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Contraste com a função central da hermenêutica nos cursos anteriores.
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Necessidade de publicação dos inéditos para avaliar a continuidade.
A fundamentação do projeto filosófico de Hans-Georg Gadamer vincula-se explicitamente à hermenêutica da facticidade do jovem Martin Heidegger, identificando uma continuidade hermenêutica mesmo na fase tardia da história do ser.-
Conexão de Verdade e Método com o período de Marburgo e Friburgo.
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Abandono do léxico hermenêutico pelo último Heidegger.
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Reconhecimento de intuições hermenêuticas na filosofia da Kehre.
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Identificação de uma virada anterior à própria virada oficial.
O mérito da obra gadameriana reside na capacidade de levar a termo o programa interrompido de uma hermenêutica da facticidade histórica, articulando as intuições do último Heidegger com o ponto de partida existencial.-
Pensamento com Heidegger e contra Heidegger.
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