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FUCHS, Thomas. Das unersättliche Selbst: Phänomenologie des Narzissmus. Erscheinungsort nicht ermittelbar: Suhrkamp Verlag, 2026.

Plenitude teórica e carência profunda

1. O narcisismo costuma ser tratado com simplificações contraditórias, ora como traço universal que faria de todos pequenos narcisistas em graus variados, ora como exceção maligna e até demoníaca, ora como tema da moda já esgotado em montanhas de literatura popular e psicanalítica.

2. Nenhuma dessas suposições procede, pois muitas vozes populares banalizam o diagnóstico ao identificar narcisismo com amor-próprio, que por isso nem sempre seria ruim, enquanto outras o citam com horror ao lado da psicopatia e do maquiavelismo como parte da tríade sombria de traços malignos, demonização apoiada em casos de narcisistas cruéis, perigosos ou apenas muito desagradáveis, de modo que, entre normalização e moralização, os conceitos públicos de narcisismo se mostram amplos, valorativos e vagos demais para apreender adequadamente um fenômeno complexo.

3. Na pesquisa científica, o narcisismo é tratado de um lado como problema psíquico individual, no pior caso transtorno de personalidade, objeto das disciplinas psi, e de outro, há algumas décadas, sob perspectiva sociocultural, como resultado ou motor de transformações sociais, como no diagnóstico de Richard Sennett sobre o declínio do homem público e a retirada para a esfera privada em formas cada vez mais narcisistas de intimidade e autocentramento, na proclamação por Christopher Lasch de uma era do narcisismo e no discurso recente sobre uma epidemia narcisista, que alcança até a Igreja, advertida pelo cardeal Bergoglio contra o espírito de um narcisismo teológico que vive apenas em si, de si e para si, interesse por um fenômeno social, cultural e político reforçado pelos traços narcisistas de governantes autocráticos e pela dinâmica narcisista das mídias sociais.

4. Quem pesquisa o narcisismo depara-se com uma profusão quase infinita de literatura, com inúmeros conceitos e modelos de diversas disciplinas que pretendem tornar apreensível o que ele é ou delimitar o que não é, apresentando-se o fenômeno de modos muito distintos em descrições e explicações e frequentemente subdividido em subtipos e variantes, como narcisismo grandioso, maligno, vulnerável, altruísta e até saudável.

5. As definições que buscam fazer justiça a essa diversidade teórica e fenomenal beiram muitas vezes a contradição, como mostram as controvérsias em torno das sucessivas versões do DSM, a existência residual do narcisismo na CID-10 sob a rubrica de outros transtornos específicos de personalidade e seu completo desaparecimento na CID-11, embora os fenômenos clínicos não tenham mudado, e além dos problemas de classificação o próprio narcisismo tende à camuflagem e ao autoencobrimento, exprimindo-se por vezes em ações aparentemente altruístas, a ponto de se falar num narcisismo de Madre Teresa, pois, como escreveu Erich Fromm, o narcisismo usa muitas máscaras e é difícil de apreender.

6. Embora as teorias do narcisismo desde a introdução freudiana de 1914, que ancorou o termo na psicanálise, sejam tão numerosas quanto as publicações científicas e populares, justifica-se uma nova teoria porque o fenômeno é tão característico do desenvolvimento da individualidade na cultura ocidental e penetra tão fundo nas estruturas da subjetividade que considerações apenas psicológicas, psiquiátricas ou sociológicas não bastam para esclarecê-lo, impondo-se uma análise filosoficamente fundada, uma teoria fenomenológico-existencial do narcisismo que integre contribuições de diversas disciplinas em dois sentidos.

7. A fenomenologia, como ciência das formas de manifestação e das estruturas fundamentais da consciência, como subjetividade, corporeidade, temporalidade e intersubjetividade, dimensões em que precisamente o narcisismo se desenrola, permite analisá-lo como figura de subjetivação em duplo sentido, como forma de subjetividade, possibilidade fundamental do ser humano de relacionar-se consigo, com os outros e com o mundo, e como descentramento deficiente, centramento no sujeito, entendendo-se a subjetividade narcisista de modo mais amplo que o transtorno de personalidade narcisista, num contínuo que vai do transtorno clínico ao estilo ou acentuação de personalidade e a episódios isolados de comportamento egocêntrico.

8. A filosofia da existência examina os fenômenos psíquicos em relação às condições fundamentais da condição humana, como nascimento, vida, corpo, carência, socialidade, vergonha, culpa, finitude e morte, de modo que uma consideração existencial compreende o narcisismo como modo específico de lidar com essas condições, tentativa de resolver dilemas inerentes à existência humana sob o signo de uma falta de autoestima cuja compensação se busca no exterior, tentativa que fracassa por razões intrínsecas e confere ao narcisismo uma dimensão trágica.

9. A abordagem fenomenológico-existencial visa descrever as estruturas fundamentais da relação narcisista consigo e com o mundo, com especial atenção à sua constituição corporal, aspecto até hoje pouco considerado.

10. Estrutura significa modo de construção ou articulação e designa relações, não propriedades isoladas, como as relações entre necessidade e ação, vivência e narrativa, corpo e si, essência e máscara, sujeito e sujeito, sujeito e objeto, relações não restritas ao indivíduo, pois também uma sociedade, uma forma econômica ou um meio podem ser narcisistas quando exibem estruturas análogas às do sujeito narcisista ou contribuem essencialmente para gerar e manter a subjetividade narcisista.

11. A expressão si insaciável indica uma fome que nenhum alimento sacia, um impulso que não se satisfaz, uma carência que não se aplaca, e se é o próprio si que é insaciável a carência alcança não necessidades isoladas, mas o núcleo da pessoa, fundando-se não na falta de vivências, satisfações, bens ou êxitos, mas num vazio interior mais profundo situado no fundo da subjetividade narcisista, de modo que o narcisismo significa carência de ser próprio, de ser-si-mesmo, de sentimento de si, autoestima e congruência consigo, de ser amigo de si mesmo.

12. Compreende-se assim a insaciabilidade tipicamente narcisista como vazio que bens externos não podem preencher, buscando os narcisistas, como já mostra o mito de Ovídio, seu ser-si e sua autoestima no espelho, em sua imagem, em seu selfie e, em última instância, na admiração ou na inveja dos outros, isto é, em seus olhares, segundo a inferência narcisista fundamental videor ergo sum, sou visto ou espelhado, logo existo.

13. Essa inferência cai por sua vez no vazio, pois o espaço do espelho é apenas virtual, espaço de aparência que deixa insatisfeito e vazio quem nele se espelha, já que ali está e não está o sujeito, visto apenas de fora e não em sua existência corporal sentida, e o entrelaçamento de vários desses espaços produz um espelhamento infinito, uma mise-en-abîme, abismo de aparências dotado de imensa força de sucção, túnel infinito de reflexos que espelham apenas a si mesmos e não a realidade da pessoa, constituição do sujeito narcisista que se busca no espelho e nos olhares alheios, mas, interiormente vazio, precisa renovar e intensificar sem cessar o espelhamento, magicamente atraído por toda ocasião de espelhar-se, até espelhar-se em espelhamentos.

14. Espelho e espelhamento são usados na literatura psicológica, inclusive sobre o narcisismo, quase sempre como metáforas positivas das relações humanas, como nas relações confirmadoras ou imitativas entre pais e bebês, em que a mãe deveria espelhar bem o filho, mas os espelhos são planos, frios e vazios, neles não se encontra nenhum outro e o próprio sujeito só se encontra à distância, indiretamente e de fora, em oposição ao autoexperienciar corporal em que se sente imediatamente e que é primário em relação a toda imagem, de modo que também a autoestima se funda num sentimento corporal de si adquirido não por espelhamento, mas por experiências de calor, toque, ser contido e sustentado, que faltaram na infância dos narcisistas.

15. O sujeito narcisista encontra-se assim tensionado entre dois vazios, o vazio interior do si e o vazio exterior dos espelhos que busca, e sua insaciabilidade exprime esse duplo vazio sob a forma de fome, avidez e carência, compulsão ao espelhamento e simultânea inutilidade dele e, por fim, desespero existencial, traços cuja vivência consciente é secundária para seu caráter existencial, pois nem todos os narcisistas se sentem mal, inferiores ou desesperados, muitas vezes ao contrário, e a estrutura da existência narcisista não precisa tornar-se consciente para orientar a ação.

16. O narcisismo, como forma de subjetivação, não concerne apenas a sujeitos isolados, mas entrelaça-se estreitamente com o mundo da vida, como mostram a insaciabilidade do capitalismo, cuja mola propulsora é uma carência que jamais pode ser saciada e deve ser constantemente recriada e intensificada por novas necessidades, mercadorias e consumo, a virtualidade do capitalismo financeiro, cujos derivados de derivados, apostas e especulações lembram o espelhamento infinito e vazio e conduziram, com o narcisismo dos gestores, à crise de 2008, a força de sucção virtual dos jogos de espelhos das mídias sociais, feitos de espelhos deformantes e aparência autogerada, e as bolhas de filtro e câmaras de eco da internet, que colocam o sujeito no centro do mundo para fruir e encenar o espetáculo de ver e ser visto, de modo que a análise da estrutura fundamental da existência narcisista vale também para as estruturas da modernidade tardia em que essa forma de existência se manifesta e se espelha.

Visão geral

1. Os fenômenos do narcisismo em indivíduos e na sociedade exigem uma análise desdobrada numa série de passos sucessivos.

2. O mito de Ovídio admite nova interpretação centrada no efeito alienante do espelho, no qual o corpo vivido sentido se torna corpo visto ou, segundo Sartre, corpo-para-outros, que entra em conflito com o corpo vivido, de modo que o ter um corpo suplanta o ser corpo.

3. A estrutura fundamental da subjetividade narcisista define-se como carência de valor corporalmente sentido ou vazio profundo que leva à fuga para substitutos ilusórios da autoestima ausente no mundo das imagens especulares, vazio que primariamente não é desespero ou insegurança vividos, já que nem todos os narcisistas são no fundo infelizes, vulneráveis ou carentes de amor, embora todo comportamento narcisista se funde numa carência existencial específica cuja caracterização precisa constitui tarefa principal da investigação.

4. Dessa concepção decorre a crítica aos conceitos de narcisismo primário e narcisismo saudável, já que não pode haver variante saudável de uma relação narcisista consigo e com o mundo essencialmente falhada.

5. Corporeidade e autoestima exigem uma crítica do próprio conceito de autoestima para realçar sua dimensão corporal, pois o que falta aos narcisistas não é propriamente um valor, mas uma determinada relação corporal consigo explicitável pelas metáforas do calor e do ser sustentado.

6. A temporalidade narcisista, a partir da impaciência e da inquietação, caracteriza-se pela incapacidade de alcançar o presente e pela determinação integral pelo futuro, pelo ainda-não da esperada satisfação da carência interior.

7. A relação intersubjetiva mostra que os narcisistas não podem ter verdadeira relação com outras pessoas, pois apenas se espelham nelas e as instrumentalizam ou reificam de múltiplas maneiras, comportamento que tem origem central na relação entre as crianças que se tornarão narcisistas e seus pais frequentemente também narcisistas, descrita como mero espelhamento e falta de calor.

8. O complexo de narcisismo e gênero envolve o modo como as estruturas narcisistas se configuram em cada caso, o papel da cultura e as relações entre narcisismo e transtornos alimentares, predominantemente femininos.

9. Como nenhuma estrutura psíquica surge independentemente da sociedade, impõe-se examinar a influência recíproca entre cultura, sociedade e desenvolvimentos narcisistas, com atenção especial à relação entre narcisismo e capitalismo, ao lado narcisista da virtualidade e das mídias sociais e à dimensão política do ódio narcisista, evidenciando-se que o narcisismo como transtorno do espelho já possui um aspecto virtual, de modo que a virtualização pós-moderna constitui uma espécie de encenação do narcisismo.

10. Dessas considerações derivam propostas terapêuticas baseadas na compreensão da própria situação existencial, em métodos centrados no corpo e em experiências corretivas que conduzam da aparência à realidade, sintetizando-se o conjunto em doze pontos conclusivos.

11. O ponto de partida são relatos de pacientes narcisistas sobre si e sobre outros e as descrições da vivência narcisista nas teorias psicodinâmicas, fenomenológicas e sociológicas, já que a psicopatologia fenomenológica não pratica primariamente etiologia nem pesquisa psicodinâmica da gênese, nem identifica esquemas comportamentais ou propõe classificações, mas descreve a relação vivida consigo e com o mundo para possibilitar uma compreensão existencial da subjetividade narcisista, tanto para os afetados quanto para os terapeutas, tornando reconhecíveis padrões fundamentais da relação consigo e das relações que remontam à infância, em complemento e integração à ampla pesquisa clínica, psicológica, psicanalítica e sociológica.

12. As estruturas fundamentais da subjetividade narcisista não se restringem aos casos claramente patológicos do transtorno de personalidade narcisista, mas determinam já estilos e tendências pré-clínicos e constituem uma configuração possível da relação humana consigo e com o mundo, reação às condições fundamentais da existência quando a elas se está exposto de determinado modo, conjunto de estratégias de compensação de transtornos da autoestima e, portanto, possibilidade fundamental do ser humano, cuja dimensão trágica já o mito exprime, pois Narciso sofre um destino em vez de agir soberanamente, ninguém escolhe tornar-se narcisista e o comportamento narcisista jamais conduz à desejada paz e concordância consigo, tragicidade que não atenua o sofrimento que o narcisista por vezes causa nem o exime da responsabilidade por seus atos, mas permite encarar o fenômeno com mais compreensão e até compaixão.

13. A investigação do narcisismo tem seu ponto de partida no mito clássico de Narciso.

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