15: 14/02/2006
FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005
A Explicação de Texto
1. A primeira tarefa consiste em restituir a questão da verdade à economia de conjunto da analítica existencial, lembrando que o problema fundamental é a questão do ser, que passa por uma analítica do Dasein, cuja existência se distingue da subsistência e que é seu aí, ser-no-mundo compreensivo cuja abertura (Erschlossenheit), sítio do aparecer constituído pela compreensão, pela disposição afetiva e pelo discurso, recupera o sentido primeiro da aletheia grega, colocando-se o problema de como a definição tradicional da verdade como adequação se articula com essa verdade como descobrimento, que só deixa de parecer arbitrária se se mostrar que é pressuposta pelo conceito tradicional, do qual a adequação pode ser derivada, o que exige uma retradução do texto.
2. O texto analisado começa no final da p. 223.
3. O ser junto ao ente intramundano, a ocupação, é descobridor, pois é o próprio ser do Dasein como ser-no-mundo cujo ser é cuidado, unidade dos três momentos, engajado numa relação com entes que não são ele, e à abertura do Dasein pertence essencialmente o discurso, pelo qual ele se exprime enquanto descobridor do ente e sobre o ente descoberto no enunciado, sempre logos tinos, cuja função apofântica mostra, e comunicativa, que supõe o ser-com, transmite o ente em seu ser-descoberto, de modo que quem recebe a comunicação se volta não para a frase, mas para a coisa de que se fala, conservando o enunciado o ser-descoberto do ente, até que o próprio enunciado se torna utensílio, repetível e transmissível, e, por essa conservação, algo disponível que mantém uma relação com o ente de que fala, relação que se converte numa relação entre dois entes, fossilização inevitável pela qual toda fala acaba por recair e todo enunciado se torna utensílio.
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Distingue-se o descobrimento (Entdecktheit), relativo ao ente que não tem o modo de ser do Dasein, da abertura (Erschlossenheit) do Dasein, que, abrindo-se a si mesmo, pode descobrir o ente intramundano, sem que seja necessário deter-se nas noções de mundo e intramundano.
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Descobrir o ente é fazê-lo aparecer como ente, e a ocupação tem função de manifestação: um prego só se mostra como prego se dele se precisa.
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É preciso atenção extrema à pontuação do texto, e o sobre-o-quê (Worüber) do discurso corresponde à função apofântica do enunciado.
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Vernehmen não deve ser traduzido por percepção, que corresponde a Wahrnehmen, pois não há percepção em Heidegger.
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Ouvindo “o martelo é pesado demais”, não se atenta para a frase, mas para o martelo, e, segundo Sartre, falar é passar as palavras sob silêncio.
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Para compreender um texto, é preciso recolocar-se na situação descrita, e para compreender a análise heideggeriana do tempo basta olhar o relógio, como ele fez, pois o que o distinguia não era ser mais inteligente, mas ver.
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Espera-se que a dimensão do mostrar-se seja recoberta, pois, segundo Husserl, a tradição é o esquecimento das origens.
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“Não pegue este martelo, ele é pesado demais” funciona como utensílio, assumindo o modo de ser do utensílio no conjunto dos gestos a realizar.
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O teorema de Pitágoras pode ser enunciado após a demonstração ou recitado de cor como citação, e é na tradição dos enunciados que algo da situação originária se perde.
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A conservação é duração, e o ser-descoberto, mantido e transmitido, adquire consistência própria, tornando o enunciado um ente constante.
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Segundo Mallarmé, falar só diz respeito à realidade das coisas comercialmente.
