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Antropologia Existencial

FBAE

  • I. A Daseinsanalyse em relação à psicologia fenomenológica e à psicanálise existencial de Jean-Paul Sartre
    • 1. A reflexão sobre a existência como fundamento comum
      • A psicologia fenomenológica e a psicopatologia não constituem dois modos paralelos e complementares de apreensão da realidade humana, mas só adquirem sentido pleno quando reconduzidas a uma reflexão sobre a existência.
      • A psicologia fenomenológica descreve os modos pelos quais a existência humana se anuncia e se manifesta, enquanto a psicopatologia determina as formas pelas quais essa mesma existência se obscurece, se altera ou se apaga.
      • Ambas dependem, portanto, de uma instância reflexiva mais originária, capaz de articular manifestação e ocultamento como modos correlativos de um mesmo ser-no-mundo.
  • 2. O doente e as formas de sua liberdade: Sartre e Binswanger
    • A divergência entre a psicanálise existencial de Sartre e a Daseinsanalyse de Binswanger manifesta-se já no ponto de partida metodológico.
    • Para Sartre, a insuficiência da descrição fenomenológica reside no risco de ela compreender em excesso, dissolvendo a singularidade da existência numa rede infinita de relações inteligíveis e possíveis.
    • A compreensão, no sentido de Karl Jaspers, apreende apenas relações gerais e ignora a ligação concreta entre um acontecimento singular e a totalidade individual da existência.
    • A psicanálise existencial sartreana visa recuperar a plenitude individual mediante a unidade do projeto original, definido pela relação consigo mesmo, com o mundo e com o outro.
    • Binswanger, ao contrário, critica a abstração que fragmenta a totalidade humana e separa artificialmente regiões da existência, relegando algumas delas à explicação naturalista.
    • Enquanto Sartre denuncia a abstração que isola a essência da existência concreta, Binswanger rejeita a abstração que justapõe dimensões da existência sem reencontrar sua unidade originária.
    • A análise existencial sartreana interroga a liberdade a partir do que ela faz; a Daseinsanalyse interroga o ser humano a partir do que ele é.
    • A unidade humana, para Binswanger, não é uma síntese posterior nem uma hierarquia de estruturas, mas a unidade radical da existência enquanto ser-no-mundo.
  • II. A vocação terapêutica da Daseinsanalyse: o vínculo médico-paciente
    • A psicopatologia existencial desloca radicalmente os critérios clássicos de compreensão da doença mental.
    • A partir do século XVIII, a psiquiatria tornou-se simultaneamente determinista e relativista, concebendo a doença como perda da liberdade e como variação psicológica da verdade.
    • Binswanger reconduz a psicopatologia a uma perspectiva de liberdade e verdade, interpretando o mundo patológico como forma específica de projeção da liberdade humana.
    • O universo do doente deve ser compreendido a partir das modalidades concretas de sua liberdade e não como simples efeito de determinações causais.
    • Essa reorientação não implica um retorno à metafísica abstrata, mas um enraizamento da análise no fundamento da existência humana concreta.
    • A Daseinsanalyse não formula teses ontológicas, mas afirmações ônticas relativas às possibilidades existenciais efetivamente escolhidas pelo Dasein.
    • A ação terapêutica encontra seu fundamento na estrutura inter-humana da existência, no Mitsein, que jamais desaparece mesmo na doença.
    • O vínculo médico-paciente não é um episódio secundário, mas o solo originário de toda possibilidade terapêutica.
    • A terapia não deriva sua verdade do sucesso prático, mas a possibilidade da cura se abre a partir da verdade mesma da análise existencial.
    • O médico não deve reduzir o paciente a um exemplar da espécie humana nem abordá-lo a partir de déficits abstratos, mas reconhecer suas possibilidades ainda abertas.
    • A atitude terapêutica exige uma conversão afetiva e metodológica, afastando-se do positivismo médico e do humanitarismo abstrato.
    • Curar não significa eliminar um déficit funcional, mas abrir novas possibilidades de existência e preparar o futuro do doente.
  • III. Significado e expressão
    • 1. A Existenzerhellung como esclarecimento existencial
      • A Daseinsanalyse abandona a concepção dialética inicial que opunha história vivida e função vital em favor da noção de esclarecimento existencial.
      • Os conteúdos vividos não são significativos por si mesmos, pois não são sua própria luz e não se esclarecem na simples rememoração.
      • A compreensão terapêutica deve ultrapassar o nível dos conteúdos para alcançar a estrutura existencial que neles se exprime.
      • A ação psicoterapêutica consiste em reconduzir o vivido ao seu sentido, fazendo dele expressão de um modo fundamental de ser.
      • O esclarecimento existencial não reconcilia termos opostos, mas restitui ao vivido sua inteligibilidade ontológica.
  • 2. O caso de Lina, analisado por Roland Kuhn
    • A história de Lina é marcada pela interdição paterna do amor e pelo suicídio do jovem com quem se relacionava.
    • O luto não elaborado transforma o passado em presença angustiante e impede a abertura plena do presente.
    • Os sintomas revelam uma cisão entre emoção amorosa e presença real: o amor dirige-se ao ausente, enquanto o presente se esvazia.
    • O trabalho terapêutico não visa reatualizar o passado, mas deslocá-lo para sua condição própria de passado.
    • A clarificação do sentido permite a Lina reconhecer a transferência de afetos paternos para a figura do jovem morto.
    • O passado recupera seu estatuto temporal legítimo e deixa de invadir o presente como fantasia angustiante.
    • A temporalidade autêntica é restaurada quando o passado se recolhe e o futuro se reabre como possibilidade.
    • A relação viva e atual com o médico desempenha papel decisivo ao reorientar a existência para o porvir.
    • A cura não se dá pela repetição do trauma, mas pela criação de um novo modo de coexistência inter-humana.
  • IV. A Daseinsanalyse entre metafísica e análise objetiva
    • A análise existencial enfrenta uma escolha decisiva ao refletir sobre o encontro terapêutico.
    • Ou retorna a uma metafísica do amor, concebendo o encontro como comunhão ontológica que supera a facticidade.
    • Ou se orienta para uma análise rigorosa da expressão, do diálogo e das formas objetivas da comunicação humana.
    • A primeira via implica a introdução de temas metafísicos alheios à ontologia heideggeriana, como o Wirsein e a eternidade do instante amoroso.
    • A segunda via exigiria uma reconfiguração histórica e linguística da análise existencial, rompendo com seus esquemas idealistas.
    • Binswanger opta pela filosofia do amor, fazendo dela o fundamento último da existência e da terapia.
    • Essa escolha conduz a uma especulação metafísica que enfraquece a força analítica da Daseinsanalyse.
    • A tensão entre expressão histórica e amor metafísico permanece como problema central não resolvido.
    • A Daseinsanalyse encontra assim seus limites internos, entre a fidelidade à experiência concreta e a tentação da transcendência especulativa.
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