estudos:fedier:lichtung

Lichtung

LDMH

  • Conceito fundacional de Lichtung em Ser e Tempo como abertura constituinte do Dasein, que não recebe iluminação de uma fonte externa, mas é em sua própria estrutura de ser-no-mundo a clareira na qual os entes podem se manifestar. Este 'é', porém, deve ser compreendido não como produção subjetiva, mas como uma modalidade de recepção passiva que permite o advento do fenômeno, onde a aletheia (desvelamento) se identifica com o ser-aberto primordial, antecedendo e fundamentando toda possibilidade de luminosidade intelectual ou sensível. A clareira, portanto, designa o espaço ontológico de jogo, o Da, que torna possível qualquer encontro com o que é, sendo condição de possibilidade para a própria luz, e não seu mero efeito ou correlato.
  • Implicação do deslocamento da metáfora luminosa para uma ontologia do aberto, onde a ênfase recai sobre o caráter espacial e relacional da abertura, um claro-lugar que permite o desocultamento. A segunda apostila, ao negar que o Dasein seja produtor da clareira, salienta seu caráter de destinatário e guardião dessa abertura, cuja origem remete ao próprio evento do ser, estabelecendo uma relação de pertença mais originária do que qualquer atividade intencional.
  • Ampliação semântica do termo Lichtung para além da esfera luminosa, resgatando sua raiz comum com leicht (leve), o que introduz a dimensão do alívio, da liberação de um peso. Este duplo sentido convida a pensar a abertura ontológica simultaneamente como clareza e como allégissement, um processo de tornar leve que não é mera subtração (allégement), mas uma restituição à condição de mobilidade e liberdade essenciais. A imagem da âncora sendo levantada (den Anker lichten) ilustra precisamente este movimento de des-fixação que permite ao navio adentrar seu elemento próprio, analogia perfeita para o Dasein que, como clareira, é o lugar de um desprendimento que libera o ser dos entes para seu aparecer.
  • Investigação da etimologia latina de clarus, que aponta para uma origem vocálica e articulatória, associada à voz que chama e distingue, sugerindo que a clareza luminosa é derivada e metafórica em relação a esta clareza discriminatória fundamental. A clareira, nesse registro, é antes o espaço da distinção e do destacar-se, onde as coisas podem vir à presença de modo diferenciado, exigindo uma escuta atenta para a articulação do ser que ali se pronuncia.
  • Processo de allégissement exemplificado na prática pictórica de Paul Cézanne, conforme descrito por Robert Marteau, onde o trabalho do artista consiste em um movimento dialético entre a saturação compacta da matéria-cor e seu esvanecimento em nuances, um ameublir (tornar solto) que permite à cor transcender sua opacidade autárquica e sintonizar-se com o ritmo do visível. Esta operação exige do pintor um 'ensaiar a própria ausência', um esvaziamento das intenções subjetivas pré-concebidas que o torna presente e receptivo ao desdobramento (déploiement) do mundo em si mesmo, estabelecendo uma clareira onde a coisa mesma pode começar a brilhar por sua própria conta.
  • Paralelo entre o allégir artesanal, que afina a matéria retirando o excesso, e o allégir existencial, que alivia o coração de seus pesos, recuperando a leveza como princípio vital e coragem. A imagem hölderliniana do coração tornado 'cristal infalível' onde a luz se põe à prova sintetiza esta dupla condição da clareira: ser o medium transparente e resistente (o cristal) que, por ter sido aliviado de suas impurezas, pode agora acolher e refractar o jogo da manifestação.
  • A tradução de Lichtung por 'allégie' (por analogia morfológica a 'éclaircie') como tentativa de capturar em francês a plenitude do conceito heideggeriano, que conjuga abertura, clareza e alívio em um único evento ontológico. A allégie nomeia o acontecer no qual o ser se allégit, liberando-se para sua própria verdade, e, ao fazê-lo, concede e sustenta o aberto no qual o Dasein ec-siste. É o âmbito da co-pertença originária onde o que se torna livre (o desvelado) e o que se retrai (o velado) jogam um com o outro, constituindo a dinâmica mesma da aletheia.
  • Compreensão final da Lichtung des Seins como o evento (Ereignis) da allégie, o movimento sempre já em curso pelo qual o ser se concede como abertura e, nessa doação, apropria o homem para ser o seu lugar, seu Da. A clareira não é um palco neutro, mas o acontecimento relacional e histórico da verdade do ser, que solicita do pensamento e da poesia uma correspondência que habite e guarde esta abertura concedida.
estudos/fedier/lichtung.txt · Last modified: by mccastro