0 Introdução
KOPF, Gereon. Beyond personal identity: Dōgen, Nishida, and a phenomenology of empty selves. Richmond, Surrey: Curzon Press, 2001.
Sou conhecido como Nāgasena, Vossa Majestade; é assim que meus companheiros monges me chamam. Mas, embora meus pais tenham me dado esse nome… trata-se apenas de uma designação prática. Não há qualquer indício de um indivíduo permanente implícito no uso dessa palavra.
Nāgasena
Se eu disser “Não serei eu, mas um dos meus eus futuros”, não estou sugerindo que serei esse eu futuro. Ele é um dos meus eus posteriores, e eu sou um dos seus eus anteriores. Não há uma pessoa subjacente que nós dois sejamos.
Derek Parfit
Embora não sejam um, não são diferentes; embora não sejam diferentes, não são idênticos; embora não sejam idênticos, não são muitos.
DŌGEN Kigen
Aquilo que é idêntico em si mesmo não é meramente um, mas deve ser os muitos como um e o um como muitos. Por essa razão, aquilo que muda não muda e aquilo que não muda muda, como acontece, por exemplo, com nossa autoconsciência; podemos pensar nisso como identidade própria.
NISHIDA Kitarō
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A doutrina budista do não eu (anātman, muga) questiona a existência de uma identidade pessoal permanente e, com ela, a ideia de um agente subjetivo e moral que perdura inalterado. Sua aproximação com as críticas de Hume e Parfit à identidade pessoal permite reconsiderar o problema sem pressupor um eu substancial.
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A compreensão da existência humana para além da identidade pessoal exige examinar a constituição do eu, a alteridade e o reconhecimento, bem como a continuidade e o tempo. As filosofias de Dōgen e Nishida permitem pensar um eu sem identidade permanente a partir dessas relações.
Dōgen Kigen
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A concepção de existência humana (Mensch-sein) em Dōgen está enraizada na prática religiosa, especialmente na meditação sentada (zazen), entendida como transmissão do ensinamento de Buda. Sua elaboração filosófica nasce da experiência dessa prática e põe em questão a identidade pessoal concebida como algo duradouro.
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A doutrina do não eu adquire em Dōgen um sentido existencial por meio do cultivo de si (shugyō). A experiência do despertar orienta sua interpretação das doutrinas budistas e o leva a reformular conceitos, como a natureza de Buda, para evitar que sejam fixados como essências ou convertidos em teses niilistas.
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O estudo de si começa com o eu vivido e reflexivo, mas a investigação aprofundada de sua consciência revela o caráter vazio e provisório da identidade que ele constrói para si. A negação de um eu permanente não dispensa, portanto, o exame da experiência de si.
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A constituição de si depende também da alteridade: a relação com o outro, inclusive com o mestre de meditação, participa do cultivo espiritual. A continuidade pessoal, por sua vez, requer compreender conjuntamente a experiência cotidiana de duração e a experiência do despertar que ultrapassa os limites habituais do tempo e do espaço.
Nishida Kitarō
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A filosofia de Nishida articula recursos da psicologia e da filosofia ocidentais com noções do budismo japonês para investigar o conhecimento, a existência e a consciência de si. Sua proximidade conceitual com o Zen permite relacioná-la às questões de identidade, alteridade e temporalidade presentes em Dōgen.
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A experiência pura (junsui keiken) designa uma unidade originária de sujeito e objeto, anterior à sua separação reflexiva. A partir dela, tornam-se pensáveis em conjunto a experiência pessoal, a ciência, a religião e a metafísica, sem tomar uma das posições opostas da experiência cotidiana como fundamento absoluto.
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O problema central do conhecimento consiste em compreender a relação entre quem conhece e aquilo que é conhecido. A consciência de si fornece o ponto de partida para investigar essa relação e as dificuldades de uma filosofia que procura conhecer a própria estrutura do conhecer.
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A unidade originária não apaga as diferenças da experiência cotidiana. Expressões como intuição atuante (kōiteki chokkan), autoidentidade contraditória (zettai mujunteki jiko dōitsu), continuidade da descontinuidade (hizenroku no zenroku) e presente absoluto (zettai genzai) indicam modos de pensar a unidade através da oposição, da mudança e da relação entre eu e outro.
Considerações metodológicas
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A discussão da identidade pessoal acompanha a passagem das formulações de Leibniz, Locke e Hume aos debates contemporâneos, incluindo a recusa da identidade pessoal por Parfit e a crítica de Ricoeur. A busca de critérios para uma identidade que persiste no tempo já tende, porém, a pressupor o eu duradouro cuja existência está em questão.
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O termo existência humana (Mensch-sein) permite reunir os problemas do eu, da alteridade, da continuidade e da temporalidade sem antecipar uma resposta metafísica baseada em substância permanente. Ele reformula a questão da identidade pessoal, mas não a resolve por definição.
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O diálogo entre Dōgen, Nishida, Sartre e Merleau-Ponty parte da experiência cotidiana e de sua dimensão anterior à reflexão. As aproximações com a fenomenologia permitem investigar como o eu e o mundo se apresentam, como a alteridade participa da experiência e como a continuidade é vivida.
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Uma concepção zen de não dualidade pessoal deve considerar conjuntamente identidade e diferença, mudança e permanência, temporalidade e ausência de tempo. Nessa perspectiva, o não eu pode ser pensado em relação ao manifestar-se no presente (genjō), com consequências para a compreensão da pessoa, da ética e da libertação espiritual.
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A comparação entre essas tradições preserva o caráter religioso e voltado à libertação do pensamento de Dōgen, ao mesmo tempo que examina as consequências conceituais de expressões como desprender-se do corpo e da mente (shinjin datsuraku). Termos cuja tradução não exprime com segurança seu alcance conceitual permanecem acompanhados da forma original.
