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Teoria da verdade

STEIN, Ernildo. As ilusões da transparência: Dificuldades com o conceito de mundo da vida. Ijuí: Editora Unijuí, 2012.

Pretensão de verdade: Que é estar munido de uma teoria da verdade?

1. A contraditoriedade não reside na realidade, mas nos discursos sobre ela, impondo-se o cuidado de não confundir a estrutura do discurso com a estrutura da realidade, problema já presente nos fragmentos de Heráclito quanto à distinção entre o logos das coisas e o logos dos filósofos, permanecendo o homologêin — a simetria entre ambos — sempre como ideal, tal como preocupava Roquentin, personagem de A náusea de Sartre, e o autor do Tractatus quanto à comunidade da forma lógica como precondição da adequação representacional.

2. As teorias da verdade somente puderam surgir no universo filosófico quando se reconheceu que a forma lógica pertence à linguagem, e não à realidade, exigindo-se, para o uso do critério semântico de verdade ou falsidade dos enunciados assertóricos, estar munido de uma teoria que justifique tal atribuição.

3. Compreender uma asserção não se limita a apanhar sua força assertórica e seu conteúdo proposicional, pressupondo-se um terceiro elemento no ato do falante, a pretensão de verdade, cujo levantamento revela que o falante já está munido de uma teoria da verdade.

4. Além da força assertórica, que remete a uma teoria da ação comunicativa, e do conteúdo proposicional, que situa diante do problema da representação, a pretensão de verdade contida no enunciado expressa que o falante possui razões justificáveis para o asserido, tornando legítima e necessária a exigência de justificação por parte do ouvinte.

  • Toda pretensão de verdade exibida na asserção revela a teoria específica de verdade do falante, a partir da qual o asserido pode ser justificado.
  • A compreensão entre falante e ouvinte somente se realiza mediante acordo sobre a teoria da verdade oculta na pretensão de verdade manifestada.
  • Na pretensão de verdade encontra-se a articulação entre a força do ato de asserção e o conteúdo proposicional asserido, permitindo deslocar a questão clássica, discutida desde Ramsey, Strawson e Austin, sobre a redundância de afirmar de “p” que é verdadeiro.

5. Frege já distinguira entre conteúdo (Inhalt), pensamento (Gedanke) — correspondente ao atual conteúdo proposicional — e força assertórica (behauptende Kraft), correspondente à força ilocucionária de Searle, sendo em discussão com Habermas que Tugendhat introduziu a expressão pretensão de verdade, afirmando que a força assertórica consiste numa pretensão de verdade.

  • A relação entre pretensão e verdade apresenta problemas análogos à relação entre intenção e significado, remetendo também a uma estrutura corrente na esfera jurídica, em que uma parte reivindica um direito baseado em justificações legais perante a Justiça.
  • A pretensão de verdade expressa a força assertórica não de maneira aleatória, mas obedecendo a um conjunto de regras que constitui a implícita teoria da verdade do enunciado.
  • Ao asserir “p”, expressam-se critérios de justificação derivados de uma teoria da verdade, dando força assertórica ao enunciado e configurando uma reivindicação sobre a qual o interlocutor pode questionar a justeza e a verdade.
  • A pretensão de verdade expressa a segurança de dispor de argumentos e regras intersubjetivas orientadoras, determinadas num contexto delimitado por uma teoria da verdade.

6. A pretensão de verdade dirige-se sempre a um ouvinte que pode e deve exigir justificação da asserção, pressupondo que o falante esteja munido de uma teoria da verdade a partir da qual demonstre sua pretensão e espere sua acolhida pelo interlocutor.

  • Coloca-se a questão da comunidade da teoria entre falante e ouvinte, cuja função de exigir justificação já está estabelecida na própria pretensão de verdade do enunciado.
  • Permanece em aberto o que ocorre quando a teoria da verdade do ouvinte não pode repetir ou realizar a justificação sustentada pelo falante, isto é, quando ambos esposam teorias da verdade distintas.
  • A pretensão de verdade implícita no enunciado sustenta a força assertórica e pressupõe uma comunidade em que o consenso não constitui critério de concordância, mas resulta de critérios extraídos da teoria da verdade compartilhada entre falante e interlocutor.

7. Num discurso assertórico, cujas unidades mínimas são os enunciados assertóricos, correspondem igualmente unidades mínimas de pretensão de verdade implícitas em cada asserção, não podendo tal discurso prescindir do interlocutor, que se correlaciona não à força assertórica nem ao conteúdo proposicional, mas à pretensão de verdade.

  • Compreender o asserido implica entrar numa relação intersubjetiva exigida e sustentada pela pretensão de verdade, articulada de modo análogo à relação jurídica entre partes que reivindicam um direito perante a Justiça.
  • Permanece em questão se a estrutura da compreensão que sustenta a intersubjetividade demandada pela pretensão de verdade não deveria restringir-se ao universo argumentativo, sob pena de desembocar numa fenomenologia da consciência e numa linguagem privada dos estados anímicos, ou se bastariam apelos ao a priori comunicativo, à antecipação de uma situação de fala ideal ou a um contexto comum de regras.

8. Ao asserir “que 'p'” já se expressa a pretensão de verdade e as razões suficientes da asserção, justificáveis perante um interlocutor a partir da teoria da verdade do falante, colocando-se a questão do que se acrescenta ou explicita ao afirmar “é verdade que 'p'”.

  • Questiona-se se tal afirmação constitui simples redundância, dado que a pretensão de verdade já está presente no enunciado original, ou se o metaenunciado oferece uma garantia adicional.
  • Introduzir a pretensão de verdade por meio de um metadiscurso como “é verdade que” arrisca conduzir a um regresso ao infinito de metaenunciados, questão que somente se resolve ao se aceitar que tal expressão apenas explicita o que já está contido na asserção como pretensão de verdade, indicando a teoria da verdade que acompanha todo enunciado assertórico.
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