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estudos:dreyfus:politeismo-de-homero-2011

O Politeísmo de Homero (2011)

DKTS

Contexto Interpretativo da Helena Homérica

  • Análise do banquete espartano como episódio revelador
    • A cena descreve Helena narrando sua fuga com Paris diante de Menelau e da corte
      • A ausência de indignação moral entre os presentes contrasta com expectativas modernas
      • A reação de Menelau e a narrativa de Homero expressam admiração por Helena
    • O episódio estabelece um problema hermenêutico central
      • Leitores antigos e modernos frequentemente veem a postura de Helena como evasão moral
      • A interpretação tradicional julga a visão homérica como deficiente em responsabilidade moral
      • Propõe-se uma inversão da perspectiva hermenêutica
        • A visão de Homero pode ser mais profunda, não mais primitiva
        • A admiração por Helena é a chave para compreender a sacralidade na vida humana
  • Crítica às leituras modernas reducionistas
    • Intérpretes influentes do século XX atribuem a Homero uma compreensão primitiva
      • Bruno Snell: falha em antecipar a autonomia kantiana
      • E. R. Dodds: falha em compreender a psicologia humeana
      • Bernard Williams: falha em alcançar a profundidade nietzschiana
    • A atitude correta não é a patronização nem a projeção anacrônica
      • Deve-se buscar recuperar fenômenos existenciais que a modernidade ocultou
      • Homero é sensível a aspectos positivos da existência hoje perdidos

Abertura ao Mundo e os Deuses como Sintonizadores

  • Constituição do ser humano homérico como ser aberto
    • Os gregos homéricos não se compreendiam por introspecção de estados internos
      • A experiência interior era um conceito estranho e surpreendente
      • Os sonhos e os humores eram experimentados como fenômenos públicos e partilháveis
    • Os humores públicos são centrais para a compreensão homérica
      • Iluminam uma situação compartilhada, manifestando o que importa no momento
      • Conduzem as pessoas a realizar feitos heroicos e paixões
    • Os deuses são personificações desses humores sintonizadores
      • Diferentes deuses iluminam diferentes modos de uma situação importar
      • Afrodite sintoniza com as possibilidades eróticas
      • Ares sintoniza com as oportunidades guerreiras agressivas
      • Outros deuses convocam outras sintoniações
  • Excelência [arete] como sintonia com o sagrado
    • A melhor vida consiste em estar em sincronia com os deuses
      • Martin Heidegger identifica os deuses como os que sintonizam
    • A noção homérica de arete está no centro dessa compreensão
      • A tradução por virtude é anacrônica e carrega conotações cristãs ou estoicas
      • A excelência homérica depende crucialmente de gratidão e maravilhamento
    • A grandeza de figuras exemplares está em sua receptividade a um deus
      • Helena é constantemente responsiva a Afrodite dourada
      • Aquiles tinha uma receptividade especial a Ares
      • Odisseu era protegido pela sabedoria adaptável de Atena

A Necessidade dos Deuses e a Centralidade da Gratidão

  • O humano como ser que necessita dos deuses
    • A afirmação de Peisistrato de que todos os homens precisam dos deuses é fundamental
      • Reconhece que sucessos e fracassos nunca estão completamente sob nosso controle
      • As ações mais elevadas não podem ser realizadas apenas pelo esforço próprio
    • Os deuses personificam dons que surpreendem e demandam gratidão
      • Dormir, acordar, reunir multidões, manter sua atenção, ser preenchido por desejo ou coragem
    • A excelência humana ocorre quando se age de modos pelos quais não se pode tomar crédito integral
  • O caso paradigmático de Ajax como contraexemplo
    • Ajax escapa de um naufrágio e atribui sua salvação apenas a si mesmo
      • Sua jactância é um insulto ao sagrado, uma rejeição da gratidão
      • Poseidon, personificando essa ofensa, o fulmina
    • A narrativa não deve ser lida como teologia causal primitiva
      • O evento físico pode ser explicado por um terremoto
      • A importância está na articulação de uma aspiração humana
    • A atitude apropriada diante do favorável é a gratidão, não a autossatisfação
      • A gratidão é um componente essencial da vida bem vivida
      • Os deuses representam aquilo que está além de nós e que exige nossa gratidão
  • Distinção entre sorte cega e cuidado divino
    • Contrasta a visão homérica com a romana da Fortuna
      • Fortuna é cega e indiferente, não suscitando gratidão, mas resignação estoica
      • O estoico romano é avô do niilismo secular, pois a sorte cega leva à falta de sentido
    • A conexão entre sorte e falta de sentido é explorada no cinema contemporâneo
      • Match Point de Woody Allen apresenta a vida como dependente do acaso cego
      • A conclusão lógica é o niilismo: sem justiça, não há esperança de significado
    • Ser sortudo e ser cuidado são fenômenos radicalmente diferentes
      • A experiência grega é de maravilhamento constante e gratidão pelo favorável
      • Essa maravilha e gratidão são a chave para tudo que é sagrado

Fenomenologia do Sagrado e a Resposta Apropriada

  • O episódio das lanças no retorno de Odisseu
    • Seis pretendentes lançam suas lanças contra Odisseu a queima-roupa, e todas falham
      • Homero atribui o evento ao trabalho de Atena
    • A explicação não deve ser lida como metafísica, mas fenomenológica
      • Descreve a experiência de Odisseu: não mero acaso, mas ser cuidado
      • O alívio, o assombro e a gratidão parecem a resposta adequada
    • A experiência é reconhecível na contemporaneidade
      • Cena de Pulp Fiction: Jules interpreta a sobrevivência a tiros como intervenção divina
      • Vincent oferece a interpretação secular moderna: um desvio estatístico, mera sorte
  • A questão central sobre a resposta apropriada
    • O debate entre Vincent e Jules reflete a encruzilhada moderna
      • Vincent representa a visão secular: eventos são flutuações estatísticas, gratidão é supérflua
      • Jules representa a intuição de que o evento tem significado, demandando gratidão
    • A questão relevante não é metafísica sobre a existência causal de deuses
      • É fenomenológica e existencial sobre a adequação da gratidão
    • O problema do niilismo secular
      • A visão da sorte cega leva à sensação de que nada importa
      • A concepção homérica de excelência, centrada na gratidão, não permitia esse fardo
    • A reivindicação filosófica é que a gratidão é a resposta mais adequada
      • Cultivar o assombro e a gratidão pelo favorável está mais sintonizado com nossas aspirações
      • A indiferença diante do favorável é uma concepção empobrecida de si mesmo

A Falta de Gratidão como Deficiência e o Ritual Sacrificial

  • Os pretendentes como antítese da excelência homérica
    • Eles consomem os bens de Odisseu, cortejam sua esposa e desrespeitam costumes
    • A descrição de seu comportamento por Eumeu enfatiza a falta de respeito pelos deuses
      • São homens de coração frio que não consideram como se colocam à vista de Zeus
      • Sua arrogância e comportamento desenfreado são uma afronta aos deuses
    • Um sinal crucial de sua deficiência é a falta de sacrifícios ritualísticos
      • O ritual do sacrifício expressa e induz gratidão
      • É um ato de oferecer algo valioso, reforçando o compromisso com o sagrado
  • A função profunda do sacrifício ritual
    • Não é apenas uma transação psicológica com um ser sobrenatural
    • É uma prática que cultiva e fortalece o senso de gratidão e maravilhamento
      • Torna explícito o compromisso com a excelência de reconhecer e ser grato
    • A falta de participação nos rituais revela a arrogância e autossuficiência dos pretendentes
      • Sua conduta é incompatível com o humor de gratidão que o sacrifício reforça

A Excelência como Abertura ao Dom Divino

  • Fenômenos cotidianos como paradigmas da condição humana
    • O sono é um dom divino, não um intervalo em branco
      • Homero personifica o Sono ou o mostra como um poder dado pelos deuses
      • É paradigmático por ser uma atividade que não se consegue apenas tentando mais
    • A excelência humana está em preparar-se para, maravilhar-se com e ser grato por tais dons
      • Esta postura se aplica desde eventos cotidianos até ações heroicas
  • O caso de Odisseu no naufrágio
    • Diante de rochas traiçoeiras, Odisseu pondera e desespera
    • Um impulso o leva a agarrar-se a uma rocha no momento crucial
      • Homero descreve: suas mãos foram postas em movimento
      • Do ponto de vista de Odisseu, a força veio de fora, de Atena
    • A descrição captura a experiência de ação fluida e não gerada pelo esforço deliberado
  • Carisma e graça como dons divinos
    • Atena confere graça a Odisseu antes de um encontro importante
      • A palavra grega charis é a raiz de carismático
      • Uma pessoa carismática é aquela que foi favorecida com um dom de graça
    • Exemplo contemporâneo: Nureyev ofuscando outras estrelas pelo carisma
      • Homero descreveria isso como a graça sendo derramada sobre ele como um dom
    • O essencial é que o resultado não pode ser alcançado apenas tentando mais
      • Tentar ser carismático deliberadamente resulta em afetação
      • A excelência é algo dado, não fabricado
  • Crítica à noção moderna de agência autossuficiente
    • A visão moderna, exemplificada por Sartre, vê o humano como posse total de si
      • Ações são comportamentos pelos quais o agente é inteiramente responsável
    • Esta visão entra em conflito com a experiência homérica de excelência
      • O que Homero vê como paradigma parece à modernidade nem mesmo contar como ação
    • O fenômeno dos yips no esporte ilustra os limites da agência deliberada
      • Atletas como Chuck Knoblauch pioram ao tentar controlar conscientemente ações reflexivas
      • A psicologia do esporte confirma que pensar demais destrói a habilidade prática
    • A lição homérica: nos momentos de maior excelência, a atividade parece ser extraída de nós
      • Odisseu ordena a Telêmaco: Cale-se, contenha seus pensamentos, não faça perguntas
      • Isto é obra dos Olímpicos

Politeísmo, Transitoriedade e a Excelência de Helena

  • O politeísmo como reflexo da pluralidade incomensurável de significados
    • A physis, o caráter transitório dos humores, é crucial
      • Humores brotam, sustentam por um tempo e depois liberam
    • O panteão reflete a falta de um princípio unificador subjacente
      • A excelência no domínio erótico de Afrodite é incomensurável com a excelência doméstica de Hera
    • Não há motivação para reconciliar os significados iluminados por vários deuses
      • Isto permite transições sem conflito entre modos de ser
  • A grandeza de Helena reavaliada
    • Helena é a epítome do sagrado erótico, uma filha de Zeus
      • Seu epíteto, dia gunaikon, significa uma deusa entre mulheres
      • Ela é a incorporação do eros, não apenas uma mulher fisicamente bela
    • A atração erótica é uma dimensão sagrada que inspira maravilhamento e gratidão
      • Pessoas nobres são atraídas para ela, coisas belas se reúnem ao seu redor
    • Sua fuga com Paris foi um ato de sintonia com o chamado de Afrodite
      • Medir isso por um padrão de responsabilidade moral é anatema no mundo homérico
      • Reduziria sua beleza a um fato subsidiário e não essencial
    • As consequências da fuga, incluindo a Guerra de Troia, são parte do tecido da existência
      • Criaram oportunidades para outras excelências, como o heroísmo de Aquiles
      • As tristezas da existência têm significado porque trazem à tona tipos de excelência
    • Como diz o rei Alcíno sobre as dores de Odisseu: Os deuses trouxeram isso
      • Para os homens eles teceram a teia do sofrimento, para que os homens por vir tivessem um tema para cantar
    • O ato de Helena não foi um ato moral irresponsável
      • Foi um ato de eros sagrado, entrelaçando maravilha e desgraça, para que os homens por vir tivessem um tema para cantar
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