GRAMATOLOGIA
BRADLEY, Arthur. Derrida’s Of Grammatology: An Edinburgh Philosophical Guide. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2022.
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O capítulo de abertura da Gramatologia estabelece a matriz teórica do livro, identificando momentos históricos privilegiados para estudo, como Saussure, Lévi-Strauss e Rousseau, e criando um novo vocabulário crítico, como desconstrução, escritura e traço.
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A obra propõe uma releitura da tradição ocidental, argumentando que a filosofia ocidental é uma metafísica da presença que postula um momento de presença pura como valor supremo.
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O modo definidor dessa metafísica da presença é o logocentrismo, no qual a fala é considerada o veículo privilegiado da presença, enquanto a escritura é vista como mediação ou adiamento dessa presença.
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A aposta metafísica na fala depende de uma contradição fundamental, pois toda linguagem, tanto a fala quanto a escritura, é caracterizada pela mediação essencial que a metafísica atribui apenas à escritura.
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Se a fala está contaminada pela escritura, o conceito de presença pura se desestabiliza, pois não se pode acessar uma presença que exista independentemente da mediação linguística.
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A teoria do signo linguístico é o sintoma privilegiado dessa problemática, sendo o local onde Derrida questiona o logocentrismo.
Desconstrução
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A desconstrução não é uma demolição, mas uma des-sedimentação e des-construção do logos, um processo duplo que é tanto negativo quanto positivo.
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A desconstrução não é uma técnica aplicada externamente a um texto, mas a revelação de uma instabilidade estrutural interna a todo texto, baseada em uma rede de mediações, diferenças e traços.
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A metafísica da presença está em um processo de “autodesconstrução”, pois não possui um fundamento pleno ou presente, existindo em um estado permanente de contingência.
A Época do Livro
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Para entender a novidade da gramatologia, é preciso vê-la contra o pano de fundo histórico do logocentrismo, que Derrida analisa por meio do signo linguístico.
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O signo linguístico não é um exemplo entre outros, mas um ponto de entrada definidor para a lógica da metafísica como um todo, baseado na oposição entre significante e significado.
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A desconstrução da teoria do signo é o fio condutor que permite desvendar todo o sistema logocêntrico.
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A história do logocentrismo começa com Aristóteles, que estabeleceu a distinção entre significante e significado, e entre fala e escritura, considerando a fala como mais próxima das experiências mentais.
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Para Aristóteles, a escritura tem uma relação indireta com o pensamento, sendo um signo de um signo, enquanto a fala é o signo direto do significado.
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A teoria aristotélica do signo é cúmplice da metafísica da presença, pois o signo nunca pode ser descrito simplesmente como o signo de uma ideia presente.
Teologia Cristã
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Outro momento chave é a “época do criacionismo cristão”, onde a teologia cristã e a metafísica grega se encontram, e a distinção teológica entre mundo sensível e inteligível dá origem à distinção linguística entre significante e significado.
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O signo é sempre o signo de um reino que existe antes e independentemente do mundo sensível, seja a mente de Deus ou um conceito inteligível, contendo uma dimensão “metafísico-teológica”.
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Mesmo nas formas modernas e científicas, o signo permanece teológico, pois é sempre o signo de uma presença pura que está por trás dele, e essa metafísica da presença encontra sua expressão mais sistemática no cristianismo.
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Saussure e outros linguistas modernos substituem a presença de Deus pela presença do falante, de seus pensamentos e sentimentos, mantendo um investimento teológico residual em um “significado transcendental”.
De Rousseau a Heidegger
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A evolução do logocentrismo vai da metafísica grega, passando pela teologia cristã, até o presente, trocando uma ideia do logos por outra: Deus, o sujeito cartesiano, a vontade de poder de Nietzsche.
O Fim do Livro?
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A história do logocentrismo não é simplesmente errada, mas indispensável, pois é a própria história da filosofia, e o objetivo de Derrida é mostrar o logocentrismo em desconstrução.
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A teoria logocêntrica do signo se desconstroi a si mesma, oferecendo uma visão privilegiada de toda a “metafísica em desconstrução”.
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A história logocêntrica, apesar de gramofóbica, é saturada de imagens de escritura, muitas vezes de forma disfarçada, e não rejeita a escritura totalmente, mas busca distinguir entre escritura “boa” e “má”.
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A escritura é atacada como um substituto sem vida da fala, mas também é recrutada para a causa logocêntrica como uma extensão fiel da fala que pode prolongar a memória.
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A filosofia ocidental, embora desvalorize a escritura, a emprega regularmente como uma figura positiva para a unidade e integridade do universo, como a “escritura divina” da alma ou o “livro” de Deus.
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O logocentrismo pode ser descrito como a “civilização do livro”, pois a escritura está sempre presente em suas autorrepresentações.
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O logocentrismo busca enclausurar a ameaça da escritura em um sistema fixo, cujo significado é garantido por um “significado transcendental” ou presença, da mesma forma que o significado de um livro é garantido por seu autor.
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O logocentrismo está chegando a um fechamento, o que não significa que chegou ao fim histórico, mas que agora se pode traçar os limites conceituais do sistema metafísico.
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A teoria logocêntrica do signo como signo de um significado pré-existente tornou-se insustentável, pois a escritura dentro do modelo logocêntrico é uma mídia secundária que, na melhor das hipóteses, suplementa a fala.
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Se até a fala é caracterizada pela mediação, então toda linguagem tem as características da “escritura”, e todo significante pode ser visto como um “significante de um significante”.
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O reconhecimento do caráter mediado de todos os signos permite “fechar o livro” sobre o logocentrismo, pois a escritura não pode ser rastreada até uma presença pura.
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O novo conceito de escritura está emergindo há muito tempo, mas agora se manifesta em uma série de desenvolvimentos contemporâneos na filosofia, ciência e pensamento do pós-guerra.
O Início da Escritura
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A história do logocentrismo conclui com o surgimento de um novo conceito de escritura no período pós-guerra, onde a escritura não é mais vista como um mero conjunto de marcas empíricas, mas como a condição de possibilidade da própria linguagem.
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Vive-se uma revolução na mídia, computação e tecnologia da informação que está transformando a compreensão da linguagem, cultura e atividade humana.
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Derrida está interessado no que essas tecnologias revelam sobre a natureza essencial da linguagem, e o “início” da escritura não é um fenômeno histórico, mas o desdobramento de algo que sempre foi a condição estrutural de todos os signos linguísticos.
A Virada Linguística
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A “virada linguística” na filosofia do século XX, com sua nova atenção ao papel da linguagem no pensamento, prepara o terreno para a gramatologia.
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A linguagem não é apenas uma ferramenta para descrever o mundo, mas uma condição definidora de tudo o que constitui a esfera do humano, construindo ativamente a maneira como se experiencia o mundo.
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A revolução estruturalista intensifica esse conceito, com Saussure argumentando que os signos linguísticos dão forma e clareza ao fluxo de impressões, e seus sucessores estendem seus princípios da linguagem para a própria realidade.
A Virada Escritural
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A “virada linguística” está sendo substituída por uma “virada escritural”, onde a escritura, e não a linguagem em geral, tornou-se o meio dominante de explicar a consciência, a cultura e a psique.
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A biologia molecular fala do DNA como um “código” ou “script” genético, a teoria cibernética descreve sistemas de informação estruturados por uma escritura generalizada, e a matemática teórica invoca um conceito de escritura independente da fala.
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A “virada escritural” nos mostra que o termo “escritura” pode ser aplicado de forma generalizada e autônoma a vários campos, indicando que a escritura é mais complexa do que a história do logocentrismo permite.
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A descoberta de formas de escritura na estrutura da própria vida inverte a hierarquia logocêntrica, tornando a linguagem uma subespécie da escritura, e não o contrário.
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A gramatologia lança uma luz diferente sobre a história, onde um novo conceito de escritura ocupa o centro do palco, e a “virada escritural” pode ser descrita com mais precisão como uma virada linguística dentro da história da escritura.
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O “início” da escritura não é um novo evento, mas algo que esteve inscrito desde o início, pois a linguagem sempre foi “escritura”.
Escritura Originária
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A “escritura originária” (arche-écriture) não é o mesmo que a escritura na definição tradicional, mas um campo de força maior que abrange a linguagem, a cultura e a experiência da “realidade”.
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A “escritura originária” descreve a condição originária da linguagem como um todo, onde todos os signos linguísticos possuem as características historicamente atribuídas apenas à escritura.
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A tese não é cronológica, mas lógica: não é que a escritura precedeu historicamente a fala, mas que a fala possui as mesmas propriedades da escritura.
A Escritura não tem Origem
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A “escritura originária” não é uma tentativa de estabelecer um novo ponto de origem, mas uma forma de questionar a própria ideia de uma origem, um começo absoluto, um ponto de “presença” pura.
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A escritura é algo que não sobrevém a uma origem pura, mas já está lá na própria origem, e o conceito de “escritura originária” força a repensar o que se entende por uma origem.
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O conceito de “escritura originária” é uma forma de questionar a própria ideia de origem, mostrando que a origem não pode ser reduzida a um fundamento simples ou presente, mas é um estado originário de relação ou complexidade.
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O “início da escritura” é outra maneira de dizer que não há tal coisa como um “começo”, e as ciências contemporâneas como a cibernética instalam a escritura na própria origem da linguagem, significado e vida.
Conclusão
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A visão de Derrida sobre o “início da escritura” não anuncia um novo mundo além das ilusões da metafísica, mas uma tentativa mais modesta e rigorosa de demarcar os limites conceituais da teoria logocêntrica do signo.
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Não se trata de rejeitar o logocentrismo, pois nada é concebível sem ele, mas de questionar sua autoconstrução e construí-lo de forma diferente, desconstruindo-o.
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A questão sobre a essência da escritura e se ela é um suplemento secundário ou desempenha um papel mais essencial e constitutivo é abordada no segundo capítulo, com uma leitura detalhada de Saussure.
Saussure, a Escritura e o Traço
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A tradição filosófica ocidental nunca produziu uma ciência genuína da escritura, mas os desenvolvimentos recentes revelaram um conceito generalizado de escritura que independe da fala.
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A tarefa agora é tentar estabelecer uma estrutura teórica e um vocabulário para descrever esse campo, perguntando que tipo de ciência poderia fazer justiça a esse novo conceito de escritura.
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A gramatologia não pode ser uma ciência como qualquer outra, porque a escritura coloca em questão a própria possibilidade da ciência.
Gramatologia
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A ideia de uma “ciência da escritura” coloca o carro na frente dos bois, pois a escritura é o que torna o estudo científico possível, não podendo ser reduzida a objeto de uma ciência.
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Qualquer tentativa anterior de construir uma gramatologia já continha um preconceito contra a escritura, presumindo que a fala é a forma primária de linguagem e que a escritura é uma derivação.
A Ciência da Escritura
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O objetivo de Derrida é considerar se é possível construir uma nova “ciência” da escritura, partindo da linguística contemporânea e da obra de Saussure.
Linguística
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A linguística é a “rainha” das ciências humanas contemporâneas, e a teoria de Saussure desempenha um papel decisivo ao problematizar a teoria logocêntrica do signo.
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Saussure argumenta que o significante e o significado estão inextricavelmente ligados, como os dois lados de uma mesma folha de papel, mas Derrida permanece cético em relação às pretensões científicas da linguística.
Da Linguística à Gramatologia
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O método de Saussure é declaradamente fonológico, vendo as estruturas sonoras como a base de toda a linguagem, reproduzindo a hierarquia clássica da fala sobre a escritura.
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Apesar de suas fraquezas, a linguística de Saussure oferece um vislumbre de uma “gramatologia geral” a partir do interior do recinto logocêntrico.
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Saussure argumenta que o objeto da linguística é a língua, a estrutura subjacente da linguagem, em oposição aos atos de fala específicos, preparando o terreno para a revolução estruturalista.
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A linguagem não é uma nomenclatura para objetos pré-existentes, mas um sistema que adquire significado por meio de sua estrutura e relações internas, composto por significante e significado.
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A relação entre significante e significado é arbitrária, motivada pela tradição ou convenção, e não por uma “semelhança natural” entre som e conceito.
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Qualquer signo linguístico adquire seu significado por meio de sua diferença de outros signos, e não por qualquer valor “positivo” que possa possuir em si mesmo.
Fala
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Apesar de sua teoria da arbitrariedade do signo, Saussure conclui que é a fala, e não a escritura, o modo essencial do signo linguístico, relegando a escritura a uma posição secundária.
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Saussure identifica a fala com a natureza e o “dentro” da linguagem, enquanto a escritura é equiparada ao não natural, ao ausente e ao “fora” do sistema linguístico.
O Retorno da Escritura
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As rachaduras na argumentação de Saussure aparecem na quantidade de espaço que ele dedica à escritura, percebendo-a como uma ameaça ao seu modelo centrado na fala.
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Saussure denuncia a escritura em termos emotivos, preocupado que ela possa deslocar a fala e inverter a ordem natural do falado e do escrito.
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O medo de Saussure é que a escritura, por ser mais durável, passe a ser vista como representativa da linguagem como um todo, quebrando o “vínculo natural” entre som e sentido.
A Escritura na Origem
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A ameaça representada pela escritura não é algo que sobrevém à linguagem de fora, mas o estado original da própria linguagem, onde a “usurpação” já começou.
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A teoria de Saussure, que defende a prioridade natural da fala, também insiste no status arbitrário, convencional e diferencial de todos os signos, abrindo a porta para um conceito mais radical de escritura.
Arqui-escritura
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Derrida usa a teoria de Saussure para articular um conceito radicalmente novo e generalizado de escritura, perseguindo a trajetória lógica de seu argumento até as últimas consequências.
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Saussure invoca constantemente a “escritura” como uma metáfora para descrever condições linguísticas gerais, tornando-a, contrariamente às suas intenções, o nome para a linguagem como um todo.
A Arbitrariedade do Signo
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A tese da arbitrariedade do signo contradiz a afirmação de Saussure sobre a prioridade natural da fala, pois se todos os signos são arbitrários, então toda a linguagem tem o status não natural que Saussure tenta atribuir apenas à escritura.
A Natureza Diferencial da Linguagem
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A tese da natureza diferencial da linguagem, onde um signo adquire significado por sua diferença de outros signos, é o que melhor permite ver o caráter “escrito” de toda a linguagem.
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O significante não é fônico, mas incorpóreo, e adquire significado por sua diferença de outros signos, e não por qualquer conteúdo ou substância em si mesmo.
A Linguagem é Escritura
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Saussure recorre cada vez mais à escritura como modelo explicativo para sua teoria diferencial da linguagem, e a posição inferior da escritura descreve com precisão a posição da linguagem como um todo.
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A linguagem pode ser descrita como uma espécie de escritura, e Saussure começa a articular a ideia de escritura originária (arche-écriture).
Arqui-escritura
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A “escritura originária” não é uma tentativa de inverter a hierarquia da fala sobre a escritura, mas afirma que a posição historicamente atribuída à “escritura” descreve a condição de toda a linguagem.
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O nome “escritura” é mantido estrategicamente, pois o conceito vulgar de escritura constitui a verdade recalcada do estado da linguagem como um todo.
O Traço Originário
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O conceito de “traço originário” é a ideia mais importante da Gramatologia, representando a tentativa mais sistemática de articular que a mediação está em toda parte.
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O traço originário complica não apenas a oposição entre fala e escritura, mas todas as oposições que compõem a metafísica da presença.
O Traço
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Segundo a teoria de Saussure, a diferença é a condição original de possibilidade de todo significado, e cada signo é intrinsecamente marcado pelo que não é, retendo os traços dos outros signos.
O Traço é a Différance
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O “traço originário” é a diferença, o movimento pelo qual qualquer linguagem se torna historicamente constituída como uma trama de diferenças.
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“Différance” é um neologismo que combina os sentidos de “diferir” (distinguir) e “deferir” (adiar), referindo-se ao processo pelo qual o signo é estendido no espaço e adiado no tempo.
A Desconstrução do Signo
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O traço originário mostra que todo signo se refere primeiro a outros signos, e não a um conceito “presente”, lançando em crise o conceito logocêntrico do signo.
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Nunca se chega a um significado simples ou não mediado, pois todo significante se relaciona com outros significantes, e não se pode alcançar um pensamento puro que exista independentemente de todos os significantes.
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O que Saussure chama de “significado” é, segundo a lógica de sua própria teoria, apenas mais um significante, e nenhum “significado transcendental” escapa ao jogo de relações e mediações que constitui a linguagem.
A Desconstrução da Metafísica
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O traço originário pode ser estendido para cobrir não apenas a linguagem, mas o próprio pensamento, a consciência e a percepção, pois o que se pensa ser o reino “puro” do pensamento é também um processo de diferir/deferir.
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A oposição entre significante e significado é um portal para todas as outras oposições da metafísica da presença, como alma/corpo, ideal/material, transcendental/empírico.
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O conceito de traço originário, onde o “absolutamente outro” é anunciado no que não é, articula sua possibilidade em todo o campo do ser-presente, que a metafísica definiu.
A Origem da Metafísica
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O traço originário não é nem presente nem ausente, nem sensível nem inteligível, nem sujeito nem objeto, nem natureza nem cultura, nem empírico nem transcendental, pois é a condição diferencial subjacente de qualquer “presença”.
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O traço não pode ser pensado na lógica da metafísica, pois é anterior a todo conceito metafísico, sendo o movimento de diferença que permite que eles apareçam como conceitos.
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O traço é a “origem absoluta do sentido em geral”, mas não é uma origem metafísica, e sim uma condição originária de mediação, síntese ou complexidade, e não um ser, coisa ou entidade presente.
A Metafísica não tem Origem
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A “origem” da metafísica da presença nunca é ela mesma presente, e a afirmação de que “tudo começa com o traço” não é uma tentativa de postular uma nova origem, mas de afirmar que não há origem pura, simples ou presente.
A (Im)possibilidade da Metafísica
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O traço originário é a base da desconstrução da metafísica da presença, pois mostra que qualquer valor que a metafísica postula como “presente” está sempre se espalhando em uma rede de traços, diferenças e mediações.
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A diferença é a origem secreta ou recalcada de toda presença, e os sistemas metafísicos de pensamento devem ser repensados a partir do zero, pois a metafísica é “metafísica em desconstrução”.
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O traço originário coloca toda metafísica da presença em um duplo vínculo: é tanto o que torna possível o desejo de presença quanto o que torna impossível a realização desse desejo.
Por que o “Traço Originário”?
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O nome “traço originário” é estratégico, pois destrói o esquema metafísico que insiste que todo traço é o traço de algum ser presente, e não pode ser o “nome próprio” para o que Derrida está falando.
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O “traço originário” está sujeito ao processo de diferença, adiamento e rastreamento que descreve, e Derrida adota toda uma série de “apelidos” estratégicos para o estado inominável de mediação.
Conclusão
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A “gramatologia” não é tanto a ciência da escritura, mas a ciência de tudo: linguagem, consciência, percepção, experiência e conhecimento.
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A ciência da “gramatologia” força a considerar o que se entende por “ciência”, pois a escritura generalizada coloca em questão a própria possibilidade da ciência, que está fundamentalmente ligada à metafísica da presença.
Lévi-Strauss e a Violência da Letra
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A segunda parte da Gramatologia oferece uma série de exemplos históricos para apoiar o argumento teórico, com análises detalhadas de Rousseau e Lévi-Strauss.
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A “violência da letra” não é algo que sobrevém de fora, mas algo intrínseco à estrutura da sociedade tribal, e a violência é originária.
A Era de Rousseau
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A obra de Lévi-Strauss é moldada por ideias rousseaunianas sobre a fala, a natureza e a passagem da natureza à cultura.
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Lévi-Strauss vê Rousseau como o fundador da antropologia moderna, e seu projeto antropológico pode ser descrito como um “rousseaunianismo militante”.
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A metodologia de Lévi-Strauss é focada na importância da voz, inspirada na abordagem fonológica da linguística estrutural, e acompanhada de uma animosidade rousseauniana em relação à escritura.
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O objetivo de “A Violência da Letra” é oferecer uma “crítica imanente” do argumento de Lévi-Strauss, articulando as instabilidades inerentes à lógica metafísica que ele emprega.
A Batalha dos Nomes Próprios
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A narrativa de Lévi-Strauss sobre a “batalha dos nomes próprios” mostra a vulnerabilidade da utopia primitiva à invasão da cultura ocidental, mas Derrida mostra que a violência da escritura já está em ação na sociedade Nambikwara.
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A instituição dos nomes próprios na sociedade Nambikwara é em si um ato de violência, pois a própria estrutura da linguagem viola o suposto caráter único do nome próprio.
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A tentativa dos Nambikwara de censurar ou proibir a divulgação dos nomes é uma segunda violência, a instituição da lei, que só pode reprimir a violência da própria linguagem.
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O ato físico de quebrar a lei, quando Lévi-Strauss engana as meninas para que divulguem seus nomes, é uma violência empírica que é tornada possível pela impossibilidade do nome próprio de se estabelecer.
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A violência da escritura está em ação na sociedade Nambikwara muito antes do advento da escritura no sentido empírico, e o que Lévi-Strauss chama de “paz” já é um estado de violência.
A Lição de Escritura
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Na “lição de escritura”, Lévi-Strauss ensina os Nambikwara a escrever, e a escritura é apresentada como uma violação de uma utopia pré-lapsariana vinda de fora.
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Derrida mostra que uma escritura mais essencial e originária já está em ação na própria sociedade Nambikwara antes do aparecimento da escritura empírica, e a “lição de escritura” já foi aprendida.
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A premissa de que os Nambikwara não têm conhecimento prévio de escritura é questionada, pois eles já possuem sistemas complexos de classificação genealógica que são uma forma de “escritura” no sentido geral.
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A lição que Lévi-Strauss aprende, de que a escritura é o instrumento da exploração do homem pelo homem, é baseada em uma evidência empírica fraca e em suposições questionáveis.
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A afirmação de que a invenção da escritura e o progresso científico têm pouco a ver um com o outro é refutada, pois o conhecimento científico é contingente à invenção da escritura.
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O exemplo do Neolítico, que teria testemunhado avanços sem escrita, é questionado, pois Derrida duvida que a cultura neolítica fosse pré-letrada.
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A tese de que a escritura é o instrumento da exploração do homem pelo homem é aceita, mas Derrida argumenta que as sociedades agrícolas mais primitivas já possuem uma arche-escritura quando começam a se organizar economicamente.
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A narrativa de Lévi-Strauss sobre a história da escritura é mais complicada do que uma simples história de declínio, e ele persiste em acreditar que o aparecimento da escritura é uma catástrofe que sobrevém ao estado de natureza.
A Era de Rousseau
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O discurso antropológico de Lévi-Strauss é inteiramente moldado por uma agenda rousseauniana, que depende da oposição entre natureza e cultura e da suposta bondade natural do homem.
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A tentativa de Derrida de postular uma violência originária na utopia primitivista não nega a violência do colonialismo, mas questiona a possibilidade de qualquer bem moral puro ou absoluto.
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O conceito de violência originária da escritura é a base para uma nova ética, pois não há ética sem a presença do outro, mas também sem ausência, dissimulação, desvio, diferença, escritura.
Rousseau: A Lógica do Suplemento
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A filosofia de Rousseau é o alvo principal da segunda parte, e seu sistema é construído sobre a repressão da escritura, que ele vê como o início da desigualdade e da corrupção.
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Rousseau ataca a escritura como uma força perigosa que corrompe a fala, mas também recorre consistentemente a ela como um corretivo para as deficiências da fala.
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A filosofia de Rousseau revela uma crise interna na própria natureza, e o grande crítico da escritura também é profundamente cético em relação à ilusão da fala plena e presente.
O Suplemento
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A “lógica do suplemento” é o fio condutor da leitura de Derrida, e o suplemento é uma forma de teorizar que toda presença aparentemente idêntica a si mesma depende do que coloca fora de si.
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O suplemento carrega duas significações contraditórias: pode ser uma adição a algo que já está completo, ou um substituto essencial para algo que está faltando.
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Esses significados contraditórios estão logicamente entrelaçados, e o que produz a impressão de presença plena são os suplementos que vêm compensar sua ausência.
Escritura e Fala
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A teoria de Rousseau sobre a relação entre fala e escritura é logocêntrica, argumentando que a fala expressa naturalmente os pensamentos presentes, enquanto a escritura ergue uma barreira material desnecessária.
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A desconfiança de Rousseau em relação à escritura tem uma dimensão política, pois a fala é o garante de uma comunidade orgânica e indivisa, enquanto a escritura representa o início da sociedade civil moderna com suas desigualdades e divisões.
A Escritura Suplementa a Fala
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Há uma contradição performativa na filosofia de Rousseau, pois ele ataca a escritura como uma corrupção da fala, mas também a representa como um corretivo necessário para uma deficiência na própria fala.
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A escritura é o que dá acesso à autopresença que supostamente é privilégio apenas da fala, e a teoria de Rousseau realiza o oposto de sua intenção aparente: revela a falibilidade da fala.
A Lógica do Suplemento
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Para explicar isso, Derrida recorre ao termo ambíguo “suplemento”, que carrega duas significações contraditórias: pode ser uma adição a algo que já está completo, ou um substituto essencial para algo que está faltando.
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O suplemento ou confirma uma presença originária completa em si mesma, ou revela uma falta essencial de presença que exige suplementação.
Os Suplementos de Rousseau
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A lógica da suplementação está em ação em toda a obra de Rousseau, e o fato de ele escrever sua autobiografia é evidência disso.
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A natureza requer suplementação porque é incompleta em si mesma, e o suplemento não chega a uma natureza pura e completa depois do fato, mas emerge de uma lacuna no coração da própria “natureza”.
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A filosofia da educação de Rousseau é o próprio suplemento para a natureza que ele considera desnecessário, e a educação é necessária porque cultiva qualidades que as crianças não possuem naturalmente.
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O suplemento é o que torna possível o progresso humano, mas também é o início da queda da humanidade na corrupção da sociedade civil.
A Cadeia de Suplementos
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A masturbação é um exemplo íntimo da lógica do suplemento, sendo vista tanto como um vício não natural quanto como um ato inteiramente natural.
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A masturbação é o produto de uma falta ou deficiência no estado de natureza que requer suplementação, e a natureza se desnatura.
O Suplemento Restaura a Presença
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A masturbação não é apenas mais um suplemento, mas algo que diz algo sobre a própria lógica da suplementação, tornando-se o único meio de experimentar a satisfação completa e diretamente.
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O que geralmente é visto como o sinal da futilidade do onanismo é a garantia de sua realização total, pois colapsa a lacuna espaço-temporal entre presença e ausência.
Não há Presença
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A masturbação permite experimentar o prazer presente mais plenamente do que as relações heteroeróticas, mas o “presente” imediato entregue na fantasia autoerótica é uma ilusão.
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O que chega para adicionar a uma suposta presença pura também revela, por sua própria necessidade, que a presença pura nunca existiu.
A Presença Pura é a Morte
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A masturbação também serve como uma forma de proteção contra um certo perigo na própria presença, e a presença pura é equiparada à doença ou mesmo à morte, em oposição à vida, plenitude ou abundância.
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Se se pudesse experimentar a presença pura como tal, isso só poderia ser porque essa coisa era inteiramente desprovida de duração, movimento, diferença, em suma, vida.
O Suplemento Produz “Presença”
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A vida de Rousseau é uma procissão de um suplemento para outro, e o suplemento não adiciona a uma presença que já estava completa, mas compensa uma “presença” que nunca existiu.
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O suplemento é originário, e as mediações suplementares produzem a ilusão da própria coisa que suplementam.
O Exorbitante
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Em “O Exorbitante: Questão de Método”, Derrida oferece seu relato mais sistemático de sua metodologia de trabalho, antecipando e refutando as críticas mais duradouras à sua filosofia.
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Derrida não está sugerindo que Rousseau esteja articulando deliberadamente a posição que está sendo traçada, pois o filósofo nunca está totalmente no controle dessa lógica.
Leitura
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Há uma lacuna entre o que Rousseau quer dizer e o que ele diz, e qualquer ato de leitura deve equilibrar o respeito pelo uso da linguagem para comunicar intenções com a percepção de como a linguagem excede continuamente o domínio do escritor.
Leitura Dupla
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A leitura deve envolver um “comentário redobrado” que reproduza fielmente a relação intencional do autor, mas também deve ir além do que o autor diz para identificar as forças no texto que excedem a intencionalidade autoral.
O Dentro e o Fora
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A leitura não é psicanalítica, pois o problema com a psicanálise é que ela voa diante do que se vê ser a relação inextricável entre significante e significado.
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Não se pode ganhar acesso a um “significado transcendental” que exista em si mesmo independentemente de todos os significantes.
Não há Fora-texto
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Não há fora-texto, e o “Rousseau” real sempre foi um texto, mesmo quando vivo, pois sua vida real foi estruturada de acordo com os princípios de mediação, diferença e relação que se associam à escritura.
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Não se pode simplesmente traçar uma linha entre “linguagem” e “mundo”, pois a arche-escritura ocupa ambos os lados da equação, e a escritura não está restrita a palavras em uma página, mas transborda para o “mundo real”.
O Exorbitante
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A metodologia de Derrida é “exorbitante” em relação à metafísica, buscando exceder toda a órbita da metafísica da presença, e é indescritível por qualquer uma das oposições conceituais que circulam dentro dessa órbita.
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O ponto de partida de Derrida pode ser arbitrário e provisório, mas seu objetivo final é sempre o mesmo: revelar a suplementaridade inerente a toda “presença”.
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O “suplemento” é exorbitante, resistindo a toda tentativa de explicá-lo com referência às categorias da metafísica, e qualquer tentativa de rastrear a figura do suplemento deve ultrapassar todos os conjuntos de oposições metafísicas.
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Se não há nada fora do texto, não se pode observar a lógica da suplementação de fora, e todo texto é produto de uma lógica de diferença que excede o controle de seu autor.
Conclusão
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A leitura do Ensaio sobre a Origem das Línguas mostra que a história da música e da linguagem não é uma história de declínio, mas uma crise dentro do próprio natural.
Rousseau e a(s) Origem(ns) da Linguagem
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A leitura do Ensaio sobre a Origem das Línguas analisa a “lógica do suplemento” na tentativa de Rousseau de rastrear a linguagem até o primeiro grito inarticulado de paixão no estado de natureza.
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Para Derrida, a “origem” da linguagem não está em um momento simples de presença, mas em um estado de diferença, relação ou suplementação originária.
Rousseau e a Origem da Linguagem
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A leitura de Derrida é “exorbitante”, e o objetivo é identificar um ponto de exorbitância no texto de Rousseau, onde suas intenções declaradas são ultrapassadas por forças maiores.
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O Rousseau que oficialmente defende a paixão, a fala e a melodia é confrontado com o Rousseau que, sorrateiramente, apoia a necessidade, a escritura e a harmonia.
A Origem da Música
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A análise da história da música mostra que a melodia e a harmonia têm uma origem comum, mas a harmonia, um suplemento, introduz mediação e artifício na natureza.
Melodia e Harmonia
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A melodia é uma sequência de sons únicos, enquanto a harmonia é uma combinação de sons executados simultaneamente em tons separados.
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Para Rousseau, a primeira forma de música só pode ter sido a melodia, que está mais próxima do grito de paixão que representa a origem da linguagem.
Da Melodia à Harmonia
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Rousseau vê a harmonia como uma adição desnecessária à expressividade pura da melodia, que rapidamente a ultrapassa, substituindo uma expressão artificial pela expressividade pura.
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A história da música é uma história de declínio, onde a música contemporânea perdeu toda a conexão com as paixões e degenerou em harmonia pura.
A Harmonia Suplementa a Melodia
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A história do declínio da melodia para a harmonia é mais complicada do que parece, e o que é consistentemente representado como extrínseco ao estado de natureza é, na verdade, intrínseco à sua autodefinição.
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A harmonia é um suplemento que revela uma falta, uma diferença originária, dentro do próprio natural.
Imitação da Vida
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A chave para desvendar a oposição entre melodia e harmonia é a ideia clássica de imitação ou “mimesis”, onde a arte imita ou reproduz o mundo natural.
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Rousseau argumenta que a melodia é uma imitação das inflexões da voz, mas se é uma imitação, não pode ser inteiramente natural.
Imitações Boas e Más
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A diferença entre melodia e harmonia não é uma questão de tipo, mas de grau, e Rousseau é forçado a distinguir entre uma forma “boa” de imitação e uma forma “má”.
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A própria possibilidade de imitação assegura uma morada para a falsidade, e a “boa” cópia sempre carrega dentro de si a ameaça da “má” cópia.
Melodia é Harmonia
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Se a imitação é a base da arte, Rousseau não pode sustentar a diferenciação entre melodia e harmonia com base em que uma é natural e a outra cultural.
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A imitação, seja boa ou má, sempre interrompeu a plenitude natural, e a melodia não é uma imitação mais simples ou fiel da natureza do que a harmonia.
A Não-origem da Música
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A harmonia não é simplesmente algo superadicionado a um momento original de presença pura, mas algo que revela uma falta inerente dentro do que deveria ser esse momento de presença.
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O que parece estar fora da natureza está sempre trabalhando dentro dela para torná-la o que deveria ser em primeiro lugar.
A Origem da Linguagem
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A análise da história da linguagem mostra que Rousseau organiza sua história em torno de um conjunto de oposições e hierarquias, mas cada um desses termos opostos reside em seu outro.
Norte e Sul
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A oposição entre paixão e necessidade se reflete na diferença entre línguas do norte e do sul, mas o que Rousseau descreve realmente mina esse conjunto de oposições.
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A tentativa de Rousseau de afirmar que a verdadeira origem da linguagem está no chamado Sul absoluto está em desacordo com o que ele descreve, pois as línguas têm, na melhor das hipóteses, uma posição relativa no mundo.
Paixão e Necessidade
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A diferença entre paixão e necessidade é interna a toda língua, e a incapacidade de Rousseau de distinguir entre línguas de necessidade e paixão aponta para a presença de uma suplementação originária.
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A linguagem da necessidade é um suplemento para a linguagem da paixão, sendo o desdobramento de “outra origem” que compensa o que a primeira origem não tem.
Acento e Articulação
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A oposição entre acento e articulação é o que permite a Rousseau diferenciar as línguas do sul das línguas do norte, mas o que sua própria conta revela é que o aparente “suplemento” é essencial para o que ele suplementa.
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A capacidade de articular o som é a base de toda a linguagem humana, e o que Rousseau apresenta como a ruína da linguagem é sua condição de possibilidade.
A Não-origem da Linguagem
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O que deveria estar fora do estado original da linguagem está trabalhando dentro da origem desde o início, e a linguagem não tem origem pura ou simples.
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A articulação já está presente na chamada linguagem natural, fornecendo a precisão que lhe falta, e a origem da linguagem é sempre já articulada.
A Origem da Escritura
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A escritura é o suplemento por excelência, e o que acontece quando a palavra escrita entra em cena é o triunfo final da diferença sobre a presença.
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A teoria da escritura de Rousseau encapsula toda a história do logocentrismo, e o que ele considera uma queda da presença é sempre uma queda dentro de uma suposta “presença”.
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A tentativa de Rousseau de provar a posterioridade da escritura o força a reescrever a história, mas se Homero sabia escrever, a teoria de Rousseau desmorona.
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A escritura não é uma adição que introduz mediação, mas um substituto que compensa uma fala que já é desprovida de vida, e o que a escritura revela é que o grito de paixão nunca foi puro.
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Toda a linguagem é articulada desde o início, e o que Rousseau busca reprimir ou excluir da linguagem está presente desde o início, razão pela qual a linguagem não tem origem pura, simples ou não mediada.
Conclusão
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A escritura está na origem não apenas da fala e da linguagem, mas de todo o programa do logocentrismo, e é esse suplemento na origem que condena toda tentativa de estabelecer uma metafísica da “presença”.
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O suplemento originário não é pensável dentro da lógica da metafísica, e a desconstrução deve continuar a emprestar todos os seus recursos da própria coisa que busca desconstruir.
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A desconstrução escapa da metafísica da presença por uma “largura de cabelo”, e a principal conquista da Gramatologia é definir, mapear e existir dentro desse espaço crítico vital.
Conclusão: Depois da Gramatologia
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A ausência de um final na Gramatologia é apropriada, pois a “escritura” excede consistentemente qualquer tentativa de defini-la como um conjunto de marcas empíricas fixas e transborda para o mundo “real” fora do livro.
Resumo
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A filosofia de Derrida baseia-se na premissa de que a tradição filosófica ocidental é uma metafísica da presença, e o logocentrismo é um de seus modos definidores.
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A aposta logocêntrica na fala é vítima de uma tensão básica, pois toda linguagem é caracterizada pelo estado essencial de mediação que o logocentrismo atribui apenas à “escritura”.
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A “escritura” não é apenas a condição da linguagem, mas também descreve o campo da consciência, percepção e experiência da “realidade”, e a gramatologia é a ciência de tudo.
História da Recepção
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A recepção da Gramatologia foi mais favorável nos departamentos de literatura, onde forneceu novas respostas a questões tradicionais sobre intencionalidade autoral e interpretação.
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A estrutura do traço originário tem profundas implicações éticas, pois a identidade de cada elemento é constituída pela referência a um outro que difere no espaço e no tempo.
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A virada ética na desconstrução tornou-se mais pronunciada nas décadas de 1980 e 1990, com textos que abordavam tópicos políticos concretos, e sua força política reside na afirmação de um futuro absoluto que nunca pode ser planejado ou realizado.
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A Gramatologia influenciou quase todas as disciplinas acadêmicas, e a obra de Derrida continua a ser de enorme interesse para filósofos, teóricos da tecnologia e filósofos da religião.
O Futuro
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O texto da Gramatologia ainda está à nossa frente, esperando para ser lido como se fosse a primeira vez, pois o que está em jogo é inesgotável, e o processo de leitura, interpretação e percepção está infinitamente aberto a outras possibilidades futuras.
