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estudos:derrida:1987-38-41-indiferenca

INDIFERENÇA

INDIFFERENZ; GLEICHGÜLTIGKEIT

DERRIDA, Jacques. De l'esprit: Heidegger et la question. Paris: Éditions Galilée, 1987. Tr. Marcondes Cesar.

Cada vez que se encontra a palavra “espírito” nesse contexto e nessa série, dever-se-ia assim, segundo Heidegger, reconhecer aí a mesma indiferença: não só quanto à questão do ser em geral mas quanto à do ente que somos, mais precisamente, quanto a esta Jemeinigkeit, este sempre-ser-meu do Dasein que não remete, de início, a um eu ou a um ego e que teria justificado uma primeira referência — pendente e finalmente negativa — a Descartes. O ser-meu faz do Dasein algo totalmente diverso de um caso ou um exemplo do gênero do ser como Vorhandene. Que é que, com efeito, caracteriza o Vorhandensein? Pois bem, justamente o fato de ser indiferente ao seu ser próprio, ao que lhe é próprio. Essa indiferença o distingue do Dasein que tem a preocupação com seu ser. Na verdade, ao ente como Vorhandene, seu ente não é sequer indiferente (gleichgultig). Não se dirá, sem antropomorfismo, que a pedra é indiferente a seu ser. Ela não é nem indiferente nem não-indiferente (weder gleichgultig noch ungleichgultig). Heidegger não se pergunta sobre esse ponto (parágrafo 9) e segundo as categorias que existem do animal. Teria, sem dúvida, algumas dificuldades para fazê-lo; mas voltaremos ao assunto. Em troca, ele preocupou-se em dizer, sobre o Dasein, que pode ser indiferente à questão do seu ser, precisamente porque não o é, porque pode também não sê-lo. Sua indiferença é, aqui, só uma modalidade de sua não-indiferença. Para ele, a quem o ser-meu só pode passar no discurso apelando a pronomes pessoais (eu sou, tu és), a indiferença (Indifferenz, desta vez e não Gleichgultigkeit) é ainda uma maneira de nos reportarmos, de nos interessarmos por nosso próprio ser, de não lhe sermos indiferentes. Esta última indiferença (Indifferenz) quanto ao seu ser próprio não tem nada que ver com a da pedra ou a da mesa. Caracteriza a cotidianidade do Dasein, o que reconduz tudo à média, essa Duschschnittlichkeit de que Heidegger se defende de ter pretendido denunciar como um fenômeno negativo. A indiferença neste caso “não é nada” mas um “caráter fenomênico positivo”.

Eis, pois, três tipos de indiferença. Há, primeiramente, a indiferença absoluta do ente vorhandene — a pedra está até aquém da diferença entre a indiferença e seu contrário. Há, em seguida, a indiferença (Indifferenz) como fenômeno positivo do Dasein. Há, ainda, em terceiro lugar, essa indiferença que, na história da metafísica, desde Descartes por exemplo, manifesta esta notável Bedürfnislosigkeit, nach dem Sein… zu fragen, essa falta de necessidade de questionar sobre o ser. E, inicialmente, sobre o seu ser próprio, sobre o ser do ente que somos. Essa última indiferença paralisa-se tanto diante dos pensamentos sobre a coisidade da coisa (res, substantia) quanto diante do pensamento sobre o sujeito (hypokeimenon). Por essa indiferença nos atemos a conceitos como os de espírito, alma, consciência, pessoa. Mas essas duas últimas manifestações da indiferença têm uma analogia entre si ou uma condição comum de possibilidade. Conduzem de modo necessário a limitar a questão do ser, a interpretar o “quem” do Dasein: como algo que perdura numa identidade substancial do tipo do Vorhandensein ou do sujeito como Vorhandensein. Logo, mesmo protestando contra a substancialidade da alma, a coisificação da consciência ou a objetividade da pessoa, continua-se a determinar ontologicamente o “quem” como sujeito subsistente, na forma de Vorhandenkeit. O “espírito” que se reconhece é, então, ele mesmo afetado por essa subjetividade substancial e essa Vorhandenheit. Ora, qual é a raiz dessa interpretação que faz do “quem” uma substância que perdura? É um conceito vulgar de tempo. O conceito de espírito deve então ser evitado enquanto se funda ele mesmo numa tal interpretação do tempo. Heidegger o submete à Destruktion ao longo dessa delimitação (Umgrenzung) da analítica do ser-aí. Dizer que a essência deste é “existência” no sentido que Heidegger então lhe dá é dizer também que “a ‘substância’ do homem não é o espírito como síntese da alma e do corpo mas a existência” (parágrafo 25, p. 117).

Notemos de passagem que esse conceito da indiferença não dá nenhum meio de situar o animal. Este, Heidegger reconhece alhures, não é certamente um Vorhandene. Não tem, pois, a indiferença absoluta da pedra, mas não tem, contudo, parte no “nós” questionante, ponto de partida da analítica do Dasein. Não é Dasein. Será então indiferente ou não-indiferente e em que sentido?

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