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Inacessível

ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Apprehending the Inaccessible: Freudian Psychoanalysis and Existential Phenomenology. Evanston: Northwestern University Press, 2018.

Prefácio

1. A apreensão do inacessível, compreendida como acesso às dimensões ocultas da experiência humana, admite diferentes abordagens na tradição ocidental, cujo exame encontra um eixo privilegiado nas relações históricas e filosóficas entre a psicanálise freudiana, a fenomenologia husserliana e as principais formas da fenomenologia existencial.

2. A teoria metapsicológica e a prática terapêutica de Freud constituem um ponto de partida privilegiado para essa investigação porque seus pressupostos filosóficos fundamentais ainda carecem de uma exposição suficientemente clara e sistemática, enquanto sua reconhecida contribuição à compreensão da natureza humana frequentemente encobre o caráter de acumulação, elaboração e síntese de ideias históricas que distingue a psicanálise; mesmo as pesquisas sobre suas origens tendem a privilegiar influências científicas, como Brücke, Breuer, a escola de Helmholtz e Darwin, deixando em segundo plano as tradições filosóficas que fundamentam essas posições e lhes são transcendentalmente anteriores.

3. A formação intelectual de Freud abrangia tanto as ciências quanto as humanidades, reunindo competência especializada em neuroanatomia e fisiologia a um conhecimento amplo dos clássicos gregos e latinos e das literaturas alemã, inglesa, francesa, italiana e espanhola.

4. A distribuição equilibrada dos livros remanescentes das bibliotecas de Freud entre ciências e humanidades confirma essa amplitude intelectual, enquanto a presença de obras de Platão, Montaigne, Bacon, Locke, Hume, Kant, Goethe, Feuerbach, Schopenhauer, Nietzsche e Theodor Lipps, em uma coleção altamente seletiva, evidencia a importância de suas afinidades filosóficas, também reconhecível na escolha de figuras como Platão, Bacon, Goethe, Kant, Voltaire, Darwin, Schopenhauer e Nietzsche como exemplos de verdadeira grandeza.

5. As contribuições freudianas à compreensão das dimensões ocultas da experiência humana permanecem insuficientemente assimiladas pela filosofia e pela cultura, pois a ampla difusão de suas ideias e a influência que exerceram não correspondem necessariamente a um conhecimento efetivo de seu alcance, conforme reconhecem, por perspectivas distintas, Richard Rorty e Peter Gay.

6. A incorporação cultural de algumas descobertas freudianas foi acompanhada pelo esquecimento e pela deformação de outras, produzindo uma imagem caricatural que obscurece a possibilidade de compreender o inconsciente, o complexo de Édipo, o simbolismo sexual e a história filogenética como vias de acesso ao inacessível; a desqualificação dessas ideias, frequentemente reduzidas a motivos de piada, prolonga a indignação suscitada por Freud em sua época e torna necessário interrogar por que concepções consideradas manifestamente falsas provocariam uma oposição tão intensa.

7. Na perspectiva freudiana, reações de hostilidade tão acentuadas indicam resistências psíquicas e o encobrimento de verdades sobre si mesmo que não se consegue enfrentar, permitindo compreender tanto o desalento de Freud diante da inacessibilidade da verdade quanto a ameaça representada por suas descobertas às imagens complacentes da condição humana e aos sistemas filosóficos que procuravam elevá-la acima dos impulsos animais elementares.

8. A importância da contribuição freudiana à apreensão do inacessível torna-se mais nítida mediante o confronto com a fenomenologia de Husserl e com as filosofias de Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty, desde que sejam esclarecidas as incompreensões recíprocas e as oportunidades perdidas de interlocução, tornando possível reconhecer o que cada tradição pode oferecer à outra e desenvolver uma compreensão mais abrangente e consistente das dimensões ocultas da experiência humana.

A metodologia empregada na abordagem da apreensão do inacessível

1. O acesso às dimensões ocultas do psiquismo humano, consideradas tanto em sua generalidade quanto em sua singularidade individual, pode seguir um método regressivo e arqueológico, compartilhado por psicanalistas e fenomenólogos existenciais, que consiste em penetrar nas profundidades da existência e configura uma aplicação fenomenológico-filosófica da própria psicanálise.

2. A metodologia regressiva e arqueológica encontra expressão no desenvolvimento da psicanálise freudiana, tanto na investigação quanto na prática terapêutica, na qual o material manifesto apresentado pelos pacientes deixa de constituir um dado suficiente em si mesmo e passa a funcionar como conjunto de indícios e sintomas que possibilitam descobrir o material latente e inconsciente subjacente.

3. Na investigação freudiana, o ponto de partida científico frequentemente conduz ao retorno à sabedoria dos povos antigos e primitivos, permitindo recuperar intuições encobertas pelos processos repressivos da evolução social e reintegrá-las ao conhecimento científico em uma síntese mais profunda, movimento que também orienta o exame filosófico dos conteúdos manifestos e latentes da própria psicanálise.

4. O exame aprofundado de Freud e de sua herança filosófica cumpre diferentes finalidades complementares, relacionadas à compreensão de sua teoria, à recuperação de suas contribuições, à avaliação de seus resultados e ao esclarecimento das críticas fenomenológicas.

5. A identificação das influências filosóficas mais decisivas sobre a capacidade de síntese de Freud permite compreender sua teoria de maneira mais profunda, reconhecendo nele um resultado consciente e inconsciente de contribuições de Empédocles, Platão, Bacon, dos filósofos iluministas, de Kant, do romantismo, de Nietzsche e, sobretudo, de Schopenhauer.

6. A aplicação direta do método psicanalítico de retorno à origem à própria formação da psicanálise permite esclarecer suas contribuições fundamentais, restabelecer uma apreciação mais equilibrada de seu significado e renovar a consciência de sua importância.

7. A compreensão mais aprofundada daquilo que Freud procurava expressar, tanto consciente quanto inconscientemente, oferece melhores condições para avaliar em que medida sua investigação efetivamente tornou acessíveis dimensões antes inacessíveis da experiência humana.

8. A reconstrução do contexto histórico e filosófico da psicanálise freudiana permite avaliar com maior clareza a consistência das críticas formuladas pela fenomenologia existencial e identificar os temas fundamentais que sustentam esse diálogo, como o corpo, a causalidade, a liberdade, o sentido e os fenômenos inconscientes.

9. A investigação das relações entre Freud e os fenomenólogos existenciais assume, assim, simultaneamente o caráter de uma pesquisa fenomenológica genética e de uma análise psicanalítica do desenvolvimento histórico da teoria e da prática freudianas.

Panorama metodológico

1. A investigação da formação filosófica de Freud, concebida como uma “filosofografia”, situa sua capacidade de síntese no fluxo das tradições filosóficas ocidentais e de ideias amadurecidas ao longo de milênios, considerando inicialmente sua atitude diante da filosofia, seu conhecimento dessa disciplina e sua compreensão do próprio lugar nessa confluência histórica, para então estabelecer uma apresentação inicial da metapsicologia e da terapêutica que explicite os fundamentos gerais da psicanálise.

2. O percurso arqueológico regressivo parte dessa apresentação inicial para investigar as raízes científicas iluministas reivindicadas por Freud e seus fundamentos na filosofia grega, aprofundando o exame das influências de Empédocles e Platão, da recuperação romântica de concepções integradoras da natureza e da importância de um ensaio atribuído a Goethe para sua decisão de tornar-se cientista; a passagem pelo romantismo conduz a Schopenhauer e Nietzsche, decisivos no ambiente intelectual de sua formação, e culmina nos pensadores contemporâneos que influenciaram tanto Freud quanto Husserl, preparando o exame das críticas dirigidas à psicanálise pelos principais fenomenólogos existenciais.

3. A relativa contemporaneidade entre psicanálise freudiana e fenomenologia existencial corresponde a uma herança filosófica parcialmente compartilhada, embora cada tradição tenha assimilado os elementos mais próximos de sua própria compreensão da realidade humana, originando divergências especialmente sobre a liberdade, a existência corporal e a possibilidade do inconsciente; o diálogo entre ambas abre a perspectiva de sínteses ou aproximações capazes de ampliar suas respectivas contribuições à compreensão humana do inacessível.

Limitações de escopo

1. A complexidade da abordagem exige a delimitação de seu alcance por meio de restrições relativas ao uso de bibliografia secundária, à seleção dos interlocutores fenomenológicos, à abrangência das correntes psicanalíticas e ao tratamento das influências positivistas.

2. O recurso à bibliografia secundária permanece reduzido ao mínimo necessário, embora seu valor seja reconhecido, para evitar que a multiplicação de referências introduza uma complexidade excessiva, obscureça as linhas da investigação e ultrapasse os limites de um empreendimento já amplo.

3. A interlocução fenomenológica restringe-se aos representantes clássicos — Husserl, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty —, cujos confrontos com Freud apresentam relevância substancial para o problema investigado.

4. O alcance da investigação não comporta o exame das diversas ampliações e reformulações da psicanálise, como a psicologia do ego de Hartmann, as teorias das relações de objeto de Mahler e Fairbairn, a integração dessas teorias com a teoria freudiana das pulsões realizada por Modell, a psicanálise interpessoal de Sullivan, a psicologia analítica de Jung, a teoria adleriana, a psicologia do narcisismo de Kohut e a reformulação kleiniana.

5. A reconstrução histórica das influências filosóficas sobre Freud reconhece a importância do positivismo, mas limita sua exposição a traços gerais, em razão do tratamento extenso e amplamente difundido que essa influência já recebeu.

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