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ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Apprehending the Inaccessible: Freudian Psychoanalysis and Existential Phenomenology. Evanston: Northwestern University Press, 2018.

Introdução: o tema da apreensão do inacessível na filosofia ocidental

1. A meditação e a ação exigem a distinção entre aquilo que é acessível e aquilo que permanece inacessível, pois a ausência desse discernimento compromete tanto as realizações da vida quanto os avanços do conhecimento, conforme a advertência de Goethe.

2. O conhecimento de si encontra poderosas defesas que geralmente permitem perceber apenas as próprias muralhas exteriores, enquanto a fortaleza interior permanece inacessível e até invisível, a menos que amigos e inimigos revelem caminhos secretos capazes de transpor essas defesas, segundo a imagem de Nietzsche.

3. Os segredos últimos e fundamentais encontram-se no interior do próprio ser humano, cuja relação imediata consigo mesmo oferece, para Schopenhauer, a possibilidade privilegiada de descobrir a chave do enigma do mundo e uma indicação da natureza íntima de todas as coisas.

4. O id constitui, na formulação freudiana, a região obscura e inacessível da personalidade, assinalando a presença de uma dimensão psíquica que escapa ao conhecimento imediato de si.

5. O mistério corresponde, na formulação de Heidegger, àquilo que se manifesta precisamente como inacessível, de modo que sua manifestação não elimina o caráter de inacessibilidade.

O “inacessível” na história da filosofia

1. A filosofia ocidental caracteriza-se pela busca persistente de domínios considerados raramente acessíveis, ou inteiramente inacessíveis, à experiência direta e indireta, mas frequentemente reconhecidos como fundamento dos entes ou do próprio ser, razão pela qual seu desvelamento e esclarecimento, dentro dos limites possíveis, constituem tarefas centrais tanto da filosofia quanto da psicanálise.

2. A procura de uma dimensão subjacente à multiplicidade dos fenômenos assume formas distintas na história filosófica, desde o ápeiron de Anaximandro, o logos de Heráclito e o ser uno de Parmênides até o Bem platônico e o suporte desconhecido das sensações em Locke, encontrando uma inflexão decisiva na revolução copernicana de Kant, que distingue o mundo fenomênico acessível à experiência do mundo numênico que existe sem poder ser experimentado.

3. A distinção kantiana entre acessível e inacessível constitui um ponto de articulação decisivo para os desenvolvimentos que posteriormente conduzem à psicanálise, pois, embora a primeira Crítica restrinja o conhecimento ao mundo fenomênico e considere o númeno inteiramente inacessível, a reflexão sobre finalidades ocultas da natureza e sobre fins promovidos inconscientemente pelos seres humanos abre caminho para a concepção de uma dimensão subjacente e constitutiva da existência; esse desenvolvimento prolonga-se na natureza compreendida como espírito pelos românticos, na astúcia da razão hegeliana, que realiza seus fins ocultos no autoconhecimento do absoluto, e na análise marxiana da ideologia, pela qual a infraestrutura econômica governa ações e ideias sem que seus agentes tenham consciência disso.

4. A investigação do oculto adquire particular importância em Schopenhauer e Nietzsche, cujas concepções de vontade cósmica, desejos inconscientes, vontade de potência e id antecipam aspectos fundamentais da psicanálise freudiana, posteriormente decisiva para diversas correntes da filosofia continental; entre essas correntes, a fenomenologia existencial desenvolve suas próprias compreensões do inacessível, como a clareira e o encobrimento em Heidegger, o vivido no último Sartre e a dimensão pré-reflexiva da experiência do corpo vivido em Merleau-Ponty.

5. A crença em algo transcendente ao mundo empírico ou insondavelmente imanente a ele acompanha diferentes momentos da história humana e frequentemente exige novas maneiras de apreender aquilo que não se oferece de imediato, enquanto até as posições que rejeitam a existência de um domínio inacessível precisam se pronunciar sobre ele, circunstância interpretada por alguns de seus defensores como uma forma indireta de legitimação e confirmação.

Freud e o inacessível

1. A contribuição decisiva de Freud consiste em introduzir uma via de apreensão do inacessível na vida dos indivíduos mediante uma teoria da natureza humana e técnicas terapêuticas que, com as concepções de id e inconsciente, renovam a compreensão das dimensões ocultas constitutivas de cada pessoa, conferindo às intuições de poetas e artistas sobre o mistério de si o respaldo daquilo que Freud considerava ciência e exercendo influência sobre praticamente todos os âmbitos da vida cotidiana.

Freud e a fenomenologia existencial

1. Freud, Husserl, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty pertencem a um horizonte histórico e filosófico aproximadamente comum, compartilham questões e heranças intelectuais e mantêm relações pessoais que aproximam seus respectivos meios, mas essa proximidade não conduz à aceitação generalizada da psicanálise pelos fenomenólogos existenciais, pois Heidegger reage intensamente à metapsicologia, Sartre manifesta profunda ambivalência e Merleau-Ponty, embora mais receptivo, identifica em Freud uma adesão ao mecanicismo e à redução da existência humana a uma ontologia de coisas.

2. A crítica fenomenológico-existencial pode ser compreendida como uma reação a Freud enquanto representante do materialismo cientificista e figura de autoridade supostamente ameaçadora da liberdade e da responsabilidade, assumindo metaforicamente a forma de um parricídio; ao reduzir a metapsicologia a uma expressão isolada de cientificismo equivocado, essa crítica corre o risco de desconsiderar suas profundas raízes filosóficas e de contrariar a própria exigência fenomenológica de compreender as teorias no movimento integral de sua formação histórica.

3. A responsabilidade pelas incompreensões recíprocas também envolve Freud, cuja aparente negação da liberdade humana, redução do livre-arbítrio a uma compulsão psíquica e atribuição à ciência de um acesso privilegiado à verdade e ao conhecimento intensificam o antagonismo com a filosofia, tornando necessário esclarecer as contribuições que cada tradição pode oferecer à outra para desenvolver uma abordagem mais abrangente da apreensão do inacessível.

Considerações preliminares sobre o inacessível

1. O termo “inacessível” designa literalmente aquilo de que não se pode aproximar ou que não se pode alcançar, conforme sua origem no latim tardio inaccessibilis e no verbo accedere, formado pelos elementos que indicam movimento em direção a algo, mas essa aparente simplicidade etimológica encobre ambiguidades decisivas e diferentes níveis de interpretação que podem ser considerados separadamente, relacionados entre si ou compreendidos simultaneamente.

2. A inacessibilidade apresenta três sentidos interligados: o transcendente, relativo àquilo que jamais pode integrar qualquer experiência humana cognoscível, como o mundo numênico kantiano; o imanente, no qual certas dimensões do inacessível se manifestam sem permitir sua apreensão em si mesmo, permanecendo o real e sua aparição ontologicamente inseparáveis; e o eliminável, referente àquilo que permanece inacessível por falta de uma abordagem adequada, pela presença de obstáculos e distorções ou pelo esquecimento, mas pode tornar-se parcialmente acessível mediante a descoberta de novos caminhos, a remoção dos impedimentos ou a recuperação do que foi esquecido.

3. A psicanálise freudiana, a fenomenologia husserliana e a fenomenologia existencial relacionam-se, de maneiras distintas, com esses sentidos interdependentes da inacessibilidade, apresentando convergências importantes que permitem aproximar suas respectivas investigações.

4. A inacessibilidade pode atingir tanto os pressupostos que permanecem desconhecidos pelos próprios pensadores, como as bases filosóficas da metapsicologia freudiana ou as razões da insuficiente consideração heideggeriana da existência corporal apontada por Merleau-Ponty, quanto os próprios domínios investigados, como as dimensões da natureza humana em Freud, as questões ontológicas em Heidegger, a existência corporal pré-reflexiva em Merleau-Ponty e a manifestação pré-reflexiva do projeto de tornar-se em-si-para-si em Sartre, entrelaçando diferentes níveis de sentido e modos criativos de expressão daquilo que escapa à compreensão.

5. A expressão “apreender o inacessível” apresenta um paradoxo aparente, pois parece impossível alcançar aquilo de que não se pode aproximar, mas essa dificuldade pode ser esclarecida pela distinção entre conhecer o inacessível em si mesmo e perceber seus efeitos, experimentar sua presença sem reconhecê-la ou apreender aspectos de sua manifestação sem alcançar sua totalidade, possibilidades fundamentais para a psicanálise e para a fenomenologia.

6. A experiência terapêutica freudiana procura tornar conscientes os conteúdos reprimidos da infância e eliminar resistências para ampliar o autoconhecimento e o domínio dos impulsos, embora o id permaneça concebido como um substrato inimaginável de formas desconhecidas, assim como a ansiedade pode manifestar um sentido recalcado ignorado pelo indivíduo; de maneira semelhante, na psicanálise existencial de Sartre, uma preferência pode exprimir uma escolha original desconhecida ou a má-fé pode coexistir com a convicção de autenticidade, evidenciando que algo pode tornar sua presença sensível e continuar misterioso, enquanto a insuficiência do intelecto para aprofundar essa experiência contrasta com a necessidade de recorrer a ele para descrevê-la.

7. A aproximação entre a psicanálise freudiana, a fenomenologia husserliana e a fenomenologia existencial permite esclarecer duas grandes configurações de investigação que já alcançaram resultados importantes na apreensão do inacessível, cujo diálogo pode fortalecer reciprocamente suas possibilidades e ampliar o conhecimento das dimensões ocultas da experiência humana.

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