2.6 Integração
ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Of philosophers and madmen: a disclosure of Martin Heidegger, Medard Boss, and Sigmund Freud. Amsterdam: Rodopi, 2011.
Conclusão: Rumo a uma Integração entre Psicanálise e Ontologia Fenomenológica
1. A psicologia só se separou da filosofia como disciplina autônoma no século XIX, divisão para a qual Sigmund Freud contribuiu decisivamente com sua adesão à metodologia científica, que logo se tornou um dos principais pontos de discórdia entre psicanálise e filosofia fenomenológica, já que Freud estava convicto de que sua metapsicologia poderia fundamentar o pensamento filosófico e toda investigação humana, enquanto Martin Heidegger se horrorizava com o uso do cientificismo para compreender o sentido da existência e sustentava que é a filosofia que fundamenta a compreensão de qualquer ente, oposição que parece inconciliável, mas que, examinada mais a fundo, revela a possibilidade de uma relação complementar entre as duas visões de mundo, capaz de propiciar uma compreensão mais holística do ser humano.
2. Os psicanalistas suíços Ludwig Binswanger e Medard Boss estiveram entre os primeiros a considerar que psicanálise e fenomenologia não eram inteiramente excludentes, mas ambas as abordagens são vulneráveis a críticas devastadoras das perspectivas heideggeriana e freudiana, pois a adaptação de Ser e Tempo por Binswanger resultou num mal-entendido criativo convertido em antropologia filosófica, excessivamente centrada na análise ôntica e alheia à dimensão ontológica da condição humana, além de vista por Freud como mera abstração filosófica esotérica, enquanto Boss, mais fiel aos objetivos de Heidegger, tentou fundir psicanálise e fenomenologia a partir da concepção de liberdade, ignorando a primazia da liberdade ontológica como base da liberdade existencial e interpretando erroneamente a concepção freudiana como envolvendo alguma escolha existencial, de modo que, apesar de seus valentes esforços, nenhum dos dois estabeleceu relações harmoniosas entre a filosofia de Heidegger e a psicanálise de Freud.
3. Outra via de reaproximação entre psicanálise e ontologia fenomenológica foi aberta por Friedrich Nietzsche, atuando como psicólogo, ao sublinhar com perspicácia e insistência a importância de identificar os motivos, fundados nos instintos, pelos quais se sustenta determinada posição filosófica, razão pela qual a psicologia se tornaria o caminho para os problemas fundamentais, tese com a qual Freud concordava plenamente e que inspirou suas psicografias de grandes pensadores, baseadas na ideia de que em nenhuma ciência a personalidade do pesquisador pesa tanto quanto na filosofia e de que a psicanálise pode indicar os motivos subjetivos e individuais, os complexos dependentes dos instintos, por trás das teorias filosóficas.
4. Embora Freud não tenha aplicado essa ideia a Heidegger, seu antigo protegido Carl Jung o fez no espírito freudiano, qualificando o modo de filosofar heideggeriano como neurótico de ponta a ponta e enraizado em sua excentricidade psíquica, e afirmando que a filosofia, feita por seres humanos, depende alarmantemente de sua constituição psíquica, que não há pensamento enquanto tal, que muitas vezes importa menos o que se pensa do que quem pensa e que a neurose perturba o cérebro de todo filósofo por estar em desacordo consigo mesmo, convertendo sua filosofia numa luta sistematizada com a própria incerteza, ponto este com o qual o próprio Heidegger concordaria ao situar a filosofia na perigosa vizinhança da suprema incerteza, de modo que, sendo as ideias dependentes da constituição psicológica de quem as gera, torna-se possível uma análise consistente das motivações inconscientes de Heidegger, já que compreender a constituição psíquica de um pensador contribui muito para entender o funcionamento de certas ideias em sua visão de mundo, sem reduzir a reflexão filosófica a motivações inconscientes nem incorrer na falácia genética, pois a validade de uma ideia difere de suas origens psicológicas, mas estas ajudam a compreender por que surgiu em determinada pessoa e o que significa para seu desenvolvimento intelectual e emocional.
5. A filosofia de Heidegger, por sua vez, oferece contribuições próprias à psicanálise, como a análise consistente das condições ontológicas pressupostas que tornam possível todo sentido, explicando inclusive como Freud pôde gerar sua teoria, a fundamentação ontológica da espacialidade, temporalidade e sexualidade do ego corporal mencionado por Freud, uma explicação alternativa e complementar de como o ocultamento é o inacessível manifestando-se, e a recuperação do sentido grego originário de análise como atividade libertadora que livra alguém do cativeiro, libertando analistas e analisandos de compromissos ontológicos irrefletidos para deixar os entes ser, sem construções dogmáticas e imposições conceituais, abrindo-se verdadeiramente ao que se presentifica tal como se presentifica e ampliando o horizonte de possibilidades para um autoconhecimento genuíno.
Analisando Heidegger
1. No ato de abertura da peça De Filósofos e Loucos, Heidegger aparece apático, intensamente ansioso, deprimido e transtornado, respondendo com frases desconexas que indicam grande sofrimento, como a repetição compulsiva de que nada importa, aparentemente ouvindo vozes, sentindo-se perseguido e incompreendido, experimentando a dissolução do senso de si, obcecado por ideias estranhas e expressando-se em abstrações bizarras, sinais que levariam naturalmente a concluir que um filósofo de renome mundial sofre de algum transtorno mental.
2. Esse encontro histórico concreto, embora fictício, entre Heidegger e a psicanálise oferece a ocasião para reconsiderar a relação entre visões de mundo filosóficas e aquilo que se define como transtornos mentais, da neurose à psicose, indagando se há entre elas uma correlação identificável, por que uma é tão facilmente confundida com a outra e, sobretudo, por que filósofos eminentes costumam ter personalidades depressivas.
3. Aristóteles foi o primeiro a notar que todos os que se tornaram eminentes na filosofia apresentam temperamento atrabiliário, alguns a ponto de adoecer, e a afirmar que o gênio sempre contém um toque de loucura, observações confirmadas por uma proporção desmedidamente alta dos maiores gênios filosóficos da tradição ocidental com personalidades gravemente depressivas ou suicidas, como Pascal, Voltaire, Hume, Rousseau, Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Mill, Kierkegaard, Comte, James, Santayana, Russell, Wittgenstein, Husserl e Camus, lista à qual se pode acrescentar Heidegger.
4. Sendo a vida mental da criança importante para a compreensão psicológica dos conceitos filosóficos, cabe perguntar se esses pensadores partilharam algum tipo específico de evento traumático infantil, e de fato muitos dos filósofos mais proeminentes perderam um ou ambos os pais na infância, como Montaigne, Hobbes, Descartes, Pascal, Spinoza, Leibniz, Voltaire, Hume, Rousseau, Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Russell e Sartre, quase todos também de personalidade melancólica, correlação alta demais para ser ignorada e que provavelmente influenciou o desenvolvimento de suas filosofias.
5. Os estados melancólicos de Heidegger não se limitaram ao colapso mental do pós-guerra, pois, segundo seu principal biógrafo, Rüdiger Safranski, ele mergulhou em depressões profundas em numerosos episódios ao longo da vida, Boss relatou suas recaídas esporádicas em depressão profunda durante férias conjuntas e Hannah Arendt mencionou seus períodos recorrentes de depressão, evidências claras de uma personalidade depressiva, mas, ao contrário dos demais filósofos citados, Heidegger não perdeu os pais na infância, tendo 35 e 38 anos quando morreram o pai e a mãe, o que exige buscar outros indícios de trauma infantil.
6. Um traço marcante da juventude de Heidegger foi sua relação tumultuosa e ambivalente com a Igreja Católica, cujos valores lhe foram incutidos desde cedo pelos pais e aos quais se sentia envergonhado de ter de se adaptar por depender dela financeiramente para os estudos, embora ainda em 1910 considerasse dádiva o tesouro de verdade da Igreja, passando depois a elaborar uma crítica da filosofia católica que não ousava expressar publicamente, declarando o sistema do catolicismo problemático e inaceitável e esse tesouro de verdade uma ilusão por volta dos vinte e poucos anos, ruptura que descreveu como dolorosa, um espinho cravado na carne, e que horrorizou os pais, a ponto de, à beira da morte da mãe em 1927, sofrer por ser visto por ela como um filho que abandonara a fé.
7. Heidegger cresceu num ambiente histórico fortemente moralista, propenso a chocar-se com seus impulsos libidinais, tensão que ele próprio reconheceu ao exortar a matar as coisas baixas em si para ressuscitar pela graça e ao falar de ser movido por forças e impulsos internos, e que contrasta com as cartas a Hannah Arendt durante o romance, nas quais trata o encontro como dádiva a não ser deformada pelo autoengano sobre a pureza da vida, menciona o demoníaco que irrompeu nessa relação, a necessidade de manter os instintos sob controle e um desejo cada vez menos controlável, e denuncia compromissos, moralismos e fugas que inibem a providência do ser, tornando crucial manter o caso em absoluto segredo diante da esposa, dos pais, da comunidade de Messkirch e sobretudo da Igreja Católica, cujos valores informavam quase todos, razão pela qual enviava a Arendt bilhetes cifrados que pedia que destruísse.
8. Em O Mal-Estar na Civilização, Freud oferece uma explicação clara para tensões psicológicas semelhantes, segundo a qual em muitos adultos a comunidade humana mais ampla ocupa o lugar do pai ou dos pais, levando-os a permitir-se qualquer ato condenável que prometa prazer desde que a autoridade não o saiba ou não possa culpá-los, temendo apenas ser descobertos, e a consciência moral expressa diretamente o medo da autoridade externa, derivando do conflito entre a necessidade de seu amor e o impulso à satisfação instintiva, tensão que, do ponto de vista freudiano, constitui parte central do pano de fundo da trajetória histórica de Heidegger.
9. Quanto a uma eventual culpa consciente ligada ao caso, Heidegger reconheceu em particular a Arendt, na segunda carta após a reconciliação de 1950, sua culpa por tê-lo ocultado da esposa, mas fora disso não há indícios de culpa consciente, o que, segundo Freud, exige buscar ações que indiquem culpa inconsciente, como sugere a observação de Safranski de que Heidegger, justamente em carta a Elisabeth Blochmann, tratou do aspecto do mal no nada, incluindo a tentação pelo mal, talvez ligado a um irresistível sentimento de ser um sedutor, e sua menção aos que, ávidos de intensidade e alheios à moral, se permitem experimentar o mal como experiência selvagem e estranhamente sedutora, descrição à qual o romance com Arendt parece corresponder exatamente.
Filosofia e Loucura
1. Alguns filósofos e psicólogos notaram uma afinidade entre filosofia e transtornos mentais ou loucura, como Schopenhauer, que no século XIX, contra a tese de Fichte de que gênio filosófico e loucura são polos opostos, defendeu, na esteira de Platão e Demócrito, seu estreito parentesco, envolvendo epifanias metafísicas ou perdas que transcendem a experiência cotidiana e se manifestam sobretudo como perda de vínculo com o presente e com os particulares, observação também feita, em níveis distintos, pelos dois filósofos mais influentes do século XX, Wittgenstein, para quem o filósofo deve curar-se de muitas doenças do entendimento, inclusive de uma predileção obsessivo-compulsiva pela especulação metafísica que exige terapia imediata, sendo a verdadeira descoberta a que permite parar de filosofar quando se quer e dá paz à filosofia, e Heidegger.
2. Ao longo dos Seminários de Zollikon, Heidegger observou que a perspectiva filosófica excludente e dominante da era moderna sobre a existência humana, a hiper-racionalidade e o cientificismo, cuja obsessão constitui uma forma de loucura em escala global, se espelha nos transtornos mentais individuais, assim como, antes dele, o homem do subsolo de Dostoiévski, dotado de consciência aguda, seria visto como louco pela sociedade, pois a visão de mundo filosófica da pessoa comum restringe as possibilidades do indivíduo e da sociedade, constrição que precisava ser aberta e diante da qual Heidegger ofereceu à psicologia um caminho para libertar-se de sua visão de mundo indevidamente restritiva e excludente.
3. O psicólogo Louis Sass observou estreitos paralelos entre as visões de mundo de muitos esquizofrênicos e as de filósofos, partilhando com Heidegger a ideia de que filósofos e certas formas de transtorno mental têm características essenciais em comum, como a preocupação com uma forma intensificada de consciência que envolve ou uma ocupação exclusiva e dominante com a razão ou outro modo de alienação.
4. Entre as principais semelhanças à primeira vista entre transtornos mentais e reflexão filosófica destacam-se o recurso a modos de pensar alternativos aos da pessoa comum e da visão dominante da sociedade, a consequente experiência de diversas formas de alienação em relação ao grupo que representa a normalidade, o enorme dispêndio de energia com ideias abstratas e o tormento causado por problemas de orientação metafísica e, por fim, uma forte concentração introspectiva.
5. Tais semelhanças são em parte compreensíveis, já que esses filósofos mergulharam profundamente no sentido e no valor da própria existência, e o esforço de pensar a fundo pode, em casos extremos, manifestar-se como condição patológica, conduzindo suas ruminações facilmente, no mínimo, à depressão, como na conclusão comum a Heidegger e Nietzsche de que a mera existência é um fardo com o qual se precisa lidar para viver, perspectiva certamente deprimente para a maioria das pessoas.
6. Nietzsche e Dostoiévski, argutos observadores da psicologia humana, concluíram independentemente que a consciência aguda, embora identifique os aspectos do universo que importam e por quê, é ao mesmo tempo perigo e doença, e, somando-se a isso o fato de que filosofia e loucura envolvem modos de pensar alternativos à norma cotidiana, não surpreende que ambas se sobreponham substancialmente, cabendo a Heidegger e a Freud oferecer, cada um a seu modo, maneiras poderosas de lidar com essas formas de consciência aguda.
7. Em sua filosofia inicial, Heidegger contestou, por meio de modos agudos de consciência, a pretensão de exclusividade da racionalidade na caracterização adequada da existência humana, atitude que ironicamente foi tomada por alguns como prova adicional de sua insanidade, já que a tradição define a loucura, em termos amplos, como irracionalidade, declínio ou desaparecimento do papel dos fatores racionais na organização da conduta e da experiência humanas, concepção dominante desde Platão, para quem a loucura é a alma racional sucumbida aos apetites, e presente ainda na metapsicologia freudiana, quando um dos objetivos de Heidegger era justamente servir de divisor de águas contra o domínio da racionalidade iluminista.
8. Outro objetivo da consciência aguda de Heidegger era desvelar o sentido mais profundo e originário da existência humana, no que o psiquiatra Karl Jaspers apontou um paralelo significativo com a loucura, pois muitos considerados loucos julgam ter apreendido os sentidos mais profundos e vivido experiências metafísicas, ponto que Heidegger, numa resenha da Psicologia das Visões de Mundo de Jaspers, rejeitou como filosofia entendida como autoflagelação.
9. Louis Sass relatou, contudo, diversos modos pelos quais pacientes com doenças mentais graves espelham preocupações centrais da filosofia inicial de Heidegger, como a obsessão com o fato de haver objetos, isto é, por que há algo em vez de nada, a fixação da atenção no mero ser de um objeto particular e a dificuldade de usar palavras cotidianas, adequadas a objetos discretos, para descrever aspectos ontológicos da unidade indissoluvelmente interconectada do mundo vivido, esforço que faz parecer louco, como atestam as críticas a Heidegger e a zombaria de Carnap diante da tese de que o nada nadifica, a quem não compreende ou não simpatiza com o que se tenta transmitir, problema que pacientes mentais também experimentam.
10. Um paralelo negligenciado por Sass é que Heidegger, como alguns esquizofrênicos, via-se como uma espécie de canal para a manifestação de outro ser, ao afirmar que algo pensa nele e que não consegue resistir, num pensar do Ser através de si.
11. Essas semelhanças giram por vezes em torno da questão do sentido da vida, que muitos levantam em algum momento, mas que talvez distinga filósofos e pessoas com transtornos mentais da população normal pela intensidade da atenção que lhe dedicam, sobretudo quando exclui outras preocupações, e à qual Heidegger e Freud responderam, num certo nível, da mesma forma, negando qualquer sentido global ou profundo da existência humana, reconhecimento que implica inicialmente o colapso da significância na condição humana, mas diante do qual reagiram de modos muito distintos, vendo Heidegger nele a oportunidade de apropriar-se das próprias possibilidades e criar a própria existência, e Freud uma doença a ser tratada, na qual o paciente precisa reengajar suas emoções, liberar as energias bloqueadas e envolver-se novamente na vida cotidiana.
12. O confronto entre as perspectivas de Heidegger e de Freud se ilustra vivamente na peça, pois, do ponto de vista heideggeriano, quando o paciente vive a angústia genuína, os profissionais da comunidade psicológica, como terapeutas, psiquiatras e analistas, não apenas deixam de reconhecê-la, mas a confundem com uma ansiedade redutível a alguma forma de medo e tentam eliminá-la por diversos métodos, buscando curar um aspecto intrínseco da condição humana com meios que agravam a situação, perigo contra o qual se deve advertir a todo custo.
13. A base dos problemas psicológicos de Heidegger residia, porém, predominantemente na alienação em relação às emoções, aos instintos e ao corpo, pois para ele a teoria freudiana era apenas outra forma de irracionalismo, que, como contrapartida do racionalismo, fala do que este não vê, mas apenas de soslaio, por estar exclusivamente envolvida no plano ôntico e alheia à dimensão ontológica, o que lhe servia de justificativa para ignorar o papel de suas energias instintivas e de certas emoções em sua própria existência histórica, de modo que, ironicamente, a angústia, cujo resultado positivo é a ampliação das possibilidades do ente que confere sentido a seu campo de existência, pode constringir a existência ao tornar-se a disposição dominante e desligar o indivíduo de outras disposições possíveis, como medo e culpa, servindo para encobri-los e evitar enfrentá-los autenticamente, como ocorreu com Heidegger na peça, e é aqui que a psicanálise lhe oferece um meio de enfrentar autenticamente suas emoções não resolvidas.
14. Do ponto de vista freudiano, uma alternativa como a intuição fenomenológica, enquanto modo ontológico de comportamento, pode sufocar a importância das emoções e produzir um desengajamento emocional do mundo e uma espécie de colapso, já que pacientes por vezes usam os recursos do intelecto para evitar reconhecer os motivos ocultos que os levaram a desenvolver esses recursos, como Heidegger, cuja preocupação com considerações ontológicas, como a ausência de fundamento do ser, pode ter impedido que emergisse uma de suas possibilidades adormecidas, a culpa oculta pelo romance com Hannah Arendt, caldeirão de desejos fervilhantes que unia e dilacerava ao mesmo tempo, pois não se tratava de um caso comum, sendo Arendt de origem judaica e Heidegger membro do partido nazista por décadas, o que tornava problemático amar genuinamente a pessoa e desprezar sua herança, conciliar Eros e Tânatos e assumir a própria autenticidade sem sucumbir às forças destrutivas da mentalidade impessoal nazista, contexto que, somado à necessidade de ocultar o caso da Igreja, da família e do público, produziu uma sobredeterminação de motivos, podendo o colapso mental resultar desses modos flagrantemente contraditórios de ser-no-mundo, em que a angústia existencial teria servido ironicamente para ocultar a motivação escondida e protegê-lo da culpa inconsciente, assumindo o intelecto a posição superior e ignorando os níveis emocionais ônticos, de modo que, se psicólogos por vezes confundem angústia com medo, neste caso o brilhantismo e o aparato conceitual de Heidegger foram empregados para protegê-lo de um reconhecimento autêntico de si mesmo, cabendo à psicologia salvá-lo de si mesmo e oferecer-lhe a ajuda de que tanto necessitava.
15. Uma preocupação central reside no colapso da significância na condição humana, no deixar de sentir-se à vontade no mundo tal como se manifesta na capacidade e na incapacidade de enfrentar quem se é, e nos modos de lidar com esse colapso, que para Heidegger consistem em criar autêntica e resolutamente o sentido da própria vida reconhecendo ao mesmo tempo a ausência de fundamento da existência, e para Freud em desvelar as motivações ocultas para liberar as energias e buscar uma vida menos tolhida, de sentido e significância mais ricos, duas abordagens que se reforçam e se beneficiam mutuamente.
