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estudos:casey:2022:3

3 Espinosa

CASEY, Edward S. Turning emotion inside out: affective life beyond the subject. Evanston, Illinois: Northwestern University Press, 2022.

Emoção por toda parte: Espinosa

“Cada pessoa regula todas as coisas de acordo com sua emoção.” — Espinosa, Ética, parte III, proposição 2, escólio.

1. Apenas vinte e cinco anos depois de As paixões da alma, a Ética de Espinosa apresenta uma concepção radicalmente diferente da emoção, reduzindo as seis paixões fundamentais de Descartes — admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza — a três emoções primárias, prazer, dor e desejo, e reconhecendo, sobretudo, a existência de emoções genuinamente ativas, associadas a ideias adequadas e ao aumento de potência, em contraste com o caráter exclusivamente passivo das paixões cartesianas.

  • A possibilidade de emoções ativas impede que a vida afetiva permaneça encerrada no sujeito concebido como “um império dentro de um império”.
  • Toda ação significativa realiza-se no mundo e, sobretudo, como interação nele.

2. A emoção não pertence exclusivamente a um eu separado, mas integra sistemas inteiros de modos inter-relacionados, dentro dos quais o sujeito constitui apenas um agenciamento entre outros, de modo que cada coisa ou acontecimento é aquilo que é em função de suas relações com tudo aquilo que incide sobre ele e com aquilo sobre o qual ele próprio incide.

  • O atomismo cartesiano, baseado na separação entre indivíduos e entre res extensa e res cogitans, é substituído por uma concepção profundamente relacional e concatenada.

3. O emprego espinosano de affectus corresponde precisamente a essa primazia das relações, pois o essencial é compreender como os modos se afetam mutuamente na formação de matrizes intermodais e determinar se determinada emoção constitui uma ação fundada numa ideia adequada ou uma paixão fundada numa ideia inadequada.

  • Os afetos integram um imenso complexo intersticial coextensivo à própria Natureza.

4. “Há dentro de nós uma grande extensão de território não mapeado que teria de ser levada em conta para explicar nossas rajadas e tempestades.” — George Eliot, Daniel Deronda.

5. O “território não mapeado” das emoções não precisa ser procurado, à maneira freudiana, exclusivamente num inconsciente interior, pois a perspectiva espinosana orienta antes para o território exterior e envolvente constituído pelo nexo completo dos modos que incidem uns sobre os outros, tornando secundária qualquer oposição rígida entre dentro e fora.

  • A vida emocional pode ser compreendida como disposição abrangente de lugares nos quais se manifestam atividade e passividade afetivas.

6. A distância entre Espinosa e Descartes torna-se ainda mais evidente na eliminação do dualismo mente-corpo, pois pensamento e extensão não constituem substâncias separadas, mas atributos simultâneos da única substância, Deus ou Natureza, de maneira que a ordem das ações e paixões corporais coincide com a ordem das ações e paixões mentais.

  • “A ordem, isto é, a conexão de [todas] as coisas é uma só, seja a Natureza concebida sob este ou aquele atributo e, consequentemente, […] a ordem das ações e paixões de nosso corpo é simultânea por natureza à ordem das ações e paixões da mente.”
  • “A mente envolve a existência atual do corpo.”
  • Como formula Deleuze, aquilo que é ação na mente é necessariamente ação no corpo, e aquilo que é paixão no corpo é necessariamente paixão na mente.

7. Na parte III da Ética, as emoções são definidas como “as afecções do corpo pelas quais a potência de agir do corpo é aumentada ou diminuída, favorecida ou impedida, e ao mesmo tempo as ideias dessas afecções”, tornando inseparáveis o componente corporal e o ideacional.

  • O agente emocional não é mente nem corpo isoladamente, mas uma unidade comparável ao “corpomente” (bodymind).
  • A atividade ocorre quando essa unidade constitui causa adequada da emoção, enquanto a paixão corresponde à condição de causa inadequada.
  • Uma causa adequada permite compreender clara e distintamente seu efeito por meio de si mesma, enquanto a causa inadequada não alcança essa compreensão.
  • Emoções fundadas em ideias adequadas tornam-se ações, adquirindo um dinamismo inexistente no modelo cartesiano predominantemente passivo.

I

1. A radicalidade da concepção espinosana consiste em superar simultaneamente os modelos endógeno e exógeno, pois o agente não constitui substância isolada nem recebe simplesmente determinações exteriores, mas participa de uma densa matriz intermodal na qual atua ou padece conforme a adequação de suas ideias e a potência performativa de seu corpo.

  • As emoções não são meros produtos finais de cadeias causais, pois os próprios seres humanos participam ativamente de sua geração.
  • Uma emoção torna-se passivamente determinada pelo ambiente apenas na medida em que falta uma compreensão adequada do próprio corpo em sua relação com outros corpos.

2. Em lugar da cisão cartesiana entre corpo e mente e da necessidade de mediadores como os espíritos animais, Espinosa privilegia conexão, inter-relação, síntese e agência unificada, fazendo da emoção uma dinâmica contextual inserida numa rede de forças e ideias governada pela unidade da Natureza.

  • “A Natureza é sempre a mesma e em toda parte uma só, e sua virtude e potência de agir são as mesmas. Isto é, as leis da Natureza e as regras segundo as quais todas as coisas acontecem e se transformam de uma forma em outra são em toda parte e sempre as mesmas; portanto, deve haver também uma só e a mesma maneira de compreender a natureza das coisas de qualquer espécie, a saber, pelas leis e regras universais da Natureza. Por conseguinte, as emoções de ódio, raiva, inveja etc., consideradas em si mesmas, seguem da mesma necessidade e virtude da Natureza que todas as demais coisas particulares.”

3. As emoções deixam de ser irrupções idiossincráticas de almas ou corpos isolados e passam a integrar o tecido universal e interativo da Natureza, no qual pensamento e extensão permanecem inseparáveis até nos movimentos corporais e nas ideias concretas que constituem uma vida individual.

  • O conatus, enquanto potência de perseverar, diferencia os seres mediante suas interações sem retirá-los das leis comuns que regem todas as entidades humanas e não humanas.

4. O universalismo espinosano aplica às experiências emocionais singulares as mesmas leis que regem a Natureza, antecipando concepções posteriores como o sensus communis kantiano, o “universal concreto” hegeliano e a “singularidade eidética” husserliana, mas evitando dissolver o singular no universal pela distinção entre os atributos infinitos e os modos finitos.

  • Pensamento e extensão são dois dos infinitos atributos da única substância.
  • Ideações, emoções, ações e interações particulares pertencem aos modos finitos.
  • Tanto atributos quanto modos pertencem a Deus ou Natureza, cuja substância ilimitada envolve toda singularidade numa unidade monista.

5. A própria emoção constitui uma prova decisiva para essa metafísica universalista, pois aquilo que parece mais individual e possessivo — “minha consternação”, “a indignação deles” — tende ordinariamente a fragmentar-se numa multiplicidade indefinida de sentimentos privados e incomparáveis.

  • A interpretação estritamente subjetivista transforma cada experiência em uma resposta individual singular, diferente de todas as demais até em suas mínimas nuances.
  • Essa proliferação conduz ao paradoxo de haver “emoções demais” para serem compreendidas em conjunto.
  • A insistência nas diferenças microscópicas entre experiências privadas dissolve a possibilidade da solidariedade emocional.

II

1. Espinosa evita uma microfísica estéril das emoções individualizadas ao procurar aquilo que diferentes experiências possuem em comum enquanto determinadas nas relações exteriores, concentrando-se no modo como as emoções se originam, operam e desaparecem por meio de categorias como ação e paixão, afecção e afeto, ideia adequada e ideia inadequada.

  • Cada experiência singular constitui uma individuação produzida a partir de uma rede intermodal exterior, e não uma expansão endógena originada num sujeito fechado.
  • As consequências concretas de acontecimentos sobre aqueles que são afetados por eles possuem prioridade sobre as reações privadas e opinativas de sujeitos isolados.

2. As emoções constituem uma zona intermediária na arquitetura espinosana, situada entre a abrangência infinita de Deus ou Natureza e as manifestações particulares de experiências afetivas determinadas, oferecendo um nível suficientemente coeso para que estados como a consternação sejam reconhecíveis sem reduzir suas variações concretas a generalizações rígidas.

  • Os nomes das emoções funcionam como gêneros porosos que reúnem múltiplas modulações sem anulá-las.
  • Essa zona intermediária evita tanto a generalidade abstrata quanto a singularidade inteiramente idiossincrática.

3. A posição intermediária da emoção em Espinosa difere radicalmente daquela encontrada em Descartes, pois neste último a emoção permanece situada entre a mente e o corpo de um indivíduo isolado, enquanto em Espinosa ela pertence a uma integração metafísica que conecta os modos entre si dentro de uma única substância.

  • No cartesianismo, corpos e mentes permanecem discretos e separados e o espaço exterior aparece como extensão vazia sem lugar próprio para as emoções.
  • Em Espinosa, a emoção já se encontra inserida na continuidade dinâmica entre os modos.

4. A extensão espinosana não é volume vazio, mas atributo infinito concretizado por toda parte em corpos humanos e não humanos que existem e interagem continuamente, fazendo com que os sujeitos corporificados sejam contíguos entre si e que cada movimento corporal possua inseparavelmente um componente ideacional.

  • O separatismo cartesiano é superado nos níveis de mente e corpo, eu e outro, finito e infinito.
  • Aquilo que em Descartes aparece separado e desarticulado encontra-se em Espinosa conjugado e entrelaçado em múltiplas direções.

5. Embora a multiplicidade e a contingência das emoções pareçam desafiar uma filosofia organizada more geometrico, Espinosa pretende examiná-las pelo mesmo método com que tratou Deus e a mente, reconhecendo implicitamente a importância extraordinária do domínio afetivo ao dedicar-lhe duas das cinco partes da Ética.

  • “Discutirei a natureza e a força das emoções […] pelo mesmo método pelo qual discuti Deus e a mente [nas partes I e II] e [isso significa que] examinarei as ações e apetites humanos como se a investigação dissesse respeito a linhas, planos ou corpos.”

III

1. A distinção entre affectio e affectus é decisiva para compreender a emoção em Espinosa, pois affectio designa aquilo que acontece a um modo finito quando outro modo incide sobre ele, deixando traços sob a forma de imagens e ideias que registram a relação estabelecida entre ambos.

  • Imagens e ideias são relativamente estáticas enquanto resíduos de interações, mas pertencem simultaneamente a transições temporais entre diferentes estados.
  • “De um estado a outro, de uma imagem ou ideia a outra, há transições, passagens que são experimentadas, durações pelas quais passamos a uma perfeição maior ou menor. Além disso, esses estados, essas afecções, imagens ou ideias não são separáveis da duração que os liga ao estado precedente e os faz tender ao estado seguinte.” — Deleuze.

2. As afecções devem ser compreendidas processualmente, como modos pelos quais estados transitórios e duracionais são sentidos, resistindo à quantificação e à espacialização porque a passagem entre maior e menor perfeição não possui unidades mensuráveis.

  • Essa dimensão aproxima Espinosa, apesar das diferenças conceituais, da duração real (durée réelle) posteriormente elaborada por Bergson.

3. Se as afecções são traços residuais das interações entre modos, os afetos (affectus) constituem emoções plenamente desenvolvidas, inseridas no fluxo duracional mas dotadas de integridade própria e irredutíveis a ideias, imagens ou sentimentos.

  • O nível propriamente emocional escapa à epistemologia da representação.
  • Em vez de pertencerem ao domínio representacional da res cogitans, os afetos integram o fluxo do devir corporal.
  • A emoção espinosana constitui, nesse aspecto, uma exceção significativa àquilo que Heidegger denominaria a época da representação e sua concepção do mundo como imagem (Weltbild).

4. As emoções emergem de um domínio não subjetivo e literalmente ex-tensivo, próprio do corpo e das relações entre modos, sendo definidas pela transformação da potência de agir produzida pelas afecções corporais.

  • “Por emoção [affectus] compreendo as afecções [affectio] do corpo pelas quais a potência de agir do corpo é aumentada ou diminuída, favorecida ou impedida.”
  • As afecções corporais decorrem continuamente da exposição de cada modo aos demais modos que sobre ele incidem.

5. A potência de agir aumenta quando se formam ideias adequadas e a emoção se torna ativa, enquanto diminui quando predominam ideias inadequadas e a emoção permanece paixão, de maneira que encontros alegres ampliam a potência e emoções negativas como raiva, ódio ou vergonha correspondem à sua redução.

  • A compreensão adequada das relações com outros modos converte potência em efetivo empoderamento.
  • Tornar-se mais ativo significa também adquirir maior “realidade”.

6. A “potência de agir” equivale à “força de existir”, de modo que a forma assumida por uma emoção corresponde à intensidade de realidade que ela realiza e à capacidade de produzir efeitos sobre outros modos.

  • Lágrimas podem, por exemplo, levar outras pessoas a chorar, manifestando uma força emocional efetiva.
  • A emoção realiza-se exteriormente por meio do corpo como seu portador privilegiado.
  • Esse sair para fora faz a emoção corresponder literalmente a uma e-moção.

7. As emoções podem ser compreendidas como “devires”, na terminologia de Deleuze e Guattari, ou como acontecimentos que, a partir do domínio imanente e duracional das afecções, conduzem para o mundo efetivo e envolvente no qual os seres humanos habitam múltiplos mundos experienciais.

  • A existência afetiva é caracterizada por deslocamento contínuo e busca de orientação nesses mundos compartilhados.

8. A relação entre emoção e “potência de agir” significa uma participação em maior ou menor grau de realidade, pois tanto o corpo que porta a emoção quanto o mundo ao qual ele dá acesso constituem dimensões reais que excedem a representação.

  • O corpo existe “lá fora”, perceptível aos outros e constituído pelas interações com eles.
  • As emoções corporificadas entram diretamente nos mundos interpessoais, onde podem ser vistas, ouvidas e até tocadas.
  • Emoções ativas são “transitivas”, no sentido de Deleuze, atravessando interações modais e modificando aquilo com que entram em contato.

9. As emoções conduzem às próprias coisas por meio de corpos sensíveis capazes simultaneamente de agir e de sofrer a incidência de outros corpos, configurando relações corpo a corpo, modo a modo, coisa a coisa e acontecimento a acontecimento.

  • O mundo circundante é composto de coisas efetivamente exteriores — en dehors, äusserlich — às quais as emoções conduzem por meio de seus portadores corporais.
  • Wallace Stevens sugere esse domínio ao falar de “um novo conhecimento da realidade” que está “vindo de fora”.

10. A emoção fornece um conhecimento singular da realidade não apenas por possuir dimensões cognitivas, mas sobretudo porque sua expressividade conduz para além do sentimento subjetivo e coloca o indivíduo na presença de outros seres e do mundo envolvente.

  • Esse conhecimento emocional não depende de esquemas teóricos elaborados como os da Crítica da razão pura ou das fórmulas das ciências naturais.
  • Ele é produzido continuamente na presença afetiva dos mundos-da-vida efetivamente habitados.

11. O corpo recebe afecções (affectio) sob a forma de imagens e ideias transitórias integradas à imanência duracional do sentir e, simultaneamente, produz afetos (affectus) vinculados à potência de agir, de maneira que a vida afetiva se constitui pela negociação contínua entre o fluxo receptivo das afecções e o movimento expressivo exterior das emoções.

IV

1. O modelo espinosano esclarece facilmente emoções afirmativas como a alegria, entendida como aumento da potência de agir, e o amor, no qual o afeto retorna à ideia da qual deriva, mas precisa igualmente explicar emoções destrutivas como raiva e ódio, que diminuem a força de existir dos seres com os quais interagem.

  • O ódio (odium) é definido economicamente como “dor acompanhada pela ideia de uma causa exterior”.
  • A causa exterior não determina mecanicamente o ódio, pois o decisivo é a ideia formada em resposta àquilo que vem de fora.
  • “Pelo simples fato de imaginarmos que uma coisa possui algo semelhante a um objeto que costuma afetar nossa mente com prazer ou dor, amaremos ou odiaremos essa coisa, ainda que aquilo em que ela se assemelha ao objeto não seja a causa eficiente [real e literal] dessas emoções.”

2. O atentado ocorrido em Manchester em maio de 2017 exemplifica a complexidade de atos premeditados de ódio, pois a explosão que matou vinte e três pessoas e feriu muitas outras, numerosas delas crianças, combinou raiva, ódio, crueldade e justificação ideológica numa trama emocional que não pode ser reduzida a uma causa única.

  • A escolha do término de um concerto de Ariana Grande, momento caracterizado pela alegria expansiva da multidão, intensificou a dimensão de crueldade do ato.
  • A complexidade do acontecimento exige uma compreensão das maneiras pelas quais múltiplas emoções se entrelaçam.

3. Discriminação, exclusão ou hostilidade contra muçulmanos não podem ser consideradas causas eficientes suficientes do atentado, pois foi decisiva a maneira pela qual o autor interpretou, imaginou e elaborou essas experiências, fazendo com que determinada afecção pudesse ser conduzida por diferentes caminhos de pensamento e ação.

  • “Pelo simples fato de termos contemplado alguma coisa com a emoção de prazer ou dor, da qual ela não é a causa eficiente, somos capazes de amá-la ou odiá-la.”
  • A afecção (affectio) compreende a incorporação duracional de imagens e ideias de uma situação e não determina antecipadamente uma única resposta.
  • Outra compreensão da situação poderia ter levado a outra forma de ação.

4. Definir o ódio como dor implica simultaneamente que odiar é doloroso para quem odeia e que o ódio projeta uma situação na qual a pessoa ou coisa odiada deve igualmente sofrer, de modo que a emoção emerge de experiências reais ou compartilhadas de sofrimento e tende a converter-se em desejo retaliatório.

  • A vingança é definida como “o esforço de retribuir o dano que nos foi infligido”.
  • A lógica implícita torna-se: “Eles fizeram a mim e aos meus semelhantes sofrer; portanto, farei com que eles e seus semelhantes sofram por sua vez.”
  • O ódio pode iniciar-se paradoxalmente numa dimensão empática de sofrimento compartilhado e converter-se no desejo de infligir dor aos responsáveis e àqueles considerados ligados a eles.

5. Uma experiência inicial de racismo, exclusão ou sofrimento pode ser intensificada pela imaginação e posteriormente absorvida num projeto de ódio que se transforma em sequência concreta de ações, produzindo inclusive um prazer perverso ligado à realização daquilo que passa a ser concebido como ação eficaz.

  • A regra espinosana segundo a qual emoções ativas são acompanhadas por prazer ajuda a compreender esse mecanismo.
  • “Alguém que imagina que aquilo que odeia foi destruído sentirá prazer.”

6. A raiva integra direta ou indiretamente o ódio, funcionando como força emocional que o alimenta e que nasce da desaprovação de ações percebidas como prejudiciais a si mesmo ou àqueles com quem se mantém estreita identificação.

  • “O esforço para causar dano a uma pessoa que odiamos chama-se ‘raiva’.”
  • A passagem da raiva ao ódio torna-se especialmente perigosa quando emoções dirigidas a uma pessoa são generalizadas para todo o grupo ou povo ao qual ela pertence.
  • “Se alguém foi afetado com prazer ou dor por uma pessoa pertencente a um grupo ou nação diferente do seu e isso é acompanhado pela ideia dessa pessoa, sob o nome universal daquele grupo ou nação, como sua causa, então amará ou odiará não apenas a pessoa em questão, mas todos os membros daquele grupo ou nação.”
  • Essa massificação do ódio constitui uma forma de generalização com potencial extremo de destruição, sobretudo quando povos inteiros são visados por sua identidade racial ou religiosa.

V

1. Espinosa emprega frequentemente oposições conceituais para posteriormente ultrapassá-las, como ocorre tanto com amor e ódio quanto com dentro e fora, pois agir significa ser causa adequada de algo que ocorre “em nós ou fora de nós”, tornando secundária a localização interior ou exterior diante da questão fundamental da potência efetiva.

  • A ação atravessa e suspende a oposição dentro/fora porque envolve diretamente o mundo intermodal mais amplo.
  • Esse mundo constitui uma exterioridade radical na qual cada modo existe em relação aos demais.
  • Mesmo aquilo que se denomina natureza ou essência individual é aquilo que é apenas em relação com outros modos.

2. Quando uma ideia adequada constitui a fonte de uma emoção ativa, a potência manifesta-se como ação; quando o indivíduo é apenas causa parcial do que ocorre, predomina a paixão e uma espécie de interioridade passiva.

  • “Digo que somos passivos quando algo ocorre em nós, ou quando algo se segue de nossa natureza, do qual somos apenas causa parcial.”

3. A interioridade passiva não constitui domínio fixo, mas processo duracional constantemente transformado pelas impressões, traços e imagens deixados pela incidência de outros modos, sendo portanto uma interioridade produzida pelas afecções provenientes do exterior.

  • Essa condição corresponde à passividade enquanto sentimento sofrido.
  • O momento ativo surge quando a experiência consegue passar dessa densidade interior para a exterioridade de uma emoção acompanhada por uma ideia adequada.
  • Na alegria, a consonância com outros modos pode passar de uma felicidade incipiente e passiva para uma afirmação compreendida e ativa, alcançando a “bem-aventurança da ação”.

4. A emoção como ação corresponde ao tornar-se ativo daquilo que permanecia imanente como sentimento, paixão ou afecção, pois toda affectio contém a possibilidade de adquirir uma ideia adequada e transformar a recepção passiva em ação efetiva.

  • Alegria e amor maximizam a potência de agir quando não são apenas experimentados, mas plenamente compreendidos.
  • A compreensão impede a evasão da própria emoção que Collingwood denomina “corrupção da consciência”.
  • Se o indivíduo é causa adequada de suas afecções, a emoção torna-se ação; caso contrário, permanece paixão.
  • Aquilo que permanecia como “conhecimento em potência” transforma-se em emoção ativa capaz de produzir efeitos no mundo circundante.

5. O processo transformador pode ser expresso como: “passividade dos sentimentos enquanto afecções // formação de ideias adequadas dessas afecções // emergência das emoções como afetos ativos”, sendo decisiva a transmutação do sentimento pela compreensão adequada de seu conteúdo.

  • “Tal sentimento já não é uma paixão, porque se segue de uma ideia adequada em nós; ele próprio é uma ideia adequada.” — Deleuze.
  • O conteúdo mantido na imanência do sentimento entra então no domínio dinâmico da interação intermodal, onde a emoção não apenas produz uma diferença, mas cria diferença.

VI

1. O modelo espinosano implica dois movimentos contrários em relação ao sujeito humano, começando pela incidência do mundo sobre o corpo por meio das afecções, de modo que o próprio sujeito corporificado é constituído pela história dessas entradas provenientes do ambiente e não possui uma interioridade pura anterior a elas.

  • Não existe uma consciência pura prévia, como em Descartes ou Sartre, nem um inconsciente originário como em Freud ou Jung, tampouco uma tabula rasa lockiana.
  • Aquilo que se denomina interior consiste no registro das incursões exteriores sobre o corpo mediante traços fugazes, imagens depositadas e ideias inadequadas.
  • O dentro é, portanto, produzido pelo fora.
  • A interioridade funciona como área momentânea e mutável de captação das afecções deixadas pelos modos circundantes.

2. O movimento contrário parte do sujeito em direção ao exterior quando afecções adequadamente compreendidas são catalisadas em afetos ativos e tornam-se emoções propriamente ditas, manifestando-se por sua transitividade e orientação para fora.

  • Enquanto apenas recebidas, as afecções permanecem sentimentos e paixões.
  • Não se trata de libertar emoções previamente aprisionadas no interior, pois ainda não existem emoções plenamente constituídas ali, mas apenas afecções transitórias potencialmente capazes de tornar-se forças ativas.
  • Tornar-se emocionalmente ativo significa ultrapassar a mera inerência corporal e a passividade do sentimento, engajando-se efetivamente com outros modos.
  • Ex-istir significa literalmente “estar fora”, realizando uma existência que excede o sentir passivo.

3. Ao lado da intencionalidade da consciência pura em Husserl, da êxtase da existência (Existenz) em Heidegger e da intencionalidade operante do corpo vivido em Merleau-Ponty, a perspectiva espinosana permite reconhecer uma intencionalidade propriamente emocional, pela qual o sujeito sai de si ao compreender adequadamente suas afecções e transformá-las em emoções ativas.

1. A contribuição de Espinosa consiste decisivamente em localizar as emoções, enquanto sentimentos adequadamente compreendidos, num domínio exterior ao sujeito em que a atividade prevalece sobre a passividade, estabelecendo um ser-fora-de-si (Aussersichsein) da emoção sem, contudo, determinar os lugares concretos em que ela se apresenta.

  • A Ética oferece um ambiente geral para as emoções, mas não lugares-de-apresentação específicos.
  • Falta uma descrição do Schauplatz, da cena própria em que a emoção encontra sua localização expressiva.
  • Apesar de desconstruir radicalmente Descartes, Espinosa ainda não fornece uma concepção explícita da placialidade da emoção.
  • Uma primeira indicação dessa possibilidade aparecerá no tratamento kantiano do sublime.

2. Descartes, Espinosa e Kant carecem ainda de um “comum emocional”, isto é, de um espaço compartilhado no qual a emoção possa apresentar-se perifaneticamente, sendo necessário reconhecer que as pessoas não estão simplesmente dentro de suas peles, mas existem no viver-no-mundo e no viver-com-os-outros.

  • “As pessoas […] não estão dentro de suas peles, mas são seu viver-no-mundo e seu viver-com-os-outros.” — Eugene Gendlin.
  • “Somos interações com o ambiente — outras pessoas, o mundo, o universo — e podemos sentir a nós mesmos como precisamente tal interação.”
  • Essas interações possuem frequentemente caráter explicitamente emocional e exigem um lugar concreto, perifanético e intersubjetivamente compartilhável.
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