0 Introdução
CASEY, Edward S. Turning emotion inside out: affective life beyond the subject. Evanston, Illinois: Northwestern University Press, 2022.
A extraversão da emoção
Nada determina a existência a partir de fora, não porque nada a solicite desde aí, mas porque ela se encontra imediatamente fora de si mesma e aberta ao mundo. — Merleau-Ponty, Fenomenologia da percepção.
1. Se as emoções não forem subjetivas nem estiverem contidas no interior dos indivíduos, mas se situarem de algum modo fora e ao redor deles, pertencendo a lugares e espaços essencialmente públicos, sua localização experiencial deve ser procurada no mundo circundante, nas bordas das vidas dos sujeitos humanos individuais e nos espaços existentes entre eles, de modo que a emoção possa revelar algo extrassubjetivo em vez de constituir apenas ou principalmente um índice da subjetividade.
2. Essa compreensão diverge da suposição corrente, particularmente característica das concepções modernas ocidentais do sujeito e exemplarmente formulada por Descartes, segundo a qual a vida emocional constitui propriedade exclusiva da subjetividade corporal ou psíquica e deve ser sentida interiormente, concepção contemporaneamente reforçada pelas explicações neurofisiológicas que situam as emoções nos circuitos cerebrais internos ao indivíduo.
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Uma fenomenologia atenta da emoção pode, entretanto, revelar que muitas emoções, inclusive algumas das mais significativas, possuem seu lugar próprio fora do cérebro, do corpo e da psique consciente do sujeito, ocorrendo, em sentido decisivo, “inteiramente fora de mim”.
I
1. A questão fundamental não concerne primordialmente à essência da emoção, mas aos lugares em que ela se apresenta experiencialmente na vida humana, de modo que, em vez de privilegiar sua causalidade e sua suposta residência interior ao sujeito, importa examinar sua manifestação além dessa interioridade, nos diferentes contextos circundantes em que aparece e adquire configuração.
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A distinção entre endogenia (endogeny) e exogenia (exogeny) concerne ao modo pelo qual uma emoção resulta de uma conexão de causas internas ou externas.
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A perifania (periphany), por sua vez, concerne ao lugar em que a emoção aparece, isto é, ao espaço que circunda e excede o sujeito que sente.
2. Endogenia e exogenia designam modelos interessados na gênese da emoção: a primeira situa sua origem em acontecimentos psicofísicos produzidos internamente, enquanto a segunda a atribui aos impactos provenientes dos ambientes natural e social, embora ambas concebam a emoção como resultado de uma matriz causal de acontecimentos sucessivos e interligados da qual emergem estados como raiva, medo, depressão, alegria ou consternação.
3. A chamada “depressão endógena” exemplifica uma emoção compreendida como proveniente do interior, pois a experiência avassaladora de desesperança, falta de energia, finalidade, ambição e, muitas vezes, autoestima é vivenciada como um humor sombrio que subjuga o indivíduo e parece originar-se em algum ponto indeterminado de sua psique ou de seu corpo.
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Embora a pessoa deprimida frequentemente não saiba precisamente onde, por que ou por que naquele momento tal estado se originou, tende a experimentá-lo como produto de uma configuração densamente concatenada de fatores internos.
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Essa rede apresenta-se como tão cerrada que parece não oferecer saída, fazendo com que a endogenia domine a compreensão da experiência depressiva.
4. Na exogenia, ao contrário, a emoção parece possuir uma causa precipitadora externamente identificável, como ocorre quando a ausência inesperada de um amigo a um encontro previamente combinado é tomada como razão suficiente para a raiva.
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Enquanto nenhuma circunstância capaz de explicar ou justificar a ausência é conhecida, a estrutura externa do acontecimento parece determinar integralmente a reação emocional.
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A descoberta posterior de que o amigo precisou levar sua mãe idosa ao pronto-socorro poderia converter a raiva em perdão, mas, antes dessa informação, a situação é vivida como uma matriz determinante aparentemente sem saída.
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A ausência do outro acontece ao indivíduo e desencadeia aquilo que passa a acontecer nele, de modo que uma exterioridade distinta de si libera uma raiva então experimentada como própria e incorporada ao ser psíquico e pessoal.
5. Embora uma emoção possa ser analisada segundo causas simultaneamente exógenas e endógenas, costuma-se conceder primazia à endogenia, considerando o fator exterior apenas como ocasião superficial que desencadeia uma atividade emocional cuja verdadeira realização ocorreria no interior do sujeito.
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Mesmo quando uma emoção começa por um acontecimento exterior, real ou imaginário, ela é rapidamente interiorizada e incorporada como “minha emoção”.
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Essa tendência explica a predominância, no Ocidente moderno desde meados do século XVII, de modelos que situam a gênese, o desenvolvimento e o lugar próprio das emoções no interior do sujeito humano.
6. Apesar dessa inclinação subjetivista, endogenia e exogenia compartilham a concepção fundamental de que a emocionalidade deriva de um conjunto de causas intimamente interligadas, sobretudo daquilo que Aristóteles denominaria causas eficientes, ainda que causas materiais, finais, formais ou outras também possam desempenhar algum papel.
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Em ambos os modelos, a questão decisiva consiste em explicar como determinada emoção surge e vem à existência, quer sua causa aparente esteja em uma experiência exterior recente, quer derive de uma condição interna profunda e recorrente.
II
1. O modelo perifanético (periphanous) modifica radicalmente essa perspectiva, pois não privilegia a gênese interna ou externa da emoção por interações causais, mas o modo como ela se mostra e o lugar a partir do qual se manifesta para si e para os outros, sendo o elemento “-fanético” derivado de phainesthai, “aparecer”, raiz também mobilizada por Heidegger em sua exposição inicial da fenomenologia em Ser e tempo.
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A geração causal da emoção não precisa ser negada, mas deixa de dominar sua compreensão.
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O decisivo passa a ser a cena de manifestação da própria emoção, isto é, onde ela emerge na experiência e de onde se apresenta como proveniente.
2. A perifania emocional envolve três dimensões fundamentais: o mostrar-se, a cena do mostrar-se e o próprio mostrar-se.
3. O mostrar-se designa aquilo que é testemunhado enquanto puro aparecer e que se exibe como pertencente a uma cena situada diante ou ao redor do indivíduo, sem ser reduzido a uma causa precipitadora isolada, podendo assumir a forma de uma vista, de uma paisagem sonora (soundscape), de uma atmosfera ou de um ambiente inteiro considerado por si mesmo, independentemente de sua eficácia causal.
4. A cena do mostrar-se constitui o lugar em que aquilo que aparece é testemunhado e, portanto, o lugar-de-apresentação (place-of-presentation) da emoção, cuja configuração espacial pode ser decisiva para a própria experiência emocional.
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A ausência de um amigo não produz o mesmo significado emocional em qualquer lugar, pois sua não aparição no espaço específico em que era esperado participa diretamente da emergência da raiva.
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O vazio desse “aqui” particular, justamente onde sua presença era antecipada, integra constitutivamente a situação emocional.
5. O próprio mostrar-se refere-se à maneira pela qual aquilo que aparece não é mediado por representações ou codificações, mas se oferece enquanto tal, como se estivesse presente em pessoa (in propria persona), não sendo primordialmente experimentado como elemento de uma conexão causal, mas como algo que se mostra a partir de si mesmo.
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Trata-se daquilo que filosoficamente pode ser denominado ipseidade, isto é, o próprio ser-si-mesmo daquilo que se manifesta, quer se apresente como presente, quer como ausente.
6. As três dimensões da perifania emocional operam frequentemente no espaço público compartilhado efetiva ou potencialmente com outros, aproximando-se da estrutura mínima do ser-com (Mitsein) de Heidegger e de sua elaboração mais detalhada em Ser singular plural, de Jean-Luc Nancy.
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Esse espaço compartilhado distingue-se tanto do espaço exterior e indiferente da exogenia quanto do espaço interior e privatizado da endogenia.
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O espaço aberto próprio das emoções apresentadas perifaneticamente não é indiferente à experiência humana, mas tampouco pertence exclusivamente a um indivíduo.
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A emoção pode estar associada caracteristicamente a alguém sem, contudo, pertencer-lhe exclusivamente, pois sua apresentação ocorre numa arena emocional transmissiva cujas operações e configurações ultrapassam a propriedade egoica, a exclusividade pessoal e o solipsismo.
7. A própria palavra “emoção” sugere o movimento para fora implicado numa concepção perifanética, pois “e-moção” significa literalmente um mover-se para fora, direção cotidiana da vida consciente que os modelos endógeno e exógeno tendem a ignorar.
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Uma abordagem perifenenomenológica (periphenomenological) privilegia o mostrar-se das emoções a partir de regiões exteriores à psique e ao corpo individuados.
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O prefixo peri- assinala precisamente as dimensões periféricas das emoções que se exibem em cenas ao redor dos indivíduos e, a partir daí, chegam até eles.
III
1. Tempos urgentes exigem uma reconsideração da vida emocional humana, frequentemente tomada como evidente em períodos mais tranquilos, pois, como formulou Edmund Burke, “essas águas precisam ser experimentadas como revoltas antes que possam exercer suas virtudes”.
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A filosofia e particularmente a fenomenologia, graças à precisão de seus procedimentos descritivos, podem contribuir para compreender a orientação emocional ou sua ausência em uma época de indigência (dürftiger Zeit), crise e necessidade urgente.
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Um tumulto emocional incomparavelmente mais intenso marcou grande parte da Europa durante o período nazista, embora poucos filósofos tenham enfrentado adequadamente esse desafio, entre eles não se incluindo Martin Heidegger.
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Max Scheler, figura central da reflexão fenomenológica inicial sobre a emoção, provavelmente teria oferecido contribuições decisivas sobre o período nazista (Nazi-Zeit) caso tivesse vivido durante a década de 1930.
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A investigação da face pública da emoção pode iluminar dimensões dos atuais “tempos sombrios”, na expressão de Hannah Arendt, tornando mais compreensíveis os modos pelos quais o sofrimento histórico incide sobre a esfera emocional, mesmo sem proporcionar diretamente sua superação.
2. A finalidade principal é descritiva: alcançar uma compreensão mais precisa da emergência das emoções segundo o lugar experiencial de onde provêm, em vez de reconstruir causalmente sua gênese, acompanhando suas múltiplas formas de manifestação e o modo como se mostram a cada indivíduo e aos outros.
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Grande parte da emoção emerge em cenas de manifestação nas quais aquilo que costuma ser concebido como acontecimento interior é testemunhado como ocorrendo exteriormente.
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Nessas cenas, as emoções não apenas se tornam acessíveis, mas encontram-se efetivamente ali, diante e ao redor dos indivíduos, em espaços além da psique privatizada, à frente, acima e abaixo deles.
3. Se a vida emocional constitui frequentemente uma dolorosa “Trilha das Lágrimas” (Trail of Tears), isso decorre da condição inescapavelmente emocional da existência humana, que não dispõe de uma saída não emocional das próprias emoções ou das emoções alheias, mesmo quando elas não se encontram localizadas dentro dos indivíduos como sujeitos separados.
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Cada pessoa percorre de maneira própria um caminho exigente de emoções que frequentemente ultrapassam seu domínio privado e seu controle pessoal.
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Essas emoções conduzem para fora, ao mundo, onde a intencionalidade humana, segundo Sartre, lança o indivíduo “na poeira seca do mundo, sobre a terra áspera, entre as coisas”.
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Viver nesse caminho equivale a experimentar as consequências da manifestação perifanética das emoções, numa espécie de via dolorosa da experiência afetiva.
IV
1. As questões orientadoras são onde a emoção se encontra e como ela se mostra, pois a experiência emocional não ocorre primordialmente, e muito menos exclusivamente, num domínio subjetivo interior, mas ao lado ou além do indivíduo, em um espaço carregado que simultaneamente se expressa e exige resposta.
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A espacialidade sentida dos estados emocionais permite compreender algumas emoções como expansivas, outras como contrativas e outras ainda como irregularmente desconfortáveis, todas ultrapassando o estreito âmbito da experiência subjetiva.
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As emoções possuem colocações características e cenas próprias de aparecimento pelas quais são tanto reconhecidas quanto intensamente sentidas.
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Elas surgem frequentemente nas bordas exteriores da experiência, manifestando-se em gestos, expressões faciais, vozes e linguagem corporal que as conduzem para os outros e também de volta a quem as expressa.
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Outras cenas emocionais aparecem em fenômenos amplamente negligenciados pela filosofia moderna, como o comportamento das multidões, as atmosferas e os diferentes ambientes, cuja descrição perifenenomenológica constitui um objetivo central.
2. A expressão “virar a emoção do avesso” (turning emotion inside out) designa a tentativa de compreendê-la por meio de sua “extraversão” (extra-version) literal, deslocando-a do interior do sujeito para fora dele, em oposição à tendência moderna de confinar sentimentos e emoções às regiões internas do eu.
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A intencionalidade e a expressividade emocionais fornecem evidências contrárias a esse confinamento, pois a emoção tende a tornar-se conhecida exteriormente tanto para quem a sente quanto para os outros.
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As emoções não apenas surgem na companhia de outros seres humanos, mas também em contextos mais-que-humanos ou não humanos.
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Apesar dessa orientação extravertida sempre já operante, a modernidade frequentemente a interpretou de forma inadequada e recolocou a emoção no interior do eu, seja sob a forma do cogito cartesiano, seja sob a forma do ânimo (Gemüt) kantiano.
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O desafio consiste em demonstrar que o si-mesmo se encontra continuamente voltado do avesso em sua vida emocional, dirigindo-se ao que está fora dele para poder sintonizar-se mais adequadamente com esse exterior.
3. Uma problemática comparável aparece em pensadores contemporâneos que, embora em outros contextos, procuram libertar a psique de seu confinamento interior: Andy Fisher propõe “virar a psique do avesso” para restabelecer sua continuidade com o mundo natural, enquanto David Abram reivindica uma reversão pela qual a sensibilidade retorna ao mundo visível que contém os seres humanos.
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A libertação da emoção de seu aprisionamento no “homem interior” converge com a afirmação de Merleau-Ponty de que “não há ‘homem interior’; o homem está no mundo e voltado para o mundo, e é no mundo que ele se conhece”.
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A exterioridade relevante da emoção não se limita ao âmbito ambiental, abrangendo simultaneamente dimensões sociopolíticas, artísticas e terapêuticas.
V
A estrutura do argumento
1. A parte 1, “Compreender a emoção: concepções antigas e modernas”, examina concepções selecionadas da emoção desde a Antiguidade até a modernidade, iniciando pelo pensamento grego, particularmente pelas análises da raiva em Platão e Aristóteles, nas quais a emoção aparece como questão amplamente pública, seja em si mesma, seja por suas consequências diretas.
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Essa compreensão é relacionada à ascensão da democracia na Atenas antiga.
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Em contraste com grande parte do pensamento moderno inicial, os filósofos gregos já avançavam em direção à concepção da emoção como primordialmente localizada no espaço público, além do sujeito fechado em si mesmo.
2. O segundo capítulo parte da análise detalhada da raiva em Sêneca, marcada simultaneamente pela referência à razão deliberativa antiga e pela antecipação do subjetivismo moderno, para posteriormente examinar a teoria cartesiana segundo a qual as emoções são propriedades privadas das mentes e dos corpos individuais, geradas endogenamente no interior do sujeito.
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O terceiro capítulo contrapõe a essa perspectiva a posição de Espinosa, que retira decisivamente a emoção das malhas da subjetividade.
3. O quarto e último capítulo da primeira parte examina a experiência simultaneamente fascinante e elusiva do sublime em relação ao problema da localização das emoções, confrontando a tentativa kantiana de situar a experiência do sublime nas operações da mente com a concepção segundo a qual as emoções correspondentes pertencem às paisagens-de-lugar (placescapes) inteiras que capturam o indivíduo por sua força e alcance.
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A admiração reverencial, o assombro e a experiência de ser subjugado ou sobrepujado não podem, assim, ser separados das vistas que apresentam essa emocionalidade ao sujeito humano.
4. A parte 2, “Paisagens-de-lugar emocionais: a dinâmica interpessoal da emoção”, inicia-se com a concepção de Merleau-Ponty segundo a qual a emoção não está localizada nos indivíduos, mas entre eles, de modo que a raiva surge na própria interação interpessoal e não constitui simplesmente propriedade isolada de quem a sente.
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Max Scheler antecipou aspectos fundamentais dessa perspectiva interpessoal, desenvolvendo diversas de suas modalidades.
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Sara Ahmed reelabora a mesma premissa intersubjetiva ao situá-la em contextos raciais e políticos concretos.
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Daniel Stern investiga a sintonia afetiva entre mãe e bebê, enquanto Gustave Le Bon aborda a psicologia das multidões e a sugestibilidade implicada no contágio emocional.
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O fascismo nascente constitui um exemplo extremo e destrutivo desse contágio.
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Sigmund Freud acrescenta a análise da psicodinâmica entre líder e seguidores por meio das identificações primárias e secundárias que fundamentam os “laços emocionais”, além de admitir emoções inconscientes situadas abaixo do eu consciente.
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Stern, Le Bon e Freud convergem, apesar de suas diferenças, ao localizar a emoção primordialmente nas interações intensas entre sujeitos e não no interior de sujeitos conscientes isolados.
5. A parte 3, “Rumo a uma perifenenomenologia prospectiva da emoção”, apresenta uma visão panorâmica da concepção extrassubjetiva da emoção, começando pela análise das bordas características dos estados emocionais e pelo papel fundamental do corpo vivido na experiência emocional, sobretudo na intercorporeidade (interembodiment) própria de grupos e multidões.
6. O capítulo 10 desenvolve a tese da elasticidade da emoção, segundo a qual ela é intrinsecamente transmissível e não permanece contida em sujeitos separados, explorando, a partir de Teresa Brennan e Cynthia Willett, os meios pelos quais as emoções chegam aos indivíduos provenientes de outras pessoas, de outras espécies e dos lugares particulares em que são experimentadas.
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A noção de “e-co-afetividade” (e-co-affectivity) de Marjolein Oele e a ideia de “ecopropriocepção” (ecoproprioception) de George Quasha ampliam essa concepção de transmissibilidade afetiva.
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A transmissão por campos afetivos inteiros reforça a tese de uma localização extrassubjetiva da emoção.
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O capítulo 11 amplia essa perspectiva ao investigar como a emoção chega de além dos próprios indivíduos por meio de atmosferas inteiras, podendo ser considerada, nesse sentido, “transportada pelo ar” (airborne).
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Grande parte da emoção pertence primordialmente aos ambientes que circundam os seres humanos e dos quais eles próprios constituem partes integrantes, sendo transmitida por campos de força afetiva provenientes de diferentes localizações regionais.
7. O epílogo sustenta que se procura inutilmente a emoção quando ela é buscada apenas no interior dos indivíduos, pois é necessário reconhecê-la nas diversas paisagens-de-lugar de sua emergência e de sua plena manifestação, incluindo suas bordas temporais e gestuais e as periferias marcantes da experiência emocional; um apêndice intitulado “Arte e afeto na esteira do Holocausto” compara a apresentação da emocionalidade nas obras de Anselm Kiefer e Gerhard Richter, que evocam o Holocausto de maneiras distintas e perturbadoras.
8. O termo “emoção” é empregado em sentido amplamente genérico para designar praticamente qualquer modo pelo qual uma experiência ou situação afeta alguém com intensidade suficiente para provocar formas coordenadas de ação, seja por enunciados verbais, seja por movimentos corporais, enquanto “emocionalidade” designa o estado global de ser emocional.
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Sentimento (feeling), humor (mood), afeto (affect) e afetividade (affectivity) não constituem espécies rigidamente determinadas, mas dimensões coordenadas da emocionalidade.
9. O sentimento (feeling) designa o estado subjetivo no qual as emoções são recebidas e registradas, possuindo aqui um alcance semântico mais restrito do que nas concepções de Whitehead, Collingwood ou Langer.
10. O humor (mood) designa um estado emocional no qual uma ou várias pessoas se encontram envolvidas, caracterizando-se por sua difusão e indeterminação e podendo exercer forte poder de captura mesmo quando carece de forma definida ou delimitação precisa.
11. O afeto (affect) designa o modo pelo qual as emoções incidem diretamente sobre os indivíduos, como no affectus de Espinosa, com ênfase no instante em que as bordas exteriores de uma emoção inicialmente os alcançam.
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Diferentemente da emoção em seu alcance pleno, o afeto não exige, no momento de sua chegada, uma interpretação fundada em história ou compreensão.
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Nesse sentido, apresenta caráter comparativamente “abstrato”, pois sua própria incidência constitui inicialmente toda a experiência.
12. A afetividade (affectivity) designa uma matriz de diversos estados afetivos estreitamente conectados entre si, cuja configuração conjunta produz o equivalente daquilo que pode ser denominado “atmosfera”.
13. A emoção chega aos indivíduos e os alcança a partir de diferentes direções e de cenas diversas de manifestação, as quais não podem ser adequadamente compreendidas pelos modelos causais da endogenia ou da exogenia, pois constituem arenas de apresentação perifanética situadas não no interior dos sujeitos, mas diante e ao redor deles.
