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Ser

BRAVER, Lee. Heidegger. Thinking of Being. Cambridge: Polity Press, 2014.

1. Martin Heidegger (1889–1976) constitui, segundo muitas avaliações, o mais importante filósofo do século XX na tradição continental, formando ponto de conexão entre as principais escolas de sua época, reunindo em sua obra inicial as influências dominantes do neokantismo, existencialismo, hermenêutica e fenomenologia, e exercendo em seu pensamento tardio influência dominante sobre o pós-modernismo, o pós-estruturalismo e o desconstrucionismo.

2. O propósito deste livro é oferecer ao leitor uma orientação inicial ao pensamento heideggeriano, discutindo muitas de suas ideias principais e os temas centrais recorrentes, sem pretender substituir a leitura direta de Heidegger, mas servindo antes como auxílio a essa leitura diante da vasta e complexa obra reunida em mais de cem volumes.

3. A relação de Heidegger com a história da filosofia caracteriza-se por um vínculo de amor e ódio, sendo ele ao mesmo tempo crítico implacável da tradição — acusando os filósofos, com exceção dos pré-socráticos, de negligenciarem a questão do ser — e o anunciador, já em Ser e Tempo, da tarefa de reanimar essa questão esquecida e ignorada.

4. Por outro lado, Heidegger expressa constante admiração pelos grandes filósofos, considerando-os aqueles que mais se aproximaram de formular a questão do ser, sendo até suas negligências informativas, pois as lacunas específicas de seu pensamento permitem vislumbrar, através delas, os contornos daquilo que passaram por cima ou ao redor.

5. Heidegger considera que a vasta maioria da filosofia passada opera sobre pressupostos profundamente falhos, de modo que evitar esses erros exige não incorporar tais pressupostos tomados como certos, o que torna um pensamento livre deles estranho aos olhos acostumados a enxergar sob sua luz, exigindo a leitura de Heidegger um ajuste fundamental das expectativas e modos de leitura e pensamento, à semelhança do filósofo platônico que, ao sair da caverna, precisa habituar os olhos à luz do sol.

6. Parte desse reajuste é linguística, pois Heidegger considera que o vocabulário e a gramática ordinários focam apenas certos fenômenos e contêm pressupostos ocultos que ele busca evitar, exigindo por isso a criação de novos termos ou o uso incomum de termos antigos e de novas maneiras de falar e escrever — o chamado “Heideguês” (Heideggerese) —, sendo insuficiente um simples glossário de vocabulário, pois também a gramática de sua escrita, o modo de articular palavras e frases, é incomum e frustrante para o leitor.

7. Outra parte do reajuste é conceitual, pois o pensamento de Heidegger move-se de maneiras estranhas, sendo ele bastante suspeitoso da argumentação lógica, sem contudo rejeitá-la inteiramente, reconhecendo antes limitações a essa forma de pensar, já que humores e sentimentos revelam aspectos do mundo aos quais a razão permanece cega, cobrindo o pensamento racional desengajado certos fatos ao mesmo tempo em que revela outros; Heidegger não rejeita a razão, mas sua confiança exclusiva, sendo a verdade mais variada do que ela sozinha permite captar.

8. Essa abordagem deve-se em grande parte à fenomenologia, escola fundada por seu professor Edmund Husserl, que privilegia a descrição cuidadosa da experiência tal como ela se mostra em vez da argumentação, atendendo-se à experiência para dizer como o mundo realmente é, de modo que, se as coisas se mostram irracional ou arracionalmente, assim mesmo elas são, sendo emoções, obras de arte e textos históricos meios legítimos de acesso à verdade tanto quanto a razão, conferindo a essa abordagem uma amplitude e humanidade que poucos rivais possuem no cânone filosófico, ainda que a alguns pareça um cultivo irresponsável da irracionalidade.

9. Essa amplitude contrasta com a busca quase monomaníaca de Heidegger por um único tópico ao longo de toda a sua longa carreira — a questão do ser —, sendo ser, para Heidegger, tornar-se manifesto ou aparecer para nós, subscrevendo ele plenamente a rejeição fenomenológica de tudo que transcende a experiência, como as Formas platônicas ou os noumena kantianos, equivalendo fenômeno — aquilo que aparece — àquilo que é, insight que Heidegger atribui aos antigos gregos e cuja recuperação credita a Husserl, embora tenha depois considerado Husserl aquém desse insight.

10. A obra de Heidegger estuda todos os diferentes tipos de entes examinando todas as várias maneiras pelas quais as coisas podem aparecer, revelando-se essas maneiras extraordinariamente variadas e ricas, acomodando seu pensamento cada tipo diferente de ente sem reduzi-los a poucos princípios amplos, capturando assim a diversidade do mundo de modo muito mais bem-sucedido do que filósofos que tendem a ver tudo em termos de uma única ideia — como a participação nas Formas, a substância, ou traços matematicamente mensuráveis —, sendo a fenomenologia a grande inimiga de todo reducionismo.

11. Martin Heidegger nasceu filho de um sacristão em Messkirch, Alemanha, em 1889, tendo estudado inicialmente teologia na Universidade de Freiburg antes de mudar-se para a filosofia, tornando-se herdeiro aparente de Husserl e assumindo sua cátedra em Freiburg com base em seu primeiro livro, Ser e Tempo (1927), obra que teria sido apressada à publicação ainda inacabada para garantir a cátedra, tornando-se sucesso imediato que projetou Heidegger à proeminência mundial e permanece um dos maiores livros do século XX.

12. Heidegger filiou-se ao partido nazista em 1933 com considerável entusiasmo, sendo eleito Reitor da Universidade de Freiburg, onde implementou políticas educacionais nazistas, embora haja incerteza quanto ao grau de comprometimento; renunciou ao reitorado no início de 1934, mas permaneceu filiado ao partido, aparentemente com pouco entusiasmo, sendo as razões precisas de sua renúncia e desilusão com o partido matéria de debate a ser tratada adiante.

13. Por volta do final da década de 1920 e início da de 1930, o pensamento de Heidegger passou pelo que alguns chamam de Kehre ou virada, embora a natureza, extensão e até mesmo a existência dessa mudança sejam objeto de intenso debate entre os estudiosos, tendo seu estilo de escrita certamente se tornado mais difícil, passando a favorecer ensaios e cursos de lições em vez de grandes tratados, embora existam tentativas de livros de grande escala entre o vasto material inédito.

14. Sua relação com a história da filosofia intensificou-se na parte final de sua carreira, tendo planejado uma segunda parte de Ser e Tempo dedicada a Kant, Descartes e Aristóteles, separada da primeira parte expositiva do tópico, passando nas obras posteriores a entrelaçar seu próprio pensamento com um diálogo com pensadores anteriores, prática seguida também por Derrida, fortemente influenciado por Heidegger.

15. Este livro seguirá essa divisão, dedicando a primeira metade a Ser e Tempo e a segunda ao Heidegger tardio, indicando ao final de cada capítulo os textos considerados mais adequados para o tratamento de cada tópico e utilizando notas de rodapé para apontar ao leitor interessado outras obras que discutem os mesmos assuntos, bem como conexões com outros filósofos e literatura secundária relevante para aprofundamento.

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