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Temas

BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.

  • Sein und Zeit (Ser e Tempo) oferece uma ontologia fenomenológica da vida humana, desenvolvida por Heidegger em dois estágios
    • a primeira divisão constitui a Analítica Preparatória Fundamental do Dasein (ser-aí), abordando a ontologia da vida humana por meio de uma fenomenologia da vida cotidiana
    • a segunda divisão, intitulada Dasein e Temporalidade, expõe a unidade intrínseca dos traços estruturais expostos na primeira divisão, sustentando que a forma temporal da existência do Dasein difere daquela dos entes que não são Dasein
    • a análise parte da angústia (Angst) diante da morte (Tod) como experiência extrema que revela modos de vida humana exigindo a nova análise temporal, a qual abre caminho para uma compreensão da história e do lugar do tempo na compreensão do ser
  • as duas primeiras divisões da Parte Um preparam a terceira divisão, Tempo e Ser, que jamais foi escrita, permanecendo a obra publicada restrita a uma ontologia da vida humana
    • a Parte Dois, planejada como reconstrução fenomenológica de momentos da história da filosofia ocidental — Kant, Descartes e Aristóteles —, tem seu conteúdo presumido em Problemas Fundamentais da Fenomenologia (Basic Problems)
    • os traços da terceira divisão encontrados nessa obra são fragmentários e insatisfatórios, de modo que o legado de Sein und Zeit acaba sendo uma nova ontologia da vida humana, sem prejuízo das ambições mais amplas do projeto original
  • o capítulo introdutório esboça os temas da porção existente de Sein und Zeit em termos gerais e não técnicos, preparando a leitura dos capítulos técnicos subsequentes

Rejeitando o Modelo Sujeito-Objeto da Experiência Humana

  • o argumento negativo central da primeira divisão sustenta que a tradição filosófica compreendeu mal a experiência humana ao lhe impor um esquema sujeito-objeto
    • apenas os eliminativistas mais extremos no debate mente-corpo negam que somos pessoas e centros de experiência subjetiva, o que em si não gera problema
    • o erro da tradição está em interpretar a subjetividade por meio dos conceitos de interno e externo, representação e objeto, linguagem que domina a filosofia moderna de Descartes a Kant e Husserl
    • o exemplo de duas pessoas divergindo sobre ver um navio-contêiner ou uma ilha ilustra a tentação de localizar a percepção divergente dentro da cabeça de cada um
    • a proposta reducionista de identificar pensamentos com matéria cinzenta entre as orelhas jamais teve muitos adeptos, preferindo-se falar de mente ou alma como algo distinto do cérebro
    • a maioria dos filósofos modernos recorre à linguagem de pensamentos dentro de uma mente, independentemente de sua posição final sobre o problema mente-corpo
  • uma das acusações fundamentais de Heidegger contra esse consenso moderno é que ele é ontologicamente vago
    • a citação afirma que, seja qual for a interpretação dessa esfera interna, perguntar como a cognição sai dela e alcança a transcendência revela que tal cognição permanecerá problemática enquanto não se esclarecer previamente como e o que ela é (BT 87/60)
    • a objeção não pode ser meramente a de que a linguagem de interno e externo, sujeito e objeto, é metafórica, já que o próprio Heidegger recorre extensivamente a metáforas
    • em §28 ele introduz a metáfora da clareira (Lichtung) na floresta, espaço aberto onde as coisas podem se manifestar, substituindo a metáfora do reino subjetivo interno fechado
  • a acusação principal de Heidegger contra a linguagem de sujeito e objeto, interno e externo, é que ela conduz a descrições distorcidas da experiência, numa objeção de caráter fenomenológico
    • a linguagem de interno e externo sugere um abismo entre o sujeito e o objeto, abismo que precisaria ser transcendido por meio de uma conquista cognitiva
    • esse modo de pensar corresponde apenas a modos de experiência que Heidegger descreve como deficientes (BT 88/61)
    • o exemplo de digitar no teclado, beber café e perceber o café pingando sobre o teclado ilustra o momento em que a familiaridade normal se torna problemática e surge a pergunta se a caneca rachou
    • a linguagem de interno e externo capta o sentido de distância em relação ao mundo, podendo levar a preocupações com ceticismo e solipsismo, mas tal distância não é o modo comum de experiência
  • as interações com outros normalmente não apresentam dificuldades, dispensando a necessidade de inferir a existência de outras mentes ou reconstruir a experiência alheia
    • expressões como perguntar o que se passa na cabeça de alguém (a penny for your thoughts) surgem apenas em circunstâncias excepcionais de dificuldade de compreensão
    • certas formas de humor exploram justamente a exceção, quando alguém age de modo bizarro ou se depara com um objeto fora de lugar

A Fenomenologia da Cotidianidade em Heidegger

  • Heidegger oferece uma descrição alternativa da experiência, argumento positivo da primeira divisão, segundo a qual a experiência fundamental do mundo é de familiaridade
    • essa familiaridade permite estar absorvido no mundo, nele nos movendo fluidamente para completar tarefas, perseguir ambições e agir
    • não se experimenta normalmente a si mesmo como sujeito diante de um objeto, mas como estando em casa num mundo já compreendido, sendo a identidade indissociável do mundo circundante
    • essa familiaridade primordial recebe o nome de disclosedness (abertura) e ser-em, condensada no termo cunhado ser-no-mundo, desenvolvido nos cinco primeiros capítulos da primeira divisão
  • no sexto capítulo as linhas da análise do nosso ser são reunidas sob o nome de cura (Sorge)
    • em sentido não técnico, a vida sempre importa e faz diferença para nós, sendo, na linguagem preferida de Heidegger, um assunto (an issue) em nosso ser
    • a parafernália não humana que preenche o ambiente é sempre apropriada ou inapropriada à situação presente, modo de importar que Heidegger nomeia estar preocupado com (Besorgen) o ambiente
    • os outros humanos também importam, não apenas amigos, amantes, filhos, pais e vizinhos, mas também de modo mais banal, como o exemplo do caixa de loja de conveniência que precisa fazer o registro para que se possa ir para casa com o refrigerante e o salgadinho
    • o nome dado a todos os modos de cuidado com os outros é solicitude (solicitude), de modo que a preocupação com a parafernália e a solicitude pelos outros decorrem do fato de que nosso ser é cura

As Implicações da Fenomenologia da Cotidianidade para Problemas Filosóficos Tradicionais

  • a fenomenologia da vida cotidiana e a noção de cura permitem endereçar problemas filosóficos tradicionais
    • o ceticismo epistemológico, as questões sobre idealismo e realismo e as teorias tradicionais da verdade são consideradas imotivadas, por repousarem no modelo sujeito-objeto da experiência
    • as próprias perguntas formuladas pela filosofia ocidental ao longo de dois milênios e meio são tidas por mal formuladas, apoiadas em pressupostos que a análise fenomenológica de Heidegger rejeita
    • no caso da verdade, as teorias tradicionais são substituídas não por outra teoria, mas por uma fenomenologia da verdade que expõe a dependência da verdade ordinária, dos juízos e asserções, em relação a algo mais básico, chamado verdade primordial (primordial truth)
    • o termo verdade primordial nomeia um fenômeno tão familiar que passa despercebido: o modo como o mundo da experiência — incluindo nós mesmos, os outros e a parafernália — se manifesta como campo holístico de experiência, examinado em I.5 sob os nomes de abertura (Erschlossenheit), clareira (Lichtung) e ser-em
    • aquilo que se diz em asserções e se pensa em juízos só pode ser verdadeiro ou falso na medida em que os próprios termos em que são formulados já abrem um mundo de experiência, termos que são verdadeiros ou falsos em sentido mais básico, na medida em que desvelam ou encobrem

Temáticas Existencialistas na Segunda Divisão

  • a fenomenologia da cotidianidade é confirmada pela identificação da estrutura formal da existência cotidiana, trazida à vista sob o nome de cura por meio de uma fenomenologia da angústia (Angst)
    • na angústia a vida cotidiana se rompe, tornando dolorosamente perceptível sua estrutura normal
    • a possibilidade de não conseguir compreender a si mesmo na angústia obriga a reconsiderar o todo estrutural do Dasein, uma vez que a angústia não é experiência cotidiana e revela que há mais no ser do Dasein do que a cotidianidade
    • em II.1 a condição de não poder compreender a própria vida é analisada sob o título de morte, termo aqui chamado morte existencial para distingui-lo da morte no sentido cotidiano, chamada por Heidegger de finitude, decesso
    • a morte existencial não integra a vida cotidiana, sendo antes uma ruptura, um colapso do viver, do qual resulta que não há compreensão do sentido ou propósito da vida embutida na existência humana, nenhuma natureza humana nesse sentido do termo, cabendo a cada um, em sentido importante, conduzir sua própria vida
  • em II.2 Heidegger contém a tentação de inferir que se pode ser o que se quiser, tentação por vezes chamada liberdade radical, associada à leitura de Sartre
    • sustenta-se que o Dasein só pode interpretar-se em termos de possibilidades de ser nas quais já se encontra lançado (Geworfenheit), condição nomeada culpa (Schuld)
    • o Dasein deve recorrer ao reservatório de possibilidades de autocompreensão fornecido pelo contexto sócio-histórico em que vive, chamado herança (heritage) em II.5, não possuindo liberdade radical, mas liberdade situada
    • em contraste com a concepção kantiana da liberdade como capacidade de agir conforme a lei moral, para Heidegger é a consciência (Bewusstsein) que nos convoca, por meio de um chamado (Ruf), a agir em situação prática concreta, sendo a liberdade a capacidade de responder às exigências da consciência, e o seguimento dessa liberdade chamado resolução (Entschlossenheit)
  • a escolha do termo resolução decorre da conclusão de que o mundo social cotidiano se organiza por um conjunto público de interpretações do que importa na vida humana, insensível às particularidades da situação concreta em que o indivíduo age
    • o impessoal (das Man) conhece apenas as circunstâncias gerais, enquanto o Dasein resoluto conhece a situação particular
    • escutar as exigências da situação concreta pode colocar o indivíduo em conflito com o mundo social ao redor, evocando resposta repressiva e conformista por parte dos outros, ou mesmo autorrepressão em nome do conformismo, de modo que a resolução exige uma forma de coragem

Temporalidade Existencial e Historicidade

  • no meio de II.3 ocorre a virada para a análise da temporalidade da existência humana, afastando-se dos detalhes da morte, da culpa, da consciência e da resolução para perguntar o que os resultados fenomenológicos de II.1 a II.3 revelam sobre a ontologia
    • sustenta-se que a existência possui uma estrutura temporal distintiva, caracterizada em II.5, sobre historicidade, como um acontecer (Ereignis), um esticar-se (stretching itself) através da vida
    • a unidade desse esticar-se não é a unidade de persistência através da mudança, não sendo a vida unificada por um substrato subjacente nem pela memória
    • a unidade temporal se constitui pela interpretação contínua de para onde se caminha na vida, o futuro, e de onde se veio, o passado, experiência chamada steady steadfastness (firmeza constante), em que se permanece fiel ao que importa ao responder às exigências da situação
    • a firmeza constante se contrapõe ao viver instável ou inconstante, em que não se interpreta o rumo da vida nem se reconhece a amplitude dos recursos disponíveis na situação cultural, sendo a identidade do self, nesse sentido de firmeza constante, uma conquista, e não um pressuposto metafísico da experiência
  • no capítulo final da segunda divisão, II.6, o tema é o fenômeno do tempo
    • distingue-se a estrutura temporal da existência do Dasein, chamada temporalidade (Zeitlichkeit), do modo como os eventos cotidianos existem numa forma significativa de tempo, chamada world-time (Weltzeit)
    • as exigências práticas de lidar com o tempo e racioná-lo conduzem à busca de um relógio universal para planejar e coordenar atividades com outros
    • essa busca leva a uma concepção do tempo como uma espécie de recipiente em que ocorrem eventos, recipiente constituído por um fluxo interminável, irreversível e contínuo de agoras, concepção ordinária do tempo encontrada em Aristóteles e transmitida pela tradição filosófica ocidental até a época de Heidegger
    • não se pretende mostrar que essa concepção ordinária do tempo seja errada ou ilegítima, mas mostrar como ela se desenvolve conceitualmente a partir da temporalidade, origem obscurecida no trato com os assuntos cotidianos
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