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Eigentlichkeit
BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.
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O ser-aí (Dasein) caracteriza-se como uma pessoa a quem se deve dirigir com um pronome pessoal, embora o uso cotidiano do pronome da primeira pessoa do singular oculte que, na cotidianidade (Alltäglichkeit), a ação costuma se dar de tal forma que se deve dizer que não foi ninguém.
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Predomina o comportamento pautado pelo que se faz e como se faz no horizonte do impessoal (das Man), respondendo a apelos gerais e agindo de modo socialmente apropriado sem que isso signifique agir como um robô.
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A resposta às particularidades e sutilezas de uma situação, mesmo quando dotada de sabedoria prática, não se relaciona com algo especificamente próprio, restando a questão sobre o que torna a agência própria em vez de pertencer ao impessoal (das Man).
A apropriação da agência exige que o ser-aí (Dasein) assuma a própria vida, o que se ilustra em decisões de ruptura com apelos gerais, guiando-se por um apelo endereçado especificamente a si e não a qualquer um.-
A consciência (Gewissen) convoca o si-mesmo do ser-aí (Dasein) de seu estado de perdido no impessoal (das Man): “A consciência convoca o si-mesmo do ser-aí de sua perda no impessoal”.
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O si-mesmo do impessoal (Man-selbst) opera por particularização ou instanciação de padrões gerais de conduta, enquanto o si-mesmo autêntico ou próprio (eigentliche Selbst) atua por especificação ou transformação, modificando existencialmente o impessoal (das Man).
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O ser-si-mesmo próprio ou autêntico (eigentliches Selbstsein) não se apoia em um estado excepcional do sujeito isolado do impessoal (das Man), mas sim em uma modificação existencial deste: “O ser-si-mesmo próprio não se apoia num estado excepcional do sujeito, estado este que tenha sido destacado do impessoal; ele é, antes, uma modificação existencial do impessoal — do impessoal como um existencial essencial”.
A autenticidade ou propriedade (Eigentlichkeit) não exige a constituição de um indivíduo absolutamente único e sem comunhão com os outros, nos moldes de um espírito livre nietzscheano, o qual seria incapaz de articular o que está em jogo em sua vida.-
Na obra As Moscas, de Sartre, o personagem Orestes assume sua vida ao abraçar a missão de vingar a morte do pai, matando Clitemnestra e Egisto, sem no entanto esclarecer suas razões a ninguém, limitando-se a dizer que encontrou seu caminho, sua cidade e sua irmã.
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Exemplos históricos como Kareem Abdul-Jabbar e Franz Jägerstätter demonstram que a apropriação de possibilidades disponíveis no mundo social — como a conversão ao Islã ou a objeção de consciência — não requer uma ruptura radical, mas a adaptação dessas possibilidades às suas situações específicas de forma articulada.
O ser-aí (Dasein) encontra-se imediata e regularmente perdido no si-mesmo do impessoal (Man-selbst), o qual constitui uma modificação existencial do si-mesmo próprio ou autêntico (eigentliches Selbst).-
A consideração do si-mesmo do impessoal (Man-selbst) como modificação do si-mesmo próprio ou autêntico (eigentliches Selbst) afasta a interpretação personalista romântica de um eu verdadeiro ocultado por distrações públicas, o que colide com a indeterminação que Heidegger atribui à decisão ou resolução (Entschlossenheit).
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A indeterminação do poder-ser (Seinkönnen) só ganha determinação na resolução (Entschlossenheit) diante da situação atual, manifestando-se plenamente no ser-para-a-morte (Sein zum Tode): “Quando a resolução é transparente para si mesma, ela compreende que a indeterminação do próprio poder-ser só se torna determinada em uma resolução no que diz respeito à situação atual. […] A indeterminação do próprio poder-ser, mesmo quando este poder se tornou certo em uma resolução, é primeiramente tornada totalmente manifesta no ser-para-a-morte”.
O si-mesmo possui uma consciência transcendental que consiste na capacidade de ouvir apelos para agir de modos determinados, embora a existência transcorra majoritariamente na perda no impessoal (das Man) por meio da escuta de apelos genéricos.-
O estado de perdido ocorre mesmo quando há respostas a aspectos particulares da situação ou exercício de sabedoria prática e perícia intuitiva que superam a percepção da maioria das pessoas.
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A consciência (Gewissen) por vezes convoca o ser-aí (Dasein) para o seu poder-ser-si-mesmo mais próprio (eigenstes Selbstseinkönnen), levando-o a assumir quem é ao atender a apelos que outros não ouvem por força de uma interpelação diferenciada da situação.
A resposta resoluta à situação concreta não exige a manutenção obstinada de uma identidade passada baseada em um eu verdadeiro, nem demanda uma visão transformadora ou conversão que resulte em alguém novo.-
A resolução precursora ou antecipadora (vorlaufende Entschlossenheit) dispensa constância biográfica temporal ou experiências de conversão, requerendo apenas firmeza no seguimento do apelo específico que singulariza o ser-aí (Dasein) frente ao impessoal (das Man).
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O fenômeno do poder-ser próprio (eigentliches Seinkönnen) revela a constância do si-mesmo (Selbstständigkeit) no sentido de ter conquistado uma posição firme: “Mas o fenômeno deste poder-ser próprio também abre nossos olhos para a constância do si-mesmo no sentido de ter alcançado uma posição. A constância do si-mesmo, no duplo sentido de firmeza constante, é a contra-possibilidade própria à não-constância-de-si que é característica da decadência irresoluta. Existencialmente, a constância-de-si não significa outra coisa senão a resolução precursora”.
A constância existencial define-se como a conquista de uma posição ou suporte firme, o que se aplica às trajetórias de Kareem Abdul-Jabbar e Franz Jägerstätter.-
Ambos os homens estavam dispostos a revogar decisões passadas, como demonstra a reformulação que Abdul-Jabbar operou em sua própria autocompreensão religiosa.
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Ser firme na manutenção de uma posição sobre quem se é não exige a conservação de continuidade com o passado, pois a autenticidade ou propriedade (Eigentlichkeit) da resolução precursora ou antecipadora (vorlaufende Entschlossenheit) repousa na fidelidade a quem se descobre ser no momento de clareza.
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A resolução (Entschlossenheit) estabelece a fidelidade da existência ao seu próprio si-mesmo: “A resolução constitui a fidelidade da existência ao seu próprio si-mesmo”.
A tradição filosófica ocidental errou ao conceituar a identidade pessoal como continuidade no tempo ou permanência de algo simplesmente dado ou presente (Vorhandenheit).-
O conceito ontológico de sujeito em Descartes, Kant e na tradição ocidental caracteriza a autoidentidade e a permanência de algo sempre presente, em vez da ipseidade do eu como si-mesmo: “Pois o conceito ontológico do sujeito caracteriza não a ipseidade do Eu como si-mesmo, mas a autoidentidade e a permanência de algo que está sempre presente”.
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A investigação de Heidegger direciona-se à identidade prática do ser-aí (Dasein) na primeira parte de sua obra e, na segunda parte, examina como essa identidade prática pode refletir o impessoal (das Man) ou responder especificamente às exigências da situação própria.
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A unidade do si-mesmo próprio ou autêntico (eigentliches Selbst) não se define pela continuidade, mas pela fidelidade ao chamado de quem se descobre ser, de modo que o ser-aí impessoal (unowned Dasein), por carecer dessa firmeza constante, mostra-se inconstante, disperso e desunificado.
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