REALIDADE – WIRKLICHKEIT (2012)
BENOIST, Jocelyn. Toward a contextual realism. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2021.
A grande conquista do século XX foi a descoberta da incrível riqueza e variedade do domínio simbólico, da quantidade de signos e códigos que articulam a nossa relação com a realidade. Talvez um dos aspectos negativos deste enorme avanço seja a impressão de que todos esses sinais e códigos apenas nos separam da realidade, formando uma espécie de ecrã entre ela e nós próprios. Como se a realidade estivesse escondida por detrás do significado e, consequentemente — uma vez que o significado se revela muito complexo —, infinitamente longe de nós.
Talvez então o realismo deva ser entendido como a afirmação de que existe realmente algo para além do véu do significado. Mas o que é que “realmente” significa aqui? É difícil perceber o que poderia significar para além de assinalar uma espécie de “transcendência”: há realmente algo que não pode ser reduzido a um ídolo de significado, há algo que existe para além do significado.
É muito tentador traduzir esta ideia da transcendência da realidade ao sentido numa espécie de falta de sentido essencial e metafísico. Como se a realidade precisasse de ser sem sentido para estar verdadeiramente para além do sentido.
Esta caracterização, porém, é equívoca. Pode significar que a realidade é uma categoria à qual não faz sentido aplicar o conceito de significado; a realidade é apenas o que é — essa é a sua definição — e, portanto, não tem significado em si mesma. No entanto, num entendimento substancial de “ausência de sentido”, não faz sentido chamar à realidade “sem sentido”. Porque, nesse entendimento, chamar a algo “sem sentido” pressupõe a possibilidade de ser “significativo”, caso em que a noção de sentido se aplica, afinal, à realidade.
* A afirmação do realismo responde, provavelmente em primeiro lugar, a uma preocupação fundamental caracterizada pelo sentimento de ter perdido o contato com o mundo.
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O realismo é uma resposta a uma inquietação.
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A inquietação primordial é a sensação de perda de contato com o mundo.
* A grande realização filosófica do século XX consistiu na descoberta da riqueza e variedade do âmbito simbólico e da multiplicidade de signos e códigos que articulam a relação humana com a realidade, porém o aspecto negativo desse avanço reside na impressão de que todos esses signos e códigos formam uma tela que separa a realidade de nós, como se ela estivesse oculta por trás do significado e, dada a complexidade deste, se tornasse infinitamente distante.
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O século XX descobriu a riqueza e variedade do âmbito simbólico.
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Signos e códigos articulam a relação com a realidade.
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O efeito colateral dessa descoberta é a impressão de que os signos formam uma tela entre nós e a realidade.
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A realidade parece oculta por trás do significado.
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A complexidade do significado torna a realidade infinitamente distante.
* O realismo pode ser compreendido então como a afirmação de que existe algo além do véu do significado, e o termo realmente, nesse contexto, indica uma transcendência, ou seja, a existência de algo irredutível a um ídolo do significado, algo que existe para além do próprio significado.
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O realismo afirma a existência de algo além do véu do significado.
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O termo realmente sinaliza uma transcendência.
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O que é transcendente não pode ser reduzido a um ídolo do significado.
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Há algo que existe para além do significado.
* É extremamente tentador traduzir essa ideia da transcendência da realidade em relação ao significado em alguma forma de falta de sentido essencial e metafísica, como se a realidade precisasse ser desprovida de sentido para estar verdadeiramente além do significado.
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A transcendência da realidade é frequentemente interpretada como uma falta de sentido essencial.
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A realidade precisaria ser desprovida de sentido para estar além do significado.
* Essa caracterização da realidade como desprovida de sentido é equívoca, pois pode significar que a realidade é uma categoria à qual não faz sentido aplicar o conceito de significado, sendo ela simplesmente o que é, mas também pode ser entendida substantivamente, pressupondo que a realidade poderia ser significativa e, portanto, ainda sob o domínio da noção de significado.
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A realidade pode ser entendida como categoria à qual o conceito de significado não se aplica.
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Nesse sentido, realidade é simplesmente o que é, sem a propriedade de ter significado.
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Em uma compreensão substantiva, chamar algo de sem sentido pressupõe a possibilidade de ser significativo.
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Essa pressuposição recoloca a realidade no âmbito da noção de significado.
* Uma influente corrente da filosofia contemporânea, exemplificada por Jean-Paul Sartre, compreendeu a falta de sentido da realidade no segundo sentido, substancial, como uma propriedade positiva, interpretando a indiferença da realidade ao significado como uma estupidez ou uma falta de sentido essencial e agonizante, o que constitui um erro categorial, pois a realidade não é estúpida nem carece de algo que não poderia dar, simplesmente é o que é.
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Sartre evita o equívoco de conceber a realidade como obstáculo, o que ainda lhe atribuiria um significado.
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Sartre insiste na indiferença da realidade ao significado.
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Essa indiferença é interpretada como estupidez ou falta de sentido essencial e agonizante.
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Realidade não é estúpida; ela simplesmente é o que é.
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A falta de sentido não é uma carência positiva, mas um erro categorial.
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É um equívoco esperar que a realidade possua significado.
* Uma vasta porção da filosofia contemporânea, convencida da perda de contato com a realidade, sente a necessidade de descobrir alguma ruptura no significado para recuperar a sensação de contato, e um exemplo notável dessa atitude é a conversão ao realismo de Maurizio Ferraris, descrita em O Mundo Externo, na qual o filósofo relata ter sido atingido por uma realidade para além de toda construção ou representação ao experimentar um terremoto em sua Cidade do México, evento que questiona o solo da evidência que Edmund Husserl considerava base essencial do significado.
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A filosofia contemporânea sente a necessidade de uma ruptura no significado para recuperar o contato com a realidade.
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Ferraris converteu-se ao realismo ao experimentar um terremoto no México.
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O terremoto é descrito como uma realidade além de toda construção ou representação.
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O evento questiona o solo de evidência que Husserl considerava base essencial do significado.
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A imagem do terremoto é poderosa porque a realidade ali está além do alcance do discurso familiar.
* É necessário, no entanto, questionar por que um filósofo necessita de algo como um terremoto para alcançar o real, uma vez que a realidade está em toda parte, não apenas nas rupturas brutais do significado, e concebê-la necessariamente sob a forma de catástrofe constitui uma forma sutil de antropomorfismo negativo.
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A realidade não se restringe a rupturas brutais do significado.
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A realidade está em toda parte.
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A necessidade de uma catástrofe para atingir o real revela antropomorfismo negativo.
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A realidade não precisa assumir a forma de catástrofe para ser real.
* Ferraris provavelmente não endossa uma visão catastrófica, pois acredita, como todos, que os quartos familiares são tão reais quanto um terremoto, mas sente-se compelido a usar esse exemplo para demonstrar a inemendabilità da realidade, sua não-cancelabilidade, sua força superior e independência em relação ao significado, permanecendo sempre a ideia fundamental de transcendência da realidade para além da esfera do significado.
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Ferraris não defende a visão catastrófica; quartos são tão reais quanto terremotos.
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O exemplo do terremoto serve para demonstrar a inemendabilità da realidade.
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A realidade é não-cancelável, mais forte que o significado e independente dele.
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A ideia fundamental é a transcendência da realidade para além da esfera do significado.
* Embora a dificuldade ocasional de fazer sentido da realidade seja uma parte essencial do que se chama realidade e um aspecto do seu conceito, seria um erro tomar essa dificuldade como o núcleo do conceito ou como a marca registrada da realidade.
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Fazer sentido da realidade nem sempre é fácil.
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Essa dificuldade ocasional é parte essencial do que se chama realidade.
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A dificuldade é um aspecto do conceito de realidade.
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Erro é tomar essa dificuldade como o núcleo do conceito.
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A dificuldade não é a marca registrada da realidade.
* Isso é um erro, primeiramente, porque caracterizar a realidade por seu fracasso em corresponder ao significado humano permanece uma caracterização dentro do âmbito do significado, tornando o conceito de realidade dependente dele ao menos negativamente, e, em segundo lugar, porque em circunstâncias favoráveis o significado é capaz de capturar a realidade, e tanto o sucesso quanto o fracasso em significar algo só são possíveis dentro da própria realidade, que se constitui como solo firme para ambos.
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Caracterizar a realidade como o que falha em corresponder ao significado humano é ainda uma caracterização interna ao significado.
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Essa caracterização torna o conceito de realidade dependente do significado, ainda que negativamente.
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Em circunstâncias favoráveis, o significado captura a realidade.
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O sucesso e o fracasso em significar só são possíveis dentro da realidade.
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A realidade é o solo firme tanto para o sucesso quanto para o fracasso do significado.
* Essa observação desloca o ponto de vista segundo o qual a realidade está ou deixa de estar diante do que se significa para o ponto de vista segundo o qual a realidade está, por assim dizer, em torno do significado, como seu próprio elemento, e, além disso, quando se significa algo real com sucesso, o significado captura adequadamente a coisa em sua realidade, afirmação que pode ser tautológica ou não conforme a perspectiva adotada.
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A realidade não está apenas diante do significado, mas em torno dele.
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A realidade é o elemento mesmo do significado.
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O significado bem-sucedido captura adequadamente a coisa em sua realidade.
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A afirmação dessa captura pode ser tautológica ou não, dependendo da perspectiva.
* De uma perspectiva, a afirmação de que o significado bem-sucedido captura a realidade é tautológica, pois, segundo um uso central do termo significado, nada precisa ser acrescentado a ele para alcançar a realidade, já que essa é precisamente a função do significado; de outra perspectiva, a afirmação não é vazia, pois insiste que a coisa mesma é encontrada no significado, o que pressupõe que a coisa pode ser pensada como sendo ela mesma, e é precisamente isso que se chama sua realidade.
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Em um uso central, o significado alcança a realidade por si mesmo; essa é sua função.
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Dessa perspectiva, dizer que o significado captura a realidade é tautológico.
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De outra perspectiva, a afirmação não é vazia, pois insiste que a coisa mesma é encontrada no significado.
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Isso pressupõe que a coisa pode ser pensada como sendo ela mesma.
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Ser ela mesma é o que se chama realidade da coisa.
