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Filosofia Existencialista
JBEH
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A palavra “existencialismo” designa uma doutrina que toma a “existência” como tema central, sendo que o termo “existência” possui uma longa história que o opõe ao de “essência”, o qual, originalmente, dizia o ser mesmo, mas se especializou em dizer o que as coisas são, em oposição ao fato de que elas são.
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O termo “essentia” surgiu como a transposição nominal do verbo “esse” para dizer o ser mesmo, mas, com o tempo, passou a designar a definição da coisa, o seu “o quê”, deixando em suspenso a sua existência, o que gerou a necessidade de um outro termo para dizer o seu “que”, ou seja, a sua efetivação.
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O verbo latino “existere” significava originalmente “sair”, “proceder de”, “mostrar-se”, e foi somente mais tarde, notadamente no século XVII, que o termo “existentia” passou a designar o fato de que uma coisa é, em contraposição à sua essência.
A tese existencialista de que, no homem, a existência precede a essência, afirma que o que se tem diante de si é sempre mais do que se pode imobilizar em um sistema de definições fixas, sendo o erro da filosofia desde Platão ter acreditado poder essencializar o que é.-
A prioridade da existência sobre a essência é uma ideia que remonta a Aristóteles, para quem a existência é primeira, e a essência é sempre segunda, e Sartre a ilustra com o exemplo dos legumes, cuja existência é um desafio à essência.
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Para o existencialismo, o “mais” que há no homem não está no céu e na terra, mas exclusivamente no homem, e a inquietação e o assombro que a aparição do homem causa, como no coro de Antígona, vêm do fato de que ele existe, e é o único a existir, como afirmou Kierkegaard.
Ex-sistir, para Kierkegaard, é o que diferencia o homem, por um lado, das coisas e dos animais, que não existem, e, por outro lado, de Deus, que é eterno e, portanto, não existe, sendo a existência uma característica exclusivamente humana.-
O homem se diferencia das coisas e dos animais porque, enquanto estes são principalmente representantes de uma espécie, no homem é o indivíduo, o singular, que tem supremacia sobre a espécie, sendo a individualidade o eixo de tudo.
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O homem se diferencia de Deus porque ele não é eterno, e, portanto, ex-sistir significa pertencer à dimensão do tempo, mas não ao tempo universal e mensurável dos cronômetros, e sim ao tempo do instante (ôieblikket, Augenblick), que é a possibilidade de fazer, num golpe de vista, o ponto da situação.
O instante é o presente que subitamente ganha sentido, no qual a existência se mobiliza e se ilumina em suas possibilidades mais próprias, tornando-se enfrentamento ou resignação, resolução ou abandono, face à alternativa que a coloca em situação de decidir de si mesma.-
A existência é correspondência à simplicidade enigmática de um apelo, e o “J'existe” de Descartes não é apenas a constatação de uma primeira verdade, mas um grito, uma exortação, uma provocação, um vocativo que anuncia que o momento de começar chegou.
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O “J'existe” é a correspondência a um apelo que se repercute, e o tempo do instante, mais rápido e mais lento que o tempo dos relógios, é o tempo da mutação que é o tempo da existência, no qual a própria agulha das horas não pode mais segui-lo.
A fórmula de Sartre de que a existência precede a essência deve ser entendida como o golpe de brilho da existência, que faz sempre estourar os sistemas nos quais o pensamento tende a fixar o destino do homem, e esse ultrapassamento da essência, ou seja, de todo sistema, é chamado de “liberdade”.-
A liberdade existencialista não é a liberdade absoluta do estoico, nem o livre-arbítrio narcísico, mas uma liberdade “em situação”, que se constitui como restrição de si mesma, sendo o “engajamento”, onde a liberdade é encarnada no mundo e é trabalho realizado sobre uma situação de fato.
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O existencialismo é um humanismo na medida em que o homem é “condenado a ser livre”, e é somente assumindo essa condenação até o fim que ele “surge” plenamente a si mesmo, emergindo como projeto e como escolha.
A noção de “situação” leva o existencialismo a um diálogo com o marxismo, que critica Sartre por reservar à liberdade a possibilidade de trair ou de vegetar na irrealidade, pois, para os marxistas, a situação se basta a si mesma e carrega a rigidez de sua própria lei.-
A fascinação do marxismo, considerado “indepassável” por Sartre, e o diálogo com o cristianismo, que também é um “engajamento” e um “humanismo”, definem a situação da filosofia existencialista no pós-guerra, exigindo tomadas de posição que são uma simplificação bárbara do platonismo.
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O sistema de Sartre em O Ser e o Nada é um retorno da teologia cristã, onde ao Deus criador do ser a partir do nada se substitui o homem criador do nada no pleno do ser, e a aparição do nada da “valor” é o que “desengasga” o homem do ser.
A filosofia cristã, na figura de Gilson, reivindica a anterioridade da descoberta da existência, remontando a São Tomás, e vê no existencialismo ateu de Sartre o último termo de um devir que consiste no esquecimento crescente dessa descoberta.-
A “filosofia cristã” se faz histórica e recuperadora, buscando surpreender o movimento do fluxo, e sua superioridade sobre o existencialismo de Sartre reside em sua pretensa modéstia, embora sua démarche retroativa deva remontar ainda mais longe.
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A questão do ser, que Heidegger coloca, não é a questão da existência do homem, mas da verdade do ser, e Kierkegaard, embora citado em Ser e Tempo, é considerado por Heidegger como um “autor religioso” que, ao filosofar, apenas toma o contra-pé de Hegel, sem se libertar de suas interpretações fundamentais.
Embora Heidegger seja frequentemente classificado como existencialista, ele próprio se distingue dessa filosofia, afirmando que sua questão é a verdade do ser, e não a existência humana, e que, embora Kierkegaard tenha levado mais longe a análise da angústia e do instante, ele o fez dentro dos limites da fé cristã.-
A classificação de Heidegger como existencialista é uma aproximação grosseira, como chamar Platão de filósofo das Ideias, e a expressão “Jaspers e Heidegger” é tão justa quanto “a condessa de Noailles e Paul Valéry”, pois um certo parentesco de Heidegger com a história secreta da filosofia o coloca em retirada essencial do festival da atualidade.
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Na Carta sobre o Humanismo (GA9), Heidegger se interroga sobre o humanismo e a essência do homem, mostrando que todo humanismo é, no fundo, uma explicação metafísica que define o homem a partir de um traço fundamental que responde a uma “tese sobre o ser”, sem que o próprio ser seja questionado.
A distinção entre essência e existência, que Sartre utiliza para fundar seu humanismo, tem sua origem na filosofia grega, onde, com Aristóteles, a precedência é dada ao “hoti” (o fato de que é) sobre o “ti” (o que é), em oposição a Platão, para quem o “hoti” é apenas um “mê on” (não-ser).-
Para os gregos, “ser” significa “presença”, e a distinção entre essência e existência só emerge quando a interpretação grega do ser como presença é obscurecida pela interpretação romana, que concebe a obra (opus) como produto (id quod exstat ab agitatu) e, portanto, em termos de ação e força de trabalho.
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A distinção escolástica entre essência e existência, que marca a dependência das criaturas em relação a Deus, é um desdobramento da interpretação romana do ser, onde a essência é o possível e a existência é o ato, sendo que em Deus ambos são um só, enquanto nas criaturas há uma distinção real.
Leibniz, ao buscar reconectar os elementos da distinção a um conceito geral do ser, descobre na noção de força a essência do ente, onde a existência é a “simples sequência do ser possível”, e o possível é um “conatus ad existendum”, o que inicia um movimento que culmina em Nietzsche com a vontade de potência como a essência mais íntima do ser.-
A interpretação grega do ser como presença, portadora da distinção aristotélica, desaparece com a interpretação romana, que não olha mais para a presença, mas para a ação, e essa perda do “vínculo espiritual” é o que torna a filosofia um jogo com “pedaços” (essência e existência) sem unidade.
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A crítica de Schelling a Hegel, que Kierkegaard acolhe, opõe à interpretação hegeliana da existência como desenvolvimento de um germe (Keim) a noção de um fundamento obscuro (Grund) que se retrai, estabelecendo entre Grund e Existenz uma “distinção muito real” que pode esclarecer a possibilidade universal do mal.
O conceito de existência em Kierkegaard, restrito ao homem diante do Deus da Bíblia, é um estreitamento dogmático do conceito metafísico de Schelling, e é desse conceito, pensado sem a referência essencial à fé judaico-cristã, que Sartre derivará seu existencialismo humanista, onde a existência precede a essência.-
Os humanismos, incluindo o existencialista, são a sombra portada e conflituosa de uma metafísica hoje mais que crepuscular, e a questão que se coloca é saber se a hora chegou de perguntar o que é a metafísica e se essa pergunta abre o caminho para um pensamento mais essencial que ela.
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A Carta sobre o Humanismo de Heidegger anuncia um pensamento que advém e que não é mais filosofia, pois pensa mais radicalmente que a metafísica, e que se prepara para descer na pobreza de sua essência precursora, recolhendo a palavra na simplicidade de seu dizer.
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