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Sartre
BARBARAS, Renaud. Sartre, désir et liberté. Paris: PUF, 2005.
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Nos últimos dez anos, observa-se, na França e na Bélgica, um profundo renascimento do interesse pela obra filosófica de Sartre, o que contrasta com a obra romanesca e teatral, já há muito tornada clássica mas sem suscitar o mesmo entusiasmo, sendo necessário que o efeito da figura do intelectual engajado se apagasse um pouco para que a obra pudesse ser considerada serenamente por si mesma
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o interesse voltado, nos anos que precederam e seguiram sua morte, para o Sartre filósofo político, tendo a Crítica da razão dialética como texto de referência
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a publicação de textos inéditos preciosos na década seguinte à sua morte, os Cadernos da estranha guerra e sobretudo os Cadernos para uma moral, redigidos em 1947-1948
Uma segunda explicação, externa mas decisiva, para esse retorno reside na influência considerável da fenomenologia alemã, sobretudo heideggeriana, que levava a negligenciar pura e simplesmente a fenomenologia francesa, isto é, essencialmente as filosofias de Sartre e Merleau-Ponty, consideradas na melhor das hipóteses pálidos epígonos e na pior bufonaria ou má literatura-
a transformação profunda do contexto intelectual e o recuo da influência heideggeriana abrindo espaço para o reconhecimento da originalidade da fenomenologia francesa
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Merleau-Ponty tendo sido o primeiro a se beneficiar desse movimento, o que num primeiro momento reforçou o ocultamento da fenomenologia sartriana, já que Merleau-Ponty se constrói em parte contra ela, ainda que essa distância se enraizasse num diálogo profundo e ininterrupto atestado pelos manuscritos inéditos
Sartre é lido agora como autor filosófico clássico, interessando-se pela gênese de seu pensamento a partir da leitura de Husserl e por sua influência considerável sobre Merleau-Ponty e Levinas, tendo passado o ano acadêmico de 1933-1934 no Instituto Francês de Berlim para estudar a fenomenologia-
o célebre artigo de Situations I sobre a intencionalidade explicando o fim das filosofias digestivas, a citação segundo a qual a consciência não tem interior, sendo apenas o exterior de si mesma
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a citação segundo a qual consciência e mundo são dados de um mesmo golpe, o mundo sendo por essência relativo à consciência, interpretação da intencionalidade husserliana no sentido de um realismo
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a fecundidade da abordagem husserliana explorada no campo da psicologia, em A imaginação e depois em O imaginário, a imagem sendo forma organizada de consciência e não conteúdo psíquico imanente
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a citação segundo a qual a imagem de Pedro não é uma vaga fosforescência mas forma de consciência que visa diretamente o ser real Pedro
Ainda que contribua brilhantemente para a difusão dos temas maiores da fenomenologia na França, Sartre não lê Husserl como historiador da filosofia mas como filósofo, do que testemunha por excelência A transcendência do Ego, concebido durante a estadia em Berlim e primeira obra publicada de Sartre-
o objetivo de estabelecer que a consciência pode dispensar a presença do eu, superfluo por não ser exigido pela unificação do fluxo de consciência e nocivo por constituir um centro de opacidade
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a ideia de uma consciência impessoal, absoluto não substancial e pura translucidez, tomando forma já nesse texto
O ser e o nada pode ser compreendido como vasto desenvolvimento dessa intuição inicial, nascendo a consciência voltada para um ser que não é ela mesma, revelante e não constituinte, opondo-se Sartre à Abschattungslehre husserliana ao afirmar um ser transfenomenal dos fenômenos, o em-si-
a consciência só podendo posicionar esse ser transcendente sob a estrita condição de que nada a separe de seu movimento posicional, sendo sua consciência de si necessariamente não cognitiva
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a caracterização da consciência como nada, o para-si como presença a si só sendo ele mesmo no modo da negação, não se reencontrando senão ao diferir de si
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o nada não podendo subsistir como nada senão sob a condição de não se distinguir daquilo que ele não é, não sendo ele mesmo senão se confundindo com o Ser
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a dialética culminando na teoria de uma liberdade absoluta e incondicionada, por essência estranha ao Ser e no entanto avesso da facticidade e contingência do para-si
O movimento de nadificação que caracteriza a existência humana funda-se numa teoria do desejo, chave de abóbada da obra, o para-si só saindo de si rumo ao mundo por ser atravessado por um desejo insaciável, uma falta que não pode ser preenchida-
o que falta ao para-si sendo sua realização em sentido estrito, uma identidade que não ameaçaria sua liberdade, querendo a existência humana realizar a síntese impossível do em-si e do para-si
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a citação segundo a qual Deus não é ao mesmo tempo um ser que é o que é, enquanto positividade e fundamento do mundo, e um ser que não é o que é e é o que não é, enquanto consciência de si
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o desejo constitutivo da existência humana sendo desejo de ser Deus, tudo se passando como se o mundo, o homem e o homem-no-mundo não conseguissem realizar senão um Deus malogrado
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