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Consciência, autoconsciência e si-mesmo

DZ2014

  • Consciência, autoconsciência e si-mesmo
    • Afirmo que existe uma longa tradição filosófica que compreende o si-mesmo como socialmente constituído e a autoexperiência como intersubjetivamente mediada, tradição que inclui Hegel, Royce, Mead, bem como abordagens pós-estruturalistas e foucaultianas que entendem a subjetividade como produto de práticas discursivas, linguísticas e relações de poder.
    • Reconheço que essas abordagens oferecem intuições relevantes, mas sustento que, quando apresentadas como teorias exaustivas do si-mesmo enquanto tal, incorrem em reducionismo social ao negligenciar uma dimensão mais básica e irredutível da autoexperiência.
    • Defendo, contra esse reducionismo, uma concepção minimalista e experiencial do si-mesmo, entendida como condição de possibilidade para qualquer forma de si-mesmo socialmente construído, concepção esta enraizada na tradição fenomenológica, em especial em Sartre e Husserl.
  • Autoconsciência pré-reflexiva
    • Sustento que toda experiência consciente é caracterizada por uma forma implícita de autoconsciência, que não resulta de reflexão ou de uma representação de ordem superior, mas pertence intrinsecamente ao próprio modo de ser da experiência.
    • Apoiado em Sartre, afirmo que a consciência não apenas existe, mas existe para-si [pour-soi], isto é, como implicitamente automanifestante, sendo a autoconsciência pré-reflexiva a condição de possibilidade da reflexão e não seu produto.
    • Distingo rigorosamente entre autoconsciência reflexiva, na qual a consciência toma a si mesma como objeto, e autoconsciência pré-reflexiva, que consiste no modo não objetivante pelo qual a experiência é vivida.
    • Introduzo o conceito de ipseidade [ipseity] para designar essa dimensão mínima de si-mesmo, inseparável da própria ocorrência da experiência e impossível de ser perdida enquanto houver consciência.
  • Husserl e a ubiquidade da autoconsciência
    • Recorro à análise husserliana do fluxo temporal da consciência para sustentar que toda vivência é simultaneamente consciência-de-algo e consciência-de-si.
    • Identifico na obra de Husserl a tese segundo a qual o caráter em primeira pessoa da experiência, uma forma primitiva de autoconsciência e um núcleo mínimo de si-mesmo são estruturalmente coincidentes.
    • Argumento que, para Husserl, ser sujeito é existir no modo de estar ciente de si mesmo, sem que isso implique uma tematização reflexiva ou objetivante do eu.
  • Ambiguidades do conceito de autoconsciência
    • Mostro que o termo autoconsciência é polissêmico e pode designar desde capacidades reflexivas complexas, como autorreconhecimento e avaliação social de si, até formas mais primitivas de autoexperiência.
    • Analiso definições oriundas da psicologia do desenvolvimento, da psicopatologia e da filosofia analítica, destacando que todas elas pressupõem uma forma mais elementar de autoconsciência que não depende de linguagem, teoria da mente ou autorrepresentação conceitual.
    • Defendo uma concepção estratificada da autoconsciência, na qual a forma mais básica consiste na manifestação contínua da experiência em primeira pessoa.
  • Consciência fenomenal e si-mesmo experiencial
    • Sustento que há uma ligação constitutiva entre consciência fenomenal e autoconsciência mínima, entendida como o fato de que toda experiência é algo-que-é-como-para-mim.
    • Argumento que essa dimensão de para-mim-idade [for-me-ness] ou minhadade [mineness] não é um conteúdo específico da experiência, nem um quale adicional, mas o modo formal pelo qual qualquer conteúdo experiencial se manifesta.
    • Distingo o si-mesmo experiencial tanto de uma substância metafísica independente quanto de uma mera coleção de vivências desconexas, caracterizando-o como um aspecto estrutural e imanente do fluxo da consciência.
  • Críticas ao si-mesmo fenomenal e resposta
    • Examino críticas que rejeitam a existência de um si-mesmo fenomenal com base na ausência de um “eu-qualia” identificável, argumentando que tais críticas confundem a não objetividade do si-mesmo com sua inexistência.
    • Rejeito a ideia de que a minhadade da experiência implique um selo qualitativo idêntico em todas as vivências, esclarecendo que se trata de uma modificação adverbial do experienciar e não de uma propriedade do objeto experienciado.
    • Argumento que negar a para-mim-idade da experiência equivale a negar a própria subjetividade, conduzindo a uma forma implícita de cegueira para o si-mesmo [self-blindness].
  • Individuação experiencial e perspectiva em primeira pessoa
    • Utilizo o experimento mental dos gêmeos qualitativamente idênticos para mostrar que a individuação experiencial não se dá pelo conteúdo das vivências, mas pelo modo como estas são dadas em primeira pessoa.
    • Defendo que a autoconsciência pré-reflexiva fornece um princípio formal de individuação que distingue sujeitos conscientes de maneira radicalmente diversa da individuação de objetos físicos.
    • Concluo que o si-mesmo minimal não é uma essência metafísica singular, mas a própria reflexividade imanente da experiência, condição sem a qual a noção de subjetividade se esvaziaria.
  • Conclusão provisória
    • Sustento que eliminar o si-mesmo mantendo a noção de subjetividade é conceitualmente incoerente, pois a subjetividade da experiência já constitui, em si mesma, uma forma mínima de si-mesmo.
    • Defendo que apenas a eliminação completa da experiência poderia justificar a eliminação do si-mesmo, razão pela qual qualquer teoria que leve a sério a perspectiva em primeira pessoa deve reconhecer a realidade do si-mesmo experiencial.
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