Canto da Terra
Prefácio de John Sallis, in HAAR, Michel. The song of the earth : Heidegger and the grounds of the history of being. Tr. Reginald Lilly. Bloomington: Indiana University Press, 1993
1. O Canto da Terra distingue-se de todos os outros, pois, ainda que seus contornos ainda se assemelhem às linhas clássicas que serviriam para delimitá-lo, há movimento em suas bordas, vibrações que turvam esses contornos, como se o texto ressoasse com o canto que lhe dá título.
2. Tampouco se trata simplesmente de um texto sobre Heidegger, de mais uma orientação discursiva forjada em seu pensamento — não mais do que Do Espírito, de Jacques Derrida —, mas, enquanto este último reconstitui um discurso heideggeriano sobre o espírito por ser sempre também um discurso contra o espírito, o discurso aqui retomado recebe atenção constante desde que Heidegger o introduziu, causando sensação filosófica, na conferência “A Origem da Obra de Arte”, apresentada em Freiburg em novembro de 1935 e, em sua forma definitiva, em três conferências em Frankfurt em novembro e dezembro de 1936.
3. A recepção dessa conferência é descrita como verdadeiramente sensacional pela introdução heideggeriana da conceitualidade surpreendentemente nova de mundo (Welt) e terra (Erde), suscitando, contra o pano de fundo de Ser e Tempo, a questão de como o Dasein — em sua compreensão do próprio ser, mostrada nessa obra como ponto de partida radicalmente novo para toda interrogação “transcendental” — poderia entrar numa relação ontológica com algo como a terra.
4. Por mais surpreendente que pudesse parecer contra o pano de fundo de Ser e Tempo, sobretudo à vista do lugar subordinado ali concedido à natureza nas análises do Dasein, a virada heideggeriana para a terra apenas retoma um movimento recorrente ao longo do que Heidegger viria a chamar o fim da filosofia, tempo de sua completude em Hegel e Husserl e de sua inversão e, ao final, deslocamento em Nietzsche.
5. A virada hegeliana para a terra revela-se ainda mais surpreendente que a heideggeriana: no curso da dialética da razão observadora (beobachtende Vernunft) apresentada pela Fenomenologia do Espírito, a caminho do saber absoluto, a terra surge subitamente como contradição quase monstruosa, o indivíduo universal que, como negatividade universal, preserva em si as diferenças que porta, violentando assim as formas da vida orgânica em sua diferenciação.
6. Num manuscrito notável, escrito poucos anos antes da conferência heideggeriana, refere-se a terra de modo a evocar, involuntariamente, a determinação hegeliana do indivíduo universal — “pois toda a terra é a mesma terra” —, mesmidade pensada tão radicalmente que se chega a afirmar, contra Galileu, ao menos como questão, que a terra não se move, sendo antes a base, uma arca que torna possível, em primeiro lugar, o sentido de todo movimento e todo repouso enquanto modo de movimento, sem que seu próprio repouso seja modo de movimento.
7. Nietzsche, contudo, achava-se, em meados da década de 1930, muito mais próximo do centro da atenção heideggeriana que Husserl, tendo Heidegger apresentado, no mesmo semestre em que proferiu “A Origem da Obra de Arte” em sua forma definitiva, o curso sobre Nietzsche intitulado “A Vontade de Poder como Arte”, de modo que se ouvem, no discurso heideggeriano sobre a terra, fortes ecos daquilo que Zaratustra proferiu quanto a ser o super-homem o sentido da terra.
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Reconhece-se que a eficácia da virada nietzschiana para a terra permanece limitada por seu enredamento numa mera inversão do platonismo, tal como Heidegger o rastreia em quase todos os textos, salvo os últimos.
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Ressoa, ainda assim, no discurso heideggeriano, algo do imperativo nietzschiano de permanecer fiel (treu) à terra e desconfiar dos que falam de esperanças ultraterrenas (überirdischen), sem contar o que se canta, cabendo perguntar se cada uma das canções de Assim Falou Zaratustra não poderia chamar-se um canto da terra.
8. Interpela-se o que significa a terra no discurso heideggeriano, se a própria pergunta pelo sentido é possível nesse discurso, elaborando-se com cuidado e precisão quatro sentidos distintos de terra.
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Em segundo lugar, vincula-se ao que se chamou natureza e, no início grego, physis.
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Em terceiro lugar, constitui o material na obra de arte, extraindo-se o importante corolário de que o elemento terroso é o que resta da obra quando seu mundo desapareceu, permitindo, noutra época, o encontro com a força e a beleza de uma obra passada — tal como o fulgor hierático dos mosaicos de Ravena, que nos toca com uma graça doravante escapa ao seu mundo.
9. Busca-se, ademais, unificar esses sentidos no pensamento singular de um fundamento não fundacional, ainda que todo discurso sobre o sentido da terra permaneça questionável, exposto ao recuo do que é dito sobre o próprio dizer, uma vez que, no discurso heideggeriano, o sentido se determina por referência a um horizonte, mais precisamente a um mundo, ao passo que a terra não é algo dentro do mundo, não sendo coisa alguma, mas antes aquilo que, em conflito originário com o mundo, permanece sempre também subtraído a este e à medida por ele fornecida.
10. Empreender dizer o que significa a terra arrisca submetê-la a essa medida, à regra do mundo, violando seu não-sentido — a menos que se diga também que a terra nada significa, interrompendo assim toda delimitação de sentido ao abri-la sobre um abismo, o que explica a pergunta insistente sobre a base a partir da qual se poderia dizer a terra, momento em que se alude à chora platônica e ao “raciocínio bastardo” que parece o único recurso para quem, como Timeu, falaria do que se subtrai à fala.
11. Interroga-se, quanto a este próprio texto, O Canto da Terra, se tais palavras poderiam ser reescritas sem o itálico que as faz funcionar como título, se este texto é um canto da terra, ou se ao menos se torna, em certos momentos, um canto da terra — não o canto, pois há outros, não somente os de Nietzsche e Mahler, mas também muito antigos, como o Hino Homérico “À Terra Mãe de Todos”, que começa por cantar a terra bem fundada, mãe de todos, a mais antiga de todas.
12. Pergunta-se ainda se, sendo canto da terra, seria também, como o Hino Homérico, um canto à terra, questão à qual dificilmente se poderia responder o que significaria hoje cantar à terra.
13. Interpela-se se, num canto da terra, cantar-se-ia a verdade sobre a terra, o que tal veracidade — permanecer fiel (treu) à terra — exigiria agora que a própria retração no seio da verdade, sua monstruosidade, foi pensada com mais força como terra, ou se um canto da terra não ressoaria também a partir da terra, duplicando o “de”, reiterando mesmo o canto que se cantaria como resposta a um inaudito canto da terra — reconhecendo-se então que um canto da terra sempre contém, ao ser cantado, certa terra do canto, a corporeidade de sua sonoridade a partir da própria voz, a terrosidade (das Erdige) do canto.
14. Impõe-se escutar, talvez quase como se escuta a voz do amigo que, segundo Heidegger, todo Dasein carrega consigo, escutando-se palavras como as que, seguindo a discussão da visão do jovem Heidegger de que todo tempo pertence essencialmente ao Dasein, sem tempo natural algum, sugerem que aí Heidegger ultrapassa o limite de sua própria descrição ao excluir a possibilidade de um tempo da natureza, discussão que enuncia outra descrição, a de um encontro com o jogo de luz e sombras projetadas pelo sol, encontro em que não haveria cuidado com a hora nem preocupação com trabalho algum, atentando-se apenas ao jogo de sombras que talvez só falasse do clima da hora — como que cantando um tempo da terra.
