estudos:marion:o-doado
O doado
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Assim nasce o doado, que o chamado faz suceder ao “sujeito” como o que se recebe inteiramente do que recebe
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O chamado o institui fenomenologicamente segundo os quatro traços de sua própria manifestação: a convocação, a surpresa, a interlocução, a facticidade (individuação)
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Convocação: o interlocutado prova um chamado bastante potente e constrangedor para que deva nele se render, no duplo sentido de nele se deslocar e nele se submeter
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Assim deve renunciar à autarquia de uma auto-posição e de uma auto-efetuação: é enquanto alterado pela escuta originária, que se reconhece como eventualmente identificado
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O choque puro e simples (Anstoss) da convocação só identifica o eu, ao transmutá-lo sem demora em um me “a quem”
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A passagem do nominativo ao caso regime (acusativo, dativo) inverte assim a hierarquia entre as categorias metafísicas: a essência individualizada (οὐσία πρώτη, τόδε τι) não precede mais a relação (πρός τι) e não a exclui mais de sua perfeição ôntica
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Ao contrário, a relação precede aqui a individualidade
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E ainda: a individualidade perde sua essência autárquica em razão de uma relação não somente mais originária que ela, mas sobretudo semi-desconhecida, pois pode fixar um dos dois polos — mim —, sem de primeira e na maior parte do tempo entregar o outro, a origem do chamado (pois cabe ao chamado de poder se exercer sem se colocar em evidência)
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A essência individual sofre assim uma dupla relativização: resultar de uma relação e de uma relação de origem desconhecida
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Donde um paradoxo primordial: pela convocação, o doado se identifica bem, mas esta identificação lhe escapa de saída, pois a recebe sem necessariamente conhecê-la
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Portanto recebe-se do que não pensa nem clara, nem distintamente; é apesar da deficiência nele do “eu [me] penso”
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A subjetidade se submete a uma identidade originariamente alterada, chamada
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Surpresa: o interlocutado, resultando de uma convocação, se reconhece tomado e dominado (sur-preendido) por uma dominação
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Mas esta dominação o determina tanto mais radicalmente quanto permanece (ou pode permanecer) de origem indeterminada
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O chamado surpreende ao tomar o doado sem contudo sempre lhe ensinar o que quer que seja; reduz-o somente à espreita, congela-o em parada, coloca-o em disponibilidade imóvel para o que, justamente, pode não acabar de vir, até nem mesmo começar
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O doado dá toda sua atenção a um objeto essencialmente faltante; abre-se sobre uma distância vazia
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Parecida distância, imposta ao mim/me sem lhe dar conhecimento, contradiz então toda ekstase do conhecimento, onde o Eu transcendental constituía, diante dele e em uma evidência por princípio transparente, o objeto
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A surpresa, esta dominação obscura e sofrida, contradiz a intencionalidade, esta ekstase conhecida e conhecente desdobrada pelo Eu a partir dele mesmo
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Longe de vigiar com o olhar o terreno claro da objetividade a conhecer, o Eu transmutado em um mim/me se reconhece dominado pela reivindicação inconhecível
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A inversão da dominação (sur-presa) não faz então senão um com a desqualificação da compreensão objetivante (sur-presa)
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Uma e outra se confundem na mesma perda de conhecimento, no duplo sentido de uma perda de toda consciência original de si e de uma impotência a apreender o polo original da reivindicação como um objeto
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Descartes pode aqui servir de guia graças à sua definição da admiração: “Quando o primeiro encontro de algum objeto nos surpreende, e que o julgamos ser novo, ou muito diferente do que conhecíamos antes ou que suponíamos que ele devia ser, isto faz que o admiramos e que somos espantados. E porque isto pode ocorrer antes que conheçamos de modo algum se este objeto nos é conveniente, ou se não o é, parece que a admiração é a primeira de todas as paixões”
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Esta aproximação tem contudo seu limite: parecida surpresa da admiração não permanece todavia não menos, para Descartes, uma primeira paixão do ego, portanto do “sujeito”
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Ora descreve-se aqui uma afecção mais originária, que precede a subjetidade metafísica; mesmo se, eventualmente, esta pudesse ainda dela proceder, a surpresa a destituiria de seu privilégio de fundamento metafísico, pois coloca em obra o a posteriori originário do último princípio
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Interlocução: não se trata aqui de modo algum de uma situação já dialógica, onde dois locutores se entreteriam em uma relação igual, mas da situação desigual onde me encontro interlocutado, isto é, chamado, até agredido enquanto o “a quem” de uma palavra endereçada
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Não se trata mais de se compreender no caso nominativo (visando o objeto — Husserl), nem no genitivo (do ser — Heidegger), nem mesmo segundo o acusativo (acusado por outrem — Lévinas), mas segundo o dativo: recebo-me do chamado que me dá a mim mesmo, antes de me dar o que quer que seja
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Seria preciso quase supor que este estranho dativo não se distingue mais aqui do ablativo, pois o mim/me torna possível (como obreiro, meio), enquanto primeiro dom repartido pelo chamado, a abertura de todas outras doações de dados particulares
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Recebendo-se do chamado que o convoca, o doado se abre então a uma alteridade, da qual o outrem pode eventualmente lhe faltar, mas que aparece assim tanto mais
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Como a surpresa abre mesmo ao objeto desconhecido ou defeituoso, a interlocução abre a outrem mesmo indeterminado ou anônimo
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Assim o doado se libera de saída — desde seu nascimento — do solipsismo
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