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A Chamada
MarionDado
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Recurso ao chamado por vezes desconcertou; contudo não tem aqui nada senão de óbvio e quase de inevitável; aliás, alguns argumentos o atestam
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Como se mostrou alhures, Heidegger havia finalmente devido tematizar o caráter onticamente ontológico do Dasein, uma vez a diferença ontológica tornada problemática, em referência direta ao ser
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Para descrever esta referência, havia suposto que o ser ele mesmo podia exercer uma reivindicação (Anspruch des Seins) sobre aquele que, tanto quanto “homem” e mais que Dasein, tomava então o título de “reivindicado (Angesprochene)”
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Ora, como também se mostrou, a fenomenalidade do chamado não saberia se descrever diretamente segundo os termos da “questão do ser”, que não a implica necessariamente, até a ignora
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Aliás, como o chamado poderia relevar intrinsecamente da “questão do ser” ou da diferença ontológica, pois só intervém precisamente para revezá-las ou ao menos escorá-las?
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O chamado e a reivindicação desdobram então uma figura fenomenológica própria, singular e irredutível, que exige que se a descreva por ela mesma, isto é, sem fazer acepção das autoridades sucessivas (o ser, “o Pai”, outrem), às quais diversas doutrinas podiam tê-la afirmado
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Desde então, o chamado como tal basta, sem outra identificação de origem, para suscitar o interlocutado, portanto o doado
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Considere-se este ponto como adquirido
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O que se entende como chamado concerne ao reviramento da intencionalidade, que caracteriza talvez essencialmente a própria intencionalidade
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Assim, Lévinas opôs exemplarmente à intencionalidade, que surge do Eu para visar e pôr um objeto, “… uma 'inversão' da intencionalidade…”, um “… contrário da intencionalidade…”, em suma “… uma consciência a contracorrente, revertendo a consciência”, tematizada sob o título de contra-intencionalidade
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Trata-se certamente, em seu trabalho, primeiro de “… a responsabilidade por Outrem — a contrapelo da intencionalidade…”
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Com efeito, o rosto de outrem beneficia-se de uma redoutável propriedade: se posso visá-lo intencionalmente e inscrevê-lo como qualquer outro objeto em um horizonte comum, do qual permaneço o centro (assim os retratos por Cézanne e Picasso fecham as faces de homens ao reconduzi-las à mineralidade ou à animalidade), devo também e sobretudo sofrer a contra-visada que ele me endereça silenciosamente, mas mais claramente que um grito
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Pois, a título de rosto, envisaga-me, impõe-me de envisagá-lo como aquele de quem tenho que responder
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Mas, se tenho que dele responder, tenho também que lhe responder, recebi então (e sofri) um chamado
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O rosto exerce um chamado, provoca-me então como doado
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Mas, chegados a este ponto, não se pode mais esquivar uma questão: o chamado que Lévinas reconhece a outrem não se esgota nele mais que o chamado que Heidegger atribui ao ser nele se confina?
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Aliás Husserl não havia ele mesmo já descrito contra-intencionalidades, portanto esboços do chamado a propósito de fenômenos contudo nem éticos, nem ontológicos?
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Não conviria então desconectar enfim de uma vez por todas a figura do chamado (portanto do atributário e do adoado) de seus empregos sucessivos?
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O chamado caracteriza de fato todo fenômeno saturado como tal: com efeito, viu-se que o fenômeno saturado se caracteriza enquanto tal pelo excesso nele da intuição, que nele subverte e portanto precede toda intenção, que transborda e descentra
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A visibilidade do aparecer surge desde então a contracorrente da intenção — segundo um paradoxo, uma contra-parência, uma visibilidade ao encontro da visada
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E de fato, cada tipo de fenômeno saturado (ou paradoxo) inverte a intencionalidade, portanto torna possível, até inevitável, um chamado
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O evento, imprevisível segundo e contra a quantidade, se passa em si ao se passar do Eu, que lhe cede a uma hermenêutica infinita e nela se deixa englobar
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O ídolo, insuportável segundo e contra a qualidade, detém e retorna a intencionalidade ao colmá-la por seu primeiro visível, de modo que me encontro antes convocado a ver (assim pelo quadro), que visando um visível
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A carne, absoluta segundo e contra a relação, se exerce como uma auto-afecção, portanto sutura toda ekstase intencional e toda visada de objeto pelo Eu
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Quanto ao ícone, que inverte o olhar olhante em um olhar olhado por outrem, já se viu que cumpre por excelência a contra-intencionalidade
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É então o fenômeno saturado como tal que inverte a intencionalidade e submete o atributário à presença do chamado
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