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Ser-o-aí
- A intraduzibilidade de termos como Dasein e Ereignis no uso heideggeriano não constitui apenas uma dificuldade linguística, mas um obstáculo conceitual que exige uma atitude interpretativa específica, pois o obstáculo pode ser tanto ocasião de desespero quanto sinal de que há algo essencial a compreender, conforme a observação de Paul Valéry.
- Traduzir Dasein por être-là (ser-aí) equivale, em certo sentido, a não perceber ou a contornar esse obstáculo, uma vez que tal tradução elimina a cisão conceitual própria do termo, fazendo perder aquilo que foi conquistado como nova posição ontológica em Ser e Tempo.
- A crítica de Heidegger à tradução francesa, exemplificada em Sartre, mostra que compreender o ser humano como “aí” do mesmo modo que uma cadeira está “aí” reconduz o Dasein ao regime da presença subsistente, isto é, ao ser simplesmente dado (Vorhandenheit), o que contradiz radicalmente sua estrutura própria.
- O “estar aí” da coisa implica permanência espacial e temporal na presença, ao passo que o Dasein não possui permanência, pois tem sempre de ser o seu ser, não é inicialmente presente, mas temporal a partir de sua abertura originária ao futuro, e não ocupa lugar algum no espaço.
- Questionamentos como o de Emmanuel Levinas, que suspeitam no Da de Dasein uma usurpação de lugar, carecem de sentido no horizonte heideggeriano, pois pressupõem justamente a interpretação espacial e presentificante que Ser e Tempo procura superar.
- Para evitar esse mal-entendido, Heidegger propõe, na carta a Jean Beaufret de 23 de novembro de 1945, compreender Da-sein não como “me voilà”, mas como “être le-là”, isto é, ser-o-aí, onde “o-aí” equivale à ἀλήθεια (aletheia), entendida como desvelamento, não-ocultação (Unverborgenheit) e abertura manifesta (Offenheit).
- A possibilidade ou impossibilidade desse francês filosófico permanece em aberto, dependendo de saber se “ser-o-aí” consegue instaurar na língua francesa um espaço de sentido realmente falante ou se permanece uma simples invenção terminológica.
- A principal virtude de “ser-o-aí” consiste em não ser um substantivo, forçando a compreender o ser de modo verbal, conforme Heidegger compreende o sein em Da-sein, e em reforçar o caráter transitivo, ativo e factivo do ser, perdido na expressão estática “ser-aí”.
- O que há a ser, nesse caso, é o “aí”, entendido não como facticidade empírica ou espacial, mas como relação extática ao ser, como dimensão do aberto sem retração, da qual pode advir a presença do ente para o ser humano.
- O “aí” não designa nada de presente nem um espaço determinado, mas a dimensão originária a partir da qual a presença do que é se abre, dimensão que o ser humano tem sempre de sustentar e manter aberta por sua própria factividade.
- Essa factividade do “aí”, que não deve ser confundida com algo “fáctico” ou “factício”, fundamenta a responsabilidade originariamente ética da existência humana, pois o humano é aquele a quem cabe manter aberta a abertura.
- A análise etimológica e semântica do advérbio francês “là”, segundo François Fédier, mostra que ele indica tanto distância espacial quanto temporal, remetendo a um índice de dimensionalidade e de afastamento, e não a um aqui presente.
- Enquanto indicador do distante e do afastamento, o “aí” pode dizer paradoxalmente aquilo que não está simplesmente presente, exprimindo a não-fechadura essencial (Unverschlossenheit) e a exterioridade própria do Dasein, caracterizado como ser dos longínquos.
- Nessa abertura ek-stática ao longínquo originário, o “aí” parece sugerir adequadamente a estrutura de abertura essencial do Da-sein, que é aberto ao mundo, aos outros e a si mesmo.
- Essa abertura não se dá apenas pela compreensão do ser, mas também pela tonalidade afetiva (Stimmung), e a homofonia do “aí” com a nota musical que “dá o tom” permite entrever uma dimensão de ressonância originária que dispõe o Da-sein em sua abertura.
- Conforme Jean Beaufret, o “aí” constitui o fundo do próximo e do distante, do já e do ainda não, sendo o campo no qual o homem já se encontra, é apreendido e aberto para aquilo que se manifesta no horizonte de um mundo de presença, rosto, oferta e retração.
- Nessa perspectiva, a filosofia se orienta para o ser, deslocando o olhar do ente para a abertura mesma em que o ente se mostra, e o homem, enquanto o ente cujo caráter é ser-o-aí, mantém um vínculo privilegiado com a questão do ser.
- O homem, ek-sistindo no Aberto do ser e sustentando sua prova, assume assim a posição singular daquele que habita a abertura em que o ser se dá e se retira.
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