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Inverdade
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A questão da inverdade não é um desvio, mas o caminho único e direto para o Wesen da verdade.
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A verdade grega (alètheia) significa a suspensão do retraimento (lèthe), o aberto sem retraimento, uma vitória arrancada sobre o retraimento.
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Contudo, seria apressado deduzir uma contrariedade radical entre retraimento e aberto, pois o retraimento não é o inimigo da alètheia, mas sua fonte viva, aquilo que carrega a eclosão até a propriedade de ser ela mesma.
O Dasein, enquanto ek-siste, gera o primeiro e mais extenso des-velamento (Un-entborgenheit), a verdade originária.-
O Un-wesen (não-essência) originário da verdade é o segredo.
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Neste contexto, o prefixo Un- de Un-wesen não implica degradação, mas visa a essência pré-existente, o domínio ainda inexplorado da verdade do ser.
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A inverdade não deve ser entendida como o contrário da verdade, mas sim como seu Wesen.
Heidegger refere-se aqui à Irre (errância) íntima ao Dasein.-
No mundo, o Dasein se aventura numa experiência não trilhada, arriscando-se, um risco que pertence à sua finitude e à sua inteligência do ser.
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A errância é componente essencial da abertura (Offenheit) do homem ao ser e da abertura (Erschlossenheit) que o homem mesmo é para o ser.
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Ela é o Wesen da verdade do ser.
À condição humana responde a indeterminação, que nada tem de indecisão ou indiferença.-
A errância é distinta do erro.
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A indeterminação, da qual a errância é um modo, resulta de nosso engajamento pela verdade do ser, em uma constante incerteza do mundo.
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A errância é como um “espaço de jogo”; a plena essência da verdade, incluindo seu Un-wesen, mantém o Dasein na angústia pelo vaivém perpétuo entre o segredo e a ameaça do extravio.
Com a inverdade, a atenção deve voltar-se primeiramente para o abrigamento no retraimento, a Verbergung.-
Remontando aos gregos e além deles, que experienciam a verdade apenas a partir do aberto sem retraimento, Heidegger passa do desvelamento (Entbergung), da clareira (Lichtung), para o desvelamento abrigado no retraimento: propriamente, a inverdade.
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Não há outro fundamento senão o Abgrund, fundamento sem fundo que é o Dasein.
Existe a experiência grega da verdade (que leva à experiência moderna) a partir da presença sem retraimento do ente.-
E, a montante da experiência grega, existe o retraimento que abriga o desvelamento, que constitui sua fonte viva.
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Isso corresponde, grosso modo, à passagem em Heidegger do ser ao Ereignis, de Ser e Tempo aos Contributos à Filosofia, um retorno à montante para a verdade do ser à qual pertence o homem enquanto Dasein.
Heidegger também empregou o termo inverdade no sentido de simples negação, para designar o falso.-
É com base numa compreensão específica do falso que a essência da verdade sofreu, nos gregos, uma mutação decisiva em relação à experiência originária da alètheia como aberto sem retraimento.
Com base no aberto sem retraimento, a inexatidão, a inadequação ou a falsidade vão sobrepor-se ao retraimento.-
Elas “puxam” a verdade para si, contaminando-a, de modo que até mesmo seu caráter de sem-retraimento deixa de ser visível.
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O termo inverdade passa então a caracterizar essa contaminação, a partir da qual a verdade será determinada no Ocidente.
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Heidegger analisa como a verdade, contaminada pela inverdade como inexatidão ou falsidade, pôde tomar a figura da exatidão, processo que recobre o retraimento e sua suspensão, notando que já em Platão a vacância da questão pelo retraimento como tal prova que o aberto sem retraimento começa a perder sua eficiência.
Para designar o contrário da verdade (alètheia), os gregos usavam pseudos, cuja etimologia aponta para uma experiência totalmente diversa.-
O pseudos, aquilo que é tanto mais falso quanto pode ser confundido com o verdadeiro, passa a determinar a verdade, designando-a então como apseudos.
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Platão apreende o Wesen do pseudos como não-retidão do lógos; o lógos torna-se o lugar do falso.
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O Wesen da inverdade torna-se a não-retidão, um caráter do enunciado.
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Sendo a inverdade o contrário da verdade, esta também deve ter seu lugar no lógos: a verdade torna-se a retidão do enunciado (orthotes).
Falta uma compreensão suficientemente originária da alètheia, que não é primariamente um caráter do comportamento cognoscente, mas do ente em causa, e do que ela combate, o lèthe (esquecimento), que também não remete a um estado subjetivo, mas ao retraimento daquilo que está em causa.-
A verdade como arrancamento ao escapamento torna-se o contrário da não-retidão: a retidão.
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Que primeiramente o ente se retire, eis a razão pela qual quem busca conhecê-lo não pode mais ajustar seu olhar sobre ele.
Da inverdade determinada como falsidade desde Platão resulta a verdade definida exclusivamente como exatidão (Richtigkeit) e, com isso, a indiferenciação entre verdade e exatidão.-
O que é exato não é necessariamente (ou ainda não é) verdadeiro.
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Enquanto aquilo que está em causa não for retido em sua “nudez primeira”, em seu Wesen, a exatidão pode passar-se por verdade.
Ir à contracorrente deste movimento, “buscar o verdadeiro através do exato e para além dele” é a única condição que, fazendo-nos remontar do exato para o verdadeiro, também nos expõe à nossa finitude e à nossa relação com o ser, abrindo a possibilidade de ouvir o que Heidegger tentou dizer com a inverdade como Wesen da verdade.estudos/ldmh/inverdade.txt · Last modified: by mccastro
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