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Corpo
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Reconhecimento da necessidade de integrar a corporeidade ao ser-no-mundo do Dasein, apesar de sua abordagem lacônica em Ser e Tempo, onde sua problemática é indicada como particular e adiada.
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Dificuldade fundamental em descrever fenomenologicamente o corpo vivido e existente (Leib), distinto do corpo orgânico-objetivo (Körper), exigindo superação da dicotomia corpo-alma.
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Indicação, mesmo que breve, em textos posteriores (como a Carta sobre o Humanismo) de que o Leib humano é essencialmente outro que um organismo animal.
Proximidade excessiva e íntima do corpo vivido, que o torna quase imperceptível, retirando-se para um distanciamento maior que os objetos instrumentais cotidianos.Tratamento sistemático da questão corpórea ocorreu principalmente nos Seminários de Zollikon (1959-1972) com Medard Boss, cuja publicação é de crucial importância.Abordagem da corporeidade do Dasein requer ruptura com todas as tradições filosóficas e científicas anteriores, incluindo certas fenomenologias.-
O corpo existente não é um ente simplesmente presente; ele transcende-se em direção ao mundo.
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O ser-corpo (leiben) é codeterminado pelo ser-homem, entendido como estadia ecstática no meio do ente que se ilumina.
O corpo vivido (Leib) caracteriza-se por uma portada, não por limites mensuráveis; sua espacialidade é uma temporalidade espacializada do habitar.-
Revisão da tentativa, em Ser e Tempo, de derivar a espacialidade da temporalidade: a unidade do lugar e do tempo é pressuposta em todo movimento.
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O corpo não é um “ponto zero” de orientação, mas um centro em perpétuo descentramento, um “desde-aqui-agora” dirigido a um “até-lá-depois”.
A configuração do lugar recebe-se do habitar, onde o corpo vivido experimenta determinada tonalidade (Stimmung).-
A tonalidade não espiritualiza o corpo, mas, através de seu entrelaçamento, confere-lhe caráter embaraçante, libertador, desconcertante ou reconfortante.
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As tonalidades manifestam uma compreensão do mundo e mantêm relação necessária com o prazer e a dor, desdobrando-se em simpatia ou antipatia ajustadas ao corpo vivido, que se funda na correspondência.
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Tonalidades prazerosas aligeiram o fardo da existência; tonalidades sombrias retraem e sobrecarregam.
O sentir implicado na tonalidade deve ser compreendido para além das “sensações” empíricas e isoladas.-
Sentir não é constatar qualidades ou perceber objetos; é sempre indissociavelmente ressentir.
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A experiência sensorial pertence ao ser-no-mundo, exigindo uma redefinição dos cinco sentidos para além da metafísica.
O ser-corpo pertence ao ser-no-mundo e é, primariamente, uma compreensão do ser.-
Não significa que a compreensão do ser emerja apenas do corpo, mas que só existimos corporalmente na medida em que temos uma compreensão do ser.
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Os sentidos sentem o sensível e que há sensível, podendo também experimentar que não há nada (como no tato que se abre ao tangível e ao nada de tangível).
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Toda atualização do sentir envolve uma relação com o ser, não sendo mera experiência ôntica subjetivista.
Privilégio do modo presente da existência corporal (corpo que se vive) sobre o “corpo vivido” no modo perfeito da consciência (como em Husserl, Sartre, Merleau-Ponty).-
Possibilidade de desvelar uma existencialidade do sentir, distanciando-se da “alma corporificada” daquelas fenomenologias, que permanece como contraparte do corpo espiritualizado da metafísica.
O corpo vivido não precisa ser constituído e não é mero “órgão da vontade portador do movimento”.-
O querer emerge de um poder-ser que, ontologicamente, pressupõe a chamada do cuidado (Sorge).
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O corpo vivido que nos dispõe ao mundo e nos “entoa” não é instrumento de uma vontade nem correlato de uma visada intencional; ele sempre já participa da facticidade do Dasein, sendo sua peça mestra.
O ser-corpo codetermina o ser-si-mesmo, o ser-no-mundo e o ser-em-comum do Dasein.-
O ser-em-comum não é a justaposição de “sujeitos” aos quais se acrescenta uma corporeidade adventícia.
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O outro não é um sujeito rival (concepção da intersubjetividade), mas um ser-no-mundo sempre já encarnado.
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O cuidado mútuo implica tonalidades que conferem uma fisionomia a todo encontro.
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O encontro desvela modalidades do ser-corpo onde a presença, voltada para o outro, faz-se gesto e afinação, inclusive nas atitudes menos intencionais (como ruborizar, empalidecer, suspirar).
Na época da técnica, a biofísica reduz o vivente à objetividade mercantil, submetendo o corpo à hegemonia de seu dispositivo.-
Contudo, em seu perigo extremo, essa época abriga também, no fim da filosofia, a promessa de um outro desdobramento da corporeidade viva.
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