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HERMENÊUTICA E DESCONSTRUÇÃO (2003)
GRONDIN, Jean. Le tournant herméneutique de la phénoménologie. Paris: PUF, 2003.
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A resistência de Jacques Derrida a definir a desconstrução decorre da natureza autodeconstrutiva de qualquer definição e resulta em uma postura pós-estruturalista que examina as estruturas sem aderir à objetividade geométrica.
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Recusa em aceitar frases do tipo “a desconstrução é x”.
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Necessidade de desconfiança em relação a palavras e conceitos habituais.
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Atenção às exclusões e decisões que compõem a linguagem.
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Crítica à geometria estruturalista e sua busca por objetividade científica.
O caráter antiestruturalista da desconstrução manifesta-se no questionamento do objetivismo e na recusa em se constituir como método de revelação de verdades ocultas nos moldes da metafísica da luz.-
Crítica ao conceito de estrutura como portador de objetividade.
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Rejeição da lógica do Aufklärung ou Esclarecimento.
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Caracterização da desconstrução como exercício de vigilância.
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Manutenção do caráter indefinível da prática.
A formulação paradoxal de uma definição para a desconstrução ocorreu em 1988 com a frase “mais de uma língua”, sendo posteriormente ratificada por Jacques Derrida como sua única descrição explícita e consistente.-
Publicação inicial em Mémoires pour Paul de Man.
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Reiteração da fórmula oito anos depois e em obras autobiográficas.
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Uso da expressão “Deus me livre” ou “Dieu m’en garde” como ressalva.
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Caráter não acidental da definição arriscada.
A tentativa retrospectiva de Jacques Derrida em elucidar o denominador comum de seu trabalho reconhece a natureza anamnética da verdade, onde o fio condutor só se torna visível após a conclusão do percurso.-
Compreensão do sentido da obra apenas post factum.
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Impossibilidade de perceber a luz que guia a visão durante o ato de ver.
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Comparação com a coruja de Minerva que voa ao crepúsculo.
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Dificuldade de teorizar sobre o próprio guia enquanto se é guiado por ele.
A ambiguidade inerente à definição proposta reside tanto na ausência de pontuação enfática quanto na indeterminação do conceito de língua, que oscila entre idioma particular, linguagem geral ou língua messiânica.-
Caráter de palavra de ordem mais do que definição lógica.
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Falta de indicação de gênero próximo e diferença específica.
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Dúvida sobre a natureza da língua referida.
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Alusão ao desejo formulado em O monolinguismo do outro.
O primeiro sentido da expressão “plus de” remete à multiplicação e ao imperativo pluralista de que uma única língua jamais é suficiente, refletindo o compromisso anti-imperialista e a busca pela justiça com a alteridade.-
Tradução como mais, more, mehr ou más.
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Recusa do discurso único como redutor.
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Preocupação com o descongestionamento e a liberdade.
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Uso singular da palavra língua em contraste com um pluralismo numérico simples.
A segunda acepção possível de “plus de” indica a cessação ou o desejo de se livrar da língua, denunciando a incapacidade desta em expressar a totalidade da experiência e o confinamento imposto por suas categorias gramaticais.-
Interpretação da frase como “não mais uma língua” ou “chega”.
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Frustração com as falhas e limites da expressão verbal.
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Necessidade de desconstruir a sintaxe e a gramática.
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Atenção ao indizível e à vida que não se torna linguagem.
O terceiro sentido quantitativo sugere uma atenção à mais-valia do discurso, onde a língua diz sempre mais do que pretende dizer, exigindo uma escuta atenta às sedimentações e à presença do outro na fala.-
Analogia com extrair mais suco de uma fruta.
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Capacidade da palavra de dizer algo além de seu conteúdo explícito.
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Herança da psicanálise e da hermenêutica alegórica.
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Foco no não-dito e no dito de viés.
A solidariedade entre os sentidos pluralista, anárquico e alegórico decorre do fato de que a multiplicação das línguas é necessária precisamente porque uma única língua jamais cumpre a promessa do dizer.-
Antinomia semântica superficial entre os significados.
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Revelação dos limites da língua através da pluralidade.
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Vínculo entre o pluralismo e a dor causada por um idioma particular.
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Crítica à língua da metafísica.
A experiência fundamental de sofrimento linguístico de Jacques Derrida manifesta-se na condição de judeu argelino privado de suas línguas ancestrais e habitante de um francês que, embora único, permanece sendo a língua do outro e objeto de um purismo paradoxal.-
Adoção do estilo confessional agostiniano.
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Sentimento de não estar em casa na própria língua.
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Identificação com a potência colonial e rejeição do sotaque.
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Contradição entre a doutrina pluralista e a intolerância linguística pessoal.
O conceito de monolinguismo do outro transcende o caso biográfico para descrever a condição universal de alienação onde a linguagem falada é sempre herdada e impõe esquematizações que falham em capturar a singularidade da experiência.-
Processo de imitação e identificação na aprendizagem da fala.
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Natureza incompleta da apropriação da língua.
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Inadequação do querer-dizer frente às formas pré-estabelecidas.
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Referência a Auschwitz como limite do indicível.
A extensão do monolinguismo à esfera cultural revela a estrutura colonial de toda formação social, que impõe normas, interditos e uma violência estrutural frequentemente internalizada pelos sujeitos.-
Presença do on ou Gerede heideggeriano na cultura.
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Definição de cultura como sistema de correção e cânones.
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Conceito de terror da cultura.
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Assunção voluntária da violência normativa.
A ética da desconstrução reside na preservação da memória da violência cultural e na anamnèse do totalmente outro, funcionando como um memorial da injustiça infligida à alteridade pela inteligibilidade metafísica.-
Influência de Emmanuel Levinas superior à de Martin Heidegger neste ponto.
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Crítica à definição e à clareza conceitual.
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Reconhecimento da obscuridade fundamental sobre a qual se ergue o inteligível.
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Respeito àquilo que não consegue se dizer.
A hostilidade da desconstrução em relação à hermenêutica baseia-se na percepção de que esta última pressupõe a inteligibilidade total e busca a exaustão do sentido, ignorando a ferida original e o caráter aterrorizante do ser.-
Definição de hermenêutica como arte da compreensão rejeitada.
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Acusação de esquecimento da natureza indicível do ser.
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Crítica à totalização interpretativa.
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Dificuldade de diálogo entre as duas tradições.
A defesa da tradição hermenêutica contra a crítica derridiana argumenta que a compreensão não visa a totalidade cognitiva, mas constitui uma escuta da dor e da urgência que antecedem a linguagem e falham em se expressar plenamente.-
Interpretação do discurso como resposta a uma questão.
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Atenção à détresse ou angústia do dizer.
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Reconhecimento da deiscência entre querer-dizer e dizer.
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Consciência da impotência das palavras.
O interesse da hermenêutica pela facticidade reside na jectidade ou estado de arremesso de todo sentido, onde a compreensão opera como um saber lidar provisório sobre um fundo de incompreensibilidade radical.-
Oposição entre jectidade e o substrato permanente ou hypokeimenon.
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Conceito de Wegsein como ausência de si e estar-alhures.
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Natureza do poder-ser como abrigo de uma impotência essencial.
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Definição de hermenêutica como memória do imemorial e vigilância.
A convergência final entre desconstrução e hermenêutica manifesta-se no reconhecimento compartilhado da jectidade indomável e na admissão de que toda tentativa de compreensão pressupõe a hermeticidade irredutível do objeto.-
Necessidade do esquecimento para haver inteligibilidade.
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Identificação da détresse subjacente ao monolinguismo.
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Partilha da língua impossível do outro.
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Recusa da autossuficiência de uma única língua.
A universalidade da hermenêutica não afirma a dicibilidade total, mas sustenta que o esforço de compreensão nasce do confronto brutal com o incompreensível e consiste na busca de palavras para articular o que demanda ser dito.-
Papel da morte e do mal como motores da busca por sentido.
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Distinção entre subsunção lógica e articulação verbal.
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Conceito de à-dire ou a-dizer.
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Manutenção do horizonte de dicibilidade possível diante do fracasso.
A crítica desconstrucionista à noção gadameriana de aplicação e apropriação levanta a questão ética sobre se o ato de traduzir o outro para a própria linguagem não constitui uma violência que anula a alteridade irredutível.-
Influência do pietismo e de Hegel em Verdade e Método.
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Definição de compreensão como reencontrar-se no outro.
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Citação de Friedrich Nietzsche sobre a crueldade do conhecimento.
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Paradoxo de renunciar a compreender para respeitar o outro.
A revisão do conceito de compreensão nos escritos tardios de Hans-Georg Gadamer, influenciada pelo debate com Jacques Derrida, desloca a ênfase da apropriação para a abertura à possibilidade de o outro ter razão.-
Abandono parcial da terminologia hegeliana de apropriação.
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Definição de compreensão como reconhecimento da razão alheia.
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Caráter de resposta à interpelação.
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Natureza desapropriadora da descoberta do inédito.
A adoção tardia da premissa sobre os limites da linguagem e a incapacidade de dizer o que se deseja sinaliza a incorporação das críticas da desconstrução pela hermenêutica, validando a divisa de que mais de uma língua é necessária.-
Substituição do tema da universalidade pela finitude linguística.
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Novo princípio supremo da hermenêutica filosófica.
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Eficácia do diálogo entre Hans-Georg Gadamer e Jacques Derrida.
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Aceitação da insuficiência de uma única língua.
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