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GEOFFREY BENNINGTON

BENNINGTON, Geoffrey. Interrupting Derrida. London ; New York: Routledge, 2000.

Jacques Derrida

  • A obra de Derrida é possivelmente a contribuição filosófica mais importante em língua francesa dos últimos trinta anos, a despeito — ou talvez por causa — das polêmicas que suscitou, como o debate de 1992 em torno da proposta de título honorário pela Universidade de Cambridge.
  • O traço filosoficamente mais notável do pensamento de Derrida é que ele não constitui filosofia em sentido estrito, mas sim um permanente atravessamento, excesso e ultrapassagem dos limites da disciplina, tornando a filosofia indefinida em vez de redefinida.
  • É inútil situar Derrida em qualquer linhagem filosófica particular, pois seu trabalho subverte os próprios conceitos que permitiriam estabelecer tais linhagens — ele está, de certo modo, tão próximo de Platão e Kant quanto de Heidegger ou Nietzsche.
  • Apesar de sua dificuldade inegável, a obra de Derrida admite exposição racional até um certo ponto, além do qual algo “indecidível” começa a operar.
  • Derrida estreou de forma espetacular no campo da filosofia publicada em 1967, com três obras maiores — De la grammatologie, L'Ecriture et la différence e La Voix et le phénomène — que estabelecem as premissas de toda a sua vasta produção subsequente.
    • Em 1962, ele já havia publicado uma longa introdução premiada à sua tradução do texto “Origem da Geometria”, de Husserl, apêndice à Crise.
    • Sua produção total chega a cerca de 40 livros e milhares de páginas de material de seminário inédito.
  • A tradição da filosofia ocidental – a “metafísica ocidental” ou “onto-teologia” – é, como argumentou Heidegger, dominada pelo valor da presença, e o empreendimento metafísico consiste em identificar algum valor supremo inseparável dessa presença.
    • Esse privilégio da presença compromete a metafísica com estruturas binárias e oposicionais, em que um termo positivo se define contra um negativo: presença versus ausência, interior versus exterior, alma versus corpo, sentido versus signo, espírito versus letra, literal versus figurado, racional versus irracional, sério versus não sério.
    • Tais oposições, mesmo quando apresentadas como neutras, são violentamente hierárquicas, resultado de uma “decisão ético-teórica” – pressupõe-se, por exemplo, que o sentido é logicamente anterior e ontologicamente superior à sua expressão linguística.
    • O que se tornou célebre como “desconstrução” consiste menos numa operação do que numa demonstração sobre esses binarismos hierarquizados na história do pensamento ocidental.
  • Derrida abordou esse campo imenso concentrando-se na questão da escrita, um tema que, desde o Fedro de Platão, recebeu tratamento negativo na tradição filosófica.
    • A palavra falada coincide com seu sentido e testemunha a presença animadora da consciência intencional do falante; já a escrita, mero adjunto mecânico da fala, produz um resíduo material perturbador.
    • Esse resíduo – o texto – convida a leituras repetidas e divergentes sem a intervenção corretiva da fonte intencional, pois a escrita implica, como “possibilidade necessária”, a morte do escritor para qualquer leitor particular.
    • Para toda uma tradição que não começa em Platão nem termina em Austin ou Lacan, a voz é “naturalmente” privilegiada sobre a escrita como lugar em que o significante parece mais transparente ou subserviente ao seu significado.
    • Husserl persegue a essência do signo “expressivo” até o monólogo interior do sujeito transcendental, enquanto a escrita é colocada do lado do meramente indicativo, do material e empírico, do contingente.
  • Derrida não sustenta que essa tradição de pensar a escrita em relação à idealidade do sentido seja simplesmente falsa – até porque os valores de verdade e falsidade são cúmplices daquilo que está aqui em análise.
    • A operação sobre Husserl, Saussure ou Platão não é interpretação em sentido estrito – pois a interpretação não pode deixar de compartilhar os pressupostos sobre signo e sentido que aqui estão em questão – nem é uma operação que Derrida realiza sobre os textos que lê.
    • A desconstrução consiste, antes, numa demonstração que primeiro desfaz a hierarquização da oposição fala/escrita e depois questiona não apenas a hierarquia da oposição, mas sua própria oposicionalidade.
    • As idealidades mais ideais, como as da geometria, não podem deixar de repousar, para sua idealidade (sua repetibilidade como o mesmo numa série infinita de atualizações), precisamente sobre a inscrição gráfica que é alhures considerada suspeita.
    • Se a escrita é assim algo como a condição de possibilidade da própria idealidade, então, segundo uma lógica constante no pensamento de Derrida, a condição de possibilidade é simultaneamente a condição de impossibilidade da pureza do fenômeno tornado possível.
  • Derrida leva a desconstrução da fala e da escrita a uma segunda etapa, argumentando que não apenas a escrita não é um adjunto secundário à fala, mas que todos os signos linguísticos são, em certo sentido, radicalmente escritos.
    • A descrição metafísica da escrita é que ela é o significante (gráfico) de um significante (fônico), que é o significante de um significado (ideal); mas pode-se demonstrar que todos os significantes remetem, para seu sentido, apenas a outros significantes – argumento que se apoia no Saussure do “sistema de diferenças”.
    • Se a metafísica quer chamar de “escrita” o “significante do significante”, deve então, para ser coerente, chamar toda linguagem de escrita – o que ela não quer, pois isso subverte sua axiologia básica.
    • Usando o termo “escrita” (ou “archi-escrita”) nesse sentido deslocado, traz-se à tona uma certa verdade (reprimida) da tradição metafísica, confrontando-a com seu próprio dogmatismo fundacional.
  • O sentido presente e intencional só é possível porque a linguagem como sistema de diferenças permite sua identificação diferencial em termos de um sistema que se herda e não se domina.
    • Toda enunciação – seja falada ou escrita – funciona apenas na medida em que pode sempre ser repetida na ausência de quem a proferiu, se necessário por meios mecânicos: “em minha ausência”, radicalizada, após minha morte.
    • Ao ler este texto, não se sabe – e essa ignorância é essencial, não meramente empírica, ela é implicada pela estrutura da escrita – se o autor está vivo ou morto, se é sério ou não, se quis dizer o que disse, se de fato o escreveu.
    • As intenções que se atribuem ao autor são construídas retroativamente a partir do texto lido, e o texto funciona “mecanicamente”, independentemente das intenções que se lhe atribui.
  • Nenhum texto pode controlar exaustivamente a leitura que dele se faz, o que implica que não há fim para a leitura, nenhum horizonte concebível de interpretação.
    • A desconstrução não é uma forma de hermenêutica, por mais radical que seja: a hermenêutica propõe sempre um movimento convergente em direção a um sentido unitário; a desconstrução discerne uma perspectiva dispersiva em que não há um único sentido.
    • A ausência de um horizonte unitário de sentido não compromete Derrida com a recomendação do sem-sentido, nem implica a equivalência de todas as leituras – antes, exige a evidência textual mais rigorosa para as leituras propostas.
  • Os textos de complexidade suficiente – e a lembrança do teorema de Gödel não é fortuita – já tendem a se ler a si mesmos, oferecendo uma leitura preferida ou “oficial”.
    • Platão, Rousseau, Husserl, Saussure e muitos outros declaram demonstravelmente sua preferência pela fala sobre a escrita, mas conseguem também, demonstravelmente, dizer o contrário.
    • O trabalho de Derrida consiste essencialmente em trazer à tona os recursos textuais que questionam a versão “oficial” – recursos esses que são demonstravelmente colocados pelos próprios textos lidos, e não importados por Derrida.
    • Não é que Derrida (ativamente) desconstrua qualquer coisa, mas antes que ele mostra a metafísica em desconstrução.
  • Derrida pode assim ser dito a repetir a metafísica diferentemente: toda a sua obra consiste em leituras de textos (geralmente filosóficos) que perturbam a tradicionalidade tanto quanto a respeitam.
    • Isso tem consequências não apenas para a história da filosofia – que se vê diante da pergunta sem resposta sobre “quando?” pertence um texto – mas também para o “fazer” filosófico em geral.
    • Os efeitos de identidade são agora compreendidos como gerados com base na diferença.
  • Derrida dedica um esforço considerável a demonstrar que essa condição diferencial da identidade não precisa dar origem a uma dialética no sentido hegeliano.
    • A famosa demonstração de Hegel na Grande Lógica de que a diferença colapsa dialeticamente na identidade depende de uma absolutização da diferença que Derrida mostra ser impensável – a diferença é intrinsecamente não absolutizável, intrinsecamente finita.
    • A diferença radicalizada pelo neologismo derridiano differance – para ressaltar as ressonâncias espaciais e temporais – é o meio em que as identidades são esboçadas mas nunca completamente atingidas; ela pode ser pensada como uma dispersão, mas nunca uma dispersão absoluta.
    • O traço “em si”, termo logicamente anterior, não é passível de qualquer caracterização metafísica – não é, por exemplo, nem presente nem ausente, e, como condição da identidade em geral, não é ele mesmo identificável.
  • A differance é uma tentativa de nomear essa complexa “origem” do espaço, do tempo e do sentido, mas há muitas outras tentativas: disseminação, pharmakon, traço, suplemento – todas extraídas da aparente contingência dos textos da tradição.
    • Uma consequência perturbadora para muitos leitores de Derrida é que o privilégio aparentemente transcendental da differance não pode ser mantido, pois as “identidades” diferencialmente definidas jamais atingem a estabilidade exigida de um âmbito transcendental.
    • O pensamento conjunto da diferença e da repetição implica que qualquer coisa como o transcendental é gerada como um efeito mais ou menos provisório e instável de uma série de eventos parcialmente contingentes e essencialmente singulares.
    • Para Derrida, a posição transcendental tem ela mesma um transcendental naquilo que o transcendental chama de empírico ou contingente – o que não significa que o transcendental possa ser simplesmente desmistificado num espírito positivista ou empirista.
  • A inscrição irredutível da “contingência” no transcendental implica, entre outras coisas, que os “argumentos” filosóficos não podem ser separados de sua “expressão” – numa língua natural dada, num idioma mais ou menos idiossincrático – nem da tradição que portam e contestam.
    • Nesse sentido, toda filosofia é radicalmente histórica (e “geográfica”), e não há filosofia que não se engaje – mesmo que em modo de negação – com a história da filosofia.
    • Essa configuração tem sido chamada, por Derrida e outros, de “quase-transcendental”, mas esse nome tem apenas um privilégio heurístico dentre muitos outros na série aberta de eventos desconstrutivos.
    • Não há nome próprio para a desconstrução ou seus “resultados”.
  • O argumento da desconstrução ao mesmo tempo limita as pretensões da filosofia em relação a outras disciplinas e estende o domínio filosófico para além de todos os limites definíveis.
    • Muitas recepções iniciais de Derrida por não filósofos abraçaram entusiasticamente o que podia parecer simplesmente uma crítica das pretensões filosóficas – como se Derrida tornasse a filosofia não mais do que um tipo de escrita, um gênero literário, uma retórica.
    • Mas Derrida dedicou grande esforço a mostrar como as tentativas de reduzir a filosofia desse modo – antropologicamente (Lévi-Strauss), historicamente (Foucault), poeticamente (Valéry), linguisticamente (Benveniste), psicanaliticamente (Lacan), sociologicamente (Bourdieu) – repousam sobre pressupostos filosóficos ingenuamente não questionados.
    • A tentativa de reduzir a filosofia a um conjunto de tropos retóricos que podem ser desmistificados em nome da “literatura” fracassa por precisar colocar em posição transcendental justamente o conceito (o conceito de metáfora, um conceito filosófico) que deveria realizar a redução de todos os conceitos.
  • Qualquer tentativa de reivindicar uma fuga à metafísica envolve necessariamente o apelo cego a pelo menos um conceito metafísico que compromete a fuga no momento em que ela é reivindicada – mecanismo que Derrida chama de “contrabando transcendental”.
  • Essa situação levou alguns comentadores a atribuir a Derrida uma cumplicidade culpável com a metafísica que ele supostamente denuncia, mas o argumento de Derrida estabelece que a “cumplicidade com a metafísica” é ao mesmo tempo inevitável e infinitamente negociável.
    • Parece que Derrida estabeleceu, por argumento racionalmente reconhecível, que os valores metafísicos são insustentáveis por causa da necessidade prévia da differance, mas também que não há alternativa simples a esses valores.
    • A relação com a metafísica é inesgotavelmente negociável, como Derrida mostra através de uma série de encontros similares mas não idênticos com os textos da tradição.
  • A desconstrução pode, provisoriamente, receber uma caracterização negativa e uma positiva no que concerne às questões ético-políticas.
    • Negativamente, a desconstrução adverte contra purificações, essencializações, totalizações e transcendentalizações metafísicas de todo tipo.
    • O engajamento de Heidegger com o nazismo pode ser mostrado como relacionado ao seu apelo irrefletido a um valor metafísico – o “espírito” –, valor esse compartilhado com eminentes adversários do nazismo como Husserl e Valéry.
    • A desconstrução oferece assim em princípio uma orientação ético-política (“evite apelos acríticos a valores metafísicos”) sem, contudo, propor quaisquer valores metafísicos substitutos.
  • A desconstrução não pode fornecer regras para evitar a metafísica, e nunca sugere que falar de contingência, escrita, indecidibilidade ou disseminação produzirá resultados necessariamente “melhores” do que falar de necessidade, fala, decidibilidade ou univocidade.
    • Se a desconstrução sustenta que estamos sempre numa tensão entre o metafísico e seu desfazimento, ela não pode predizer a priori qual o melhor ajuste dessa tensão num caso dado.
  • O que a desconstrução pode dizer de forma mais “positiva” sobre ética e política depende de uma certa afirmação do indecidível: para que uma decisão mereça esse nome, ela deve ser mais do que uma simples subsunção determinativa de um caso sob uma regra.
    • A ética começa onde o caso não corresponde inteiramente a nenhuma regra e onde a decisão deve ser tomada sem subsunção – numa situação de indecisão radical ou de indecidibilidade.
    • Uma decisão digna do nome envolve uma medida de invenção, e essa invenção implica tanto uma incerteza quanto a projeção afirmativa de um futuro; ela é como um performativo que tem de realizar e inventar as regras segundo as quais pode, após o evento de sua realização, ser recebida como “feliz”.
    • Já em Da Grammatologia, Derrida anunciou que um pensamento do traço une a possibilidade do sentido, a abertura da temporalidade e a relação com o outro em geral.
  • Todo julgamento que fecha essa condição de indecidibilidade é ipso facto suspeito, e é nesse sentido que a desconstrução aponta para uma infinitização da ética e da política – infinitização que ocorre cada vez de forma finita, e que é também chamada de justiça.
    • Todas as doutrinas metafísicas de ética e política fecham o indecidível num determinado ponto, projetando teleologias; a construção desconstrutiva não pode deixar de suspender esse impulso teleológico com seu apelo radical a um futuro – a vinda do evento singular indecidível – que nunca será um presente.
    • Derrida vincula esse pensamento ao de uma democracia que é a figura ético-política da dispersão nunca absoluta, nunca presente da differance; longe de impedir decisões ético-políticas concretas e urgentes, essa democracia por vir seria a condição de possibilidade de todas essas decisões.
  • A desconstrução não fornece fundamentos para nenhuma ontologia, epistemologia ou ética doutrinária, o que talvez explique por que nenhuma crítica filosófica remotamente convincente da desconstrução surgiu até hoje.
    • As tentativas de Searle e Habermas são ridiculamente mal informadas; outros críticos evitaram cuidadosamente todas as precauções filosóficas normais antes de emitir condenações sem argumentação.
    • É um equívoco – cometido mais notavelmente por Rorty – supor que Derrida deve ser elogiado na medida em que faz algo simplesmente não filosófico (narrativa, invenção literária) e criticado quando inevitavelmente se envolve em argumentação filosófica.
    • O trabalho de Derrida sustenta-se ou cai pela rigor de sua argumentação filosófica – ele reivindica atravessar a filosofia de ponta a ponta –, e que essa leitura filosófica conduza a zonas incertas inacessíveis à filosofia como tal faz parte da reivindicação da desconstrução.
  • Se Derrida está certo, a irritação que sua obra provoca não pode ser simplesmente atribuída ao trabalho de um filósofo ou de seus seguidores: ela deve estar (“sempre já”) inscrita em todos os textos da tradição como a própria possibilidade da filosofia.
    • A escrita, no sentido de Derrida – que não é diferente do sentido de Platão –, já está “no” Fedro; o quase-transcendental já está “em” Kant.
    • Ao assinar com seu nome sua obra inimitável, Derrida apenas acrescentou uma contra-assinatura a todas as outras que deram à filosofia sua garantia ambivalente.
    • Essa situação, que Derrida não inventou, já é a desconstrução – inevitável, por mais que continue a ser negada.
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