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2 Perspectiva

AHO, Kevin. Existentialism: an introduction. 2ed. Cambridge, UK ; Medford, MA: Polity, 2020.

O problema do distanciamento e da objetividade

1. Uma das contribuições duradouras do existencialismo consiste na crítica ao pensamento de sobrevoo, isto é, à pretensão filosófica, presente desde Platão, de elevar-se acima das determinações históricas, dos preconceitos e da instabilidade da percepção sensível para alcançar uma perspectiva objetiva, eterna e desinteressada da realidade, equivalente a uma visão a partir de lugar nenhum ou a um ponto de vista divino.

2. Na concepção exemplarmente formulada por Bertrand Russell, tudo aquilo que pertence à particularidade pessoal — hábitos, interesses, desejos, esperanças, temores e preconceitos tradicionais — constituiria uma deformação do objeto e uma barreira entre sujeito e realidade, de maneira que o intelecto somente se tornaria livre quando buscasse um conhecimento tão impessoal, contemplativo e desapaixonado quanto possível.

3. Para Platão, somente a contemplação desvinculada das circunstâncias mundanas permite apreender as formas essenciais e imutáveis das coisas, como simboliza a alegoria da caverna, na qual o filósofo liberta o intelecto do aprisionamento entre imagens e sombras passageiras e ascende ao conhecimento das formas abstratas, eternas e atemporais.

4. A matemática tornou-se o modelo privilegiado desse conhecimento filosófico porque seus objetos, diferentemente das coisas sensíveis sujeitas à mudança, apresentam-se como eternos e invariáveis, permitindo que a razão ultrapasse as propriedades contingentes percebidas pelos sentidos e alcance essências universais sob o aspecto da eternidade.

  • A percepção situada apresenta o Sol mediante qualidades contingentes como calor, pequenez e cor, ao passo que a abstração racional procuraria alcançar estruturas universais expressáveis matematicamente.
  • A razão possibilitaria transcender o domínio das coisas particulares e ingressar no domínio das ideias ou essências atemporais.
  • Por conhecer objetos considerados eternos, a própria faculdade racional foi concebida como eterna, fundamentando tanto a definição clássica do ser humano como animal racional quanto a crença em sua imortalidade e em sua possibilidade de escapar à finitude temporal.

5. Na modernidade, o ideal grego de distanciamento racional, objetividade e certeza matemática converteu-se em método, sobretudo com Descartes, que procurou estender a segurança demonstrativa da aritmética e da geometria a todos os campos do conhecimento por meio de uma ordenação dedutiva rigorosa.

6. O método cartesiano pressupõe que todos os objetos do conhecimento possam ser alcançados mediante uma cadeia ordenada de raciocínios simples e seguros, desde que nenhuma proposição falsa seja admitida e que cada conclusão seja deduzida corretamente das anteriores, tornando em princípio descobrível mesmo aquilo que parece mais remoto ou oculto.

7. O método cartesiano promete um conhecimento claro e distinto mediante a constituição intelectual de uma representação exata do mundo exterior, exigindo a abstração das qualidades contingentes da experiência sensível e da historicidade para reduzir a natureza a corpos mensuráveis submetidos a relações causais matematicamente explicáveis e previsíveis.

  • Os corpos físicos passam a ser compreendidos como matéria desanimada, extensa, flexível, mutável e quantitativamente mensurável.
  • Como o ser humano também pertence à ordem natural, suas decisões e ações podem ser interpretadas segundo os mesmos princípios mecanicistas aplicados aos demais acontecimentos físicos.
  • Em Holbach, o conhecimento das leis imutáveis da natureza deveria orientar a conduta humana e submetê-la à necessidade universal dessas leis.
  • Com o metodologismo moderno, a razão deixa de ser apenas a faculdade superior que distingue o ser humano dos demais animais e passa a sustentar a pressuposição de que toda decisão ou ação humana possui, em princípio, uma explicação racional.

8. A contestação existencialista dirige-se precisamente contra a pressuposição de que o distanciamento teórico e a objetividade sejam capazes de oferecer uma explicação racional suficiente do comportamento humano, pois a existência concreta é atravessada por incerteza, dúvida, angústia diante da morte, contingência das escolhas e ausência de fundamento necessário para o próprio fato de existir.

  • A explicação racional pode produzir a ilusão reconfortante de estabilidade, ordem e controle na existência humana e no universo.
  • Em Nietzsche, essa construção racional funciona como uma fábula intelectual destinada a encobrir o caráter transitório, sem finalidade e arbitrário da existência.

9. A situação humana não se deixa apreender primordialmente pela reflexão distanciada, mas por afetos e estados de ânimo capazes de confrontar o indivíduo com sua própria existência e com as escolhas concretas que o constituem, motivo pelo qual o existencialismo questiona a definição clássica do ser humano como animal racional e atribui importância fundamental à capacidade de sentir e sofrer.

  • Quanto mais intensamente se toma consciência afetiva da própria condição, mais intensamente se experimenta seu sofrimento.
  • O conhecimento existencial não abandona a questão da verdade, mas a desloca para a compreensão do que significa ser humano.
  • O conhecimento da existência começa no interior da situação concreta do indivíduo, em seus compromissos afetivos e nos valores que efetivamente importam para sua vida.
  • A verdade existencial não se reduz a um conteúdo conceitualmente pensado, mas é experimentada mediante intensidade e paixão, abrindo o caminho para a concepção kierkegaardiana de verdade subjetiva.

Verdade subjetiva

1. A crítica de Kierkegaard ao distanciamento racional e à objetividade dirige-se sobretudo contra Hegel e sua tentativa de construir um sistema metafísico capaz de fornecer conhecimento absoluto da realidade mediante um processo dialético no qual oposições como sujeito e objeto, liberdade e determinismo, temporal e eterno, particular e universal são progressivamente mediadas e reconciliadas pela história.

  • O idealismo absoluto concebe a realidade como configurada pelo espírito (Geist), entendido não como entidade individual, mas como dimensão histórica compartilhada.
  • A consciência evolui desde formas não conceituais vinculadas à percepção sensível até formas universais e abstratas mediadas pela reflexão racional.
  • O processo culmina no saber absoluto, no qual a consciência reconhece as formas precedentes de conhecimento como momentos de seu próprio desenvolvimento histórico.
  • A culminação racional pretende superar as dicotomias e tensões conceituais presentes nos estágios anteriores.

2. Embora reconhecesse a existência humana como marcada por tensões dialéticas, Kierkegaard rejeita a possibilidade de resolvê-las racionalmente e sustenta que elas somente podem ser enfrentadas mediante os compromissos apaixonados do indivíduo existente, uma vez que a perspectiva universalizante da eternidade separa o filósofo das necessidades finitas e temporais da existência concreta.

3. A crítica kierkegaardiana mostra ironicamente a inadequação de uma mediação concebida sob o aspecto da eternidade para um indivíduo necessariamente situado no tempo, pois uma explicação da verdade eterna somente é existencialmente pertinente quando esclarece como essa verdade pode ser vivida por alguém que permanece finito, temporal e submetido às condições concretas da existência.

4. Ao abstrair as particularidades concretas do indivíduo em nome da objetividade, o sistema hegeliano exemplifica uma época que abandona o indivíduo em favor da ideia coletiva, fazendo com que a teorização desapaixonada transforme o sujeito concreto em algo acidental, indiferente e finalmente evanescente.

5. A filosofia abstrata não alcança a verdade subjetiva, entendida como a mais elevada verdade possível para um indivíduo existente, porque, embora não forneça conhecimento absoluto da realidade, essa verdade é mais fundamental existencialmente ao esclarecer quem se é e como se deve viver, retomando a exigência de conhecer a si mesmo antes de conhecer qualquer outra coisa.

6. A questão decisiva da existência não consiste prioritariamente em determinar aquilo que se deve conhecer, mas em esclarecer aquilo que se deve fazer, compreender a si mesmo e encontrar uma verdade singular pela qual seja possível viver e morrer.

7. As verdades objetivas, precisamente por serem universais e abstratas, não pertencem existencialmente ao indivíduo e podem ocultar as preocupações particulares que orientam sua vida, ao passo que somente o compromisso com uma verdade subjetiva constituída pelas experiências, afetos e necessidades singulares permite levar uma vida propriamente humana.

8. A concepção de verdade subjetiva desfaz a imagem tradicional do eu como mente desinteressada ou cogito, pois a existência precede a reflexão: antes de pensar sobre si, já se escolhe uma forma de vida, assumem-se responsabilidades e realiza-se concretamente o processo de tornar-se aquilo que se é.

  • O sujeito propriamente real não é primariamente um sujeito cognoscente, mas um sujeito eticamente existente.
  • Os compromissos existenciais antecedem pensamento e razão, pois é necessário existir para poder pensar.
  • O decisivo para a verdade subjetiva não é sua comprovação objetiva, mas a intensidade e a paixão com que o indivíduo se compromete com ela.
  • Essa verdade possui caráter paradoxal porque permanece objetivamente incerta e incompreensível para os outros, sendo por isso inseparável da angústia.

9. A primazia da verdade subjetiva explicita dois temas centrais do existencialismo: a possibilidade de que a fidelidade à própria verdade entre em conflito com deveres morais universais e a impossibilidade de alcançar essa verdade por meio do distanciamento teórico, pois ela se manifesta afetivamente em experiências de temor e angústia que não encontram justificação objetiva.

  • A verdade da própria existência é sentida e vivida, não derivada exclusivamente pelo pensamento racional.
  • A incompreensibilidade dessa verdade para os outros decorre do caráter singular dos compromissos que constituem cada existência.
  • A limitação da racionalidade no domínio da existência concreta não implica irracionalismo, mas apenas o reconhecimento de que razão e objetividade constituem dimensões parciais da condição humana.
  • Nietzsche radicaliza essa concepção ao rejeitar a própria ideia de uma verdade objetiva independente das perspectivas finitas e historicamente situadas.

Perspectivismo

1. Nietzsche compartilha a desconfiança de Kierkegaard diante dos sistemas filosóficos e os considera intelectualmente frágeis quando legitimam seus próprios princípios sem submetê-los a questionamento radical, pois não existe um mundo real independente das perspectivas humanas ao qual tais sistemas pudessem corresponder definitivamente.

  • O chamado mundo verdadeiro constitui uma construção acrescentada ao único mundo efetivamente acessível, o mundo aparente.
  • Sistemas religiosos, filosóficos e científicos são construções humanas destinadas a satisfazer necessidades psicológicas de estabilidade e controle diante da mutabilidade e impermanência da existência.
  • Ser humano significa já habitar uma perspectiva socialmente formada da qual não se pode simplesmente sair para contemplá-la de fora.

2. O caráter interpretativo e perspectivístico da existência elimina a possibilidade de alcançar, mediante distanciamento racional, uma perspectiva eterna composta por fatos independentes de interpretação, pois aquilo que se chama realidade comporta incontáveis sentidos constituídos historicamente.

  • A verdade não é simplesmente descoberta pela razão probatória, mas criada mediante interpretações e nomeações humanas.
  • As designações atribuídas às coisas adquirem historicamente uma força capaz de parecer mais decisiva do que qualquer pretensa natureza intrínseca dessas coisas.
  • As verdades são metáforas historicamente produzidas que permanecem enquanto são úteis e acabam sendo recebidas como fatos quando sua origem interpretativa é esquecida.
  • Valores modernos como igualdade, justiça e direitos podem ser compreendidos como interpretações historicamente sedimentadas, e não como verdades independentes das circunstâncias que lhes deram origem.
  • Aquilo que parece verdadeiro pode resultar da aceitação irrefletida das avaliações e normas aprendidas desde a infância.

3. A própria consciência possui caráter socialmente construído, porque crenças, valores e pensamentos são formados no interior de perspectivas socio-históricas e somente podem tornar-se conscientes por meio de palavras pertencentes às convenções linguísticas de uma comunidade.

4. A consciência não pertence exclusivamente à individualidade singular, mas desenvolve-se primordialmente em função da vida social e gregária, de modo que até a tentativa de conhecer a si mesmo faz emergir à consciência justamente aquilo que foi formado pelas estruturas compartilhadas e não aquilo que seria absolutamente individual.

5. A assimilação das convenções sociais tende a produzir uma consciência padronizada, nivelada e conformista, na qual aquilo que se torna consciente é simplificado e generalizado segundo as exigências do rebanho, enquanto tudo o que parece estranho, inquietante ou questionável é reinterpretado a partir do horizonte seguro do familiar.

  • O instinto de medo protege a perspectiva dominante contra aquilo que ameaça sua estabilidade.
  • O receio de reconhecer a contingência histórica das próprias convicções dificulta admitir que existem inúmeras maneiras possíveis de compreender o mundo.
  • A familiaridade torna-se assim um critério implícito de segurança que impede o questionamento radical daquilo que se considera conhecido.

6. O perspectivismo cumpre funções psicológicas e sociais indispensáveis ao tornar habitável uma existência que, de outro modo, poderia parecer absurda e aterradora, razão pela qual a crítica nietzschiana não elimina a utilidade da crença na verdade, mas revela como ilusória a estabilidade e permanência que lhe são tradicionalmente atribuídas.

  • A filosofia parte necessariamente de um contexto corporal, social e histórico determinado e nunca de um ponto de observação exterior a ele.
  • Toda explicação racional pressupõe uma existência situada e uma forma prévia de ser-no-mundo.
  • Em Heidegger, a própria possibilidade de representar entes e ter consciência deles pressupõe a estrutura existencial do ser humano.
  • Se uma explicação objetiva definitiva da existência é impossível, resta descrever a experiência tal como ela se manifesta.

Fenomenologia

1. A fenomenologia, inaugurada por Edmund Husserl como retorno às próprias coisas, não busca explicar sistematicamente a composição material ou psíquica dos objetos, mas descrever como eles se mostram na experiência ordinária, entendendo fenômeno como aquilo que aparece, se revela ou se dá imediatamente.

  • A aparência não é concebida como máscara de uma realidade verdadeira escondida por trás dela.
  • A distinção epistemológica tradicional entre aparência e realidade é rejeitada.
  • O fenômeno deve ser considerado tal como se mostra em si mesmo.
  • Em Sartre, a aparência não oculta a essência, mas constitui sua própria manifestação.

2. A fenomenologia contribui para o projeto existencialista ao sustentar, primeiro, que toda teoria sobre a realidade depende de algo previamente dado na experiência vivida e, segundo, que toda experiência possui estrutura intencional, sendo sempre experiência de alguma coisa.

  • Para alcançar aquilo que se dá originariamente, procura-se suspender os esquemas teóricos provenientes da filosofia e das ciências empíricas e descrever o fenômeno conforme ele se apresenta.
  • A intencionalidade rompe com a concepção cartesiana de um eu encerrado num interior mental separado dos objetos exteriores.
  • Nas práticas cotidianas não existe originalmente uma separação entre interior e exterior, pois já se está dirigido e envolvido com coisas intramundanas.
  • O exemplo sartreano de correr para alcançar um ônibus mostra que o eu não é primeiramente um conjunto interno de estados mentais, mas uma atividade dirigida para aquilo com que está envolvido.
  • O eu deixa assim de ser uma substância ou coisa e passa a ser compreendido como atividade contínua de direcionamento para o mundo.

3. A fenomenologia existencial rompe com Husserl ao rejeitar a possibilidade de uma redução completa capaz de eliminar todos os preconceitos da atitude natural e alcançar uma consciência absolutamente pura, pois aquilo que se manifesta na experiência já se encontra sempre mediado por um mundo histórico de significações afetivas no qual se está previamente envolvido.

  • A epoché husserliana pretendia suspender os preconceitos mundanos para alcançar aquilo que é dado à consciência sem distorções.
  • Para a fenomenologia existencial, o mundo não é um recipiente espacial nem uma coleção de objetos, mas um horizonte de sentidos afetivos no qual a vida cotidiana se desenrola.
  • Trabalhar, conversar, comprar ou viajar somente são experiências compreensíveis porque esse horizonte prévio permite que coisas e situações adquiram determinada importância.
  • Esse envolvimento não pode ser suspenso porque constitui o próprio modo humano de existir.
  • A impossibilidade de uma redução completa significa que toda experiência já se encontra mediada pelos sentidos mundanos nos quais se cresceu, tornando o ser humano inevitavelmente submetido à significação.

4. A compreensão da existência como envolvimento situado em um mundo de significações transforma a concepção do eu, deslocando a pergunta tradicional sobre aquilo que o ser humano é enquanto substância para a questão de como ele é, perspectiva expressa por Heidegger mediante o termo Dasein.

  • Dasein designa um modo peculiar de ser, e não um ente definido por propriedades comparáveis às de uma mesa, casa ou árvore.
  • O ser humano possui uma compreensão pré-reflexiva de como existir no mundo que nunca pode ser completamente convertida em conhecimento teórico explícito.
  • Essa compreensão resulta do estar-lançado (geworfen) em uma rede de significações sociais que orienta implicitamente o modo de compreender instrumentos, identidades e relações.
  • A compreensão de si ocorre mediante aquilo que se faz e pelos envolvimentos concretos mantidos no mundo.
  • O ser-no-mundo constitui um fenômeno unitário no qual si mesmo e mundo pertencem conjuntamente à estrutura do Dasein.

5. Heidegger rejeita a designação de existencialista porque sua investigação não tem como objetivo principal oferecer uma teoria do indivíduo existente, mas desenvolver a questão do ser (Seinsfrage) mediante a ontologia fundamental, investigação voltada a esclarecer o sentido do ser e as condições pelas quais os entes podem mostrar-se de maneira significativa e inteligível.

  • A analítica do Dasein constitui o ponto de partida porque o Dasein já habita significações mundanas e possui uma compreensão tácita do ser.
  • Ser e Tempo pretende explicitar o horizonte no qual algo como ser em geral pode tornar-se inteligível.
  • A análise da existência humana funciona como via de acesso à possibilidade de qualquer compreensão do ser.
  • A incompreensão desse projeto leva Heidegger a criticar a tradução francesa de Dasein como être-là, quando Da não indica simplesmente localização espacial, mas a abertura na qual os entes podem apresentar-se significativamente.

6. A crítica heideggeriana à tradução de Dasein como simples estar-aí espacial esclarece que o Da designa a abertura na qual os entes podem tornar-se significativamente presentes para o ser humano, e não uma oposição geográfica entre estar aqui e estar ali.

7. Em sentido amplo, Dasein não designa simplesmente um indivíduo existente ou um sujeito concreto, mas o espaço compartilhado de significação histórica, a abertura ou clareira (Lichtung) na qual as coisas podem aparecer como aquilo que são.

  • Ser e Tempo permanece decisivo para a tradição existencialista porque oferece uma análise sistemática da existência humana e esclarece a perspectiva interna própria ao ser-no-mundo.
  • O sentido somente emerge no interior de um horizonte historicamente mediado.
  • A pretensão de adotar uma posição puramente objetiva e distanciada é ingênua porque qualquer explicação teórica já pressupõe uma compreensão mundana do ser.

8. A ênfase heideggeriana na compreensão situada e pré-reflexiva rompe também com a imagem tradicional da mente desencarnada e permite reconsiderar o corpo vivido como fonte de compreensão e significação, perspectiva desenvolvida por Marcel, Sartre, Beauvoir e Merleau-Ponty.

  • O corpo não é primordialmente um objeto material espacialmente extenso contemplado por um sujeito cognoscente, mas o próprio modo relacional de ser-no-mundo.
  • A afirmação de Gabriel Marcel de que se é o próprio corpo dissolve a oposição entre um sujeito possuidor e um corpo possuído.
  • Ver, ouvir, tocar e sentir já constituem formas corporais de envolvimento com significações mundanas anteriores à interpretação teórica.
  • Identidades como homem e mulher não derivam diretamente da anatomia isolada, mas dos horizontes socioculturais de significação nos quais as diferenças corporais são interpretadas.
  • A formulação de Simone de Beauvoir segundo a qual não se nasce mulher, torna-se mulher, exprime o papel das estruturas sociais, instituições e preconceitos na formação da identidade feminina e de sua posição subordinada.
  • A importância dos fatores biológicos não é negada, mas esses fatores somente adquirem sentido identitário no interior das normas e práticas sociais vividas corporalmente.
  • A identidade pessoal resulta assim da relação situada entre corporeidade e mundo, permitindo interpretar-se como homem ou mulher, saudável ou doente, agradável ou rude e segundo inúmeras outras determinações.

9. A perspectiva existencialista converge na rejeição de um começo filosófico baseado no distanciamento e na objetividade, pois a compreensão da existência humana deve partir das experiências em primeira pessoa e da compreensão situada que cada indivíduo já possui de si, não havendo possibilidade de abandonar completamente esse ponto de vista interno.

10. A concepção existencialista rejeita igualmente o ser humano como sujeito autossuficiente separado dos objetos, porque a existência cotidiana já se encontra vinculada aos sentidos, valores e práticas de um mundo compartilhado que condiciona tanto a interpretação da realidade quanto a compreensão de si.

11. O distanciamento objetivo rompe a relação afetiva com o valor e a importância das coisas, produzindo uma visão desapaixonada na qual o mundo se reduz a uma coleção indiferente de fatos e as escolhas perdem sua significação emocional, ao passo que aquilo que é verdadeiro para a existência individual depende da paixão, intensidade e seriedade com que uma escolha é assumida, e não apenas de sua correção objetiva.

12. A perspectiva interna também apresenta uma dificuldade própria, pois, se toda compreensão de si é constituída em um mundo de significações que colore implicitamente a maneira de perceber e interpretar as coisas, torna-se necessário esclarecer como alguém pode ser fiel a si mesmo e assumir uma identidade propriamente sua, questão que exige investigar mais profundamente as diversas formas existencialistas de ser-no-mundo e sua crítica aos dualismos tradicionais do pensamento ocidental.

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