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4 Revendo os campos

DEPRAZ, Natalie. Comprendre la phénoménologie : Une pratique concrète. Paris: Armand Colin, 2012.

1. Não dualidade dos dois eixos co-originários

A crítica derridiana ao originário como resíduo metafísico do fundamento não interrogado sustenta a proposição de uma pluralidade coerente de marcações estruturais da experiência, radicalizando a mobilidade metódica husserliana (estático/genético) numa tríade dinâmica primordial — tempo, afeto e atenção — tomada como coessencial e não hierarquizável.

  • A atenção prevalece sobre a mera percepção por recobrir também o caráter potencialmente ético da disposição do sujeito, não se restringindo a um estatuto cognitivo.
  • O afeto prevalece sobre a afecção ou a emoção por escapar à visada teórica de conhecimento própria da afecção e por evitar a conotação psicológica da emoção, visando antes uma estrutura igualmente ontológica.
  • O tempo prevalece sobre o espaço não por exclusão, mas porque, lastrado originariamente de afeto e portanto encarnado, faz aparecer o acoplamento do espaço-tempo vivido sem subordinar a incarnação corporal à extensão objetiva.

1.1. Na encruzilhada do tempo e do afeto

A neurofenomenologia, e mais precisamente a neurodinâmica, instaura a temporalidade como ponto-vetor da organização da experiência do sujeito, mediante a coprodutividade — não a simples correlação isomórfica — entre a descrição subjetiva em primeira pessoa e a análise objetiva em terceira pessoa, dando lugar a um tempo não linear, circular e gerativo.

  • A inoperatividade completa do modelo de sucessão, ainda paradigma de fundo da análise husserliana do presente vivo, revela-se em regime de fases neurodinâmicas.
  • A implicação originária do afeto na fonte da formação da microtemporalidade constitui a “valência” primordial do movimento temporal, ancorada organicamente no hipocampo e na amígdala.
  • A distinção gerativa de escalas temporais articula o vivido temporal (protencional, rememorante e histórico-gerativo) ao vivido afetivo (valências afetivas, emoções fortes, empatias constituídas).
  • A dimensão autoantecipadora da experiência do sujeito, mediante a prática atencional, manifesta a capacidade de captar a própria experiência já no momento de sua emergência protencional, conforme os trabalhos de F. Varela sobre o presente específico (specious present), a valência afetiva na fonte do tempo, a autoantecedência e a temporalidade protencional.

1.2. Da geração afetiva da atenção

A atenção, pouco tematizada por Husserl em favor do primado metódico da redução, constitui-se como plataforma transversal das experiências, distinta da reflexão — que idealiza e desrealiza a experiência do sujeito —, por reconduzir ao exame minucioso e encarnado da relação interna a si mesmo.

  • A genética atencional liga-se à parte inconsciente e pré-consciente do sujeito, com o afeto pré-consciente situado na raiz do nascimento da atenção.
  • A organicidade corporal da atenção manifesta-se em atitudes motoras (voltar-se, desviar-se) e linguísticas (notar, assinalar), unindo os eixos modulatório e afetivo.

2. Entre o corpo e o outro, a pessoa

A corporeidade e a intersubjetividade, correlativas e originariamente encarnadas, designam a relação de imanência arcaica ao mundo, a ser articulada — não oposta — à transcendência do ser-temporal e atencional, na dinâmica pessoal daquilo que Husserl nomeia “transcendência imanente” (transzendente Immanenz).

2.1. Da vigilância à pessoa do outro

Entre a objetivação cognitiva do outro e sua absolutização ética (Kant, Buber, Mounier, Marcel, Levinas), propõe-se uma terceira via centrada na dimensão relacional, mediante a qual o outro se reabilita como presença qualificada, modulável e contextual — a “vigilância” — que funda uma ética contextual da medida.

  • A vigilância, no sentido corrente, aproxima-se de sinônimo de atenção, como no cuidado com furtos no metrô ou objetos suspeitos em aeroportos.
  • A vigilância remete também a dimensões heterogêneas — insônia, formas de hiperconsciência, temporalidade da manutenção e atitude ética — configurando-se como experiência do excesso e densificação vertical da experiência subjetiva.
  • A vigilância implica a incompletude da pessoa do outro, produzindo uma qualidade de não-espera e não-exigência, substituindo a moral da perfeição sem concessão por uma ética da vigilância plástica.

2.2. Da atitude ética às experiências emocionais

A atitude ética, longe de ser neutra, comporta investimento afetivo que distingue uma ética da estima de si e do respeito formal (Kant) de uma ética voltada ao outro e lastrada de valores afetivos (espaço do coração, Pascal), a qual se manifesta nas provas emocionais descritas por Scheler.

  • A tensão entre ethos e pathos remonta à dissociação clássica (Aristóteles, Descartes, Kant) e à tradição alternativa (Espinosa, Hegel, Scheler, M. Henry) que legitima plenamente a emoção ética.
  • A polarização henryana entre sofrimento e gozo, fundada na autoafecção imanente, prolonga a valorização espinosista e hegeliana do afeto.
  • A descrição das condutas emocionais nos tratados dos Padres capadócios articula registros atencionais e regimes emocionais ao longo das etapas da glorificação da pessoa, em diálogo com os traços emocionais das fenomenologias de Husserl, Heidegger, Sartre e M. Henry.

3. O sentir comunitário entre emoção e imagem

O afeto ocupa posição central na conduta do sujeito enquanto pessoa, na relação com os outros e no seio da comunidade dos viventes, partilha fundada no saber corporal e emocional que se desdobra igualmente no horizonte da aptidão imaginativa.

3.1. Da ética emocional ao ser-em-comum comunitário

A empatia constitui fio condutor central por reunir corporeidade, afetividade, imaginação e comunidade, exigindo a revisitação do conceito husserliano em suas quatro dimensões correlativas, complementadas pelas contribuições schelerianas e steinianas.

  • O acoplamento passivo dos corpos de carne (Paarung) funda a coaperceção recíproca das condutas corporais, exemplificada na silhueta reconhecida à distância.
  • A transposição deliberada em imaginação dos vividos do outro em mim (Hineinphantasieren) atribui ao outro, por semelhança de conformação corporal, vividos internos análogos aos próprios, sem inferência por analogia.
  • A interpretação do sentido da aparição do outro mostra-se coorigem do acoplamento corporal e da transposição imaginativa, contra a fantasia de uma descrição pura isenta de autoexplicitação (Aufklärung).
  • O sentimento de responsabilidade ética solidariza descrição e prescrição, investindo o outro de valor e inscrevendo a atenção como estrutura originária da relação intersubjetiva.
  • A sympathy scheleriana (Einfühlung como Einsfühlung) confere à experiência do outro caráter prioritariamente afetivo, imediato e material, resguardado da fusão e do contágio afetivo (Gefühlsansteckung); a concepção steiniana desloca a relação ao outro para a assimetria fundada na abertura ao que excede o sujeito.
  • As figuras-limite do animal, do louco, do estrangeiro e da criança enriquecem a compreensão empática ao abrirem outros horizontes de sentido, constituindo uma comunidade gerativa e autotransformadora nomeada “alterologia”.

3.2. Do espaço comunitário ao espaço sensível

A consciência da partilha situa-se essencialmente no nível pré-reflexivo e pré-discursivo do sentir, manifesto na expressão emocional e corporal — riso e humor — que caracteriza a comunidade animal, infantil, estrangeira e louca.

  • A vitalidade animal, a curiosidade infantil, o apetite de descoberta do louco e a capacidade de adaptação do estrangeiro configuram potencialidades do sujeito acessíveis conforme sua abertura interior.
  • A “alterologia” define-se como comunidade de pessoas em relação de síntese passiva, regulada pela interafecção, opondo-se à estrutura estatal concorrencial e anônima.
  • A hiperestesia pulsional do animal, a autoantecedência gerativa da criança e do velho, a alteração mental do louco e a primaridade arcaica do estrangeiro qualificam a lucidez corporal própria às figuras paradigmáticas da comunidade alterológica.

3.3. Da sensibilidade corporal ao sentir da imagem

A abertura das possibilidades características das figuras-limite de alteridade traduz-se, em última instância, no poder da imagem, cuja continuidade com a percepção é atestada tanto pelas neurociências quanto pela fenomenologia.

  • Experimentações neurocientíficas demonstram padrão similar de conexões neuronais entre a percepção viva de um rosto e sua imaginação mental, contestando a oposição clássica entre verdade perceptiva e ilusão imaginativa.
  • A Fantasia (Phantasie) husserliana, em sua evolução genética tardia, e a força de verdade do sonho e do devaneio em Merleau-Ponty afirmam a linha continuísta entre percebido e figurado.
  • A diferenciação entre imaginação estática e motora, entre sonho lúcido e sonho acordado, evidencia o relevo multivalente e a potência multiforme do imaginário.
  • A tradição cristã ortodoxa das energias criadas e incriadas situa o dado no registro das modalidades de ser e das variações, assegurando a participação humana na realidade divina incriada e a abertura à reserva imaginativa e imageante.
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