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Fenomeologia e História (2002)
Data: 2025-10-30 12:49
Phénoménologie: un siècle de philosophie
Pascal Dupnd et Laurent Cournarie (orgs.)
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A vastidão do tema “Fenomenologia e História” e a limitação do exame a Edmund Husserl e Martin Heidegger
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A proposta de limitar o exame às duas figuras emblemáticas de Husserl e Heidegger
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O tratamento sucessivo destas duas figuras sob o título “Fenomenologia e História”
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O utilidade de evocar duas abordagens filosóficas da história anteriores à fenomenologia
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As duas abordagens filosóficas da história sendo anteriores ao movimento fenomenológico propriamente dito
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O propósito de mostrar que estas abordagens antecipam, ou mesmo inspiram, em medida não negligenciável, Husserl por um lado, e Heidegger por outro
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A filosofia da história de Georg Wilhelm Friedrich Hegel: a razão (Vernunft) na história
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A noção central em torno da qual Hegel articula sua filosofia da história: a razão (Vernunft)
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A razão figurando no título da introdução às suas lições de filosofia da história: Die Vernunft in der Geschichte
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A razão sendo, segundo ele, a lei do mundo e, por conseguinte, as coisas tendo-se produzido racionalmente na história do mundo
A tese de Hegel estando em acordo com a convicção na raiz da tradição filosófica inaugurada pelos Gregos (Anaxagoras dizia que o nous rege o mundo) e com a convicção que anima a fé cristã (o mundo regido pela Providência)A transformação do princípio abstrato de Anaxagoras e do registro da crença da fé cristã em uma questão de demonstração rigorosa e sistemática por HegelAnaxagoras estando muito longe de aperceber que a natureza forma um verdadeiro sistema racional, no seu campo privilegiado de investigação (a physis), e mais longe ainda de aperceber que o mundo histórico forma sistemaO nous de Anaxagoras sendo apenas um voto metodológico e formal que não investia em nada os conteúdos da sua buscaA “razão na história” não sendo uma fórmula epistemológica para Hegel, mas uma fórmula ontológica-
O curso mesmo do processo histórico sendo intrinsecamente penetrado de razão
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A impossibilidade de haver razão na historia rerum gestarum senão porque a racionalidade está à obra nas res gestae
A providência do cristianismo sendo um princípio não menos abstrato aos olhos de Hegel do que o nous de Anaxagoras, pois as vias desta providência permanecem subtraídas ao saber para o crente-
A objeção de Hegel de que Deus, se se revelou, concedeu não somente a possibilidade mas a obrigação de o conhecer
A refutação da distinção de Santo Agostinho na Cidade de Deus entre o procursus (o achegamento secreto do mundo para a beatitude celeste) e o excursus (o curso aparente dos assuntos humanos)-
A demonstração de Hegel de que a razão absoluta se revela plenamente no curso do processo histórico mesmo, em lugar de preservar seu segredo
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O curso da história sendo uma verdadeira teodiceia, a demonstração progressiva do absoluto
A filosofia da história sendo uma teleo-logia, porque ela é uma teodiceia-
O telos, definido como razão absoluta, não podendo ser senão um reino onde a razão não é mais relativa em nada a qualquer coisa outra que ela mesma
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O telos sendo a identidade do racional e do real, da Ideia e do ser, do poder e do em si
A identidade do racional e do real sendo especulativa no sentido primeiro especular da palavra-
A razão absoluta, dita também Espírito absoluto, contemplando-se a si mesma, reconhecendo a sua própria produção na totalidade do real — natureza e história reunidas
A filosofia da história sendo o exposto de um processo universal de gestação do telos, dado que esta teleologia é universalmente englobante-
O curso da Weltgeschichte sendo um processo de produção, no sentido de um trabalho de elaboração, deste telos
O processo de elaboração como uma sucessão de etapas-
Cada etapa atestando ao mesmo tempo a antecipação do telos e uma defeituosidade em relação ao cumprimento deste telos
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Cada etapa sendo já a identidade do real e do racional, e no entanto não o sendo ainda
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A harmonia reinando na medida em que a etapa já é a identidade do real e do racional
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A etapa intrinsecamente marcada por uma crise na medida em que ainda não é a identidade do real e do racional
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A crise consistindo, de maneira geral, em que o em si prevalece sobre o para si, ou a substância sobre o sujeito, ou ainda a representação (Vorstellung) sobre a consciência de si (Selbstbewusstsein)
A história sendo todo o resto que não uma sequência de eventos que marcaram a interação de indivíduos e que requereriam a crônica-
As intenções, os interesses, as paixões dos indivíduos sendo somente os meios e as ferramentas de que a razão se serve com astúcia para se cumprir a si mesma em sua universalidade, para além de toda a particularidade das visadas e das ações individuais
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A astúcia da razão se servindo da violência para assegurar o seu reino harmonioso
O reino culminando em um cumprimento ao mesmo tempo teórico e prático-
A figura do cumprimento teórico sendo a ciência
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A figura do cumprimento prático sendo o Estado moderno, no sentido em que Hegel o entende: instituição ao mesmo tempo orgânica e burocrática
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O Estado moderno superando a imediatidade que foi a da Cidade grega pelas mediações que ela instaura
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O Estado moderno superando o formalismo jurídico do mundo romano pelo seu caráter orgânico
A geografia deste cursus indo do Oriente ao Ocidente, de sorte que a Europa, citando, é “das Ende der Weltgeschichte” (o fim da história universal)-
A sombra de Hegel nos textos tardios de Edmund Husserl sobre a história
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O esquematismo desta descrição justificado na medida em que a sombra de Hegel é detectável no plano de fundo dos textos de Husserl sobre a história
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Os textos de Husserl sobre a história sendo tardios, datando do meio dos anos 30, ou seja, de uma época dramática
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A maioria dos textos de Husserl gravitando em torno da preparação do opus inacabado publicado a título póstumo sob o título A Crise das ciências europeias e a Fenomenologia transcendental
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O adjetivo “transcendental” tendo aparecido na terminologia de Husserl quando este empreendeu de caracterizar reflexivamente a fenomenologia
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A fenomenologia tendo sido praticada na abordagem ao mesmo tempo crítica e descritiva das Investigações Lógicas, antes da caracterização reflexiva
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O termo transcendental sendo de origem kantiana
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O transcendental visando em Kant, por oposição a toda busca simplesmente empírica, a busca de condições necessárias e universais de possibilidade tanto para o conhecimento quanto para a ação
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O dizer que a fenomenologia é transcendental sendo o dizer que o seu campo de investigação, a consciência intencional, se caracteriza nos seus dois polos — aquele do intendo e aquele do intentum — por condições necessárias e universais de possibilidade
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A diferença maior com Kant consistindo no fato de estas condições serem pensadas ser acessíveis a uma vista, a uma intuição, ao termo de uma variação eidética, enquanto em Kant só o espaço e o tempo podem ser intuicionados
A pesquisa de Husserl não tendo considerado que a história caía, em que quer que seja, no campo da fenomenologia durante três décadasA anedota significativa segundo a qual Husserl, expondo a Heidegger a forma em que concebia o artigo “Fenomenologia” para a Encyclopaedia Britannica, se viu perguntar pelo seu interlocutor como a história ali se inscrevia, ao que Husserl teria respondido, batendo na testa: “Ach! Ich habe die Geschichte ganz vergessen…” (Ah! Eu esqueci completamente a história…)A abordagem de Husserl à história se dando no campo da fenomenologia transcendental no momento em que a história começa a preocupá-loA preocupação pela história sendo imposta exteriormente pela irrupção maciça de uma ideologia nacionalista e racista que o concernia em sua própria pessoaA preocupação pela história também motivada por questões internas à fenomenologia mesma-
A fenomenologia tendo descoberto a consistência intrínseca da ordem das idealidades e tendo mostrado que estas não podiam em nenhum caso ser consideradas como simples emanações de fatos psicológicos, físicos, biológicos empiricamente observáveis
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A fenomenologia, rejeitando o historicismo no mesmo título que toda espécie de naturalismo, não podia negligenciar a história
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A necessidade de a fenomenologia reconhecer que a relação intencional à ordem das idealidades — por exemplo, as idealidades matemáticas — não era de sempre, que tinha nascido em certo momento, que tinha uma gênese histórica
A determinação da forma em que Husserl responde à questão transcendental de saber quais são as condições de possibilidade do “fenômeno” chamado história, não no sentido da historiografia, mas no sentido da Geschichte, das res gestae, que a historiografia pressupõe-
A historicidade individual e o conceito husserliano: teleologia e autosuficiência
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O que é preciso para que o curso de uma existência individual seja o objeto de uma História sob a forma simples de uma biografia
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A resposta de Husserl citando um manuscrito do grupo K III: “Só pode haver historicidade no sentido próprio para um homem que tenha pré-desenhado o sentido unificado de sua vida, como aquele que se decidiu livremente a consagrar sua vida a um Beruf e prescreveu por isso a todas as suas vontades e as suas ações futuras uma regra, uma norma; mantendo-a através de todas as vicissitudes, permanecendo fiel a si mesmo, ele conduz na história da sua missão uma vida unificada plena de sentido”
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A historicidade sendo entendida como uma teleologia, ou seja, mais precisamente como um processo que começa por um pré-desenho, um esboço prévio, uma antecipação de uma norma que rege cada uma das suas etapas
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O diverso eventual, com o elemento de surpresa que aí se prende, sendo considerado como exterior à história, como o contra o que a unidade da norma se afirma e se mantém
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A preponderância do um sobre o diverso, e a preponderância da identidade sobre a diferença, da mesmidade sobre a alteridade
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O que é histórico permanecendo fiel a si, e dependendo o sentido deste processo exclusivamente da manutenção de si, sendo o processo dito autosuficiente
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A recorrência, neste conceito husserliano da historicidade individual, de alguns dos traços da historicidade coletiva no sentido hegeliano: teleologia, exclusão do eventual, autosuficiência
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A historicidade coletiva e a crise europeia no pensamento de Husserl: o sentido teleológico do Espírito (Geist)
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A confirmação e o aparecimento mais nítido da recorrência dos traços hegelianos quando se presta atenção ao que Husserl diz da historicidade coletiva
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A Concentração na conferência de Viena de 1935 intitulada Die Krisis des Europaischen Menschentums und die Philosophie (A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia)
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O tema da crise europeia abordado por Husserl em relação ao “sentido teleológico” da filosofia da história, desde o início
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A estipulação de que a crise em questão é espiritual (geistig) e é, portanto, “um problema tributário de uma ciência pura do Espírito, portanto primeiro de uma história do Espírito” (Geistesgeschichte)
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A Geistesgeschichte sendo, diz ele, uma “teleologia notável que não pertence senão à Europa” (27, trad. Ricoeur)
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A humanidade europeia guarda uma entelequia que lhe é inata, que domina de lado a lado todas as mudanças afetando a forma da Europa e lhes confere o sentido de um desenvolvimento orientado para um polo eterno
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O dizer que a Europa, e ela só, é depositária de um sentido teleológico, sendo o dizer que a Europa nasce com a irrupção de um telos que ela prescreve a si mesma
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A irrupção — o Urphanomen (o Urfenômeno) da Europa espiritual — sendo a irrupção da filosofia ela mesma, nascida na Grécia
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A filosofia, em relação às outras produções espirituais, tendo o aspecto de “uma forma espiritual sistematicamente fechada” ao mesmo tempo que universal
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A filosofia sendo “ciência universal, ciência do todo do mundo, ciência da unidade total de todo o ser (Alleinheit ailes seienden)”
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A Europa sendo dotada de uma historicidade toda a feita específica pela irrupção da filosofia, ciência universal
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A Europa se elevando a um nível de historicidade ao qual as culturas extra-europeias – isto é, “extrascientíficas” – não saberiam pretender, graças à filosofia
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As outras culturas se limitando a tarefas e prestações relativas a um Umwelt quotidiano estritamente finito, exclusivamente empírico e recebido ingenuamente à maneira de uma tradição que vai de si
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A Europa, desde a irrupção da filosofia, sendo animada de um interesse para uma “figura normativa situada no infinito”
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O interesse prescrevendo-lhe “tarefas infinitas”, não sendo mais prático no sentido dos esforços e das preocupações quotidianas, mas “inteiramente não prático e envolvendo o universo”
A vida se universalizando, graças à filosofia, pois o depositário das tarefas infinitas da theoria extravasa a soma de “todas as pessoas reais e possíveis” e de todas as tradições nacionais: é a humanidadeA theoria, funcionando como uma norma infinita, não acarretando no entanto ruptura com a prática, mas transformando-a profundamenteA theoria universalizando a prática, subordinando-a a um trabalho dos uns com os outros e dos uns para os outros (um Miteinanderarbeit) focado na pesquisa, a compreensão, a educaçãoA theoria conduzindo a existência a se compreender sub specie aeterni (69)A objeção de Husserl a si mesmo sobre se este quadro não trai um retorno ilusório a uma Aufklarung suspeita, grosso modo ao racionalismo dos séculos XVII e XVIIIA resposta negativa de que este racionalismo estava a extraviar-se: era um “sich verirrenden Rationalismus”O extravio do racionalismo sendo a raiz da crise de que ele trata, segundo eleO extravio se devendo a uma ingenuidade fundamental cujo nome o mais geral é o de objetivismo ou ainda de naturalismoA lacuna essencial do objetivismo e do naturalismo sendo a ausência de reflexão, de SelbstbesinnungO reconhecimento de Husserl de ser herdeiro do idealismo alemão: “der deutsche Idealismus ist uns in dieser Einsicht langst vorausgegangen”O idealismo alemão, segundo ele, já se tendo “esforçado com paixão de superar esta ingenuidade” objetivistaA ingenuidade objetivista, fonte da crise europeia, sendo não somente unilateral, mas absurdaO absurdo de “conferir ao espírito uma realidade natural, como se fosse um anexo real (real) dos corpos, e de pretender atribuir-lhe um ser espaço-temporal no interior da natureza”“A subjetividade que cria (leistende) a ciência não tem o seu lugar legítimo em nenhuma ciência objetiva”A ignorância obstinada do objetivismo ou do naturalismo de que a “natureza viva” de que se reclamam é ela mesma “a obra do espírito que a explora e ela pressupõe por conseguinte a ciência do espírito”As formulações quase hegelianas sob a pena de Husserl, já que o idealismo alemão lutou apaixonadamente contra este desconhecimento-
“O Espírito, e mesmo só o Espírito, existe em si e para si; só, ele repousa sobre si e pode, no quadro desta autonomia e somente neste quadro, ser tratado de uma maneira verdadeiramente racional, verdadeira e radicalmente científica”
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A suficiência do Espírito a si mesmo só se dando quando o Espírito, cessando de se virar ingenuamente para o exterior, retorna a si e permanece em casa e puramente em casa (bei sich)
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A universalidade do Espírito absoluto abraçando tudo em uma historicidade absoluta onde a natureza se incorpora enquanto é uma obra do espírito
A não coincidência das formulações com a terminologia de HegelA concepção de historicidade autêntica em Husserl sendo o processo de realização de um plano racional a despeito das vicissitudes e para além do diverso eventencial, como em HegelA concepção deste processo como um trabalho, como em HegelO concurso dos indivíduos sendo suposto por este trabalho, mas estes não sendo senão os agentes ou os funcionários de uma entidade que os ultrapassa, como em Hegel: o Espírito em si e para si, só verdadeiro depositário ou titular da historicidadeO sentido do processo só se revelando à ciência das ciências, ou seja, à filosofia, como em HegelA diferença maior, quanto à história, consistindo em que em Hegel a filosofia se detém no registro pacífico da comemoração, enquanto em Husserl ela se detém no registro heroico da tarefa
PS: DUPOND, Pascal; COURNARIE, Laurent (ORGS.). Phénoménologie, un siècle de philosophie: Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty, Arendt, Patočka, Levinas, Dufrenne, Maldiney, Henry, Marion, Richir. Paris: Ellipses, 2003.
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