0 Introdução
(RR1999)
INTRODUÇÃO
O PRAGMATISMO E A FILOSOFIA PÓS-NIETZSCHIANA
1. Este segundo volume de ensaios escritos nos anos 1980 concentra-se sobretudo em Heidegger e Derrida, reunindo quatro estudos sobre o primeiro, três sobre o segundo e uma discussão da apropriação de ideias derridianas por Paul de Man e seus seguidores.
2. A terceira parte reúne uma interpretação de Freud compatível com a concepção do eu como uma rede sem centro de crenças e desejos, associada a Quine e Davidson, e três discussões sobre teorias sociais e posições políticas de pensadores contemporâneos que ampliam as reflexões sociopolíticas do primeiro volume.
3. A relação entre a tradição pós-nietzschiana do pensamento franco-alemão e o pragmatismo antirrepresentacionista desenvolvido na filosofia analítica constitui o eixo das considerações introdutórias.
4. A classificação de Heidegger e Derrida como pós-modernos deve ser abandonada porque a extensão excessiva desse termo estimula periodizações gerais da cultura que obscurecem as diferenças entre as transformações próprias de cada disciplina ou gênero.
5. Heidegger e Derrida podem ser compreendidos mais adequadamente como filósofos pós-nietzschianos inseridos em uma sequência histórica de interlocuções, pois a originalidade permite recontextualizar os predecessores, mas não produzir obras imunes a contextos nem estabelecer uma contextualização definitivamente correta.
6. A aproximação entre Nietzsche e o pragmatismo decorre de sua rejeição do conhecimento em si e de sua compreensão das categorias racionais segundo sua utilidade para determinadas formas de vida, perspectiva próxima da interpretação de Dewey sobre o desenvolvimento intelectual europeu.
7. O perspectivismo de Nietzsche distingue-se do pragmatismo de James e Dewey por orientar-se para o aperfeiçoamento individual e a pureza espiritual, sem compartilhar suas aspirações democráticas nem a combinação emersoniana de autoconfiança e esperança na liberdade social.
8. Apesar das divergências morais e políticas, Nietzsche compartilha com os pragmatistas o anticartesianismo, o antirrepresentacionismo e o antiessencialismo, permitindo uma articulação com Quine, Putnam e Davidson que esclarece sua concepção da verdade como um conjunto móvel de metáforas.
9. A compreensão da verdade como propriedade de frases cujo repertório se amplia pela literalização de novas metáforas substitui a imagem do progresso intelectual como representação cada vez mais fiel do mundo por uma concepção darwiniana de criação de instrumentos que favorecem a sobrevivência e a transformação das espécies.
10. A herança darwiniana comum a Nietzsche e Dewey permite aproximar a filosofia europeia pós-nietzschiana da filosofia analítica pós-positivista mediante uma compreensão da linguagem como conjunto de ferramentas que transforma seus usuários e suas finalidades, dispensando os problemas gerados pela oposição entre realismo e antirrealismo.
11. Embora existam importantes aproximações entre Heidegger, Derrida, Wittgenstein e Davidson, a concepção instrumental da linguagem permanece em tensão com a tendência do último Heidegger e, ocasionalmente, de Derrida a tratá-la como uma presença quase autônoma diante do ser humano.
12. A resistência de Heidegger e Derrida a uma compreensão naturalista da linguagem preserva elementos da oposição entre espírito e natureza e favorece sua transformação em uma entidade misteriosa que substitui Deus ou a mente, especialmente quando se procuram condições transcendentais de sua possibilidade.
13. A atribuição de uma importância filosófica excepcional à linguagem, à intencionalidade ou à différance ameaça restabelecer separações entre natureza e vida psíquica, convertendo diferenças úteis entre vocabulários em rupturas fundamentais e conferindo à irredutibilidade das descrições intencionais um privilégio injustificado.
14. A facilidade de produzir redescrições irredutíveis e a inexistência de uma maneira de ser das coisas independente de qualquer descrição permitem compreender os dualismos filosóficos como diferenças entre conjuntos de descrições aplicáveis às mesmas coisas.
15. Como a identidade das coisas depende das descrições, a interpretação darwiniana da linguagem não revela sua essência mais do que as interpretações de Heidegger ou Derrida, constituindo apenas outra descrição útil para determinados objetivos.
16. A descrição darwiniana da linguagem favorece o abandono do representacionismo e da oposição entre realidade e aparência, enquanto os aspectos mais fecundos de Heidegger e Derrida ampliam nossas possibilidades de redescrição e os menos fecundos sugerem ter descoberto a natureza essencial da linguagem.
17. A aproximação entre as duas tradições pode ser construída descrevendo frases como sinais produzidos por organismos em evolução, crenças e desejos como recursos de previsão do comportamento e essas mesmas descrições como possibilidades continuamente recontextualizáveis de transformar nossa habitação linguística.
18. A passagem entre as perspectivas de Darwin, Heidegger e Derrida evidencia que a principal convergência das duas tradições reside em evitar o sujeito e o objeto como polos fundamentais, a linguagem como intermediária entre ambos e os problemas representacionistas que exigem explicar ou reduzir essa mediação.
19. A função terapêutica e desconstrutiva dessas filosofias não diminui sua importância, pois abandonar esquemas intelectuais herdados pode produzir transformações imprevisíveis e tornar suas obras úteis em uma variedade indefinida de novos contextos.
20. Os efeitos de uma mudança filosófica não podem ser delimitados antecipadamente nem considerados necessariamente centrais ou marginais à cultura, razão pela qual o pragmatismo compartilhado pelas duas tradições pode assumir a forma de um pensamento fraco que reúne advertências e sugere possibilidades sem pretender refundar a vida contemporânea.
