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Si e identidade narrativa
RICOEUR, Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Editions du Seuil, 1990.
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O presente estudo é estreitamente solidário do anterior, ainda que de tom diferente, pois até aqui a identidade narrativa foi tratada de modo polêmico e mais defensivo que construtivo, restando duas tarefas positivas a cumprir
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A primeira tarefa consiste em levar ao mais alto grau a dialética da mesmidade e da ipseidade implicitamente contida na noção de identidade narrativa
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A segunda tarefa consiste em completar essa investigação do si-mesmo narrado pela exploração das mediações que a teoria narrativa pode operar entre teoria da ação e teoria moral, tarefa com dois versantes: retomando o ternário descrever, narrar, prescrever, cabe perguntar primeiro que extensão do campo prático a função narrativa suscita, se a ação descrita deve poder igualar-se à ação narrada, e examinar depois de que maneira o relato, nunca eticamente neutro, se revela o primeiro laboratório do julgamento moral, prosseguindo nesse duplo versante, prático e ético, a constituição recíproca da ação e do si-mesmo
1. A identidade narrativa e a dialética da ipseidade e da mesmidade
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A natureza verdadeira da identidade narrativa só se revela na dialética da ipseidade e da mesmidade, representando esta última a contribuição maior da teoria narrativa à constituição do si-mesmo
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A ordem seguida pelo argumento mostrará primeiro, na continuidade das análises de Temps et Récit, como o modelo específico de conexão entre eventos constituído pela intriga permite integrar à permanência no tempo o que parece ser seu contrário sob o regime da identidade-mesmidade — a diversidade, a variabilidade, a descontinuidade, a instabilidade — e mostrará depois como a noção de intriga, transposta da ação às personagens do relato, engendra a dialética da personagem, expressamente uma dialética da mesmidade e da ipseidade
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Retomando a estratégia dos puzzling cases da filosofia analítica, dar-se-á lugar, no espaço de variações imaginativas aberto pela dialética da ipseidade e da mesmidade, a casos-limite de dissociação entre duas modalidades de identidade, dignos de competir com os casos indecidíveis de Derek Parfit, oferecendo-se ocasião notável para confrontar os recursos respectivos da ficção literária e da ficção científica diante do caráter eminentemente problemático da identidade pessoal
Ao formar o conceito de Zusammenhang des Lebens, conexão da vida, Wilhelm Dilthey o tinha espontaneamente por equivalente ao de história de uma vida, sendo essa pré-compreensão da significação histórica da conexão que a teoria narrativa da identidade pessoal tenta articular em nível superior de conceitualidade, podendo a identidade narrativamente compreendida ser chamada, por convenção, identidade da personagem, identidade a recolocar depois no campo da dialética do mesmo e do si-mesmo, mostrando-se antes como a identidade da personagem se constrói em ligação com a da intriga, derivação apenas indicada em Temps et Récit e aqui explicitadaA identidade no plano da intriga caracteriza-se, em termos dinâmicos, pela concorrência entre uma exigência de concordância e a admissão de discordâncias que, até o fechamento do relato, põem essa identidade em risco-
Por concordância entende-se o princípio de ordem que preside ao que Aristóteles chama de agenciamento dos fatos; por discordância, as reviravoltas de fortuna que fazem da intriga uma transformação regrada, de uma situação inicial a uma situação terminal, aplicando-se o termo configuração a essa arte da composição que faz mediação entre concordância e discordância
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Para estender a validade desse conceito além do exemplo privilegiado de Aristóteles — a tragédia grega e, em menor grau, a epopeia —, propõe-se definir a concordância discordante, característica de toda composição narrativa, pela noção de síntese do heterogêneo, dando conta das diversas mediações que a intriga opera — entre o diverso dos eventos e a unidade temporal da história narrada; entre os componentes díspares da ação, intenções, causas e acasos, e o encadeamento da história; enfim, entre a pura sucessão e a unidade da forma temporal —, mediações que, no limite, podem perturbar a cronologia a ponto de aboli-la, explicitando essas múltiplas dialéticas a oposição, já presente no modelo trágico de Aristóteles, entre a dispersão episódica do relato e a potência de unificação exercida pelo ato configurante que é a própria poièsis
À configuração narrativa assim compreendida deve-se comparar a espécie de conexão reivindicada por uma descrição impessoal, residindo a diferença essencial que distingue o modelo narrativo de qualquer outro modelo de conexão no estatuto do evento-
Enquanto num modelo de tipo causal evento e ocorrência permanecem indiscerníveis, o evento narrativo se define por sua relação com a própria operação de configuração, participando da estrutura instável de concordância discordante característica da própria intriga: fonte de discordância enquanto surge, fonte de concordância na medida em que faz avançar a história
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O paradoxo da intriga está em inverter o efeito de contingência — no sentido do que poderia ter acontecido de outro modo ou não acontecido — incorporando-o de algum modo ao efeito de necessidade ou probabilidade exercido pelo ato configurante, inversão que se produz no próprio cerne do evento: como simples ocorrência, este se limita a frustrar as expectativas criadas pelo curso anterior dos eventos, sendo apenas o inesperado, o surpreendente, só se tornando parte integrante da história quando compreendido a posteriori, transfigurado pela necessidade de certo modo retrógrada que procede da totalidade temporal levada a seu termo, sendo essa necessidade narrativa, cujo efeito de sentido procede do próprio ato configurante, que transmuta a contingência física, adversa da necessidade física, em contingência narrativa, implicada na necessidade narrativa
Dessa simples retomada da noção de intriga, antes mesmo de considerar a dialética da personagem que lhe é corolário, resulta que a operação narrativa desenvolve um conceito inteiramente original de identidade dinâmica, que concilia as próprias categorias que Locke tinha por contrárias — a identidade e a diversidadeO passo decisivo em direção a uma concepção narrativa da identidade pessoal se dá ao passar-se da ação à personagem, sendo personagem aquele que faz a ação no relato, categoria também narrativa cujo papel releva da mesma inteligência narrativa que a própria intriga, sustentando-se a tese de que a identidade da personagem se compreende por transferência sobre ela da operação de intriga primeiramente aplicada à ação narrada — a personagem, também ela, é posta em intrigaA correlação entre história narrada e personagem é simplesmente postulada por Aristóteles na Poética, aparecendo tão estreita que assume a forma de uma subordinação, pois é na história narrada, com seus caracteres de unidade, articulação interna e completude conferidos pela intriga, que a personagem conserva ao longo da história uma identidade correlativa à da própria históriaA narratologia contemporânea tentou dar a essa correlação o estatuto de restrição semiótica, implícita em certo sentido na análise conceitual do muthos em partes por Aristóteles, tendo Vladimir Propp dado o impulso a essa investigação-
O autor de Morfologia do conto começa por dissociar as funções, segmentos recorrentes de ação, das personagens, a fim de definir o conto pelo mero encadeamento das funções, mas, ao retomar a unidade sintética da cadeia, precisa levar em conta o papel das personagens, sendo o primeiro a tentar uma tipologia desses papéis com base em sua recorrência
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A lista dos papéis não é independente da das funções, cruzando-se em vários pontos que Propp chama de esferas de ação: numerosas funções se agrupam logicamente segundo certas esferas, correspondendo essas esferas às personagens que cumprem as funções; o problema da distribuição das funções pode resolver-se no plano do problema da distribuição das esferas de ação entre as personagens
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Citando essas declarações de Propp em Temps et Récit II, coloca-se a questão de saber se toda intriga não procede de uma gênese mútua entre o desenvolvimento de um caráter e o de uma história narrada, adotando-se o axioma de Frank Kermode segundo o qual, para desenvolver um caráter, é preciso narrar mais
Claude Bremond, em sua Logique du récit, pôs isso perfeitamente em relevo, não podendo o papel ser definido senão pela atribuição a um sujeito-pessoa de um predicado-processo eventual, em ato ou concluído, podendo-se ver nessa atribuição a solução narrativa do problema da ascrição da ação ao agente-
A sequência elementar de um relato já contém essa correlação, situando a referência, na própria definição do papel, aos três estágios da eventualidade, da passagem ou não ao ato, do acabamento ou inacabamento, o papel desde logo num dinamismo de ação
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Sobre essa base torna-se possível compor um repertório tão completo quanto possível dos papéis, sendo notável que a primeira grande dicotomia seja a dos pacientes, afetados por processos modificadores ou conservadores, e, por correlação, a dos agentes iniciadores desses processos, tomando-se assim em conta a pré-compreensão de que os relatos versam sobre agentes e pacientes
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O problema moral se enxerta no reconhecimento dessa dissimetria essencial entre quem faz e quem sofre, culminando na violência do agente poderoso, organizando o ser afetado por um curso de eventos narrados toda uma série de papéis de pacientes, conforme a ação exercida seja influência, melhoria ou deterioração, proteção ou frustração
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Um enriquecimento notável da noção de papel concerne à sua introdução no campo das valorizações, por meio das transformações já ditas, e depois no das retribuições, em que o paciente aparece beneficiário de méritos ou vítima de deméritos, sendo Bremond quem nota com razão que é só nesses estágios que agentes e pacientes se elevam à condição de pessoas e iniciadores de ação, atestando-se assim no plano narrativo a conexão estreita entre teoria da ação e teoria ética
É com o modelo actancial de Algirdas Julien Greimas que a correlação entre intriga e personagem atinge seu nível mais alto de radicalidade, anterior a toda figuração sensível, falando-se por isso não de personagem mas de actante, para subordinar a representação antropomórfica do agente à sua posição de operador de ações no percurso narrativo-
A radicalização prossegue em duas linhas: a do actante, onde à lista ainda empírica das personagens do conto russo segundo Propp se substitui um modelo em três categorias — de desejo (princípio da busca de um objeto, de uma pessoa, de um valor), de comunicação (princípio de toda relação de destinador a destinatário), de ação propriamente dita (princípio de toda oposição entre adjuvantes e opositores) —, modelo em que, ao contrário de Propp, procede-se das relações possíveis entre actantes em direção à rica combinatória das ações, contratos, provas, buscas, lutas
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E a linha dos percursos narrativos, em que se destaca a série de noções de plano medial entre estruturas profundas e plano figurativo próprias de uma concepção normativa da coesão íntima da vida: a de programa narrativo, depois a de relação polêmica entre dois programas, de onde resulta a oposição entre sujeito e anti-sujeito, reencontrando-se aí o que já se pré-compreendera no plano da simples inteligência narrativa — que a ação é interação, e a interação, competição entre projetos ora rivais ora convergentes — além das translações de objetos-valores que narrativizam a troca, e da topologia subjacente à mudança de lugares — iniciais e terminais de transferência —, de onde se pode falar em sequência performancial
Recruzando as duas linhas de análise, vê-se reforçarem-se mutuamente uma semiótica do actante e uma semiótica dos percursos narrativos até o ponto em que estes aparecem como percursos da personagem-
Merece destaque a categoria do destinador, fortemente acentuada pelo Maupassant de Greimas embora presente já no primeiro modelo actancial, prolongando o par destinador/destinatário o do mandato em Propp ou do contrato inaugural no primeiro modelo actancial de Greimas, contrato em virtude do qual o herói recebe a competência de fazer, relevando os destinadores — entidades individuais, sociais ou mesmo cósmicas, como no conto Deux amis — de um estatuto que Greimas chama proto-actancial
A estrutura narrativa conjuga os dois processos de intriga, o da ação e o da personagem, sendo essa conjunção a verdadeira resposta às aporias da ascrição evocadas desde o primeiro estudo-
Do ponto de vista paradigmático, as questões quem?, o quê?, como? podem designar os termos discretos da rede conceitual da ação, mas do ponto de vista sintagmático as respostas a essas questões formam uma cadeia que não é senão o encadeamento do relato: narrar é dizer quem fez o quê, por quê e como, distribuindo no tempo a conexão entre esses pontos de vista
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Também é verdade que se podem descrever separadamente os predicados psíquicos tomados fora de atribuição a uma pessoa — condição mesma da descrição do psíquico —, mas é no relato que se recompõe a atribuição, permitindo a articulação entre intriga e personagem conduzir paralelamente um inquérito virtualmente infinito no plano da busca dos motivos e um inquérito em princípio finito no plano da atribuição a alguém, enredando-se as duas buscas no duplo processo de identificação da intriga e da personagem
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Nem mesmo a mais formidável aporia da ascrição deixa de encontrar réplica na dialética da personagem e da intriga: confrontada à terceira antinomia kantiana, a ascrição aparece dilacerada entre a tese, que põe a ideia de começo de uma série causal, e a antítese, que lhe opõe a de um encadeamento sem começo nem interrupção
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O relato resolve à sua maneira a antinomia, conferindo à personagem uma iniciativa — o poder de começar uma série de eventos sem que esse começo constitua um começo absoluto, um começo do tempo — e dando ao narrador o poder de determinar o começo, o meio e o fim de uma ação, fazendo assim coincidir a iniciativa da personagem e o começo da ação, dando satisfação à tese sem violar a antítese, constituindo, sob seus múltiplos aspectos, a réplica poética que a noção de identidade narrativa traz às aporias da ascrição
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Retoma-se aqui de propósito o termo réplica poética, aplicado em Temps et Récit III à relação entre as aporias do tempo e a função narrativa, pois, como então se dizia, a função narrativa não dá resposta especulativa a essas aporias, mas as torna produtivas em outro registro de linguagem, tal como a dialética da personagem e da intriga torna produtivas as aporias da ascrição
Dessa correlação entre ação e personagem do relato resulta uma dialética interna à personagem, exato corolário da dialética de concordância e discordância desdobrada pela intriga da ação-
Segundo a linha de concordância, a personagem tira sua singularidade da unidade de sua vida, considerada como a totalidade temporal ela mesma singular que a distingue de qualquer outra; segundo a linha de discordância, essa totalidade temporal é ameaçada pelo efeito de ruptura dos eventos imprevisíveis que a pontuam — encontros, acidentes —, fazendo a síntese concordante-discordante com que a contingência do evento contribua para a necessidade de certo modo retroativa da história de uma vida, à qual se iguala a identidade da personagem, transmutando-se assim o acaso em destino
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A identidade da personagem posta em intriga só se compreende sob o signo dessa dialética, recebendo a tese da identidade que Parfit chama não-reducionista mais que um reforço — um completo remanejamento —, pois a pessoa, compreendida como personagem de relato, não é entidade distinta de suas experiências, mas compartilha o regime de identidade dinâmica próprio da história narrada, construindo o relato a identidade da personagem — sua identidade narrativa — ao construir a da história narrada, sendo a identidade da história que faz a identidade da personagem
Essa dialética de concordância discordante da personagem deve agora inscrever-se na dialética da mesmidade e da ipseidade, necessidade que se impõe ao confrontar-se a concordância discordante da personagem com a exigência de permanência no tempo ligada à noção de identidade, cuja equivocidade — de um lado a mesmidade de um caráter, de outro a ipseidade da manutenção de si — foi mostrada no estudo anterior, cabendo mostrar como a dialética da personagem se inscreve no intervalo entre esses dois polos, fazendo mediação entre elesEssa função mediadora que a identidade narrativa da personagem exerce entre os polos da mesmidade e da ipseidade é essencialmente atestada pelas variações imaginativas a que o relato submete essa identidade, variações que o relato não apenas tolera, mas engendra e busca-
A literatura se revela assim vasto laboratório para experiências de pensamento em que se põem à prova do relato os recursos de variação da identidade narrativa, sendo o benefício dessas experiências tornar manifesta a diferença entre as duas significações da permanência no tempo, fazendo variar a relação entre uma e outra
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Na experiência cotidiana elas tendem a se recobrir e confundir — contar com alguém é ao mesmo tempo apoiar-se na estabilidade de um caráter e esperar que o outro cumpra sua palavra, quaisquer que sejam as mudanças suscetíveis de afetar as disposições duráveis pelas quais se o reconhece
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Na ficção literária o espaço de variações aberto entre as duas modalidades de identidade é imenso: numa extremidade, a personagem é um caráter identificável e reidentificável como o mesmo, quase o estatuto da personagem dos contos de fadas e do folclore; quanto ao romance clássico — de La Princesse de Clèves ou do romance inglês do século XVIII a Dostoiévski e Tolstói — explorou-se o espaço intermediário de variações em que, através das transformações da personagem, a identificação do mesmo decresce sem desaparecer
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Aproxima-se do polo inverso com o romance dito de formação e, mais ainda, o romance de fluxo de consciência, parecendo inverter-se então a relação entre intriga e personagem — ao contrário do modelo aristotélico, a intriga é posta a serviço da personagem —, sendo então a identidade desta, escapando ao controle da intriga e de seu princípio de ordem, verdadeiramente posta à prova, atingindo-se assim o polo extremo de variação, onde a personagem deixou de ser um caráter
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É nesse polo que se encontram os casos-limite em que a ficção literária se presta a confrontação com os puzzling cases da filosofia analítica, culminando nessa confrontação o conflito entre uma versão narrativista e uma versão não narrativista da identidade pessoal
O teatro e o romance contemporâneo ensinam à saciedade que a narratividade também tem seus casos desconcertantes, descritíveis em primeira aproximação como ficções da perda de identidade-
Com Robert Musil, por exemplo, o Homem sem qualidades — ou mais exatamente sem propriedades (ohne Eigenschaften) — torna-se no limite não identificável, num mundo dito de qualidades (ou propriedades) sem homens, tornando-se irrisória a ancoragem do nome próprio a ponto de se tornar supérflua, tornando-se o não identificável o inominável
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À medida que o relato se aproxima do ponto de anulação da personagem, o romance perde também suas qualidades propriamente narrativas, mesmo interpretadas do modo mais flexível e dialético, correspondendo à perda de identidade da personagem a perda da configuração do relato e, em particular, uma crise do fechamento do relato, produzindo-se assim um choque de retorno da personagem sobre a intriga
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É um mesmo cisma — nas palavras de Frank Kermode em The Sense of an Ending — que afeta ao mesmo tempo a tradição da intriga conduzida a um termo que vale como fechamento e a tradição do herói identificável, atingindo a erosão dos paradigmas, ainda segundo Kermode, tanto a figuração da personagem quanto a configuração da intriga; assim, no caso de Robert Musil, a decomposição da forma narrativa, paralela à perda de identidade da personagem, faz a obra literária ultrapassar as fronteiras do relato e aproximar-se do ensaio
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Não é por acaso que muitas autobiografias contemporâneas, a de Michel Leiris por exemplo, se afastam deliberadamente da forma narrativa e se juntam também ao gênero literário menos configurado, precisamente o ensaio
Recolocados no quadro da dialética do idem e do ipse, esses casos desconcertantes da narratividade se deixam reinterpretar como desnudamento da ipseidade por perda do suporte da mesmidade, constituindo assim o polo oposto ao do herói identificável por superposição de ipseidade e mesmidade, sendo o que se perde, sob o título de propriedade, precisamente o que permitia igualar a personagem a seu caráterA comparação com os puzzling cases de Parfit permite precisar o que é a ipseidade quando perdeu o suporte da mesmidadeAs ficções literárias diferem fundamentalmente das ficções tecnológicas por permanecerem variações imaginativas em torno de um invariante, a condição corporal vivida como mediação existencial entre si e o mundo, sendo as personagens de teatro e romance humanos como nós-
Na medida em que o corpo próprio é uma dimensão do si-mesmo, as variações imaginativas em torno da condição corporal são variações sobre o si-mesmo e sua ipseidade; e, em virtude da função mediadora do corpo próprio na estrutura do ser-no-mundo, o traço de ipseidade da corporeidade se estende à do mundo enquanto corporalmente habitado
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Esse traço qualifica a condição terrestre enquanto tal e dá à Terra a significação existencial que, sob formas diversas, Friedrich Nietzsche, Edmund Husserl e Martin Heidegger lhe reconhecem, sendo a Terra mais e outra coisa que um planeta — o nome mítico de nossa ancoragem corporal no mundo —, o que fica ultimamente pressuposto pelo relato literário enquanto submetido à restrição que faz dele uma mimèsis da ação, pois a ação imitada, na e pela ficção, permanece também submetida à restrição da condição corporal e terrestre
O que os puzzling cases atingem em cheio com contingência radical é justamente essa condição corporal e terrestre que a hermenêutica da existência, subjacente à noção do agir e do sofrer, tem por indepassável, sendo o operador dessa inversão de sentido a técnica — mais precisamente, além da técnica disponível, a técnica concebível, em suma o sonho tecnológico, segundo o qual o cérebro é tido como equivalente substituível da pessoa-
O cérebro é o ponto de aplicação da alta tecnologia; nas experiências de bisseção, transplante, reduplicação, teletransporte, o cérebro figura o ser humano enquanto manipulável, sendo desse sonho tecnológico, ilustrado pelas manipulações cerebrais, que se torna solidário o tratamento impessoal da identidade no plano conceitual
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Pode-se então dizer que as variações imaginativas da ficção científica dizem respeito à mesmidade, enquanto as da ficção literária dizem respeito à ipseidade, ou mais exatamente à ipseidade em sua relação dialética com a mesmidade
A verdadeira perplexidade não reside dentro de um ou outro campo de variações imaginativas, mas entre um e outro, cabendo perguntar se somos capazes, não de efetuar, mas de conceber variações tais que a própria condição corporal e terrestre se torne simples variável contingente, se o indivíduo teletransportado não transportar consigo alguns traços residuais dessa condição, sem os quais não poderia ser dito nem agir nem sofrer — nem sequer perguntar-se se vai sobreviverEssa perplexidade de segundo grau talvez não possa ser decidida no plano do imaginário mobilizado de um lado e de outro, só o podendo ser no plano ético, ao qual se chegará na última seção deste estudo, ao confrontar a identidade narrativa, oscilante entre mesmidade e ipseidade, e a identidade ética, que requer uma pessoa capaz de responder por seus atos-
É em relação a essa capacidade de imputação que manipulações cerebrais podem ser ditas atentar contra a identidade pessoal e, portanto, violar um direito, o da pessoa à sua integridade física, mas, para que a capacidade de imputação, de significação puramente moral e jurídica, não seja arbitrariamente atribuída às pessoas, não seria preciso que o invariante existencial da corporeidade e da mundaneidade, em torno do qual giram as variações imaginativas da ficção literária, seja ele mesmo tido por indepassável em plano ontológico?
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O que as manipulações imaginárias sobre o cérebro violam não seria mais que uma regra, mais que uma lei — a condição existencial de possibilidade para que haja regras, leis, enfim preceitos endereçados à pessoa como agente e paciente? Em outras palavras, o inviolável não seria a diferença entre o si-mesmo e o mesmo, já no plano da corporeidade?
Fica em suspenso essa perplexidade de segundo grau, pois, se um imaginário que respeita o invariante da condição corporal e terrestre tem mais afinidade com o princípio moral da imputação, uma censura do outro imaginário — o que atinge de contingência esse mesmo invariante — não seria por sua vez imoral sob outro ponto de vista, enquanto interdição de sonhar?-
Será necessário sem dúvida interditar um dia fazer aquilo com que a ficção científica se limita a sonhar, mas o sonho não terá sempre sido transgressão do interdito? Sonhemos então com Parfit, desejando apenas que os cirurgiões-manipuladores desses sonhos jamais tenham os meios, nem sobretudo o direito, de fazer o que permanece perfeitamente lícito imaginar
2. Entre descrever e prescrever: narrar
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Resta justificar, nesta segunda seção, a afirmação avançada desde a introdução geral e retomada no início do quinto estudo, segundo a qual a teoria narrativa ocupa, no percurso completo da investigação, posição de charneira entre a teoria da ação e a teoria ética, cabendo perguntar em que sentido é legítimo ver na teoria da intriga e da personagem uma transição significativa entre a ascrição da ação a um agente que pode e sua imputação a um agente que deve
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A questão tem dois versantes: no primeiro, voltado aos estudos lógico-práticos anteriores, importa mostrar em que medida a conexão, revelada pela teoria narrativa, entre intriga e personagem, além do esclarecimento novo que lança sobre as dificuldades ligadas à relação da ação com seu agente, exige extensão considerável do campo prático, se a ação descrita deve poder igualar-se à ação narrada
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No segundo versante, voltado aos estudos morais seguintes, a questão é a dos apoios e antecipações que a teoria narrativa propõe à interrogação ética; a relação da intriga com a personagem só traz luzes novas sobre a relação entre a ação e seu agente ao preço de uma extensão do campo prático, para além dos segmentos de ação que a gramática lógica inscreve mais facilmente em frases de ação, e mesmo além das cadeias de ação cujo único interesse reside no modo de conexão lógica próprio de uma praxeologia
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É notável que Aristóteles, a quem se deve a definição da tragédia como imitação de ação, entenda por ação um agenciamento (sustasis, sunthésis) de incidentes, de fatos, de natureza tal que possam se prestar à configuração narrativa, precisando: o mais importante desses elementos da tragédia é o agenciamento dos fatos em sistema, pois a tragédia é representação (mimèsis) não de homens, mas de ação, de vida (bion) e de felicidade — também a infelicidade reside na ação —, e o fim visado (télos) é uma ação (praxis tis), não uma qualidade (ou poiotès), pois é segundo seu caráter que os homens têm tal ou qual qualidade, mas segundo suas ações que são felizes ou o contrário
Uma revisão do rapport entre ação e agente exige, além disso, revisão do próprio conceito de ação, se este deve poder ser elevado ao nível da configuração narrativa desdobrada na escala de uma vida, revisão que implica muito mais que um alongamento das conexões entre os segmentos de ação formados pela gramática das frases de ação, fazendo aparecer uma hierarquia de unidades práxicas, cada qual com princípio de organização específico que integra diversidade de conexões lógicasAs primeiras unidades compostas são as que merecem o nome de práticas, cujos exemplos mais familiares são os ofícios, as artes, os jogos, podendo-se ter uma primeira ideia delas partindo da descrição das ações de base na teoria analítica da ação-
Arthur Danto define a ação de base subtraindo das ações ordinárias a relação em vista de, restando ações que sabemos fazer e que de fato fazemos sem ter de fazer outra coisa em vista de fazer o que fazemos — gestos, posturas, ações corporais elementares que aprendemos a coordenar e dominar sem propriamente aprender seus rudimentos —, sendo, por contraste, todo o resto do campo prático construído sobre a relação em vista de: para fazer Y é preciso primeiro fazer X
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Poder-se-ia objetar que o conceito de prática é supérfluo, bastando alongar as cadeias de meios e fins, como faz Elizabeth Anscombe no exemplo famoso de Intention, e coordenar entre si os segmentos de causalidade física e os segmentos intencionais formalizados em silogismos práticos dentro de um modelo misto, como o que propõe Georg Henrik von Wright em Explanation and Understanding, obtendo-se então longas cadeias de ação em que a passagem do ponto de vista sistêmico ao teleológico seria assegurada em cada ponto pelo fato de o agente poder tomar efeitos de causalidade por circunstâncias de decisão, tornando-se por sua vez os resultados queridos ou não das ações intencionais novos estados de coisas que desencadeiam novas cadeias causais
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Esse enredamento de finalidade e causalidade, de intencionalidade e conexões sistemáticas, é certamente constitutivo dessas ações longas que são as práticas, faltando-lhes contudo a unidade de configuração que recorta um ofício, um jogo, uma arte, nessas longas cadeias de ações
Uma segunda espécie de conexão contribui para delimitar as práticas como unidades de segunda ordem: não mais as relações lineares antes consideradas, mas relações de encaixe-
O vocabulário ligado ao repertório de poderes exprime bem essas relações de subordinação mais que de coordenação: o ofício de agricultor inclui ações subordinadas, como lavrar, semear, colher; lavrar por sua vez implica conduzir um trator, e assim por diante até ações de base, do gênero puxar ou empurrar
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Essa ligação de encaixe, de subordinação das ações parciais a uma ação total, só se articula à ligação de coordenação entre segmentos sistêmicos e teleológicos na medida em que as conexões de uma e outra espécie são unificadas sob as leis de sentido que fazem do ofício de agricultor uma prática, dizendo-se o mesmo de outras práticas: assim como a agricultura é uma prática no sentido de um ofício, e não lavrar, muito menos ligar o trator, também administrar uma casa, no sentido grego do oikos de que vem a palavra economia, ou ocupar uma função pública no Estado, designam práticas, sem que os comportamentos subordinados mereçam esse título — compor um menu, pronunciar um discurso numa reunião pública; do mesmo modo pintar é uma prática, tanto ofício quanto arte, e não pôr uma mancha de cor na tela
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Um último exemplo aponta transição útil: mover um peão no tabuleiro é em si apenas um gesto, mas, tomado na prática do jogo de xadrez, esse gesto reveste a significação de uma jogada numa partida
Esse último exemplo atesta que a unidade de configuração constitutiva de uma prática repousa numa relação particular de sentido, a que exprime a noção de regra constitutiva, emprestada da teoria dos jogos antes de ser estendida à teoria dos atos de discurso e depois reintegrada à teoria da práxis-
Por regra constitutiva entendem-se preceitos cuja única função é estatuir que, por exemplo, tal gesto de mover um peão no tabuleiro conta como uma jogada numa partida de xadrez, não existindo a jogada, com essa significação e esse efeito na partida, sem a regra que a constitui como fase da partida
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A regra é constitutiva no sentido de não ser sobreposta como um regulamento externo aplicado a movimentos que já teriam organização própria, à maneira dos sinais luminosos em relação à circulação de condutores com seus próprios projetos, revestindo a regra por si só o gesto de significação, procedendo a significação da regra na medida em que a regra é constitutiva — constitutiva precisamente da significação, do valer como
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A noção de regra constitutiva pode estender-se do exemplo do jogo a outras práticas, pela simples razão de os jogos serem excelentes modelos práticos, tendo John Searle podido estender a noção ao domínio dos atos de discurso, já que estes também são ações ou fases de práticas mais vastas: assim os atos ilocutórios, como prometer, ordenar, advertir, constatar, distinguem-se por sua força, ela mesma constituída pela regra segundo a qual prometer é colocar-se sob a obrigação de fazer amanhã o que hoje se declara que se fará
Importa notar que as regras constitutivas não são regras morais, estatuindo apenas sobre a significação de gestos particulares e fazendo, como já dito, que tal gesto da mão conte como, por exemplo, saudar, votar, chamar um táxi-
Certamente as regras constitutivas apontam para as regras morais, na medida em que estas regem condutas suscetíveis de significação, mas isso é apenas o primeiro passo em direção à ética; mesmo a regra constitutiva da promessa, tal como enunciada, não tem em si significação moral, embora comporte em seu enunciado referência a uma obrigação, limitando-se a definir o que conta como promessa, o que constitui sua força ilocutória; só a regra moral, chamável regra de fidelidade, segundo a qual se deve cumprir as promessas, tem estatuto deôntico
A introdução da noção de regra constitutiva tem ainda a virtude de sublinhar o caráter de interação que se prende à maioria das práticas, caráter não sublinhado na teoria analítica da ação porque as frases de ação são extraídas de seu ambiente social-
É só sob o aspecto pragmático que a recepção, por um alocutário, do sentido atribuído a uma frase de ação por um locutor se incorpora à significação da frase, constituindo a interlocução apenas a dimensão verbal da ação
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As práticas repousam sobre ações em que um agente leva em conta, por princípio, a ação de outrem, definindo Max Weber sucessiva e conjuntamente os termos de ação e ação social no início de Economia e Sociedade: entende-se por atividade (Handeln) um comportamento humano — pouco importa tratar-se de ato exterior ou íntimo, de omissão (Unterlassen) ou de tolerância (Dulden) — quando e enquanto o agente ou os agentes lhe atribuem um sentido subjetivo; e por atividade social a atividade que, segundo seu sentido visado (gemeinten Sinn) pelo agente ou agentes, se refere ao comportamento de outrem, por relação ao qual se orienta seu desenrolar
Referir-se a, levar em conta a conduta de outros agentes é a expressão mais geral e neutra capaz de cobrir a multidão de relações de interação encontradas no nível dessas unidades de ação que são as práticas, podendo essas interações ser colocadas, como as ações intencionais tomadas segundo seu sentido subjetivo, sob as rubricas de Max Weber-
As maneiras externas, abertas, de levar em conta o comportamento dos outros agentes encontram-se nas interações escalonadas do conflito à cooperação, passando pela competição, tornando-se a interação relação ela mesma interna — interiorizada — por exemplo na relação de aprendizagem pouco a pouco absorvida na competência adquirida, podendo-se então jogar sozinho, jardinar sozinho, praticar sozinho uma pesquisa no laboratório, na biblioteca ou no escritório, embora as regras constitutivas de tais práticas venham de muito mais longe que o executante solitário, sendo de outrem que se aprende a prática de uma habilidade, de um ofício, de um jogo, de uma arte, repousando o aprendizado e o treinamento sobre tradições que podem ser transgredidas mas que devem primeiro ser assumidas
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A esse exemplo canônico de interação interiorizada soma-se o exemplo sutil que Georg Wilhelm Friedrich Hegel evoca no capítulo V da Fenomenologia do Espírito, correspondente ao momento em que a consciência mede a desproporção entre a obra, como efetividade limitada e determinada, e a potência de operar que carrega o destino universal da razão operante; ao se desprender de seu autor, todo o ser da obra é recolhido pela significação que o outro lhe concede, sendo a obra, como índice da individualidade do autor e não de sua vocação universal, simplesmente relegada ao efêmero, sublinhando esse modo de a obra só ter seu sentido, sua própria existência como obra, a partir do outro, a extraordinária precariedade da relação entre obra e autor
Um paralelo em termos de interação pode ser dado às maneiras pelas quais um agente compreende subjetivamente a ação no modo negativo da omissão (Unterlassen) e da tolerância (Dulden), sendo omitir e suportar, ou mesmo sofrer, tanto fatos de interação quanto de compreensão subjetiva-
Esses termos lembram que, no plano da interação como no da compreensão subjetiva, o não-agir ainda é um agir: negligenciar, omitir fazer, é também deixar fazer por outro, por vezes de modo criminoso; suportar, por sua vez, é manter-se, de bom grado ou à força, sob o poder de agir do outro, fazendo-se algo a alguém por alguém, tornando-se suportar sofrer, o que confina com padecer
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Nesse ponto a teoria da ação se estende dos homens agentes aos homens pacientes, adjunção tão essencial que comanda boa parte da reflexão sobre o poder, exercido por alguém sobre alguém, e sobre a violência, como destruição por alguém da capacidade de agir de um sujeito, conduzindo ao limiar da ideia de justiça, como regra que visa igualar pacientes e agentes da ação — toda ação tem seus agentes e seus pacientes
São essas algumas das complexidades da ação para as quais a operação narrativa chama atenção, na medida em que se mantém a seu respeito numa relação mimética, não porque as práticas comportem em si mesmas roteiros narrativos já constituídos, mas porque sua organização lhes confere qualidade pré-narrativa outrora designada pela sigla Mimèsis I (prefiguração narrativa), relação reforçada pelos aspectos de interação próprios das práticas, aos quais o relato confere a forma polêmica de uma competição entre programas narrativosA mesma relação entre práxis e relato se repete em grau mais elevado de organização, retomando-se o texto da Poética em que Aristóteles aproxima praxis e bios — a tragédia é representação (mimèsis) não de homens, mas de ação, de vida-
Antes de considerar o que Alasdair MacIntyre chama unidade narrativa de uma vida, dando assim coloração narrativa à expressão diltheyana conexão de uma vida, vale a pena deter-se num nível medial entre as práticas — ofícios, jogos, artes — e o projeto global de uma existência, chamando-se planos de vida essas vastas unidades práticas designadas vida profissional, vida familiar, vida de lazer etc.
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Esses planos de vida tomam forma — móvel e revogável, aliás — por um movimento de vaivém entre ideais mais ou menos distantes e a ponderação das vantagens e inconvenientes da escolha de tal plano de vida no nível das práticas, retomando-se no estudo seguinte, sob a condução de Hans-Georg Gadamer, a análise aristotélica da phronèsis e do phronimos
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O que se quer aqui evidenciar é que o campo prático não se constitui de baixo para cima, por composição do mais simples ao mais elaborado, mas segundo duplo movimento de complexificação ascendente a partir das ações de base e das práticas, e de especificação descendente a partir do horizonte vago e móvel dos ideais e projetos à luz dos quais uma vida humana se apreende em sua unicidade
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Nesse sentido, o que MacIntyre chama unidade narrativa de uma vida não resulta apenas da soma das práticas numa forma englobante, mas é regido igualmente por um projeto de vida, por incerto e móvel que seja, e por práticas fragmentárias com unidade própria, constituindo os planos de vida a zona medial de troca entre a indeterminação dos ideais reitores e a determinação das práticas
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Acontece que, nessa troca, o projeto global seja o primeiro a ser firmemente traçado, como nos casos de vocação precoce ou imperiosa, fazendo com que, sob a pressão dessa restrição vinda de cima, as práticas percam os contornos atribuídos pela tradição e conformados pelo aprendizado, aparecendo o campo prático submetido a duplo princípio de determinação que o aproxima da compreensão hermenêutica de um texto por troca entre todo e parte, sendo nada mais propício à configuração narrativa que esse jogo de dupla determinação
Cabe dizer uma palavra sobre a noção de unidade narrativa de uma vida, que MacIntyre situa acima das de práticas e planos de vida, sem que essa noção designe nele o último grau na escala da práxis-
Numa perspectiva deliberadamente ética, que só será assumida no próximo estudo, a ideia de um recolhimento da vida em forma de relato serve de ponto de apoio à visada da vida boa, pedra angular de sua ética, como o será da presente investigação, pois como poderia um sujeito de ação dar à própria vida, tomada por inteiro, uma qualificação ética, se essa vida não fosse recolhida, e como o seria senão precisamente em forma de relato?
Saúda-se o encontro feliz entre as análises de Temps et Récit e as de After Virtue, sem contudo identificar sem exame a demarche de MacIntyre à própria-
MacIntyre tem principalmente em vista as histórias encontradas no vivo da ação cotidiana e não atribui importância decisiva, ao menos para sua investigação ética, ao afastamento entre as ficções literárias e as histórias que chama de encenadas (enacted); no tratamento próprio da função mimética do relato, porém, a ruptura operada pela entrada do relato no campo da ficção é levada tão a sério que se torna problema espinhoso fazer literatura e vida se reencontrarem por meio da leitura
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Para MacIntyre não se colocam as dificuldades ligadas à ideia de uma refiguração da vida pela ficção; em contrapartida, ele não tira proveito, como se busca fazer aqui, do duplo fato de que é na ficção literária que a junção entre a ação e seu agente melhor se apreende, e de que a literatura se revela vasto laboratório de experiências de pensamento em que essa junção é submetida a variações imaginativas sem conta
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Essa vantagem do desvio pela ficção tem seu reverso, colocando-se uma dificuldade que MacIntyre não conhece: como as experiências de pensamento suscitadas pela ficção, com suas implicações éticas, contribuem para o exame de si mesmo na vida real? Se o fosso entre ficção e vida parece tão grande, como pôde situar-se a ideia de unidade narrativa da vida no topo da hierarquia das práticas múltiplas?
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Poder-se-ia pensar que o fosso foi transposto pela teoria da leitura proposta em Temps et Récit III, destinada a pôr em contato o mundo do texto e o mundo do leitor, mas é precisamente do próprio ato de ler que surgem os obstáculos ao trajeto de retorno da ficção à vida
Que dizer, primeiro, da relação entre autor, narrador e personagem, cujos papéis e discursos são bem distintos no plano da ficção? Ao interpretar-se nos termos de um relato de vida, é-se ao mesmo tempo os três, como no relato autobiográfico? Narrador e personagem, sem dúvida, mas de uma vida da qual, ao contrário dos seres de ficção, não se é o autor, mas quando muito, segundo a palavra de Aristóteles, o coautor, o sunaition — não sofrerá a noção de autor de equivocidade ao passar-se da escrita à vida?Outra dificuldade: no próprio plano da forma narrativa, que se gostaria semelhante na ficção e na vida, diferenças sérias afetam as noções de começo e fim-
Na ficção, nem o começo nem o fim são necessariamente os dos eventos narrados, mas os da própria forma narrativa; assim a Recherche começa pela frase célebre — “Longtemps, je me suis couché de bonne heure” (Durante muito tempo, deitei-me cedo) —, remetendo esse “durante muito tempo”, seguido de um pretérito perfeito, a um anterior quase imemorial, sem que isso impeça essa frase de ser a primeira do livro e valer como começo narrativo
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O mesmo se dá com os futuros condicionais do fim de Le Temps retrouvé, que se abrem sobre um futuro indeterminado em que a escrita da obra é conjurada a competir em velocidade com a chegada da morte, havendo, porém, uma última página que vale como fim narrativo
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É esse fechamento, esse fechamento literário, que falta ao que MacIntyre, em After Virtue, chama unidade narrativa da vida, condição que ele faz da projeção da vida boa: é preciso que a vida seja recolhida para que possa colocar-se sob a mira da verdadeira vida; se a própria vida não pode ser apreendida como uma totalidade singular, jamais se poderá desejar que ela seja bem-sucedida, realizada
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Nada, porém, na vida real tem valor de começo narrativo: a memória se perde nas brumas da primeira infância; o nascimento e, mais ainda, o ato pelo qual se foi concebido pertencem mais à história dos outros — no caso, a dos pais — do que a si mesmo; quanto à morte, só será fim narrado no relato de quem sobreviver; sempre se está em direção à própria morte, o que exclui apreendê-la como fim narrativo
A essa dificuldade fundamental se junta outra, não sem relação com a precedente: no percurso conhecido da própria vida, é possível traçar vários itinerários, tramar várias intrigas, narrar várias histórias, faltando a cada uma o critério da conclusão, esse sense of an ending sobre o qual Kermode tanto insisteEnquanto cada romance desdobra um mundo do texto que lhe é próprio, sem que se possam geralmente relacionar as intrigas de certo modo incomensuráveis de várias obras — exceto talvez em certas séries, como os romances de gerações: Buddenbrooks, de Thomas Mann, ou Les Hommes de bonne volonté, de Jules Romains, no modelo do encadeamento das histórias dos patriarcas na Bíblia —, as histórias vividas de uns se enredam nas histórias de outros-
Fatias inteiras da própria vida fazem parte da história da vida de outrem, dos pais, dos amigos, dos companheiros de trabalho e de lazer, confirmando o que se disse antes das práticas, das relações de aprendizagem, cooperação e competição que comportam, esse enredamento da história de cada um na história de muitos outros
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Esse mesmo ponto é sublinhado com máxima força por MacIntyre, retomando, sem dúvida sem o saber, o que Wilhelm Schapp já escrevera sob o título In Geschichten verstrickt (enredado em histórias), sendo precisamente por esse enredamento, tanto quanto pelo caráter aberto em ambas as extremidades, que as histórias de vida diferem das histórias literárias, sejam elas historiográficas ou ficcionais, podendo-se ainda assim falar em unidade narrativa da vida?
Última objeção: na compreensão de si, a mimèsis praxéôs parece só poder cobrir a fase já passada da vida, devendo articular-se sobre as antecipações, os projetos, segundo esquema próximo do que Reinhart Koselleck propõe em Vergangene Zukunft, em que a dialética entre espaço de experiência e horizonte de expectativa relaciona a seleção dos eventos narrados com as antecipações relevantes do que Jean-Paul Sartre chamava o projeto existencial de cada umTodos esses argumentos são perfeitamente admissíveis — equivocidade da noção de autor, inacabamento narrativo da vida, enredamento das histórias de vida umas nas outras, inclusão dos relatos de vida numa dialética de rememoração e antecipação —, sem que pareçam, contudo, capazes de anular a própria noção de aplicação da ficção à vida-
As objeções só valem contra uma concepção ingênua da mimèsis, a mesma que certas ficções dentro da ficção põem em cena, como o primeiro Dom Quixote ou Madame Bovary, sendo menos a refutar que a integrar a uma inteligência mais sutil, mais dialética, da apropriação
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É no quadro da luta, já evocada, entre o texto e o leitor que se devem recolocar as objeções precedentes: equivocidade da posição de autor? Não deveria ela ser preservada em vez de resolvida? Ao narrar uma vida da qual não se é o autor quanto à existência, torna-se dela coautor quanto ao sentido
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Não é por acaso nem abuso que, em sentido inverso, muitos filósofos estoicos interpretaram a própria vida vivida como o desempenho de um papel numa peça que não escrevemos e cujo autor, por conseguinte, recua para além do papel, contribuindo essas trocas entre os múltiplos sentidos dos termos autor e posição de autor (authorship) para a riqueza de sentido da própria noção de potência de agir (agency) discutida no quarto estudo
Quanto à noção de unidade narrativa da vida, é preciso ver nela também uma mescla instável entre fabulação e experiência viva-
É precisamente por causa do caráter evasivo da vida real que se necessita do socorro da ficção para organizá-la retrospectivamente a posteriori, ainda que se deva ter por revisável e provisória toda figura de intriga emprestada da ficção ou da história; assim, com o auxílio dos começos narrativos a que a leitura nos familiarizou, forçando de certo modo o traço, estabilizam-se os começos reais que constituem as iniciativas — em sentido forte — que se toma
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Também se tem a experiência, dita inexata, do que significa terminar um curso de ação, uma fatia de vida, ajudando a literatura a fixar o contorno desses fins provisórios; quanto à morte, os relatos que a literatura dela faz não têm a virtude de embotar o aguilhão da angústia diante do nada desconhecido, dando-lhe imaginariamente o contorno de tal ou qual morte, exemplar a um título ou outro?
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A ficção pode assim concorrer para o aprendizado do morrer, tendo a meditação da Paixão de Cristo acompanhado dessa forma mais de um crente até o último limiar; ao pronunciar a esse respeito a palavra consolação, Frank Kermode e Walter Benjamin não merecem acusação apressada de autoengano, podendo a consolação, como contra-desolação, ser maneira lúcida — lúcida como a catarse de Aristóteles — de conduzir o luto de si mesmo, instaurando-se aqui uma troca fecunda entre a literatura e o ser-para-(ou-diante-de)-a-morte
O enredamento das histórias de vida umas nas outras será rebelde à inteligência narrativa que a literatura alimenta? Não encontra ele antes, no encaixe de um relato no outro, do qual a literatura dá muitos exemplos, um modelo de inteligibilidade? E cada história ficcional, ao fazer confrontarem-se em seu seio os destinos diferentes de múltiplos protagonistas, não oferece modelos de interação em que o enredamento é esclarecido pela competição dos programas narrativos?A última objeção repousa num equívoco nem sempre fácil de desfazer: crê-se voluntariamente que o relato literário, por ser retrospectivo, só possa instruir uma meditação sobre a parte passada da vida-
O relato literário só é retrospectivo em sentido bem preciso: é somente aos olhos do narrador que os fatos narrados parecem ter se desenrolado outrora, sendo o passado de narração apenas o quase-passado da voz narrativa
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Entre os fatos narrados num tempo do passado situam-se projetos, expectativas, antecipações, pelos quais os protagonistas do relato se orientam para seu futuro mortal, como testemunham as últimas páginas fortemente prospectivas da Recherche, já evocadas a propósito do fechamento aberto do relato de ficção
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O relato narra também o cuidado; em certo sentido, só narra o cuidado, não havendo por isso absurdo em falar de unidade narrativa de uma vida, sob o signo de relatos que ensinam a articular narrativamente retrospecção e prospecção
Dessa discussão resulta que relatos literários e histórias de vida, longe de se excluírem, se completam, apesar de — ou graças a — seu contraste, lembrando essa dialética que o relato faz parte da vida antes de exilar-se dela na escrita, retornando à vida pelas múltiplas vias da apropriação e ao preço das tensões inexpugnáveis já mencionadas3. As implicações éticas do relato
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Quanto ao segundo versante da investigação, cabe perguntar como se dão as relações entre a teoria narrativa e a teoria ética, ou, nos termos já propostos, de que maneira a componente narrativa da compreensão de si reclama como complemento as determinações éticas próprias da imputação moral da ação a seu agente
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A noção de identidade narrativa ajuda aqui também a explicitar relações entre narratividade e ética já antecipadas sem terem sido esclarecidas, trazendo consigo, porém, dificuldades novas ligadas ao confronto entre a versão narrativa e a versão ética da ipseidade
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O enraizamento do relato literário no solo do relato oral, no plano da prefiguração do relato, já sugere que a função narrativa não é destituída de implicações éticas
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Em seu célebre ensaio sobre o narrador, Walter Benjamin lembra que, em sua forma mais primitiva, ainda discernível na epopeia e já em vias de extinção no romance, a arte de narrar é a arte de trocar experiências, entendendo por experiências não a observação científica, mas o exercício popular da sabedoria prática
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Essa sabedoria não deixa de comportar apreciações, avaliações que caem sob as categorias teleológicas e deontológicas a elaborar no estudo seguinte, não deixando as ações, na troca de experiências que o relato opera, de ser aprovadas ou desaprovadas, nem os agentes de ser louvados ou censurados
Dir-se-á que o relato literário, no plano da configuração narrativa propriamente dita, perde essas determinações éticas em benefício de determinações puramente estéticas? Seria equivocar-se sobre a própria estética-
O prazer que se toma em seguir o destino das personagens implica certamente suspender todo julgamento moral real ao mesmo tempo que se suspende a ação efetiva, mas, no recinto irreal da ficção, não se deixa de explorar novas maneiras de avaliar ações e personagens, sendo as experiências de pensamento conduzidas no grande laboratório do imaginário também explorações no reino do bem e do mal
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Transvalorar, ou mesmo desvalorar, ainda é avaliar; o julgamento moral não é abolido, mas antes submetido às variações imaginativas próprias da ficção
É graças a esses exercícios de avaliação na dimensão da ficção que o relato pode finalmente exercer sua função de descoberta e também de transformação em relação ao sentir e ao agir do leitor, na fase de refiguração da ação pelo relato-
Em Temps et Récit III chegou-se a dizer que a forma de relato que se quer mais neutra a esse respeito, o relato historiográfico, jamais atinge o grau zero da estimação; sem manifestar preferência pessoal pelos valores de tal ou qual época, o historiador movido mais pela curiosidade que pelo gosto de comemorar ou execrar nem por isso deixa de ser reportado, por essa própria curiosidade, à maneira como os homens visaram, atingiram ou falharam aquilo que tinham por constituir a verdadeira vida
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É ao menos no modo da imaginação e da simpatia que ele faz reviver maneiras de avaliar que continuam a pertencer à nossa humanidade profunda, sendo por isso a historiografia lembrada de sua relação de dívida para com os homens do passado, transformando-se essa relação de dívida, em certas circunstâncias — em particular quando o historiador se confronta ao horrível, figura-limite da história das vítimas —, em dever de não esquecer
Não é sobre as certezas referentes às implicações éticas da função narrativa que se quer concluir este estudo, pois, assim como no primeiro versante surgiram dificuldades particulares no ponto em que se recruzam teoria narrativa e teoria da ação, dificuldades simétricas surgem no ponto em que a teoria narrativa se inflete em teoria ética-
Elas dizem respeito ao destino distinto, ou mesmo oposto, da identidade, tema diretor do presente estudo em um e outro registro; na seção consagrada à problemática da identidade, admitiu-se que a identidade-ipseidade cobre um espectro de significações desde um polo extremo em que recobre a identidade do mesmo até o outro polo extremo em que dele inteiramente se dissocia
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Esse primeiro polo pareceu simbolizado pelo fenômeno do caráter, pelo qual a pessoa se torna identificável e reidentificável; quanto ao segundo polo, pareceu representado pela noção, essencialmente ética, da manutenção de si — para a pessoa, a maneira de comportar-se tal que outrem possa contar com ela
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Porque alguém conta comigo, sou responsável por minhas ações perante um outro; o termo responsabilidade reúne as duas significações, contar com… e ser responsável por…, acrescentando-lhes a ideia de uma resposta à pergunta “Onde estás?”, posta pelo outro que me requer, sendo essa resposta “Eis-me aqui!” — resposta que diz a manutenção de si
Ao opor polarmente a manutenção de si ao caráter, quis-se demarcar a dimensão propriamente ética da ipseidade, sem consideração pela perpetuação do caráter, marcando-se assim o intervalo entre duas modalidades de permanência no tempo, bem dito pelo termo manutenção de si, oposto ao de perpetuação do mesmo, cabendo perguntar onde se situa finalmente a identidade narrativa nesse espectro de variações entre o polo de ipseidade-mesmidade do caráter e o polo de pura ipseidade da manutenção de siA resposta já parece dada: a identidade narrativa mantém-se no entremeio; ao narrativizar o caráter, o relato lhe devolve o movimento, abolido nas disposições adquiridas, nas identificações-com sedimentadas; ao narrativizar a mira da verdadeira vida, dá-lhe os traços reconhecíveis de personagens amadas ou respeitadas, fazendo a identidade narrativa manter unidas as duas pontas da cadeia — a permanência no tempo do caráter e a da manutenção de siA dificuldade vem dos casos desconcertantes com que se concluiu a seção anterior, casos-limite que parecem propor tal problematização da identidade narrativa que, longe de aproximar-se da identidade ética figurada pela manutenção de si, antes lhe retiram todo ponto de apoio-
Enquanto a linha divisória passava entre os casos perturbadores da ficção literária e os puzzling cases da ficção científica, os primeiros exerciam espécie de função apologética em benefício da ipseidade e às custas de sua confusão com a mesmidade — por que, de fato, nos interessaríamos pelo drama da dissolução da identidade da personagem de Musil e seríamos por ele mergulhados em perplexidade, se o não-sujeito não permanecesse uma figura do sujeito, ainda que em modo negativo? Um não-sujeito não é nada, como lembra a semiótica do sujeito de discurso ou de ação
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Esse alegato pela ipseidade, documentado pelos casos perturbadores da ficção literária, começa a virar seu contrário quando, retornando a ficção à vida, o leitor em busca de identidade se vê confrontado à hipótese de sua própria perda de identidade, essa Ichlosigkeit que foi ao mesmo tempo o tormento de Musil e o efeito de sentido interminavelmente cultivado por sua obra
O si-mesmo aqui refigurado pelo relato é na realidade confrontado à hipótese de seu próprio nada, nada que não é o nada de que não há nada a dizer, dando essa hipótese muito a dizer, como testemunha a imensidão de uma obra como O Homem sem Qualidades-
A frase “Não sou nada” deve manter sua forma paradoxal: “nada” não significaria mais nada, se “nada” não fosse de fato atribuído a “eu”; mas quem ainda é eu quando o sujeito diz que não é nada? Um si-mesmo privado do socorro da mesmidade, como já se disse e repetiu
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A hipótese não carece de verificações existenciais, podendo ser que as transformações mais dramáticas da identidade pessoal tenham de atravessar a prova desse nada de identidade, equivalente à casa vazia nas transformações caras a Claude Lévi-Strauss; muitos relatos de conversão testemunham tais noites da identidade pessoal, sendo, nesses momentos de despojamento extremo, a resposta nula à pergunta quem sou eu? remissão não à nulidade, mas à nudez da própria pergunta
O que reabre o debate é precisamente esse desnudamento da questão quem?, confrontado à orgulhosa resposta “Eis-me aqui!”, cabendo perguntar como manter juntos o caráter problemático do ipse no plano narrativo e seu caráter assertivo no plano do compromisso moral-
Somos tentados a dizer que os casos perturbadores da ficção literária conduzem paradoxalmente à vizinhança da conclusão ética que Parfit tirava da indecidibilidade de seus puzzling cases — a de que a identidade pessoal não é o que importa —, apagando-se então não apenas a identidade do mesmo, mas a identidade do si-mesmo, que se cria salva do desastre da primeira
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Em certo sentido isso é verdade: os relatos que narram a dissolução do si-mesmo podem ser tidos por relatos interpretativos a respeito do que se poderia chamar uma apreensão apofática do si-mesmo, consistindo essa apófase em que a passagem do “Quem” sou eu? ao “Que” sou eu? perdeu toda pertinência
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Ora, o “o quê” do “quem” é, como já dito, o caráter, o conjunto das disposições adquiridas e das identificações-com sedimentadas; a impossibilidade absoluta de reconhecer alguém por sua maneira durável de pensar, sentir, agir talvez não seja praticável, ainda que pensável no limite; só é praticável, sem dúvida, o malogro de uma sequência indefinida de tentativas de identificação, matéria desses relatos de valor interpretativo quanto à retração do si-mesmo
Como manter então, no plano ético, um si-mesmo que, no plano narrativo, parece apagar-se? Como dizer ao mesmo tempo “Quem sou eu?” e “Eis-me aqui!”? Não seria possível fazer trabalhar, no limite, o afastamento entre identidade narrativa e identidade moral em benefício da dialética viva entre uma e outra?De um lado, não há dúvida de que o “Eis-me aqui!” pelo qual a pessoa se reconhece sujeito de imputação marca um ponto de parada diante do errar a que pode conduzir a confrontação de si mesmo com multidão de modelos de ação e de vida, alguns dos quais chegam a paralisar a capacidade de compromisso firme-
Entre a imaginação que diz “Posso experimentar tudo” e a voz que diz “Tudo é possível, mas nem tudo é benéfico [entenda-se: a outrem e a ti mesmo]”, instala-se surda discórdia, que o ato da promessa transforma em concórdia frágil: “Posso experimentar tudo”, certamente, mas “Aqui me mantenho!”
De outro lado, a angustiante pergunta Quem sou eu?, que os casos perturbadores da ficção literária desnudam, pode de certo modo incorporar-se à orgulhosa declaração “Aqui me mantenho!”, tornando-se a pergunta: “Quem sou eu, tão versátil, para que, apesar disso, contes comigo?”-
O afastamento entre a pergunta em que se abisma a imaginação narrativa e a resposta do sujeito tornado responsável pela expectativa do outro torna-se falha secreta no próprio cerne do compromisso, falha que faz a diferença entre a modéstia da manutenção de si e o orgulho estoico da rígida constância a si
É exatamente nesse ponto que a via aqui seguida recorta a de Parfit: em certo sentido, a caracterização da ipseidade pela relação de posse — ou pertencimento — entre a pessoa e seus pensamentos, ações, paixões, enfim suas experiências, não é isenta de ambiguidade no plano ético-
Por mais que essa relação não se preste a confusão no plano gramatical dos dêiticos (meu/o meu; teu/o teu; seu, sua/o seu, a sua etc.), permanece suspeita no plano em que Parfit trava seu combate contra o princípio do self-interest; numa filosofia da ipseidade como a presente, deve-se poder dizer: a posse não é o que importa
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O que sugerem os casos-limite engendrados pela imaginação narrativa é uma dialética da posse e da despossessão, do cuidado e da despreocupação, da afirmação de si e do apagamento de si, tornando-se assim o nada imaginado do si-mesmo uma crise existencial do si-mesmo
Que esse despojamento, evocado por pensadores tão diferentes quanto Jean Nabert, Gabriel Marcel e Emmanuel Lévinas, tenha relação com o primado ético do outro que não si-mesmo sobre o si-mesmo é claro, mas é preciso ainda que a irrupção do outro, fraturando o fechamento do mesmo, encontre a cumplicidade desse movimento de apagamento pelo qual o si-mesmo se torna disponível ao outro que não si-mesmo-
Não convém, porém, que a crise da ipseidade tenha por efeito substituir o ódio de si pela estima de si
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