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Sexistência

Jean-Luc Nancy, Sexistence. Paris: Éditions Galilée, 2017.

Fatalidade?

  • Todo gênero de sexo possui preliminares que já antecipam e engajam aquilo que precedem, de modo que o limiar é ao mesmo tempo preparado e já experimentado antes de ser alcançado.
  • A pergunta pela fatalidade do sexo conduz à questão do que constitui seu cumprimento: fecundação, partilha de gozo, ou alguma outra ordem de finalidade permanece incerta.
  • O sexo em questão não é a diferença sexual nem as sexualidades diferentes, mas o sexo como ato, uma pressão que se excita, se exalta e se exaspera, existindo-se a si mesma como um de seus mecanismos mais energéticos e também mais excessivos.
  • O órgão sexual, ao se autonomizar como objeto separado, constitui uma forma de castração, sendo sempre o lugar de uma perda e o ponto pelo qual o estranho é acolhido no corpo próprio.
  • A exigência sexual nunca se aplaca porque não foi destinada a sê-lo, conforme o termo latino dira em Lucrécio designa tanto um presságio funesto quanto um furor que se renova a cada apaziguamento.
  • Os versos de Lucrécio descrevem a impossibilidade de os amantes se fundirem verdadeiramente, consumindo-se um ao outro com os olhos e as mãos sem conseguir reter nada do corpo do outro.
  • Aquilo que Bataille chamará de comédia erótica já se encontra encenado nesses versos como drama ou tragédia do sentido que se cumpre ao passar ao limite de si mesmo.
  • A linguagem expõe o que o sexo sem linguagem apenas impõe: uma perseguição interminável que não tem fim, mas se aprova e se comprova em sua própria passagem.
  • Os amantes parecem buscar uma união que jamais alcançam, mas na verdade buscam antes a renovação de sua própria avidez e a turbulência partilhada, os gozos comuns.
  • Propõe-se pensar não em comunhão, mas em uma espécie de comme-union, um querer o simulacro da união que alimenta o élan do desejo.
  • O breve alívio obtido após o ápice do desejo logo cede lugar ao retorno da febre, sem que se encontre remédio para essa condição.

Liberação?

  • A fatalidade do sexo não conduz a um objetivo durável, mas seu sentido ultrapassa a condenação, anunciando antes um tom de tensão que ignora aquilo a que tende.
  • O sexo é feito inteiramente de toque, mas conhece apenas o élan, o impulso, a fome e o apetite, sem saber de onde vem nem para onde vai.
  • Mesmo o objetivo mais evidente do sexo, a procriação, não se vincula claramente à violência de seu apelo, o que torna difícil reduzi-lo a uma ruse da razão biológica.
  • A pouca autoconsciência do sexo é proporcional à potência insistente de sua experiência, exigindo preliminares para se entregar ao desconhecido de sua fatalidade e contingência.
  • O amor promete tudo e o sexo promete um fim que oculta poder tornar-se infinito, de modo que cada promessa se converte em promessa de uma promessa sem medida.
  • Amor e sexo aproximam-se e ao mesmo tempo se separam, pois o sexo pode limitar-se em duração, contexto ou tipo de relação, ao passo que o amor exclui esse limite em princípio.
  • A força do desejo manifesta-se com ou sem forma afetiva, espiritual ou social, evocando de imediato uma violência de cobiça, avidez e vício associada à nudez do próprio termo sexo.
  • A alegação de que a liberação sexual nos livrou dos excessos, da obsessão e do frenesi esconde uma transformação do sexo em conjunto de práticas equiparadas a atividades esportivas, turísticas ou estéticas.
  • O brilho glosado e o priapismo mundial constituem sintomas eloquentes de escravidão mais do que de liberação, mesmo que se deva celebrar o fim das antigas formas de repressão e culpabilização.
  • A crítica ao consumo sexual equipara o gozo a uma fervura devoradora e a uma busca infeliz de satisfação insaciável, associada à transformação do capitalismo em bulimia especulativa.
  • Sexo e arte configuram dois regimes de superconsumo sob o signo de uma nominação exponencial, remetendo cada um a um além de todas as coisas, a uma plenitude ou plétora de prazer.
  • A arte se libera de suas próprias formas e o sexo se libera de seu pudor e mistério, produzindo uma denudação geral que absorve o valor de uso no valor de troca.
  • A humanidade embriaga-se com sua própria sexualidade, expondo-a publicamente como se ainda não soubesse verdadeiramente que está nua.
  • A dupla liberação, tanto daquilo que oprimia quanto daquilo que ordenava e dava sentido, permanece complexa e obscura, sem que um lado consiga se desvencilhar do outro.
  • Toda denudação remete a uma denudação ainda mais íntima, talvez sem fundo, o que torna as reações éticas, políticas ou estéticas à liberação sexual sempre reações apenas parciais.

Filosofia?

  • O momento em que as preliminares tornam-se liminares corresponde à passagem ao limiar, ali onde algo além da liberação ou do desengajamento da liberação está em jogo.
  • Duas afirmações se impõem: a consideração desinibida do sexo antecede em pelo menos dois séculos a virada consumista da economia liberal, e o sexo desempenhou papel filosófico maior nos primórdios da filosofia antes de ser quase esquecido.
  • O movimento que vai de Sade e Fourier a Freud, passando por Krafft-Ebing, mostra que Freud foi visto por seus contemporâneos menos como inventor do inconsciente do que como inventor do sexo.
  • O empreendimento freudiano constitui essencialmente uma energética, na qual uma energia deslocável, neutra em si mesma, pode se somar a um impulso erótico ou destrutivo e aumentar sua catexia total.
  • Essa energia procederia de uma reserva narcísica de libido, um Eros dessexualizado e presexual, situado na origem mais arcaica daquilo que se chama sujeito ou daquilo que Heidegger nomeia Dasein.
  • Freud encontra uma origem negligenciada no lugar antes ocupado por Deus, substituindo o motor primeiro e a fonte da vida por uma energia inassinalável que impele o mundo.
  • A metapsicologia freudiana, à semelhança da metafísica, abre um novo registro que concerne ao ser e à existência, sendo a psicanálise antes uma extensão do que uma redução da exploração filosófica ao sexo.
  • O Eros freudiano não é um deus, mas um demônio que desafia a medida com uma energia tão livre quanto imperiosamente atraente, tão fatal quanto irresistível.
  • Platão, pela voz de Diotima, atribui a Eros o poder singular de suscitar o desejo e conduzi-lo às mais elevadas belezas, poder que Freud jamais deixou de enaltecer.
  • A arqueologia do Eros platônico remontaria à ideia hindu de um Si mesmo que, triste por estar só, se divide em dois sexos para alcançar a alegria.
  • De Platão a Freud e das Upanishads até o presente, descobrem-se os desafios daquilo que se chama sexo em um sentido que precede e excede a função sexual propriamente dita.
  • A passagem do Fedro descreve a corrente de desejo chamada por Zeus de amor por Ganimedes, que, ao encher o amante, transborda e retorna à beleza do amado através dos olhos.
  • Em Platão, o erótico permanece atravessado por um conflito sério entre o apetite imediato e o desejo de beleza, conflito que pode ser lido como tensão entre a feminilidade de Sócrates e a masculinidade de Platão.
  • O frenesi filosófico terminou por destruir a suposição de uma verdade suprassensível, reconhecendo-a como efeito de linguagem, de modo que a razão passa a ser considerada como Trieb, impulso e tensão em direção a um incondicionado.
  • Chamado vontade por Schopenhauer e Nietzsche, e reaparecendo como pulsão, esse impulso passa também pela força de trabalho em Marx e pelo salto em Kierkegaard, além das diferenças paralelas em Deleuze e Derrida.
  • Freud representa um duplo ponto de inflexão na história do pensamento, abrindo simultaneamente um sítio de trabalho arqueológico e clínico e transformando a metafísica em metapsicologia.
  • Freud distingue demônio e acaso como governando toda existência humana, afirmando que a psicanálise tem mais a dizer sobre o acaso do que sobre o demônio, este último permanecendo sempre por dizer de novo.
  • A filosofia ocupa-se do demônio e, portanto, daquilo que sempre já foi conhecido, como a demonicidade de Eros já sabida por Diotima, mas que, justamente por ser sempre sabida, permanece sempre por dizer novamente.

Pulsão?

  • A aproximação ao limiar é assinalada pela palavra pulsão, cercada por uma família semântica que inclui pulsação, impulsão, expulsão, compulsão, pulsar e impulso.
  • A pulsão designa ao mesmo tempo uma força e seu efeito, situando-se entre uma fonte de energia e a própria energia, no sentido grego de en-ergeia que jamais se atualiza inteiramente.
  • A pulsão impulsiona e é ela mesma impulsionada, constituindo a força motriz que, de Kant a Nietzsche e Husserl, se transforma no ato do sujeito, da natureza ou do espírito.
  • A questão em jogo remete à história do destino do homem e da vida na ausência de Deus e dos deuses, entendido o destino não como predestinação petrificada, mas como fatum que anuncia um envio sem determinar o processo por regras prévias.
  • Mesmo os deuses deixam sempre algo por decidir, uma possibilidade de acaso adverso, uma desvio ou conversão que Derrida chama de destinerrância, articulando a interação entre demônio e acaso.
  • A indeterminação da pulsão manifesta-se como inadequação a si mesma: ela empurra sem ter uma direção necessária, agindo por vezes contra o próprio interesse do eu, tanto inocentemente contra quanto a favor deste.
  • Ao pulsar, a pulsão necessariamente repulsa outra força que lhe resiste, de modo que a tensão inerente ao impulso se opõe, em princípio, à satisfação, questão que Freud examina no prazer preliminar e no ganho de prazer da forma estética.
  • A pulsão sofre duplamente, tanto pela resistência que encontra ou provoca quanto pela tensão constante que a rasga por dentro, de forma que Tânatos não se opõe simplesmente a Eros, mas lhe é integral.
  • A noção heideggeriana de ser-lançado permite pensar a ek-sistência como ejeção ou exílio que não provém de um lugar exterior nem de uma vontade estranha, consistindo inteiramente nesse próprio lançamento.
  • A angústia e o cuidado heideggerianos, sempre enviados em direção à ausência de meta mais própria, possuem também natureza libidinal, propulsiva e pulsante, de modo que a pulsão pertence tanto à recepção quanto à ação.
  • O pulsar, como astro pulsante, sugere que toda existência participa dessa pulsação, sendo fundamentalmente constituída por uma expulsão do nada em direção ao nada que é o próprio ser.
  • Segundo Schelling, o princípio de vida não vem de fora para dentro da matéria orgânica, mas molda essa matéria a partir de dentro, tornando-se um princípio inexplicável pela própria organização, revelado apenas como um impulso sempre agitado.
  • A pulsão nada mais é do que a própria existência em seu caráter de sobressalto e multiplicação, uma origem que não pode ser alocada fora de sua própria abertura, aproximando-se da figura da mônada incriada cuja irradiação incessante produz as mônadas criadas.
  • A pulsão, radiação divina e impulso aberto ao infinito de sua renovação e ao abismo de sua destinação, revela-se fatal em todo sentido e inseparável do sexo, conduzindo a uma espécie de ontologia do sexo ou sexistência.

Indizível?

  • O sexo tende à própria exasperação, seja como retorno obsessivo, seja como recusa de seu próprio furor, sempre à beira de uma impossibilidade que constitui sua possibilidade mais própria.
  • O sexo se dirige ao outro e é recebido do outro no ponto mais íntimo de si mesmo, sendo o outro, seja qual for seu gênero, já contido na pulsão como estranho a si mesma.
  • No outro está em questão algo distinto da pessoa mesma, a saber, a natureza exorbitante do próprio impulso, que só pode empurrar e pulsar infinitamente, seja na reprodução seja no gozo.
  • Em rigor, não se chega nunca ao alvo: chega-se por não chegar, estando sempre à margem, antes ou depois, como a vinda do Messias que não se pode reconhecer.
  • Segundo Lacan, o amante pede que se recuse o que ele mesmo oferece, pois isso não é isso, distinguindo-se o gozo obtido do gozo esperado, o que também não é o id, de onde a pulsão nasce e para onde retorna.
  • A linguagem e o sexo permanecem intimamente ligados por partilharem a mesma destinação ou destinerrância, sendo o grito ou o canto aquilo que emerge do corpo no limiar entre êxtase e expiração, tanto fracasso quanto êxito.
  • A existência é exemplar do sexo por sua continuidade com a vida, o animal, o vegetal e mesmo o pulsar, enquanto a fala, sua gêmea, se destaca e salta no meio de tudo isso.
  • As preliminares se concluem apenas para recomeçar, pois permanece-se sempre nas preliminares, sendo estas tudo o que resta na memória.
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