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estudos:marion:tanta-reducao-tanta-dacao

Tanto mais redução, tanto mais dação

MarionDado

  • Incoerência interna da terceira formulação e unilateralidade das duas primeiras: os enunciados que a fenomenologia privilegia explicitamente não lhe fornecem seu princípio próprio
    • Não se encontraria então nenhum? Ou antes não permaneceria implícito?
    • Husserl parece sugerir os dois ao mesmo tempo, quando postula que “é preciso tomar os fenômenos como eles se dão”
    • Dar-se-iam então? Neste caso, que significa fenomenologicamente que eles se dão? E se eles se dão, pedem ainda um princípio?
    • A menos que esta auto-doação de si não defina precisamente o que lhes serve de princípio
    • Para esclarecer esta hipótese, ou ao menos fixar-lhe a instância e os recursos, introdução de uma quarta formulação de um princípio de fenomenologia: quanto mais de redução, tanto mais de doação
  • Justificação em dois tempos: primeiro pelos textos, em seguida por seu conceito
    • A regra que liga por princípio redução e doação, mesmo se não se formula como tal senão hoje, não se repara menos literalmente desde Husserl
    • Melhor, o primeiro texto onde a redução se impõe impõe também sua conjunção com a doação: A Ideia da Fenomenologia, obra mesma que, em 1907, pratica pela primeira vez todas as figuras da redução, privilegia também com mais insistência a doação
  • Enunciados que testemunham a ligação entre redução e doação em Husserl
    • “Não é o fenômeno psicológico na apercepção e na objetivação psicológica que é uma doação (Gegebenheit) absoluta, mas somente o fenômeno puro, o [fenômeno] reduzido (das reduzierte)”
    • O que valida fenomenologicamente um fenômeno como um dado absolutamente não é então seu simples aparecer, mas seu caráter reduzido: somente a redução faz aceder à doação absoluta e não tem outro fim senão ela
    • “Em consequência, o conceito de redução fenomenológica (phänomenologischen Reduktion) ganha uma determinação mais estreita, profunda e um sentido mais claro: […] a exclusão do transcendente em geral como existência a admitir em acréscimo, isto é, de tudo o que não é uma doação evidente (evidente Gegebenheit) no sentido autêntico, uma doação absoluta (absolute Gegebenheit) ao olhar puro”
    • O transcendente se define assim menos por sua transcendência real, que por aquilo que a redução nele mantém ou não de doação: o critério da imanência não reside mais em uma inerência real à consciência segundo uma relação psicológica, mas na doação evidente, pura e absoluta
    • “Não é senão através de uma redução (Reduktion), que quereríamos também chamar agora redução fenomenológica (phänomenologische Reduktion), que eu conquisto uma doação absoluta (absolute Gegebenheit), não devendo mais nada à transcendência”
    • As transcendências “nulas [e não ocorridas] para a teoria do conhecimento” não se metamorfoseiam eventualmente em doações absolutas senão na medida em que passam pela redução à imanência
    • Mais nitidamente ainda: “… a doação de um fenômeno reduzido (die Gegebenheit eines reduzierten Phänomens) em geral é uma [doação] absoluta e indubitável”
    • Entre o fenômeno reduzido e sua indubitabilidade, cabe à doação somente estabelecer o fator comum
    • Ligação entre redução e doação se encontra então estabelecida, e firmemente, pelo próprio Husserl: um fenômeno só se torna absolutamente dado na medida em que foi reduzido; mas a redução só se exerce em contrapartida fenomenologicamente, a saber para dar, portanto fazer aparecer absolutamente o fenômeno
  • Conceitos de redução e doação corroboram sua ligação: a conquista da redução admite por corolário imediato o desdobramento da doação; a redução só reduz jamais senão à doação, só reconduz senão a ela e sobretudo em seu proveito
    • A redução exerce assim perfeitamente os dois sentidos que se pode nela entender: primeiro porque a redução restringe o aparecer ao que nele atinge uma verdadeira doação; em seguida porque ela reconduz o aparecer que se trata de dar até o absolutamente aparecente, o dado absoluto
    • A redução exerce como o ofício de um batedor do visível em direção à doação: ela traz de volta os visíveis esparsos, potenciais, confusos e incertos (aparências, esboços, impressões, intuições vagas, fatos supostos, opiniões, “teorias absurdas”) à doação, segundo a qual escalona o grau de fenomenalidade
    • A redução mede o teor em doação de cada aparência, de modo a estabelecer o direito de aparecer, ou não
    • Assim as duas operações de reconduzir ao Eu da consciência e de retornar às coisas mesmas, longe de se contradizerem, marcam as duas vertentes do único ordenamento da redução à doação: nada aparece senão se dando a e no Eu da consciência, mas somente o que pode se dar absolutamente à consciência chega também a dar nela nada menos que o aparecente em pessoa (Selbstgegebenheit)
    • Mais uma vez, não há doação que não passe ao filtro de uma redução, não há redução que não trabalhe para uma doação
  • Princípio “quanto mais de redução, tanto mais de doação” permite também esclarecer e superar as aporias que afetam os três outros
    • Se se admite, segundo o último princípio, que o fenômeno aparece tanto mais quanto se dá perfeitamente a ver e receber; mas também que ele só pode se dar assim dando-se ao Eu da consciência, portanto deixando-se nele reconduzir, o que equivale a aí reduzi-lo, então a aparição só se dá assim perfeitamente pelo único fato de que aparece, tanto quanto se reduz à sua doação para a consciência
    • A redução permite somente reconduzir à instância que recebe a doação
    • Assim a ambiguidade do segundo princípio — “Direito às coisas mesmas!” — pode se levantar: retornar às coisas não implica nenhum realismo pré-crítico, mas a redução do transcendente aos vividos tais como se dão à consciência, portanto tais como neles se dá em pessoa o fenômeno
  • A redução, ao reconduzir a aparição ao destinatário ao qual seu aparecer só pode se dar, portanto ao se ordenar à doação, suspende e coloca entre parênteses tudo o que, na aparência, não chega de fato a se dar ou somente se acrescenta ao dado como seu parasita
    • A redução separa o que aparece do que não aparece de fato, faz acreditar sua aparição, mima o aparecer nele ligando fraudulentamente uma obscuridade fundamental, em suma importa na fenomenalidade o que nela permanece estrangeiro: a objetivação não controlada, as “teorias absurdas”
    • Este princípio exclui então também a assunção de toda transcendência real, longe de restabelecer algum dogmatismo
    • Pois, sempre, a redução só traz de volta o aparecer a ele mesmo, limitando-o estritamente ao que ele dá a ver
    • Assim desaparece a ambivalência do primeiro princípio — “Tanto aparecer, tanto ser”: aparecer só equivale a ser enquanto este aparecer se reduz precisamente a ele mesmo, portanto enquanto, como aparecer plenário, já cumpre uma doação
  • A redução, ao reconduzir a aparição ao Eu da consciência e ao aparecer ele mesmo, a traz de volta ao seu puro dado; ora este dado se define sem necessariamente recorrer a qualquer intermediário que seja, que diferiria dele
    • Em particular, o puro dado se dando não depende, uma vez reduzido, senão de si: a intuição em particular, portanto também a transcendência da intencionalidade que ela preenche, pode nele intervir por vezes, mas não o define
    • Pois certas aparições se dão sem intencionalidade de objeto, portanto sem intuição de preenchimento
    • E mesmo aquelas que passam por estes intermediários não se resumem a eles
    • Com efeito, se a intuição merece um privilégio, não o deve ao êxtase do preenchimento de intenção, mas a seu caráter de intuição doadora
    • Somente a lugartenência da doação permite à intuição exercer uma regência da verdade; como tal, a intuição não poderia nada fazer ver, nem perceber, nem mesmo decepcionar, se não se impusesse em virtude da doação que ela implementa
    • Que nos importaria uma intuição e que autoridade lhe reconheceríamos, se ela não nos desse nada — não fosse senão o nada?
  • Limite do “princípio dos princípios”: quanto é preciso reconhecer que a intuição enquanto doadora tem função de “fonte de direito” da fenomenalidade em todos os casos onde os fenômenos relevam do êxtase e da transcendência, tanto, para fenômenos que não relevariam disto (se houver), a intuição como tal não aportaria nada e a doação poderia ou deveria mesmo se exercer sem a intuição, sem seu preenchimento de intenção e portanto sem seu êxtase transcendente
    • A doação passaria então fora da intuição, porque em tais casos esta não poderia mais assegurar a função doadora, contudo indispensável
    • A doação só se mede então à sua medida própria, não à da intuição
    • Restrição final da terceira formulação — “… sem tampouco ultrapassar os limites nos quais ele se dá” — confessa de fato uma ambiguidade e uma contradição
    • Uma ambiguidade porque Husserl nela invoca não os limites da doação, mas os da intuição: a aparição deve ser admitida nos estritos limites de sua intuição
    • Donde uma contradição: se a intuição sofre de limites (trata-se aí mesmo de um de seus traços constitutivos para toda a filosofia), a doação não conhece, ela, nenhum
    • O que se dá, enquanto dado por doação reduzida, se dá por definição absolutamente
    • Dar-se não admite nenhum compromisso, mesmo se, neste dado, se distinguem graus e modos: todo dado reduzido se dá ou não se dá
    • Ao contrário da intuição, a doação só se reduz a ela mesma e se exerce então absolutamente
    • Reduzir a doação significa liberá-la dos limites de toda outra instância, incluindo os da intuição
  • Quarta formulação se erige finalmente em princípio porque fixa que a doação se cumpre pela redução: a operação fenomenológica essencial da redução resulta desta vez, para além da objetidade e da entidade, na pura doação
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