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Diferença Ontológica
MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.
Questão do ser ou diferença ontológica
O percurso e a diferença: “Ser e Tempo”
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A fenomenologia realiza uma segunda ruptura, para além da intuição husserliana, quando Heidegger atribui à intencionalidade o retorno não mais apenas aos entes, mas ao próprio ser dos entes, substituindo a distinção intuição-intenção pela diferença entre ser e ente
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A diferença ontológica define inteiramente a ruptura heideggeriana, deslocando a fenomenologia da conhecença dos entes para o pensamento do ser e permitindo separar a metafísica, presa ao ser do ente, do pensamento do ser como tal, tornando possível a destruição da história da ontologia
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A precisão desse conceito importa sobremaneira, pois toda imprecisão comprometeria não apenas tal ou qual aspecto do pensamento de Heidegger, mas a própria ruptura fenomenológica radical de que depende todo o avanço heideggeriano
A diferença ontológica permanece em estado latente ao longo de toda a história da metafísica, que pensa o hiato entre ser e ente apenas deixando-o impensado como tal, de modo que jamais se pensa fora ou antes dela, mas sempre em sua dissimulação-
O passo atrás para fora da metafísica equivale exatamente à ruptura rumo à diferença ontológica, de modo que destruir a história da ontologia exige o acesso simultâneo à diferença ontológica explícita
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Duas dificuldades se impõem: como uma ruptura poderia emergir a partir da própria indecisão ontológica original, e como se explica que Ser e Tempo, § 6, formule a destruição da história da ontologia sem nele se encontrar explicitamente formulada a diferença ontológica
A emergência e o atraso
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Segundo Heidegger, um prefácio de 1949 a Vom Wesen des Grundes afirma que apenas esse texto de 1928, ao lado da conferência sobre o Nada, nomeia a diferença ontológica, sugerindo que Ser e Tempo permaneceria alheio a ela
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Tal conclusão se revela frágil, pois nomear não equivale a pensar; e mesmo essa origem aletiológica da diferença já se encontra no curso do verão de 1927, Problemas fundamentais da fenomenologia, que distingue explicitamente descobrimento do ente e abertura de seu ser como diferença ontológica
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Uma nota do próprio Heidegger de 1929 remete precisamente a esse curso de 1927 como primeira comunicação pública da diferença ontológica, atribuindo-o à primeira parte, seção 3, de Ser e Tempo, o que levanta a dúvida de por que a parte publicada não porta rastro algum dessa formulação
O § 22 do curso de 1927 introduz a diferença como algo latente no próprio Dasein, que a compreende sem a conhecer expressamente, distinguindo o Unterschied implícito da Differenz explicitamente concebida, mas o caráter inacabado desse curso, reduzido a um único parágrafo sobre o tema, sugere antes uma dificuldade a superar que uma conquista consumada-
Esse texto de 1927 permanece em estrita continuidade com Ser e Tempo, do qual constitui a seção 3 anunciada no § 8, e depende da temporalidade do Dasein para passar da diferença implícita à diferença explícita, de modo que a analítica do Dasein não é obstáculo mas via de acesso à diferença ontológica
As ocorrências e as notas
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Comentadores como L.M. Vail negam que o termo apareça em Ser e Tempo, atribuindo-o a Vom Wesen des Grundes, enquanto outros como Granel e Beaufret sustentam que a coisa já trabalha o texto de 1927 mesmo sem a locução, paradoxo que Beaufret formula dizendo que Ser e Tempo seria o livro da diferença sem empregar a palavra
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Contra essa opinião unânime, a locução diferença ontológica aparece de fato em Ser e Tempo nos §§ 12, 40 e 63, distinguindo o In-Sein existencial do Dasein da interioridade categorial dos entes sob-a-mão, e reaparece sem o adjetivo na última página da obra opondo a diferença do ser do Dasein existente ao ser do ente não à medida do Dasein
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Duas ocorrências verbais decisivas reforçam esse trabalho conceitual: no § 2, ao construir a questão do ser, Heidegger afirma que o ser como Gefragte exige um modo de mostração que difere essencialmente do descobrimento do ente
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Na última página da primeira seção, ao tratar do ser e da verdade como cooriginários, emprega novamente unterscheiden, e em seu exemplar pessoal anota manualmente Ontologische Differenz exatamente após essa passagem
Notas manuscritas adicionais nos §§ 7, 20 e 39 confirmam reiteradamente a expressão diferença ontológica, associada respectivamente ao sentido do ser em geral, à ambiguidade cartesiana da substantia e à distinção entre descobrimento do ente e desvelamento do ser, provando que Heidegger não precisou sobreinterpretar seu próprio textoO impensado mais cardinal
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Estabelecer que a locução atravessa Ser e Tempo não basta para provar que a obra já opera com o conceito canônico posterior, exigindo reconstituir o fio condutor que a introduziu, hipoteticamente originado em Husserl
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Husserl emprega já em 1913, na segunda edição das Investigações Lógicas, a expressão diferença ontológica ao tratar da distinção entre conteúdos abstratos e concretos, e em Ideen I, §§ 42-79, fixa uma diferença de essência entre consciência e realidade qualificada como a mais cardinal de todas
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O curso de 1925 mostra que Husserl nomeia essa diferença fundamental sem jamais perguntar pelo ser dos termos diferenciados, cometendo um duplo malogro: não pensar o que nomeia e não interrogar ontologicamente a maneira de ser da consciência intencional
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A carta de Heidegger a Husserl de 27 de outubro de 1927 confirma esse debate ao mencionar por duas vezes a diferença total entre o modo de ser do Dasein humano e o de todos os outros entes, e a diferença entre o ego absoluto e o psíquico puro
A irredutibilidade da “questão do ser” à “diferença ontológica”
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Ser e Tempo distingue com vigor o ser do ente — o ser do ente não é ele mesmo um ente, o ser não é explicável a partir do ente — mas essa distinção formal não basta por si só para conquistar a diferença ontológica como tal, pois o ser permanece indissoluvelmente unido ao ente à superfície do qual deve ser lido
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Três figuras de diferença se sobrepõem em 1927: a diferença estritamente ôntica já notada por Husserl entre consciência e realidade; a diferença entre as maneiras de ser desses dois entes, que Ser e Tempo nomeia ontológica; e a diferença entre o ser e o ente como tal, que inaugura a obra sem receber esse qualificativo
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Essa segunda figura combina de modo ambíguo o ôntico e o ontológico através de um dispositivo de analogia de proporcionalidade entre o relacionamento de um ente com sua maneira de ser e o de outro ente com a sua
A construção ternária da questão do ser no § 2 introduz um terceiro termo, o sentido de ser, totalmente ignorado pela diferença ontológica canônica binária, tornando impossível reconciliar as duas tópicas-
Nenhum dos dois hiatos assim gerados — entre o ente e o ser do ente, entre o ser do ente e o sentido do ser — pode acolher a diferença ontológica canônica, seja por limitação ôntica excessiva, seja por depender indevidamente da temporalidade ainda não alcançada
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Uma observação de Heidegger a M. Müller sobre três diferenças planejadas para a inédita seção Zeit und Sein — transcendental estrita, segundo a transcendência em sentido largo, e transcendente teológica — sugere mais hesitação do que elaboração rigorosa dessa tópica
A primazia ôntica da questão do ser como interrogação
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O terceiro termo da questão do ser não acrescenta senão o próprio Dasein, que, ao contrário do objeto husserliano confinado à imanência, transcende a si mesmo e assim ao ente rumo ao ser, transcendens por excelência
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O Dasein não apenas exerce a diferença ontológica por autotranscendência, mas é ele próprio essa diferença, sendo o único ente para quem o ser tem sentido, existindo como transição perpétua do ôntico ao ontológico
Em 1927, contudo, Heidegger identifica o Dasein não à diferença ontológica, mas à própria questão do ser, pois o terceiro termo introduzido não é o sentido do ser em geral, mas o próprio Dasein, que oferece o único elo possível entre o ente e o ser em questãoO desconhecimento da diferença ontológica pela “diferença ontológica”
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Conclui-se paradoxalmente que Ser e Tempo conhece uma diferença ontológica, mas não pensa ainda a diferença ontológica propriamente dita, porque esta obedece à construção ternária da questão do ser, que impede o acesso à dimensão estritamente dual da diferença futura
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As duas últimas páginas publicadas, o § 83, colocam explicitamente essa questão ao reconhecer que a analítica do Dasein permanece preparatória e que resta saber se a ontologia se funda ontologicamente ou necessita de um fundamento ôntico
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Notas manuscritas do próprio Heidegger em seu exemplar pessoal criticam retrospectivamente a construção inicial: o sentido do ser não pode se ler diretamente sobre um ente, e o Dasein não possui primazia intrínseca, mas apenas exemplaridade pelo jogo do ser nele ressoado
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A tripla primazia do Dasein — ôntica, ontológica e ôntico-ontológica — fundamenta a primazia da própria questão do ser, de modo que questionar o Dasein equivale a questionar a legitimidade de reduzir a diferença ontológica à “diferença ontológica” ôntica
Conclui-se que Ser e Tempo deve seu inacabamento à dissimulação da diferença ontológica pela “diferença ontológica” mediada pelo Dasein, que assim acrescenta, nele mesmo, enigma sobre enigma -
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