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estudos:marion:paradigma-objeto

O paradigma do objeto

MarionDado

  • Husserl, se não abordou a questão do ser senão confusamente ou insuficientemente, ao menos sempre a encarou a partir da instância para ele originária da doação
    • Mesmo a submissão de toda ontologia à redução não equivale à supressão da questão do ser: com efeito, pois que por princípio a redução reconduz sempre e unicamente à doação, reduzir a ontologia resultaria finalmente ainda em dá-la — sob o aspecto reduzido de um ente dado
    • A verdadeira dificuldade não se encontra então aqui, tanto parece incontestável que a doação determina bem e realmente o sentido fenomenológico que Husserl mantém a “ser” e “ente”
    • Surge da dupla imprecisão na qual Husserl deixa esta determinação
  • Primeira imprecisão sustenta-se na equivalência fundamental que o ente mantém com o objeto: “O ser imanente ou absoluto e o ser transcendente se nomeiam certamente ambos 'ente', 'objeto (Gegenstand)'”
    • Esta imprecisão se desmultiplica aqui até a incoerência: de que direito nomear “ser” o que se vai logo nomear também “ente”, sem pressentir a menor diferença ontológica?
    • Como identificar estes dois “seres” sob os mesmos títulos de “ente” e de “objeto”, ao passo que se quer ao contrário estabelecer que um “abismo de sentido” os separa?
    • Sobretudo, como justificar que “ente” não diga nada de outro que “objeto”?
    • O texto propõe certamente uma resposta: trata-se, no segundo caso, apenas de “categorias lógicas vazias”
    • Mas é lícito em fenomenologia manter tais vazios, quando se trata de provocar e de considerar as doações fenomenais das “coisas mesmas”?
    • Que autoridade obscura impõe subsumir sob o objeto e sua objetidade tudo o que é e tudo o que se dá?
    • Responder-se-á que se trata aqui de “… a ontologia formal […] que é, como o sabemos, a ciência eidética do objeto em geral”?
    • Mas de que direito o “sabemos”, e que significa, em fato de fenômeno, o “… privilégio da objetidade originária (Urgegenständlichkeit)”, senão a subsunção do que aparece e se dá sob uma categoria que não se dá e não aparece?
    • Argumentar-se-á que não se trata certamente aqui de um fenômeno autêntico, mas do horizonte vazio que acolhe todos os fenômenos possíveis sem dever ele mesmo aparecer?
    • Pois enfim por que motivo o fenômeno que só aparece enquanto se dá deveria sempre admitir a objetidade como seu horizonte originário?
    • Por que este horizonte fenomenal não se abriria a partir, por exemplo, da própria doação que lhe dá de aparecer?
    • Que privilégio fenomenológico deveria se conceder à objetidade — que não [se] dá, nem [se] mostra — face à doação que dá de se mostrar?
    • A interpretação do ente a partir da objetidade não coloca então somente em causa sua entidade, mas sobretudo sua fenomenalidade, porque ameaça a doação que as torna ambas possíveis
  • O que conduz assim bem a uma segunda imprecisão — a que confunde a própria doação com a objetidade: “… produzir (heraustellen) os diferentes modos da doação autêntica (eigentlichen Gegebenheit), isto é (bzw.) a constituição dos diferentes modos da objetidade (Gegenständlichkeit)”
    • Como compreender esta equivalência insigne? Se se tratasse unicamente de admitir que “… o objetivo (das Gegenständliche) pode aparecer, pode ter no aparecer uma certa doação (Gegebenheit)”, não se veria nenhuma dificuldade
    • A objetidade se encontra com efeito reduzida à doação através do aparecer; resulta bem na doação que a torna possível e a define como uma de suas modalidades
    • Mas trata-se de fato para Husserl de muito outra coisa — de regular a doação pelo padrão da objetidade, implicitamente assumida como seu grau absoluto, até sua regra: “E não se trata de modo algum de estabelecer como dados não importa quais aparições (Erscheinungen als gegeben), mas de levar ao olhar a essência da doação e a autoconstituição dos diferentes modos de objetidade”
    • Ora, que o objeto possa se dar também ele não implica que o dado deva sempre ou primeiro se objetivar
    • Que a objetidade ofereça um modo da doação não autoriza a assimilar todos os modos de doação a modos de objetidade
    • Que a doação ofereça a norma última da fenomenalidade exclui ao contrário por princípio que a objetidade possa resumi-la, normá-la ou medi-la
  • Husserl hipoteca assim sua conquista essencial — que, pela redução, a doação decide da fenomenalidade — ao submetê-la ao paradigma não interrogado da objetidade
    • Assumindo sua equivalência, jamais questiona seu contraste essencial: uma fenomenalidade da doação pode permitir ao fenômeno de se mostrar em si e por si, porque se dá, mas uma fenomenalidade da objetidade só pode constituir o fenômeno a partir do ego de uma consciência que o visa como seu noema
    • Husserl recua aquém de seu próprio avanço, ao restringir a doação a uma de suas menores possibilidades fenomenológicas, o objeto
    • O que liberou não o liberou ele mesmo
    • Congela-se diante de sua própria abertura
    • A doação permanece assim uma abertura ainda impraticada
estudos/marion/paradigma-objeto.txt · Last modified: by mccastro