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Criação do Si

MARION, Jean-Luc. Au lieu de soi: l’approche de saint Augustin. Paris: Presses universitaires de France, 2008.

A Criação do Si

  • A questão do tempo, em Agostinho, surge a partir da afirmação da criação, e a criação não é um conceito ontológico ou cosmológico, mas litúrgico, pois é através da confissão e do louvor que as coisas aparecem como criadas, e a criação é o lugar onde a confissão pode se dar.
    • A objeção de Heidegger à doutrina da criação, de que ela ofereceria uma resposta inepta à questão “Por que existe algo em vez de nada?”, baseia-se no pressuposto de que a criação visa responder a uma questão metafísica, o que não é o caso, pois a criação não responde à questão do “porquê”, mas abre a possibilidade da própria confissão.
    • A criação não é a produção de um mundo de entes por uma causalidade eficiente, mas a resposta à pergunta sobre o lugar da confissão, e a hermenêutica da criação, realizada pela comunidade de crentes, interpreta o mundo como dom de Deus e como louvor.
    • A criação, longe de ser um começo ôntico, só se torna possível a partir da confissão, que é o seu preliminar litúrgico, e a pergunta à qual a criação responde não é ôntica ou ontológica, mas sobre as condições teológicas e litúrgicas para o louvor de Deus.

37. A abertura do mundo

  • A confissão, ao louvar a Deus, invoca a sua vinda ao interior do Si, mas o Si não tem lugar para receber Deus, pois só tem lugar nele, e a criação do céu e da terra responde à questão original da confissão, que é a de como louvar a Deus sem ter um lugar para isso.
    • A ausência de lugar para a confissão é ilustrada pela aporia de que Deus está em toda parte, mas não está contido em lugar nenhum, e a criação, longe de abrir um lugar para receber Deus, revela-o como o mais secreto e o mais presente, impondo a utopia do lugar.
    • A utopia do lugar repete-se na anonimidade do ego, na inacessibilidade da memória e no desconhecimento da origem do desejo de beatitude, de modo que o Si não tem lugar para si mesmo, não dá lugar a si mesmo e não sabe de onde lhe vem o lugar do seu desejo.
    • O céu e a terra, ao proclamarem que não se fazem a si mesmos, superam a sua utopia ao reconhecê-la como resposta, e a possibilidade da confissão abre-se quando o “não-aqui” aparece como um “além” que desloca o lugar para fora de si mesmo.

38. A aporia do lugar

  • A criação dá lugar à confissão, definindo onde aqueles que devem confessar podem fazê-lo, abrindo dimensões onde o criado pode dirigir-se ao criador, e a primeira dimensão é a que se abre em direção ao nada a partir da terra, que é invisível e informe, e que implica a criação da matéria.
    • A matéria, ao ser criada, rompe com a posição grega que a elevava a princípio, e o “de nihilo” não significa que a criação emerge do nada e o substitui, mas que o criado é feito com o nada, de modo que o ser é intermitente e orientado para a confissão.
    • A segunda dimensão do lugar da confissão é o “céu dos céus”, que é um lugar inteligível, criado, mas não coeterno com Deus, onde as criaturas intelectuais contemplam a Deus e o louvam, livre da distensão do tempo.
    • O “céu dos céus” é a casa e a cidade de Deus, onde ele pode habitar sem ser desfigurado, e este lugar, embora criado, não está sujeito à distensão do tempo, pois adere a Deus por um amor que o mantém em uma tensão intencional.
    • A terceira dimensão do lugar da confissão são os próprios livros finais das Confissões, que se organizam trinitariamente e abrem o lugar por excelência para toda palavra que queira ser dita como confissão, onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo correspondem às três êxtases do tempo.

39. O sítio da confissão

  • A criação “do nada” e o “céu dos céus” definem o lugar de onde a confissão pode se elevar, e estes lugares revelam-se trinitários, pois só se pode louvar a Deus se o próprio Deus der o lugar e o tempo para isso, e este lugar é o próprio Deus.
    • A criação do homem apresenta peculiaridades: não é dito que ele foi criado “segundo a sua espécie”, mas “à imagem e semelhança de Deus”, o que significa que o homem não tem uma essência própria, mas uma referência a um outro que ocupa o lugar da sua essência.
    • O homem, ao ser criado à imagem de Deus, não tem uma definição que o aproxime de si mesmo, mas a sua indefinição é um privilégio que o torna semelhante a Deus, que é incompreensível, e a sua invisibilidade separa-o do mundo e consagra-o como santo.
    • O homem, sem espécie, gênero ou essência, não se assemelha a nada, pois assemelha-se àquele que a incompreensibilidade caracteriza, e a sua imagem não é um conteúdo, mas um movimento de referência àquele a que se assemelha.

40. Semelhança sem definição

  • A indefinição do homem implica que ele não reside em nenhuma essência, mas que se assemelha a Deus, que não tem forma, e ele aparece na medida em que se move para cima ou para baixo na escala invisível da sua semelhança com a invisibilidade de Deus.
    • O princípio do repouso e da inquietação, que abre as Confissões, mostra que o homem só encontra repouso em Deus, e a criação é o lugar onde cada criatura encontra o seu repouso, que é o próprio repouso de Deus.
    • O peso do amor é o que move o homem para o seu lugar, e este peso, ao contrário do peso físico, é voluntário e pode elevar ou fazer cair, dependendo se o amor é dirigido a Deus ou ao mundo.
    • O amor, como peso, é a condição transcendental do Si, pois é ele que move o homem para o seu lugar, e a sua facticidade é inegociável, pois ele precede o Si e o envia para um “além” irrecuperável.

41. O meu peso (Pondus meum)

  • O amor é unívoco, pois a questão nunca é se amar ou não, mas o que amar, e a sua universalidade transcendental não impede que se distinga entre os seus modos, como a caridade, a dileção e a cupidez.
    • A distinção entre os modos de amor não é uma oposição exclusiva, pois o amor de Deus permite amar a si mesmo e ao próximo, enquanto a cupidez, que tenta gozar sem Deus, leva à decepção e ao ódio.
    • A conversão da cupidez em caridade é possível porque a caridade, ao gozar de Deus, torna possível o gozo de todas as outras coisas, e a distinção entre as duas cidades não se baseia em naturezas diferentes, mas no modo da vontade.
    • A univocidade do amor é confirmada por três paradoxos: o amor de si mesmo só é possível através do amor de Deus; o amor ao próximo é regulado pela caridade; e o amor a Deus pode ser expresso tanto por “amor” quanto por “dileção”, mostrando que são a mesma coisa.

42. A univocidade do amor

  • O Si não se encontra a si mesmo por si mesmo, nem pela autoconsciência, nem pela resolução antecipatória, mas torna-se si mesmo por um outro, ou seja, por um dom, e o Si recebe-se a si mesmo como um dom, ao mesmo tempo que recebe todos os outros dons.
    • O dom de si mesmo é o primeiro dom, e o Si é o doado, que se recebe a si mesmo antes de poder receber a sua própria recepção, e a aporia do Si nunca desaparece, mas é recebida como o horizonte do seu avanço em direção ao imemorial.
    • Deus, como dom, é dado mesmo antes de haver quem o receba, e o Si, por analogia, encontra-se sempre já dado, como doado, antes mesmo de ter recebido a recepção de si mesmo.
    • No lugar do Si, o Si recebe a recepção de si mesmo de um outro lugar que não ele mesmo, e a redução a dom inclui, em primeiro lugar, o próprio Si, que se descobre essencialmente como um dom.
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