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estudos:marion:filosofia-amor

Prefácio: A Filosofia e o Amor

JLMPE

  • A filosofia não diz hoje mais nada do amor, ou tão pouco
    • Melhor aliás este silêncio, tanto, quando se arrisca a falar dele, maltrata-o ou trai-o
    • Duvidar-se-ia quase que os filósofos o experimentam, se não se adivinhasse antes que temem dizer dele qualquer coisa
    • Com razão, pois sabem, melhor que qualquer um, que não temos mais as palavras para dizê-lo, nem os conceitos para pensá-lo, nem as forças para celebrá-lo
  • Os filósofos de fato deixaram-no ao abandono
    • Destituído do conceito e finalmente rejeitado nas margens obscuras e inquietas de sua razão suficiente
    • Com o recalcado, o não-dito e o inconfessável
    • Sem dúvida outros discursos pretendem recolher esta deserdação e, à sua maneira, conseguem-no às vezes
      • A poesia pode dizer-me o que experimento sem saber articulá-lo e libera-me assim de minha afasia erótica
        • Todavia não me fará jamais compreender o amor em seu conceito
      • O romance consegue romper o autismo de minhas crises amorosas, porque as reinscreve em uma narratividade sociável, plural, pública
        • Mas não me explica o que me acontece, realmente, a mim
      • A teologia, ela, sabe do que se trata
        • Mas sabe-o demasiado bem para sempre evitar impor-me uma interpretação tão direta pela Paixão, que anula minhas paixões
        • Sem tomar o tempo de fazer justiça à sua fenomenalidade, nem dar um sentido à sua imanência
      • A psicanálise pode resistir a estas pressas e sabe permanecer entre meus vividos de consciência e sobretudo de inconsciência
        • Mas precisamente para melhor constatar que sofro de uma falta das palavras para dizê-los
        • Até mesmo que ela mesma carece dos conceitos para pensá-los
    • Destes esforços desfeitos, resulta que o comum das pessoas, ou seja todos aqueles que amam sem bem saber o que o amor quer dizer, nem o que lhes quer, nem sobretudo como sobreviver-lhe
      • Você e eu em primeiro lugar — crê-se condenado aos piores engana-fomes
      • O sentimentalismo de fato desesperado da prosa popular, a pornografia frustrada da indústria dos ídolos ou a ideologia informe do desenvolvimento individual, esta asfixia vaidosa
    • Assim a filosofia se cala e, neste silêncio, o amor se apaga
  • Tal deserção da questão do amor pelo conceito deveria escandalizar
    • Tanto mais que a filosofia tem sua origem do amor mesmo e apenas dele, “este grande deus”
    • Nada senão seu nome o atesta — “amor da sabedoria” (o que permanece uma tradução justa de φιλοσοφία, mal grado que se tenha às vezes)
    • Como deve-se entendê-lo?
      • A acepção a mais recebida — é necessário pesquisar a sabedoria que não se possui ainda, precisamente porque escapa — resulta apenas em uma banalidade, um truísmo
      • Mas mascara de fato uma outra, mais radical: a filosofia se define como o “amor da sabedoria”, porque deve com efeito começar por amar antes de pretender saber
    • Para chegar a compreender, é necessário primeiramente desejá-lo
      • Ou seja, espantar-se de não compreender (e este espanto também oferece um começo à sabedoria)
      • Ou ainda sofrer de não compreender, até mesmo temer não compreender (e este temor ainda abre à sabedoria)
    • A filosofia não compreende senão à medida em que ama — amo compreender, portanto amo para compreender
      • E não, como se preferiria crer, termino por compreender o bastante para dispensar-me para sempre de amar
    • Não é de modo algum evidente, por paradoxal que nos pareça hoje, que a filosofia tenha primeiramente e sobretudo a ver com a ciência
      • Como se o projeto de saber se impusesse por si mesmo, sem outra mediação nem pressuposto
    • Poderia, ao contrário, que para atingir a verdade, seja necessário, em todos os casos, primeiramente desejá-la, portanto amá-la
    • E a experiência contemporânea da ideologia, este saber que sacrifica tudo ao poder, demonstrou-nos nos fatos que o homem não ama espontaneamente a verdade
      • E que a sacrifica frequentemente à mentira, contanto que esta mentira lhe assegure a potência
  • À medida que a filosofia cessa de compreender-se primeiramente como um amor e a partir dele
    • À medida que reivindica imediatamente um saber e o entesoura
    • Não somente contradiz sua determinação originária, mas foge da verdade, que troca pela ciência dos objetos — este prato de lentilhas
    • Sabe-se que pouco a pouco, em uma evolução obstinada, depois acelerada e irrepressível, a filosofia acabou por renunciar a seu primeiro nome, “amor da sabedoria”, por aquele de metafísica
      • Tão tardiamente vindo (no meio da Idade Média) quanto desde logo problemático (na idade clássica)
    • Esta mutação radical não somente consagrou definitivamente o primado do ente como objeto universal do saber
      • Portanto abriu a carreira ao projeto da ciência e, indissoluvelmente, ao domínio da técnica sobre o mundo
      • Mas sobretudo censurou a origem erótica da “filo-sofia”
    • Poderia assim que o esquecimento do ser mascare um esquecimento mais radical e dele resulte — o esquecimento da erótica da sabedoria
    • No acabamento desta história, hoje portanto, após ter rebaixado o ente ao posto sem honra de objeto e esquecido o ser em plena retirada
      • A filosofia, doravante quase silenciosa, perdeu mesmo aquilo a que sacrificou a erótica: seu posto de ciência, eventualmente sua dignidade de saber
    • Quanto ao amor, cujo esquecimento sem dúvida tudo decidiu, dela esqueceu até a renegação
      • Perdeu mesmo o desejo dele
      • E — às vezes quase se creria — odeia-o
    • A filosofia não ama o amor, que lhe lembra sua origem e sua dignidade, sua impotência e seu divórcio
      • Passa-o portanto sob silêncio, quando não o odeia francamente
  • Colocar-se-á uma hipótese: este ódio permanece ainda um ódio amoroso
    • Neste desastre amoroso da filosofia, quer-se crer — e mostrar — que se pode reconstruir uma interrogação sobre o amor
    • A história do divórcio da filosofia com o amor nela não mereceria ao menos tanta atenção e esforços quanto a história do ser e de sua retirada?
      • Permanece evidentemente quase toda a escrever — o que não se saberia mesmo esboçar aqui
    • Na urgência, ater-se-á portanto ao primeiro inventário dos lugares
      • Não somente não temos mais conceito do amor, mas não temos mesmo mais palavra para dizê-lo
  • “Amor”? Isto soa como a palavra a mais prostituída — a falar estritamente a palavra da prostituição
    • Aliás, retomamos espontaneamente o léxico: “faz-se” como se faz a guerra ou negócios
    • E trata-se apenas de determinar com quais “parceiros”, a que preço, para que lucro, a que ritmo e quanto tempo se o “faz”
    • Quanto a dizê-lo, pensá-lo ou celebrá-lo — silêncio nas fileiras
    • Um silêncio saturado de uma dor, que irrompe sob a tagarelice política, econômica e médica que o sufoca querendo nos tranquilizar
    • Neste grande cemitério erótico, o ar falta, cujas vibrações deixariam ressoar uma única palavra
    • Declarar “eu te amo” soa, no melhor dos casos, como uma obscenidade ou uma derrisão
      • Ao ponto de que, na boa sociedade, aquela dos instruídos, ninguém mais ousa seriamente proferir tal contrassenso
    • E que não se espere nenhum substituto a esta bancarrota, nem o menor papel-moeda
    • Assim a palavra mesma de “caridade” se reencontra, se é possível, ainda mais ao abandono
      • “Faz-se” aliás também a caridade — ou antes, para evitar-lhe fazer a esmola e reduzir-se à mendicância, arranca-se-lhe mesmo seu nome magnífico
      • E recobre-se de farrapos supostamente mais aceitáveis, “fraternidade”, “solidariedade”, “ação humanitária”
      • A menos que não se divirta a olhá-la jogar os ímpetos obsoletos da “graça”, para gozar com nostalgia da “alma” que não se tem mais
    • Do amor (ou da caridade), não temos nada a dizer — e não esperaremos o menor socorro da filosofia tal como vai
  • Todavia, mesmo o diagnóstico desta impotência, cabe ainda à filosofia portá-lo
    • Pois há apenas um simples e único motivo, que explica que não possamos dizer nada do amor nem da caridade: não temos nenhum conceito dele
    • Sem um conceito, cada vez que pronunciamos a palavra “amor” ou desenrolamos “palavras de amor”, não sabemos literalmente mais o que dizemos
      • E, de fato, não dizemos nada
    • Sem um conceito, podemos certamente experimentar violentamente tal ou tal disposição erótica
      • Mas não podemos nem descrevê-la, nem distingui-la de outras disposições eróticas, nem mesmo das disposições não eróticas
      • Menos ainda articulá-las em um ato justo e sensato
    • Sem um conceito, podemos mesmo fazer de um amor experimentado uma ideia muito clara
      • Mas jamais a menor ideia distinta — aquela que permitiria reconhecer quando se trata e quando não se trata dele
      • Quais comportamentos dele procedem e quais não o concernem em nada, que lógica os liga necessariamente ou não
      • Quais possibilidades se abrem ou se fecham à ação
    • Neste estágio, multiplicar as investigações históricas ou as evocações literárias (o que será certamente necessário empreender mais tarde, mas do que se absterá decididamente aqui) não nos serviria de nada
      • Pois não saberíamos mesmo ainda o que aí buscamos
    • Nada nos dispensa portanto de tentar fixar, nem que seja em esboço, em grandes traços e como em estrutura, um conceito de amor
  • Onde tomar o ponto de partida?
    • Pois o começo decide sempre de tudo e, mais que alhures, o desastre erótico torna-o aqui perigoso
    • Mas este desastre, se não oferece mais nenhum caminho, guarda ainda o traço
    • Em princípio, bastaria para adivinhá-lo, identificar as decisões que interditaram à filosofia pensar o amor nela, depois invertê-las
    • E estas decisões localizam-se bastante rápido: o conceito de amor sucumbiu porque a filosofia dele simultaneamente recusou a unidade, a racionalidade e a primazia (e primeiramente sobre o ser)
  • Primeiramente, enfraquece-se e compromete-se todo conceito do amor, logo que se autoriza distinguir dele à vontade acepções divergentes, até mesmo irreconciliáveis
    • Por exemplo, opondo desde logo, como uma evidência indiscutível, o amor e a caridade (ἔρως e ἀγάπη)
    • O desejo supostamente possessivo e a benevolência supostamente gratuita, o amor racional (da lei moral) e a paixão irracional
    • Um conceito sério do amor assinala-se em princípio por sua unidade
      • Ou antes por sua potência de manter juntas significações que o pensamento não erótico recorta, estica e rasga à medida de seus preconceitos
    • Todo o esforço consiste em manter indivisa tão longamente quanto possível a única túnica do amor
    • A pesquisa se desdobrará portanto, tanto quanto poderemos, sem que em nenhum momento as análises façam escolher um polo antes que um outro
      • A diferença sexual antes que a afeição filial, o humano antes que Deus, ἔρως antes que ἀγάπη
    • Unívoco o amor diz-se apenas em um sentido único
  • Em seguida, um conceito do amor deve poder tornar uma racionalidade a tudo o que o pensamento não erótico desqualifica como irracional e rebaixa à loucura
    • Certamente o desejo e o juramento, o abandono e a promessa, o gozo e sua suspensão, o ciúme e a mentira, a criança e a morte
    • Todos estes eventos escapam a uma certa definição da racionalidade — aquela que convém às coisas do mundo
      • Objetos da ordem e da medida, de seu cálculo e de sua produção
    • Mas esta escapada não implica certamente que se exilem fora de toda racionalidade
      • Sugere antes que procedem de uma outra figura da razão, de uma mais “grande razão”
      • Aquela que não se restringe ao mundo das coisas nem à produção dos objetos
      • Mas que rege nosso coração, nossa individualidade, nossa vida e nossa morte
      • Em suma o que nos define ao fundo no que nos concerne em última instância
    • O conceito de amor distingue-se justamente por sua aptidão a pensar o que a filosofia tem por uma loucura
      • A dar não sempre torto, mas frequentemente razão aos eventos amorosos enquanto tais segundo uma racionalidade que procede do amor ele mesmo
    • O amor procede de uma racionalidade erótica
  • Enfim um conceito do amor deve atingir a experiência dos fenômenos eróticos a partir deles mesmos
    • Sem inscrevê-los desde logo e à força em um horizonte que lhes permanece estranho
    • Ora a filosofia, em particular em sua figura metafísica, considera a questão de ser ou de não ser, ou bem a questão que pergunta o que é o ente, a saber o que é a οὐσία (a essencialidade), como a primeira e a última
    • Neste horizonte, a questão de saber se me amam ou se amo não recebe evidentemente senão uma atenção derivada, no melhor
    • E pressupõe-se aí que para amar ou fazer-se amar, é necessário primeiramente ser
    • Mas a menor experiência do fenômeno erótico atesta o contrário
      • Posso perfeitamente amar o que não é ou não é mais, como posso também fazer-me amar pelo que não é mais, ainda não ou cujo ser permanece indecidido
      • E reciprocamente, que um ente seja certamente não o qualifica mais para que o ame ou que me ame
      • Que a incerteza de seu ser não me torna eroticamente indiferente
    • A pesquisa deve portanto descrever o fenômeno erótico em seu horizonte próprio — aquele de um amor sem o ser
  • Poderemos cumprir estas três inversões?
    • Pode-se denegá-lo sem outra forma de processo, como sugerem o bom senso (a coisa do mundo a menos partilhada) e a metafísica (que brilha com toda sua incompetência erótica)
    • Poder-se-ia todavia perguntar se os três interditos, que ofuscam o conceito de amor, não se enraízam em uma decisão única
    • Por que se dispersa o amor a todos os ventos, por que se lhe recusa uma racionalidade erótica, por que se o enquadra no horizonte do ser?
    • A resposta não se esconde longe: porque se define o amor como uma paixão
      • Portanto como uma modalidade derivada, até mesmo facultativa do “sujeito”
      • Ele mesmo definido pelo exercício da racionalidade exclusivamente apropriada aos objetos e aos entes
      • E que, pensando, é originariamente
    • Ego cogito, ego sum — ou seja: como sou enquanto um ego, um ego essencialmente cogitans e principalmente pensante por colocação em ordem e em medida de objetos
      • Então o evento erótico não me advirá jamais senão como uma derivação segunda, até mesmo uma perturbação lamentável
    • E de fato, pensamo-nos mais frequentemente como tal ego
      • Um ente cogitando objetos ordenáveis e mensuráveis, de sorte a não mais olhar nossos eventos eróticos senão como acidentes incalculáveis e desordenados
      • Felizmente marginalizados, até mesmo facultativos, tanto prejudicam ao claro exercício desta figura do pensamento
    • Nossas denegações do ego cogito — aquelas que ressoam em toda a metafísica recente — não provam o contrário
      • Traem simplesmente nossa dificuldade de arrancar-nos a este paradigma, odiado porque nos obseda sempre
    • Concluamos portanto antes que a partir deste ego cogito, o evento do amor não tem mais razão que a disposição erótica não tem legitimidade
      • Ou ainda que o ego cogito estabelece-se ele mesmo apenas contra a instância erótica e recalcando-a
  • A prova deste recalque descobre-se em todas as letras na definição que Descartes consigna ao ego
    • Ego sum res cogitans, id est dubitans, affirmans, negans, pauca intelligens, multa ignorans, volens, nolens, imaginans quoque et sentiens
    • Ou seja: sou uma coisa pensante, isto é, que duvida, que afirma, que nega, que entende poucas coisas, que ignora muitas, que quer, que não quer, que imagina também e mesmo que sente
    • Muito bem, salvo que se segue por omissão que não sou mais suposto nem amar, nem odiar
      • Melhor: que sou de tal sorte que não tenho nem de amar, nem de odiar, ao menos em primeira instância
    • Amar não pertenceria aos modos primeiros do pensamento e não determina portanto a essência a mais originária do ego
    • O homem, enquanto ego cogito, pensa, mas não ama, originariamente ao menos
    • Ora a evidência a mais incontestável — aquela que engloba todas as outras, rege nosso tempo e nossa vida do início ao fim e nos penetra a cada instante do lapso intermediário
      • Atesta que ao contrário somos enquanto nos descobrimos, sempre já tomados na tonalidade de uma disposição erótica
      • Amor ou ódio, infelicidade ou felicidade, gozo ou sofrimento, esperança ou desespero, solidão ou comunhão
      • E que jamais podemos pretender, sem mentir-nos a nós mesmos, atingir uma neutralidade erótica de fundo
    • Aliás, quem se esforçaria em direção à inacessível ataraxia, quem a reivindicaria e se vangloriaria dela, se não se experimentasse precisamente primeiramente e sempre trabalhado e obcecado por tonalidades amorosas?
    • O homem revela-se ao contrário a si mesmo pela modalidade originária e radical da erótica
    • O homem ama — o que o distingue aliás de todos os outros entes finitos, senão os anjos
    • O homem não se define nem pelo logos, nem pelo ser nele, mas por isto que ama (ou odeia), quer ou não
    • Neste mundo, apenas o homem ama, pois pensar, à sua maneira, os animais e os computadores fazem-no tão bem, até mesmo melhor que ele
      • Mas não se pode afirmar que amam
    • O homem, sim — o animal amante
    • O que omite a definição cartesiana do ego deveria chocar-nos como uma monstruosa falta de descrição do fenômeno todavia o mais próximo, o mais acessível — aquele que sou a mim mesmo
    • Aliás, o fato de que, de todos os pretensos erros acusados a Descartes, apenas este — seu único erro sem dúvida — permaneça desapercebido desde quase quatro séculos
      • Diz mais longamente que tudo sobre a cegueira erótica da metafísica
  • Para a honra da filosofia, é todavia necessário notar que um leitor ao menos teve de espantar-se desta definição de Descartes
    • Com efeito, seu primeiro tradutor em francês, o duque de Luynes, retificou-a de autoridade por um acréscimo feito ao ego
    • “Sei que sou uma coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma, que nega, que conhece poucas coisas, que ignora muitas, que ama, que odeia, que quer, que não quer, que imagina também, e que sente”
    • Notável lucidez
    • Mas esta judiciosa retificação sublinha tanto mais a amplitude da dificuldade
      • Se o conceito de amor tornou-se impossível porque o ego exclui o amor (e o ódio) de suas modalidades de origem (para submetê-lo em seguida, arbitrariamente e não sem perigo, à vontade)
      • Poder-se-á restabelecer um conceito radical do amor sem destruir esta mesma definição do ego?
    • Ver-se-á mais adiante que é necessário de fato pagar este preço redefinindo o ego
      • Enquanto mesmo pensa, justamente pela modalidade do amor que omitia e recalcava a metafísica
      • Como aquele que ama e que odeia por excelência, como o cogitans que pensa enquanto primeiramente ama
      • Em suma como o amante (ego amans)
    • Será portanto necessário retomar toda a descrição do ego e desdobrar todas as figuras segundo a ordem das razões
      • Mas fazendo desta vez direito ao acréscimo do duque de Luynes contra a omissão do texto latino das Meditationes
      • Substituindo ao ego cogito, que não ama, o ego originariamente amante
    • Será portanto necessário retomar as Meditationes a partir deste fato de que amo antes mesmo de ser
      • Porque só sou enquanto experimento o amor — e como uma lógica
    • Em suma, será necessário substituir a meditações metafísicas meditações eróticas
  • Este esforço, que é absolutamente necessário tentar, ultrapassa de longe tudo o que poderemos cumprir: isto é evidente
    • Por causa, certamente, dos limites de nosso talento e de nossa potência
    • Mas sobretudo da dificuldade da coisa mesma, que impõe a qualquer um que dela se aproxime
  • Primeiramente, não poderemos apoiar-nos sobre os adquiridos da tradição
    • Mas deveremos desconfiar dela, pois tratar-se-á a cada passo de “destruí-la”
    • A fim de liberar um caminho em direção ao que a metafísica perdeu com uma obstinação sonâmbula
    • Este atravessamento constante das aporias tradicionais imporá introduzir paradoxos tão nítidos quanto possível
      • E portanto desconcertantes de início
    • Teremos assim de tomar distâncias com as figuras da subjetividade (transcendental mas também empírica)
      • O império do ser, os prestígios da objetivação, as facilidades do psicologismo
      • E sobretudo com os ensaios de “metafísicas do amor” — esta contradição nos termos
    • Uma primeira precaução, tão insuficiente quanto obrigatória, consistirá em evitar com escrúpulo toda citação de qualquer autor que seja
      • Não que não se deva nada a ninguém e se reivindique a originalidade a todo preço (os conhecedores não terão dificuldade de acrescentar às vezes em nota virtual uma referência provável)
      • Não que se faça questão de facilitar demasiado radicalmente sua tarefa ao leitor (poderia que estas lentas conquistas, frequentemente repetitivas, lhe custem tanto quanto a nós)
      • Não, trata-se unicamente de impor-se o esforço de retornar às coisas mesmas
      • Ou ao menos, uma vez que não se pode jamais garantir preencher este programa, de não nos desviar desde logo assumindo teorias por fatos
    • Esforçar-nos-emos também de não pressupor nenhum léxico
      • De construir cada conceito a partir dos fenômenos, de não saltar nenhum passo
      • Até mesmo de voltar às vezes para trás para assegurar cada avanço
    • Em princípio, o leitor deveria portanto ver tudo jogar-se diante dele, poder tudo verificar
      • E, que aprove ou desaprove, saber por quê
    • Em suma, tratar-se-á de não contar, nem de contar-se histórias, mas deixar aparecer do que se trata — o fenômeno erótico ele mesmo
  • Dele resulta que deveremos tentar o impossível: produzir o que mostraremos a partir de si
    • Certamente, qualquer um que escreve, sobretudo conceitualmente, deve, em um grau ou outro, reivindicar esta responsabilidade
    • Mas aqui, quando se ataca o fenômeno erótico, esta reivindicação se impõe sem a menor restrição
    • Pois é necessário falar do amor como é necessário amar — em primeira pessoa
    • Amar tem justamente em próprio de dizer-se e de fazer-se apenas em próprio
      • Em primeira linha e sem substituição possível
    • Amar põe em jogo minha identidade, minha ipseidade, meu fundo mais íntimo a mim que eu mesmo
    • Coloco-me em cena e em causa, porque aí decido de mim mesmo como em nenhum outro lugar
    • Cada ato de amor se inscreve para sempre em mim e me desenha definitivamente
    • Não amo por procuração, nem por pessoa interposta, mas em carne e esta carne faz apenas um comigo
    • O fato de que amo não pode distinguir-se de mim, mais que quero, amando, distinguir-me do que amo
    • Amar — este verbo se conjuga, em todos os seus tempos e em todos os seus modos, sempre e por definição primeiramente na primeira pessoa
    • Portanto, uma vez que será necessário falar do amor como é necessário amar, direi eu
    • E não poderei esconder-me por trás do eu dos filósofos, que o supõem universal
      • Espectador desengajado ou sujeito transcendental, porta-voz de cada um e de todos
      • Porque pensa exclusivamente o que qualquer um pode em direito conhecer no lugar de qualquer um (o ser, a ciência, o objeto)
      • O que não concerne ninguém em pessoa
    • Vou falar ao contrário do que atinge cada um como tal
    • Vou portanto pensar o que me atinge como tal e me constitui como esta pessoa própria
      • Que nenhuma outra pode substituir e da qual nenhuma outra pode me dispensar
    • Direi eu a partir e em vista do fenômeno erótico em mim e para mim — o meu
    • Mentiria portanto pretendendo a uma neutralidade de superfície
      • Vai bem ser necessário que, eu e nenhum outro, fale deste fenômeno erótico que conheço e tal como o conheço
    • E evidentemente, farei-o mal
      • Far-lhe-ei mal, mas ele mo retornará bem — nem que seja apenas porque me fará sentir minha incapacidade de dizê-lo
      • Como me fez constatar minha impotência de fazê-lo
    • Direi portanto eu aos meus riscos e perigos
    • Mas direi-o — leitor, saiba-o — em teu nome
      • Não faças aquele que o ignora, nem aquele que sabe mais que eu
    • Do fenômeno erótico, não sabemos a mesma coisa, mas sabemos todos tanto
      • Diante dele, permanecemos de uma igualdade tão perfeita quanto nossa solidão
    • Vais portanto deixar-me falar em teu nome, uma vez que pago aqui o preço de falar em meu nome próprio
  • Certamente, vou falar do que não compreendo muito — o fenômeno erótico — a partir do que conheço mal — minha própria história amorosa
    • Possa ela desaparecer mais frequentemente no rigor do conceito
    • Guardarei todavia em mim a memória, nova a cada instante, daqueles que me amaram, que me amam ainda e que gostaria de poder amar, um dia, como conviria — sem medida
    • Reconhecer-se-ão no meu reconhecimento
  • Este livro obcecou-me desde a aparição de L'idole et la distance, em 1977
    • Todos aqueles que publiquei em seguida portam a marca, explícita ou dissimulada, desta inquietude
    • Em particular, os Prolégomènes à la charité foram publicados apenas, em 1986, para testemunhar que não renunciava a este projeto
      • Embora tardando a cumpri-lo
    • Todos, sobretudo os três últimos, foram tantas marchas em direção à questão do fenômeno erótico
    • Hoje, quando termino este último ensaio, quero dizer minha gratidão a Françoise Verny
      • Que, logo aparecido o primeiro livro, ligou-me por contrato a este
      • Após vinte e cinco anos de paciência e de lembretes, pode vê-lo enfim aparecer
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