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estudos:marion:duas-imanencias

As duas imanências

MarionDado

  • Mesmo reforçada por seu jogo complexo com a redução, a doação jamais teria podido correlacionar as duas faces do fenômeno, se Husserl não tivesse franqueado um último passo, sem dúvida o mais decisivo: ligar a imanência à intencionalidade
    • Com efeito, tomada em sua acepção estreita, como a identidade a si da consciência permanecendo em si, a imanência poderia interditar não somente a correlação das duas faces do fenômeno, mas sobretudo a doação de um dado efetivo
    • Bastaria entender esta presença a si como a estrita identidade de uma coisa consigo, que fecharia o menor espaço ao que não fosse realmente ela ou seus conteúdos reais
    • O aparecer se tornaria então a simples aparência sem teor e, no melhor dos casos, reencontraria o privilégio de pobreza, que a metafísica concedia às ciências formais, supostas poder se dispensar de realidade externa, até de realidade objetiva: certeza da tautologia lógica, verdade abstrata das formas puras e das categorias, ideias materialmente falsas
    • Nesta ocorrência, a doação se encontraria decididamente comprometida, pois implica que o aparecer à consciência chegue a nela colocar em cena uma “coisa”, o aparecente irredutível à consciência, que só se dá nela enquanto dela se distingue
    • E se a imanência identificasse realmente o aparecer à única consciência, só daria mais senão um único aparecente — a consciência
    • Em suma a imanência estrita suspende a correlação do fenômeno, porque ofusca primeiro a ligação da doação com seu dado
    • Para manter um pensamento da fenomenalidade a partir da doação, era então preciso que Husserl liberasse a imanência de toda deriva solipsista
    • Do mesmo golpe, todo seu esforço para levantar a contradição entre a imanência e a fenomenalidade, exigia evidentemente que aprofundasse a doação
  • Operação decisiva consiste em distinguir entre dois tipos de imanência: “A olhar mais de perto, a imanência real se distingue contudo da imanência no sentido da doação em pessoa (Selbstgegebenheit) se constituindo na evidência”
    • Para acabar com “o preconceito (Vorurteil) da imanência como imanência [somente] real” (até reale, se se a considera em psicólogo), é preciso admitir uma imanência intencional
    • “Não se trata somente de [o que é] realmente imanente, mas também de [o que é] imanente no sentido intencional (das im intentionalen Sinn Immanente). Os vividos noéticos, que pertencem à sua essência, têm uma intentio, visam (meinen) algo, ligam-se de uma maneira ou de outra a uma objetidade”
    • Nesta nova imanência, a consciência não recebe mais somente uma nova realidade realmente imanente à sua própria realidade (no sentido da imanência real de uma imagem, de um afeto, de uma sensação pura permanecendo como uma coisa na consciência tomada como uma coisa)
    • Tampouco recebe em sua realidade uma imagem irreal (uma aparência sem correlação com o menor aparecente, ideia inadequada fazendo conhecer a consciência e não o percebido)
    • Recebe, com o vivido aparecente, também e sobretudo o que visa (ou deixa visar) por uma relação intrínseca, o objeto intencional
    • De saída, a imagem se encontra regida pelo a priori correlacional que só dá o menor aparecer a e na consciência ao nele co-dar um aparecente
    • A intencionalidade torna o aparecente imanente à consciência, do simples fato de que a aparência (certamente imanente realmente) só aparece jamais senão sempre já ordenada ao seu objeto por intencionalidade
    • A imanência, em regime de intencionalidade, de alguma maneira se inverte (ou se redobra): o fenômeno tomado em sua dualidade só permanece imanente à consciência, porque primeiro a consciência intencional se faz imanente ao objeto aparecente
    • O aparecer só se torna imanente, na medida em que a consciência se torna intencionalmente imanente no próprio aparecente
    • Na imanência intencional, a doação da aparência não interdita mais a do aparecente, porque a intencionalidade visa a segunda, e portanto a dá enquanto visada
    • Isto é, que as duas faces do fenômeno surgem de um único e mesmo golpe, porque as duas doações só fazem jamais senão uma
    • E tal é bem a doação: a da transcendência na imanência
    • Enquanto as duas doações permanecem esparsas, até separadas, a doação não intervém ainda em profundidade; resta uma imagem que só dá ela mesma, mas não o objeto
    • Quanto ao objeto transcendente, sua não-aparição hipoteca sua doação
    • A doação surge precisamente quando a aparência dá, além dela mesma (imanência real), o objeto que sem ela jamais saberia aparecer, embora não se resuma a ela (imanência intencional)
    • A doação estoura porque o aparecer da aparência se faz o aparecer do aparecente, em suma embarca o aparecente em seu próprio aparecer
    • A doação dá ao objeto intencional de aparecer em e como o aparecer da aparência
    • A aparência não mascara mais o aparecente, dá-lhe seu próprio aspecto para que possa aparecer
  • Husserl, imediatamente, tira explicitamente a consequência: “O [fato de] se relacionar [intencionalmente] a uma objetidade pertence [ao vivido], mesmo se esta objetidade não lhe pertence em retorno. E o objetivo (das Gegenständliche) pode aparecer, pode ter uma certa doação (eine gewisse Gegenbenheit), todavia que não é mais real no fenômeno noético, que não é enquanto cogitatio
    • Reconhece-se certamente nesta “imanência no sentido intencional” o que as Ideias Diretoras nomearão “…uma transcendência original (…), uma transcendência no seio da imanência”, e que as Meditações Cartesianas comentarão: “A transcendência, sob qualquer forma que seja, é um caráter de ser imanente que se constitui no seio do ego
    • Mas esta fórmula paradoxal só nomearia a dificuldade, sem resolvê-la, se não se apoiasse sobre a doação própria ao que aparece
    • De fato, trata-se aqui de um alargamento determinante da doação, tal que recobre doravante todo o campo do fenômeno, transcendência compreendida, aparecente incluído: “… o universal é absolutamente dado (absolut gegeben) e não é [por isso] imanente realmente”
    • Melhor, é “… no sentido do real transcendente”, pois a redução não deve precisamente mais se entender como “… a exclusão do transcendente [no sentido] real”, mas unicamente como a exclusão da existência sobreposta, portanto de “…tudo o que não é doação evidente no sentido próprio, não doação absoluta do olhar puro”
    • Assim, a transcendência não se encontra fora de circuito como tal (prova disso, permanece admitida como intencional), mas na estrita medida em que não satisfaz à doação; assim ainda, a existência, cada vez que não se percebe, mas não quando nela chega
    • A redução reduz tudo, salvo o dado, e, em contrapartida, o que não pode reduzir, admite-o como dado
    • A redução não reduz a doação, reconduz a ela
    • Assim chega a dar mesmo o transcendente, ao reduzi-lo à imanência (não real) de um objeto intencional
  • Os objetos aparecem assim como tais — pois “… um objeto intencional está contudo lá, na medida da evidência (evidentermassen da)”, “… é dado como um ente, como um algo lá (… gegeben als ein Seiendes, als ein Dies-da…)” — enquanto seu aparecer não os representa mais (pois “se fazer representar” equivale, justamente, a não estar lá), mas os dá em pessoa, absolutamente
    • “… as coisas são e são na aparição (Erscheinung) e, graças à própria aparição, são dadas (gegeben)”
    • Aparecer em pessoa equivale então finalmente a ser, mas ser supõe ser dado
  • A doação determina assim todas as etapas da fenomenalidade: sucessivamente, coloca-se em jogo na redução, que só recebe seu sentido por ela; estabelece a correlação entre as duas faces do fenômeno; alarga a imanência à medida da intencionalidade
    • Enfim e sobretudo fixa o único estatuto fenomenologicamente correto da presença em pessoa para as coisas mesmas; doravante só são na medida de sua doação intuitiva absoluta
    • A doação determina então a essência do fenômeno, tal como se ligava à redução para fixar seu último princípio
    • É contudo este papel excepcional que levanta uma dificuldade: por que Husserl, que não cessou de retomar a definição e os procedimentos da redução, jamais forneceu — ao nosso conhecimento ao menos — a menor definição da doação?
  • Não há contudo, neste silêncio do conceito, que contrasta tão nitidamente com a frequência das ocorrências, nenhum argumento contra seu estatuto principial
    • Primeiro porque, apesar das aparências, a doação recebe um tratamento comparável ao da redução: esta esquiva toda definição à medida que Husserl não cessa de retomar as regras, de distinguir as figuras e de afinar as exigências; ao fim, o excesso mesmo das definições resulta em interditar toda definição unívoca
    • Ao contrário, para aquela, o defeito de definição resulta do fato de que ela mesma define todos os outros atos fenomenológicos: o fenômeno, a imanência e a intencionalidade, a “coisa mesma”, a redução, todos provêm dela ou nela resultam
    • A doação joga um papel tão radical, que reproduz a aporia do ser em metafísica: para defini-lo, era preciso pressupô-lo — aqui, “… a falta de definição é antes uma perfeição que um defeito, porque não vem de [sua] obscuridade, mas ao contrário de [sua] extrema evidência”
    • Mas esta impossibilidade sugere ela mesma uma indicação capital: a redução não se define, performa-se, como um ato; todos os conceitos fenomenológicos iniciais tinham aliás na origem estatuto de atos
    • Por conseguinte a doação, que o ato de redução torna manifesta e à qual se ordena, deve poder também se compreender como um ato, sem dúvida o mesmo que o da redução, ou o anverso de um ato único, do qual a redução oferece o reverso — o ato de reconduzir o ego ao dado enquanto dado
    • Que este ato não se defina conceitualmente como um quid, isto estabelece somente que se trata do conceito de um ato, e não de uma quididade, de um objeto, ou de uma teoria
  • Seja como for, o defeito de uma definição da doação permanece patente: Husserl não determinou por conceito a doação, que contudo determina a redução e o fenômeno; pensa a partir da doação, deixando-a todavia em larga parte impensada
    • Deve-se admitir este fato, menos como uma objeção, que como a definição exata do trabalho e como sua justificação: a doação permanece a pensar explicitamente, no lugar de que Husserl a cumpre sem determiná-la como tal
    • Não se pretende começar lá onde Husserl pararia, mas somente pensar o que cumpre perfeitamente, sem dizê-lo inteiramente
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