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estudos:marion:da-doacao-a-manifestacao

Da doação à manifestação

MarionDado

  • Donde surge o atributário, ou — o que equivale ao mesmo — donde lhe advém o que, se dando, o institui como um atributário?
    • Formalmente, a resposta não faz dúvida: o que se dá se mostra e o fenômeno dado faz surgir o atributário nele advindo
    • Trata-se então apenas de descrever esta cena, onde o que vem depois do “sujeito” nasce enfim — isto é, admite enfim não poder, nem sobretudo dever se autoconstituir por cogitatio sui ou causa sui, mas se recebe do fenômeno dado e dele somente
    • Esta descrição oferece contudo bastante dificuldade, para que se a conduza em dois tempos: descrever-se-á o nascimento do atributário primeiro a partir do fenômeno dado enquanto tal, em seguida a partir do fenômeno dado enquanto saturado
    • Assim poder-se-á atingir sua última denominação, a do doado
  • Evento do que se mostra enquanto se dá, ou antes um qualquer dentre os fenômenos que se dão: por exemplo, pois Descartes já o expôs, um pedaço de cera
    • Que dá ele quando entra no campo de sua experiência possível por uma inspectio mentis?
    • Segundo a doutrina cartesiana do código, a “coisa” mesma não dá nada senão conceitos elementares, as “naturezas simples”, cujas combinações bastam por princípio para defini-la
    • O pedaço de cera não dá, a estritamente falar, senão: a fórmula química de composição deste tipo de cera em geral, a quantidade de moléculas assim definidas correspondendo ao corpo físico constituindo este pedaço de cera, e as coordenadas espaço-temporais deste pedaço de cera
    • Estes caracteres se descrevem todos em termos de extensão, de figura e de Mathesis universalis
    • A eventual diferença entre os conceitos que utilizava Descartes e os que lhe prefere o estado contemporâneo dos conhecimentos (a supor que se possa fixá-lo) importa menos aqui, que o que partilham: a doação pobre em intuição que realizam a fórmula, a quantidade e as coordenadas do pedaço de cera, e que permite certamente defini-lo, mas de modo algum vê-lo
    • O conceito da cera não a mostra ainda, sua inteligibilidade não a fenomenaliza sempre
    • A metafísica admitia aliás esta distância, até a reivindicava
  • Descartes (depois de Galileu e antes de Locke) a formaliza ao cavar uma solução de continuidade radical entre a verdade da “coisa” (a saber seu conceito tal como as naturezas simples organizadas por ordem e para a medida bastam para constituí-lo) e a “ideia” ou o “sentimento” que dele concebemos (a saber o que dele nos aparece subjetivamente)
    • Esta cesura não deve se banalizar em uma simples oposição entre as “qualidades primeiras” (naturezas simples, supostas intrínsecas à coisa) e as “qualidades segundas” (extrínsecas à coisa e portanto supostas próprias ao “sujeito”), pois precisamente o conceito que constroem as naturezas simples ordenadas à medida rompe definitivamente com toda qualidade e só recorre mais senão a quantidades ou dados quantificáveis
    • Sem dúvida, a cesura entre a “coisa” e o “sentimento” opõe finalmente o objeto ao que o percebe, mas só resulta ao reconhecer primeiro a diferença fenomenológica que somente a justifica
    • A diferença entre o que se dá segundo uma intuição pobre (o conceito modelizado e medido da “coisa”), portanto sem se mostrar (sem entrar na visibilidade, nem mais geralmente em nenhuma das dimensões sensíveis da fenomenalidade), e o que só se dá ao se mostrar em plena intuição (o “sentimento” da cera)
  • A cera — antes e sem sua modelização, nem sua quantificação pelas naturezas simples — se dá primeiro e sobretudo ao se mostrar ao “sentimento”
    • Dá-se a ver estritamente (de uma cor que vira do amarelo ao vermelho), mas dá-se também a tocar (passando do frio ao quente), a ouvir (passando do som batido ao deslizamento silencioso), até a provar e a cheirar (sabor e odor do mel), em suma manifesta-se segundo a imediatidade sensível, isto é, de meus cinco sentidos
    • Meus? Que “mim” se insinua então aqui? Evidentemente não o ego constituinte, que exerce esta cogitatio espontânea, pura e sintetizante de um objeto e que Descartes vai conquistar contra o receptor da multiplicidade do sensível, mas precisamente este receptor do sensível ele mesmo
    • Ele não constitui nenhum objeto unificado por conceito, mas se deixa atribuir tantos “sentimentos” estourados quanto o demanda a rapsódia do diverso que se mostra
    • O “mim” que se faz aqui indiretamente dia não se distingue então, contrariamente ao que Descartes (e toda a metafísica com ele) deixa supor, por um defeito na modalidade do conhecimento: a incerteza, a passividade e a “subjetividade” da experiência sensível
    • Caracteriza-se bem antes por um privilégio fenomenológico incontestável, dirimidor, absoluto: ao passo que o que se dá por conceitos, ordem e medida se constitui somente sob o olhar do ego e não lhe aparece então literalmente mais (dir-se-á que se dá um noúmeno, representação vazia), ao passo que o que se compreende sobre o modo do objeto ainda só se dá bem pobre demais para se mostrar em sua fenomenalidade plena (dir-se-á que se dá um modelo, um tipo ou um “conceito”), ao contrário, o que a metafísica desqualifica brutalmente como fenômeno não-objetivado chega sozinho a se dar em plenitude
    • A saber a se dar a ponto de se mostrar a partir de si, de fenomenalizar sua doação até tornar manifesta sua ipseidade insubstituível
  • O “mim” que ressente por “sentimento” só perde sua espontaneidade constituinte (Eu, ego), para reganhar a receptividade em relação à manifestação do que se mostra (“me”, “a qu[em]”)
    • O atributário, tal que ele somente se coloca em situação de sentir e ressentir, prova a carne mesma do fenômeno em estado de manifestação
    • Contra a metafísica, é preciso dizer que o “sentimento” não resulta da “coisa” como seu efeito, não a redobra como sua aparência, mas que a mostra como sua única aparição possível — manifesta-a como uma manifestação manifesta, ao atestar e impor
    • O atributário não recebe então somente o que se dá — permite ao dado de se mostrar enquanto se dá
    • O pedaço de cera só se mostra aos “sentimentos” do atributário e se vela ao olhar, que o re-constitui segundo a ordem e a medida
    • A fenomenalidade não se compreende, recebe-se
  • Receber, para o atributário, significa então nada menos que cumprir a doação ao a transmutar em manifestação, ao conceder ao que se dá de se mostrar a partir de si
    • Vai sem dizer que tal receptividade não saberia se definir no quadro de uma oposição trivial entre a passividade e a atividade, pois tem por privilégio mediatizá-las
    • Esta mediação permite aliás precisar dois caracteres essenciais do atributário
  • Primeiro caráter essencial do atributário: por a receptividade do “sentimento”, transforma a doação em manifestação, ou mais exatamente permite ao que se dá com intuição de se mostrar
    • Ao receber o que se dá, dá-lhe em retorno de se mostrar — dá-lhe forma, sua primeira forma
    • Para além da atividade e da passividade, a recepção dá forma ao que se dá sem ainda se mostrar
    • O atributário se propõe então como um filtro ou um prisma, que faz surgir a primeira visibilidade, precisamente porque não pretende produzi-la (como faria, se se pudesse admiti-lo, um esquema sem síntese), mas se aplica a nele se submeter sem interferência, nem perturbação
    • Tal filtro define assim uma função: manifestar o que se apresenta (se dá), mas que deve ainda se introduzir em presença do mundo (se mostrar)
    • Esta função caracteriza aqui sem surpresa o polo-consciência (ou como se queira dizer), tal que ele proporciona o aberto fenomenológico, onde deve se mostrar o dado
    • Mas esta função característica permite também levantar enfim a ambiguidade até aqui preservada do “a qu[em]”: certamente um “a qu[em]” qualquer pode bastar para recolher o que se dá; mas somente um “a quem” (e jamais um “a que”) pode assumir o papel inteiro do atributário
    • Apresentar o que se dá, de modo que ele se mostre ao mundo; pois esta apresentação implica a recepção no “sentimento” e visa precisamente mostrar para o pensamento, a manifestar para uma consciência, a colocar em forma para uma vista o que, senão, se daria às cegas
    • Portanto o atributário, que apresenta e torna visível, deve essencialmente ver; joga como uma vista, exerce uma visada, expõe um rosto, que será preciso acabar por encarar de frente como um outrem
    • Deve então também poder dizer o “eu”, que diz tudo
  • Segundo caráter essencial do atributário: contudo não precede o que forma segundo seu prisma — dele resulta
    • O filtro se desdobra primeiro como uma tela
    • Antes que se dê o dado ainda não fenomenalizado, nenhum filtro o espera
    • Somente o impacto do que se dá faz surgir, de um único e mesmo choque, o relâmpago de que estoura sua primeira visibilidade e a tela mesma onde ele se esmaga
    • O pensamento surge da indistinção pré-fenomenal, como uma tela transparente se colore de um golpe sob o impacto de um raio luminoso até então permanecido incolor no translúcido e que nele explode subitamente
    • Recebe-se ela mesma no instante exato onde recebe o que se dá para, graças à sua própria recepção, se mostrar enfim
    • O pensamento do polo-consciência nasce com a manifestação que torna visível sem o saber, nem o querer, nem mesmo talvez o poder
    • Assim é por “… nada de mais que o sentimento de uma existência [Dasein] sem o menor conceito”, indissociável do “sentimento” onde se mostra o dado, que ela acede incidentemente a ela mesma
    • E não se trata aí nem do conhecimento de um objeto, nem de uma impressão subjetiva, pois o pensamento originariamente receptor joga aqui aquém da distinção do fenômeno e do em-si
    • “Esta proposição ['eu penso'] […] exprime uma intuição empírica indeterminada […]. Uma percepção indeterminada significa aqui somente algo de real, que nos é dado e certamente somente para o pensamento em geral, por conseguinte não como fenômeno, nem mesmo como coisa em si (noúmeno), mas como algo que existe no fato e é designado como tal na proposição 'eu penso'”
    • Esta existência de fato não se representa, mas se prova por um sentir anterior à quadratura da fenomenalidade constituída (noúmenos, fenômenos, objetos) e instituído pela fenomenalidade que reivindica a doação
    • O atributário responde do que se mostra, porque responde ao que se dá — primeiro ao dele se receber
  • Se o atributário se determina como um pensamento, que transforma o dado em manifesto e se recebe do que recebe, em suma se nasce do surgimento mesmo do fenômeno enquanto dado, isto é, de um dado exercendo o simples impacto de seu evento, que será dele quando surgir um fenômeno dado enquanto saturado?
    • O impacto se radicalizará em chamado e o atributário em doado
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