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Equívocos sobre Análise do Dasein

MBPD

* Os mal-entendidos mais comuns acerca da análise do Dasein

  • Considerações introdutórias sobre a origem dos equívocos
    • Toda tentativa de resumir a obra de um filósofo permanece necessariamente incompleta, e a exposição precedente da análise do Dasein só pôde ser realizada graças ao auxílio pessoal constante de Martin Heidegger.
    • A simplicidade das descobertas daseinsanalíticas não reduz, mas antes multiplica, o risco de equívocos, pois o pensamento ocidental foi treinado por séculos a objetificar e reificar tudo, inclusive a existência humana.
    • A compreensão daseinsanalítica do homem como não objetificável exige a ruptura de um hábito intelectual com mais de dois milênios.
    • Os principais mal-entendidos derivam dessa herança e se articulam em cinco formas interligadas: o alegórico, o idealista, o platônico, o subjetivista e o egotista.

* O equívoco alegórico

  • Redução poética ou metafórica da abertura ao mundo
    • Muitos intérpretes julgam que caracterizar o homem como “abertura de mundo” seria poesia irreal ou abstração sem vínculo com comportamentos concretos estudados pela psicologia e pela psicopatologia.
    • O mesmo erro ocorre quando a abertura luminosa do Dasein é entendida como mera metáfora, por exemplo, comparável a uma clareira na floresta.
    • A análise do Dasein insiste que “abertura de mundo” descreve direta e literalmente a natureza fundamental da existência humana, sem recorrer a imagens simbólicas.
    • Os termos utilizados não são dogmáticos, podendo ser substituídos por outros mais adequados, desde que preservem a indicação do caráter luminoso originário da existência.

* O equívoco idealista

  • Confusão entre desvelamento e produção subjetiva
    • Supõe-se erroneamente que os entes que aparecem na abertura do Dasein seriam criados pela mente humana e existiriam apenas como conteúdos psíquicos.
    • Tal posição é tão absurda quanto afirmar que a luz acesa em um quarto produz os móveis que torna visíveis.
    • A primazia do Dasein em Heidegger não se confunde com doutrinas que atribuem ao sujeito a criação do sentido dos entes.
    • Rejeita-se a ideia de que a percepção começaria por um dado amorfo, um factum brutum, ao qual se adicionaria posteriormente significado.
    • Interpretar não significa lançar sentido sobre algo nu, mas deixar aparecer o que já se mostra em um contexto de mundo previamente compreendido.
    • O homem tem acesso imediato aos entes em sua significatividade, e não apenas por meio de esquemas ou projetos subjetivos sobrepostos a uma matéria neutra.
    • Contudo, é igualmente errôneo pensar que os entes existiriam plenamente independentes da existência humana, pois homem e aquilo que aparece em sua luz dependem mutuamente para seu próprio ser.

* O equívoco platônico

  • Separação artificial entre níveis ontológicos e ônticos
    • Jean-Paul Sartre afirmou que as descrições heideggerianas se referem apenas a estruturas ontológicas abstratas, sem relação com o nível empírico do comportamento observável.
    • Essa posição sustenta a existência de dois níveis incomunicáveis, exigindo soluções distintas para cada um.
    • Contra isso, a análise do Dasein afirma que toda ação concreta e observável é, em si mesma, luminosa e desveladora de mundo.
    • O exemplo do sapateiro que pega o martelo sem reflexão mostra que a ação só é possível porque a existência é abertura de mundo.
    • Mesmo a ação “automática” manifesta diretamente o caráter luminoso do Dasein, sem necessidade de reflexão explícita.
    • Assim, os fenômenos daseinsanalíticos pertencem ao mesmo âmbito que os fenômenos estudados pela psicologia e pela psicopatologia.
    • O erro platônico de Sartre decorre de sua adesão a uma distinção entre mundo das ideias e mundo físico, distinção explicitamente rejeitada pela daseinsanálise.
    • Pensar, perceber, sentir e agir são modos concretos nos quais o desvelamento do Dasein acontece, sem justificar a postulação de mundos ou níveis separados.

* O equívoco subjetivista

  • Esvaziamento formal do ser-no-mundo
    • O erro surge quando se toma “ser-no-mundo” como definição final e formal, sem desenvolver seu conteúdo qualitativo.
    • Heidegger apresentou essa fórmula apenas como ponto de partida provisório, exigindo posterior elucidação rigorosa.
    • Sem a compreensão do ser-no-mundo como abertura luminosa da seridade, o conceito torna-se vazio e estéril.
    • Essa versão mutilada da daseinsanálise perde toda fecundidade terapêutica e legitima críticas como as de Alexander Mitscherlich.
    • O equívoco leva a tratar o ser-no-mundo como propriedade de um sujeito subjacente, preservando intacta a dicotomia sujeito-objeto.
    • A subjetividade torna-se um X desconhecido ao qual se adiciona a capacidade de estar no mundo, sem esclarecer como isso seria possível.
    • As dificuldades clássicas da relação sujeito-objeto só desaparecem quando o Dasein é compreendido como o próprio domínio luminoso da seridade.
    • Nessa perspectiva, tornam-se desnecessários conceitos como os arquétipos de Carl Gustav Jung, pois a recorrência de certos fenômenos indica apenas a possibilidade de revelação imediata do divino na abertura do Dasein.

* O equívoco egotista

  • Negação do caráter originário do ser-com
    • Alega-se que a análise do Dasein se ocuparia apenas da existência individual, sendo incapaz de explicar as relações interpessoais.
    • Contudo, a abertura originária do Dasein desvela não apenas coisas, mas outros entes que existem do mesmo modo, isto é, como Dasein.
    • “Outros” não significa aqueles dos quais se difere, mas aqueles entre os quais se existe cotidianamente.
    • “Com” indica que o Dasein, enquanto Dasein, existe sempre com outros de sua mesma natureza.
    • A existência é desde o início ser-com, e o mundo do Dasein é essencialmente Mitwelt, mundo-comum.
    • Não existimos primeiramente como sujeitos isolados que depois entram em relação, mas já estamos juntos no mundo, compartilhando os mesmos entes na luz comum de nossas existências.
    • Por isso, a daseinsanálise não sustenta individualismo egotista, mas fornece fundamentos sólidos para as ciências sociais, a psiquiatria social e a psicanálise social.
    • Todo sintoma psicopatológico deve ser compreendido como perturbação no tecido das relações sociais que constituem a existência humana.
    • Assim, todo diagnóstico psiquiátrico é, em última instância, uma afirmação sociológica.
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