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estudos:critchley:2010-filosofia

FILOSOFIA (2010)

CRITCHLEY, Simon; CEDERSTROM, Carl. How to Stop Living and Start Worrying: Conversations with Carl Cederstrom. Cambridge: Polity Press, 2010.

O que é filosofia

  • A filosofia não é uma atividade exclusivamente profissional ou acadêmica, nem uma coisa ou entidade, mas uma atividade — a atividade do filosofar conduzida por criaturas finitas e pensantes; ela deve fazer parte da vida de uma cultura como reflexão crítica viva em um contexto específico, sempre de caráter radicalmente local, em que seres humanos são levados a formular questões de forma geral ou universal, como as que Sócrates formula nos diálogos platônicos: o que é o conhecimento? o que é a justiça? o que é o amor?
  • A filosofia começa com Sócrates, mas já se manifesta entre os pré-socráticos — em Heráclito, quando o senso comum ou doxa, aquilo que passa por conhecimento comum em um lugar específico, é pressionado e avaliado pelo levantamento de questões de forma universal; Heráclito insistia que os cidadãos de Éfeso seguissem o logos (razão, proporção, ou mesmo Ser em sentido mais amplo) e não se deixassem distrair por coisas particulares — tornando-se tão deprimido com eles que se retirou para o campo e acabou morrendo asfixiado em esterco de vaca.
  • A esperança que move a atividade filosófica é que, ao levantar questões universais, a filosofia pode desafiar o que passa por doxa em um contexto específico e, pela atividade do argumento, ter um efeito educativo e emancipatório — ou, como Cavell formula: a filosofia é a educação dos adultos, o que os adultos precisam para se tornarem educados.

Historicidade, finitude e contingência

  • O que há de específico e poderoso na tradição continental em filosofia é o foco na natureza essencialmente histórica da filosofia e do filósofo que a pratica — o que se chama normalmente de historicidade —, traço que a distingue de grande parte da tradição analítica, como o primeiro Wittgenstein (com seu modernismo austero e anti-histórico) ou Quine (cuja austeridade torna-se naturalismo), e que impede a separação entre filosofia e história da filosofia; é após Kant — com Hamann, Herder e, sobretudo, Hegel — que a questão da historicidade torna-se verdadeiramente central.
  • O reconhecimento da historicidade tem como consequência que as grandes questões metafísicas sobre o sentido e o valor da vida humana não podem mais ser simplesmente remetidas aos tópicos tradicionais da metafísica especulativa — Deus, liberdade, imortalidade, a natureza das coisas em si mesmas —, que Kant, na Crítica da Razão Pura, declara cognitivamente sem sentido, embora moralmente defensáveis na Crítica da Razão Prática.
  • A filosofia pós-kantiana introduz dois temas vitais: finitude e contingência — a finitude, como ponto de partida do pensamento pós-kantiano, consiste na aceitação de que não há ponto de vista divino ou referência exterior à experiência humana a partir do qual ela pudesse ser caracterizada ou julgada; a contingência consiste em que a experiência humana é constitutivamente contingente, criada e recriada pelos próprios seres humanos, mesmo que essa contingência frequentemente apareça como necessidade: “o mundo que habitamos em um dado momento parece um mundo necessário — estruturado e ordenado de uma maneira que nos parece convincente”.
  • Uma vez que o ser humano é localizado como sujeito finito inserido em uma rede contingente de história, cultura e sociedade, torna-se possível compreender a demanda comum a muitos filósofos continentais — a de que as coisas poderiam ser de outro modo; se a experiência humana é criação contingente de sujeitos finitos, ela pode ser recriada de outras maneiras, o que leva à articulação, em formas diversas após Kant, de uma demanda por uma prática filosófica transformadora capaz de criticar e transformar o presente — a demanda de que os seres humanos se emancipem de suas condições atuais, que não são condições favoráveis à liberdade.
  • É a intuição rousseauniana que se encontra no início do Contrato Social — “O homem nasceu livre, e está por toda parte acorrentado” —, revelando que a consciência de nossa contingência é a consciência da formação histórica de um mundo que nos acorrenta e que, segundo Rousseau no Segundo Discurso, culmina em um estado de guerra; mas essa mesma consciência leva também ao insight paradoxal de que o mundo da não-liberdade poderia tornar-se outro — um mundo em que a liberdade seria realizada, o grande sonho romântico dos jovens filósofos e poetas ingleses e alemães do fim do século XVIII e início do XIX; e o fio sempre flexível que une crítica e emancipação, e que é capaz de produzir novas formas de opressão, é, como Hegel percebeu mais poderavelmente que ninguém, a liberdade humana.

Tradição sedimentada e tradição reativada

  • A filosofia na tradição continental é inseparável de sua relação com a tradição e com a historicidade — não em sentido conservador, como em Edmund Burke, mas como experiência radical de tradição que tenta recuperar algo faltante, esquecido ou reprimido na vida contemporânea; a tradição tem dois sentidos: o primeiro, herdado ou transmitido sem questionamento crítico — aceitação da doxa, do senso comum como guia político e social, o que John Gray chama de realismo político; o segundo, produzido por um engajamento crítico ou desconstrutivo com o primeiro — um apelo à tradição que não é de forma alguma tradicional, expressão que Derrida usa em Violência e Metafísica.
  • Para o Husserl tardio da Crise das Ciências Europeias, esses dois sentidos de tradição correspondem à distinção entre experiência sedimentada e experiência reativada da tradição — a sedimentação, pensada em termos geológicos como processo de assentamento ou consolidação, consiste no esquecimento da origem de um estado de coisas; o exemplo célebre é o da geometria, que aparece em um texto de 1936 intitulado A Origem da Geometria, que foi o objeto do primeiro livro de Derrida — uma tradução desse texto seguida de longo comentário.
  • O argumento central de Husserl é que esquecer a origem da geometria equivale a esquecer a natureza histórica de disciplinas como ela, o que é importante porque a geometria expressa em sua forma mais pura o que Husserl chama de atitude teórica — a postura que as ciências naturais adotam diante de seus objetos —, de modo que reativar a origem da geometria é recordar como a atitude teórica das ciências pertence a um contexto social e histórico específico, o que Husserl chama de mundo da vida (Lebenswelt); o ponto crítico e polêmico de Husserl — desenvolvido em uma crítica ao cientismo — é que a atividade científica, desde Galileu, resultou em uma matematização da natureza que negligencia a dependência necessária da ciência em relação às práticas do mundo da vida, e é essa situação que Husserl chama de crise.
  • A crise ocorre quando a atitude teórica das ciências passa a definir o modo como todas as entidades são vistas — a visão de mundo naturalista endêmica em grande parte da filosofia profissional e talvez a doxa mais amplamente compartilhada na cultura ocidental, segundo a qual todas as entidades devem ser explicadas pela ciência natural ou pelo método científico natural, seja darwiniano, neurocientífico ou outro; o que se vê em Husserl é como o insight sobre a historicidade abre espaço para uma experiência radical da tradição e para uma crítica da sociedade como sociedade em crise, encerrando uma demanda ética de que as coisas deveriam ser organizadas de outro modo.

A responsabilidade do filósofo e a produção de crise

  • A responsabilidade do filósofo é a produção de genealogias que produzem crise — na pior situação, a crise não é reconhecida e os seres humanos afundam ao nível de um gado satisfeito, uma espécie de contentamento bovino sistematicamente confundido com felicidade.
  • Em Heidegger, a questão da finitude surge em relação ao conceito de destruição (Destruktion) ou, em sua obra tardia, Abbau — desmonte, literalmente desconstrução; a destruição da história da ontologia não é uma forma de destruir o passado, mas de buscar as tendências positivas da tradição, trabalhando contra o que Heidegger chama de seus “preconceitos funestos”; é essa palavra que Derrida traduz como desconstrução em meados dos anos 1960 ao buscar um equivalente francês — o que significa que a desconstrução é uma operação genealógica.
  • A destruição é a produção de uma tradição radical como algo feito e moldado por um processo de repetição ou retomada (Wiederholung) — uma relação genuína com a tradição alcançada por um ato de repetição criativa que traz de volta, como no exemplo de Husserl, o sentido original de um estado de coisas por meio de uma reflexão crítica, histórica e genealógica; o exemplo central de Heidegger — o único pensamento que perpassa toda a sua obra — é o modo como o sentido do Ser foi encoberto na tradição da metafísica ocidental desde os gregos antigos, especificamente desde a Metafísica de Aristóteles, o que ele chama, em um texto tardio, de abandono do Ser.
  • Em Ser e Tempo, no final dos anos 1920, Heidegger articula a diferença entre tradição sedimentada e tradição reativada nos termos da distinção entre tradição (Tradition) e herança (Überlieferung) — jogando com o verbo überliefern, que significa algo que é desvelado e entregue a nós; o que Heidegger tenta liberar por sua meditação é o potencial oculto da história.
  • O alvo das reflexões de Husserl e Heidegger sobre a tradição não é o passado — eles não estão engajados em um projeto antiquário ou filológico; sua investigação sobre a tradição visa o presente, assim como a reflexão de Hegel sobre o Espírito é motivada pela questão da liberdade, ou a genealogia nietzschiana do niilismo é motivada pela questão da vida e de sua afirmação; o insight sobre a historicidade na tradição continental não consiste em acertar o passado, mas em criticar o presente e produzir crise em relação a ele.
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