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Angústia

BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.

  • Ao final do §38, a constituição existencial completa do ser-aí (Dasein) é anunciada como já desnudada em seus traços principais, restando ao §39 a tarefa de compreender como os traços analisados constituem uma totalidade primordial, perguntando-se como a totalidade daquele todo estrutural exposto deve ser definida de modo existencial-ontológico, totalidade revelada de modo distintivo na disposição (Befindlichkeit) básica da angústia (Angst)
  • Pavor, solidão, angústia, desespero figuram entre os humores característicos nos quais os existencialistas se concentraram
    • O Homem do Subsolo de Dostoiévski, antiherói de Memórias do Subsolo, é intensamente solitário e sofre da doença de excesso de consciência, capaz de ver através das justificativas convencionais para a ação, reduzindo-se a nada sem tais justificativas, incapaz de ser qualquer coisa
    • Ivan Karamázov viu através dos costumes do povo russo sem ter com que substituí-los, decidindo-se a se ater ao fato, isto é, a não tentar compreender nada nem buscar sentido na vida humana, declarando que o mundo se sustenta sobre absurdos
    • As Moscas e A Náusea de Sartre, O Estrangeiro de Camus e quase toda a obra de Kafka concentram-se em tais sentimentos de desespero, angústia e solidão, assim como filmes que também abordam preocupações existencialistas, como O Sétimo Selo de Bergman, de 1957, Hiroshima Meu Amor de Resnais, de 1959, O Eclipse de Antonioni, de 1962, Solaris de Tarkovski, de 1972, Beleza Americana de Mendes, de 1999, e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças de Gondry, de 2004
    • Em Uma Recordação, de 1957, relata-se profunda influência da filosofia e da literatura existencialistas durante os anos de estudante, ainda que, já em meados dos anos 1920, houvesse preocupação em evitar borrar a linha entre a escrita edificante e a filosofia, isto é, a ontologia fenomenológica, como fica claro nas observações sobre Kierkegaard e na rejeição da filosofia de visão de mundo em Problemas Fundamentais, restando perguntar que resultados ontológicos se extraem da fenomenologia da angústia no §40
  • O que se entende por angústia é introduzido pela afirmação de que na angústia sente-se estranheza (unheimlich)
    • Hubert Dreyfus interpreta a estranheza como o sentido da ausência de fundamento do mundo e do ser-em-o-mundo do ser-aí, revelando a angústia que o ser-aí não pode ter uma vida significativa simplesmente assumindo e agindo sobre as preocupações fornecidas pela sociedade
    • Charles Guignon interpreta a angústia como a experiência de confrontar a própria finitude, de modo que, confrontados com o ser-para-a-morte (Sein zum Tode), os papéis desempenhados subitamente parecem anônimos, exigindo assumir a própria vida
    • Dreyfus e Guignon enfatizam ambos o anonimato das autointerpretações que a cultura disponibiliza, nenhuma delas desenhada especificamente para nós como indivíduos
    • Iain Thomson reconstrói a angústia como revelação da falta fundamental de encaixe com o mundo, isto é, de que nada na estrutura ontológica do self poderia dizer especificamente o que fazer com a própria vida, enfatizando a ausência de razão última para escolher uma autointerpretação em vez de outra
    • Katherine Withy oferece uma leitura mais ontológica da angústia, argumentando que a estranheza nomeia o autoencobrimento do ser e em particular do nosso ser, sendo o avesso da decadência, pois na decadência somos atraídos para os entes, mas para experienciá-los o ser deve permanecer em segundo plano, e a angústia desvela essa estranheza, sendo por isso o humor filosófico por excelência
  • Deve-se resistir à tentação de identificar o fenômeno da angústia com alguma emoção ou humor determinado, apesar do apelo exercido pelo uso da palavra angústia, que normalmente se refere a uma condição ou estado psicológico concreto
    • Não convém desenvolver um relato de um humor ou disposição afetiva específicos do tipo que um psicanalista ou psiquiatra trataria, sendo estrategicamente ruim fazê-lo por diversas razões, pois se a angústia fosse um humor ou sentimento específico tratável por terapia de conversa ou medicação, uma resposta óbvia seria recomendar ao leitor procurar um psiquiatra, melhor vida através da química, além de as teorias psicológicas mudarem e se desenvolverem, podendo-se um dia argumentar que o que hoje se chama pitorescamente de ansiedade são na verdade quatro condições distintas com mera semelhança de família, sendo também possível que os desafios psicológicos vividos na modernidade tardia sejam fenômenos culturais destinados a um dia recuar
    • As ambições são ontológicas, não uma crítica cultural da modernidade, o que conduz à segunda razão, segundo a qual, seja o que for a angústia, ela deve ser um fenômeno ontológico, ponto em que Withy insiste, sendo chamada disposição básica, algo fundamental, e para contar como fundamental em Ser e Tempo um fenômeno deve ser ontológico
  • Na angústia o mundo desmorona em total insignificância
    • A totalidade dos envolvimentos do que está à mão (zuhanden) e do que está presente à mão (vorhanden) descoberta dentro do mundo é, como tal, sem consequência, desmorona sobre si mesma, tendo o mundo o caráter de completa falta de significância
    • O mundo tem significância por ser tanto aquilo em termos do qual se compreendem os utensílios quanto aquilo em que nos compreendemos a nós mesmos, e em algumas descrições existencialistas da angústia os utensílios da vida humana perdem seu contexto, degenerando a coisa diante de nós em mero objeto, aço moldado, o que não parece ser o que se tem em mente aqui, pois enfatiza-se antes que na angústia o mundo em sua mundanidade é tudo o que ainda se impõe, permanecendo palpavelmente presente a caneca de café e o entendimento dos utensílios em termos de seus papéis constitutivos na vida humana
  • O que não se pode fazer na angústia é compreender-se a si mesmo, pois a angústia retira do ser-aí a possibilidade de compreender-se a si mesmo, em sua decadência, em termos do mundo e do modo como as coisas foram publicamente interpretadas
    • Por não se poder compreender a si mesmo na angústia, não se pode sentir-se em casa no mundo, sendo o mundo normalmente o lar, o lugar onde se habita por se ser familiar com ele e nele se compreender a si mesmo, caracterizando-se a atmosfera da angústia como estranheza ou o modo do não estar em casa (Unheimlichkeit), ficando-se assim alienado do mundo, não por ignorância do que circunda, mas porque o mundo nada mais oferece em termos do qual dar sentido à própria vida
  • O mundo não é apenas aquilo em termos do qual se compreende o equipamento e nele se habita, mas também aquilo em que outros habitam, sendo o ser-aí ser-uns-com-os-outros, o que significa vivermos num mundo com outros que são coabitantes de nosso mundo-com comum
    • Assim como se continua a compreender canecas de café na angústia, também amigos, família, vizinhos, colegas de trabalho permanecem apenas isso, mas assim como a incapacidade de compreender-se a si mesmo em termos dessa estrutura mundana dada aliena do contexto de equipamento, também aliena dos outros, da família, dos amigos
    • O mundo nada mais pode oferecer, nem tampouco o ser-aí-com dos outros
    • A angústia individualiza o ser-aí e assim o desvela como solus ipse
    • Essa alienação do mundo da própria preocupação e dos outros é um tipo de experiência retratada por autores, roteiristas e diretores da literatura e do cinema existencialistas, restando perguntar seu significado ontológico
  • Quando a existência é assim despida, resta que, com aquilo de que a angústia se angustia, a angústia desvela o ser-aí como ser-possível
    • No nível mais básico, o ser-aí é a projeção de possibilidades, e para poder projetar possibilidades o ser-aí deve estar lançado num mundo, e deve fazê-lo em meio a entes intramundanos
    • Há analogia estrutural entre o modo como se destaca o caráter mundano do equipamento em I.3 e como se destaca aqui o ser-aí como ser-possível, pois em ambos os casos uma espécie de falha ou avaria ilumina as condições de fundo em virtude das quais algo é possível, tal como quando o martelo apresenta mau funcionamento e se revela como algo com que se cravam pregos, constitutivamente definido por seu para-que (Um-zu)
    • Na angústia, o avançar numa interpretação de si mesmo apresenta mau funcionamento, não se podendo mais compreender a si mesmo em termos do mundo das preocupações cotidianas, o que destaca ser-se um autocompreendedor que se projeta sobre um mundo em que já se está lançado, estrutura ontológica do ser do ser-aí que a angústia destaca, confirmando a análise de I.1 a I.5
  • Na seção seguinte, o §41, essa estrutura é nomeada cuidado (Sorge)
    • Ontologicamente, o ser-em-direção-ao-poder-ser mais próprio significa que o ser-aí está sempre já adiante de si mesmo em seu ser
    • A palavra projeção (Entwurf) carrega fortes ressonâncias de movimento para frente, sendo projetar lançar-se adiante (pro-jetar), e na projeção o ser-aí sempre avança para possibilidades
    • Tais possibilidades projetadas pelo entendimento e nas quais se avança ao interpretar-se sempre apontam adiante, designando-se esse traço estrutural do ser do ser-aí como ser-adiante-de-si-mesmo do ser-aí
    • As possibilidades são sempre possibilidades lançadas, sempre possíveis modos de avançar num mundo determinado, de modo que o ser-adiante-de-si-mesmo significa, apreendido mais plenamente, adiante-de-si-mesmo-já-sendo-em-um-mundo, estando-se sempre já lançados num mundo
    • Os para-o-bem-dos-quais (Worumwillen), as possibilidades em termos das quais se interpreta a si mesmo ao conduzir a vida que se conduz, estão inextricavelmente ligados à totalidade referencial de significância, isto é, aos papéis que constituem o utensílio como o que ele é, de modo que avançar numa autointerpretação no mundo a que se está entregue implica também ocupar-se dos entes intramundanos
    • O adiante-de-si-mesmo-já-sendo-em-um-mundo (Sich-vorweg-schon-sein-in-(einer-Welt)) inclui essencialmente a decadência e o ser-em-meio-a aquilo que está à mão intramundanamente de que se ocupa
    • A totalidade formal-existencial do todo estrutural ontológico do ser-aí deve ser apreendida na seguinte estrutura, o ser do ser-aí significa adiante-de-si-mesmo-sendo-já-em-o-mundo como ser-em-meio-a entes que se encontram intramundanamente, ser que preenche a significação do termo cuidado, usado de modo puramente ontológico-existencial
  • O ser-adiante-de-si-mesmo é existencialidade, o ser-já-em-um-mundo é facticidade, o ser-em-meio-a entes intramundanos é decadência, sendo o cuidado a estrutura unificada de existência, facticidade e decadência
  • A angústia desvela esse todo estrutural precisamente ao romper o vínculo crítico entre nós e nosso mundo, não se podendo mais compreender a si mesmo em termos do mundo em que se vive, tornando-se assim inteiramente patente ser-se um autocompreendedor
    • Aquilo de que a angústia se angustia se revela como aquilo diante do que ela se angustia, a saber, o ser-em-o-mundo
    • Todas as disposições afetivas têm um diante-do-que e um de-que, mas no caso da angústia ambos coincidem, sendo ambos o próprio ser do ser-aí, o ser-em-o-mundo
    • Aqui o desvelamento e o desvelado são existencialmente o mesmo, de tal modo que neste último o mundo foi desvelado como mundo, e o ser-em foi desvelado como um poder-ser individualizado, puro e lançado, tornando patente que, com o fenômeno da angústia, uma disposição distintiva se tornou tema de interpretação
  • A angústia desvela o ser-aí puramente como o que ele é, a saber, ser-em-o-mundo lançado, não sendo o que o ser-aí puramente é algum self verdadeiro e soterrado, não se tratando de um personalismo romântico segundo o qual o mundo público encobriria um self interior que precisaria se expressar para se estar em casa consigo mesmo, desvelando a angústia o ser do ser-aí, não quem em particular o ser-aí deveria ser
  • A essa altura, cabe perguntar como é essa experiência de angústia, devendo a resposta ser que qualquer disposição afetiva que possua os traços essenciais capazes de desvelar o cuidado como um todo serve a esse papel
    • A depressão e a ansiedade, no sentido cotidiano da palavra, podem ter esses traços, assim como experiências de absurdo, destacando o grito de Ivan Karamázov de que o mundo se sustenta sobre absurdos que o mundo deveria fazer sentido, sendo o mundo o palco em que se dá sentido a si mesmo, sendo o absurdo também preocupação central de Kafka e Camus
    • Em Conceitos Fundamentais da Metafísica, o profundo tédio é oferecido como igualmente capaz de desvelar o cuidado como o ser do ser-aí, ainda que não exatamente nesses termos, podendo assim o absurdo, a depressão e o profundo tédio revelar todos o cuidado como a unidade estrutural que ele é
    • A angústia não é uma disposição afetiva específica, mas antes um modo de estar disposto afetivamente, o que poderia explicar uma estranheza terminológica do §40, ao referir-se à angústia como disposição básica (Grundbefindlichkeit), talvez mais naturalmente um modo básico de estar disposto, sendo o absurdo, entendido como atmosfera situacional, a depressão e o tédio disposições afetivas, assim como o que se chama ansiedade na fala cotidiana, podendo todas compartilhar potencialmente, em casos individuais mas talvez não em todos, um mesmo modo de ser disposto, o que motivaria o uso do termo disposição onde se esperaria o termo disposição afetiva (Stimmung), nomeando assim angústia um modo de disposição compartilhado por uma gama de disposições afetivas
  • Um tema importante do §40 ainda não abordado é que a angústia desvela não simplesmente que o ser-aí é ser-possível, mas além disso que o ser-aí é livre para (propensio in) a autenticidade de seu ser, e para essa autenticidade como possibilidade que sempre já é
    • A maior parte das discussões sobre a angústia em Ser e Tempo se concentra nesse traço, segundo o qual a angústia de algum modo rompe a decadência, rompe o falatório, a curiosidade e a ambiguidade, e desvela a possibilidade de viver autenticamente, tema central e importante do §40 cujo alcance só poderá ser conhecido depois de se ter compreendido a autenticidade, compreensão que exige percorrer a primeira metade da Divisão II
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